Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Extraconjugalidades.


Como é do conhecimento comum, e fazendo valer o titulo de um filme celebre, "O Amor Acontece". Acontece mesmo nas situações mais inusitadas. Conheço uma pessoa que é uma grande recolectora de memórias futuras, vulgo fotografias. Ela fica com a espinha torta de carregar todo um manancial de equipamentos fotográficos, e depois fotografa tudo aquilo que mexe e também tudo o que não mexe. Fotografa também pessoas que são alentejanas, que como bem sabemos, são pessoas que se mexem assim assim. 
Teresa é uma mulher já feita e muito amante de fotografias. E quem tiver confiança com ela e se dispuser a ver todos os seus milhões de películas, observará que na sua grande maioria, o que as fotografias têm, são homens que para ela continuam a ser verdadeiros desconhecidos. (Terá ela esperança de os vir a conhecer um dia?) Eu que sou amiga dela pergunto-lhe o porquê. Ela invariavelmente responde-me que eu sou analfabeta visual, pois não consigo ver a grande arte que está patente nos seus trabalhos fotográficos. Mas existem lá homens, muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Eu tenho para mim, que o impulso que a leva a eternizar o momento, se prende com a ocorrência de uma atracção fulminante mas momentânea. Mas eu confesso, lá existem exemplares muito interessantes. Belíssimas caras em corpos bem torneados.
Recordo por exemplo a fotografia de um senhor que ia num Cruzeiro no Rio Nilo. O senhor ia numa embarcação no sentido contrário à embarcação onde seguia a Teresa. As embarcações passaram muito juntas uma da outra o que fez com que os olhos dos dois, se tenham cruzado, entendido e gostado do que viram. Acredito que os seus corações bateram a compasso apesar de estarem fisicamente afastados. O senhor terá uns cinquenta e tal anos. Teresa ainda hoje tem muito prazer em mostrar essa fotografia. O senhor era algo rechonchudo. Envergava unicamente umas cuecas. Tinha um bigode bem farfalhudo. De resto estava completamente depilado. (Bem quanto a isso Teresa não pode ter a certeza, pois o senhor sempre levava umas cuecas, não é?)
O seu corpo parecia o de um grande golfinho. Tinha uma barriguinha que atestava a sua feliz situação emocional. A sua pele estava vermelha devido à muita exposição solar. Conforme vislumbrou Teresa, o homem (e para a ver melhor), colocou a mão à altura da testa, tipo pala. Teresa teve oportunidade de ver que o homem tinha uns belíssimos olhos castanhos enfiados numas muito garbosas e também muito farfalhudas sobrancelhas. Ainda hoje quando Teresa olha para a fotografia, recorda aquele belo momento por ela vivido. Um momento mágico, irrepetível e perfeito. Um momento em que duas pessoas se olharam pela primeira vez e em que se amaram muito. Mas momentaneamente. Afinal e prefaseando Vinícios de Moraes: "Que o amor seja infinito enquanto dure!" E aquele durou breves instantes. O senhor rechonchudo ainda mostrou interesse em saltar para o barco onde ia Teresa, mas não o fez, pois teve medo de cair para o rio.
Teresa não tem culpa, mas é uma sedutora. É-lhe inato. Como método de engate ela "prega" na sua cara um sorriso enigmático. Depois começa a olhar pelo canto do olho. A seguir pestaneja de sete em sete segundos. Este é um método de sedução usado e concertado com o método que havia sido usado pela Mata-Hari. Mas Teresa é muito mais eficiente que a espia do passado. Teresa não necessita de fazer danças eróticas nem Streaptease. Os homens só com o método acima descrito, caiem-lhe aos pés. Tipo tordos.
Noutra vez e numa viagem a uma ilha do Caribe, Teresa catrapiscou um cozinheiro. Este profissional era uma réplica perfeita do Artur Albarran, no tempo do anúncio à pasta dentifríca. O cozinheiro, já seduzido pela Teresa tenta agarrá-la ali mesmo. Contudo Teresa barrica-se e escuda-se no corpo de um seu amigo militar, que na altura a acompanhava. O cozinheiro teve assim e ali um grande desgosto. Em desespero, o homem queimou as pestanas no fogão e foi para o luar cantar ao Comandante Che Guevara.
Mas a sedução no barco do Nilo não foi só conseguida com o exemplar gorducho que seguia numa outra embarcação. Teresa conseguiu também seduzir um barman egípcio. O rapaz tinha os seus trinta e picos. Tinha um número tatuado na mão que é muito visível na fotografia. Usado o método anteriormente aqui descrito, o barman começa a olhar "bovinamente" para Teresa. A Teresa ao deparar com o sucesso conseguido, riu, riu e riu. Como quem se está a dar conta de que... começa a estar interessada... por outrém. A minha amiga Teresa, pediu-me assim para lhe tirar uma fotografia a ela e ao tal rapaz. Ficaram assim lado a lado, a minha amiga "Mata-Hari"e o recém seduzido egípcio. E depois os olhares trocados prosseguem. É o elevamento total, é a magia. O ruborizar da face... (Bem no caso dele isso não era fácil de verificar, pois ele era muito escuro). Teresa não sabe mais o que havia de fazer. Mas a história não acaba aqui!
Após o jantar temático, em que andavam todos vestidos com trajes típicos e à roda, dançando com uma garrafa, Teresa começou com arrepios e suores frios. Tinha também o coração a mil. No fim decidiu ir para o quarto descansar. Ela partilhava na altura o quarto comigo. Eu acompanhei-a por solidariedade. Já deitadinha na cama, e com os pés em cima de três almofadas, ouviu, ou melhor, ouvimos o telefone a tocar. Teresa atendeu. Era o seu apaixonado egípcio que exigia encontrar-se com ela na cobertura da embarcação, para se conhecerem melhor. Teresa teve novo embate. Estava muito emocionada mas temerosa. Sem saber mais o que fazer, Teresa desliga o telefone abruptamente. Mas o telefone insistiu em tocar mais vezes. O egípcio não era de desistir. Teresa começou a fazer-se de dama, apanhada desprevenida e pediu-me que eu atendesse o telefone. Eu que não tinha nada a ver com aquela história, acedi ao seu pedido com alguma relutância, não é? Mas como sou amiga dela...
É claro que do outro lado da linha continuava o... egípcio, como não podia deixar de ser. No início, o rapaz pensou que estava a falar com Teresa e não foi de modas, insistiu no tal encontro em cima do barco... dentro de um bote de borracha que por lá estava. Eu ainda lhe disse que eu não era a Teresa. Não era portanto a sua apaixonada da noite. Mas o egípcio não quis saber disso para nada. O que ele queria era encontrar-se... com Teresa. Eu e em simultâneo, fui traduzindo para a Teresa os desejos eróticos do rapaz: Os dois, em cima do tal bote de borracha... A beberem champanhe sem alcóol (devido à proibição religiosa), e depois passearem-se todos nus junto à piscina. Envolverem-se em amassos e beijinhos dentro de água. Tirarem as medidas um ao outro... Enfim a imaginação foi o limite. Teresa ouviu tudo aquilo e abanou vigorosamente os braços e a cabeça dizendo que não. Não estava interessada naquele encontro. Não estava assim interessada naquele tão generoso convite. E eu, não sabia mais o que responder ao homem. A Teresa também não. Não queria sequer atender o telefone. No fim e em desespero de causa eu lembrei-me de uma dramática e incontestada argumentação e disse ao determinado homem: "But she is married!" Mas nem assim resultou, já que o cavalheiro me respondeu imediatamente que: "I don´t see what is the problem!" 
Em jeito de conclusão só me resta aqui dizer: Mas qual "Primavera Árabe" qual carapuça. Aquele rapaz, e já há alguns anos atrás, já se encontrava... No pico do Verão.
Sugestão de leitura para hoje: "Vai aonde te leva o coração" (Nem que seja para cima de um barco), de Susanna Tamaro.
Divirtamsemazé e votos de um Muito Bom Ano de 2012. Vamos contrariar tudo aquilo que nos é tão dramaticamente prognosticado para o ano que há-de vir.


sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma linda história de Natal.


Carolina Maria tinha 86 anos e muita genica. Fazia questão de andar com sapatos de salto alto pelas ruas empedradas na nossa capital. De vez em quando dizia-se muito triste e inconsolável. Ela achava que padecia de uma gravíssima doença, que lhe provocava uma vontade incompreensível de cair para o chão (tinha muito de vezes a tempos, umas tonturas). Mas por mais do que uma vez "ofereceu porrada" àquele que, havia tido a ousadia de sugerir que as tonturas poderiam ser devidas ao... seu uso constante de saltos altos.
Uma vez e de rompante, a Carolina zangou-se com os seus quatro filhos. E para os castigar logo lhes disse que não contassem com a presença dela na ceia de Natal. E como estava provado que para eles, ela era um peso (conclusão germinada unicamente na sua cabecita de octogenária), ela iria passar toda a quadra natalícia, junto dos seus colegas de geração e de crescimento, melhor dizendo, iria passar o Natal a um Lar da Terceira Idade. O lar escolhido pela anciã voluntariosa, fora justamente o lar, onde se havia finado o seu Falecido. 
Depois de tomada esta decisão radical, Carolina falou dela a outros membros da família. Isaura que era a sua irmã caçula de 83 anos, ficou muito solidária com a decisão da irmã e... sem qualquer hesitação ela resolveu seguir os propósitos da mana para a passagem da quadra natalícia. (Já eram duas).
Porém Isaura era mãe de Catarina, filha que lhe era muito útil e dedicada. Catarina quando soube que a mamã queria ir passar o Natal ao Lar de Idosos e não teria a sua companhia na consoada, resolveu apelar ao seu apaixonado marido, dizendo-lhe inclusivamente que era sua intenção acompanhar também ela, a mamã e a titi. (E já eram três).
Alípio o garboso marido de Catarina era uma oficial da marinha. Era um homem abnegado e habituado a sacrifícios, quando necessário. Tinha só uma palavra. Mas estava absolutamente indisponível para abdicar da companhia no Natal, da sua queridíssima Catarina e dos seus dois filhos gémeos de 27 anos. Os filhos chamava-se Pedro e Paulo e ainda não haviam saído da casa paterna. Alípio pensou, pensou e chegou a uma decisão. Iria mover todos os seus esforços e influências, no sentido de conseguir três quartos no tal lar, na noite de Natal. O primeiro quarto seria ocupado pelas manas octogenárias. O segundo seria para ele e para a sua doce e extremosa esposa Catarina. O terceiro seria ocupado pelos seus dois filhos. Alípio já adivinhava a alegria que estes dois últimos sentiriam, mal soubessem da decisão paterna. Bem, mas sempre poderia por lá haver uma velhinha rica e ainda jeitosa. (Assim já eram seis!)
Já tudo orientado e conseguido, é comunicada à família o local onde o Natal seria passado, sempre em família, mas num Lar de Idosos. Mas Carolina Maria, a senhora que havia começado aquilo tudo descobre que afinal, não poderia dar um tão grande desgosto aos seus quatro filhos e, decide que afinal ela não irá para o tal  Lar de Idosos no dia 24 de Dezembro. (Agora são só cinco, pois quem começara tudo deu a nega!)
Alípio fica assim estarrecido com a última decisão da tia, que o ultrapassou por completo. Tal situação inusitada, põe à prova toda a sua boa vontade e o seu bom coração. Ele que amava desesperadamente a sua querida esposa e os seus dois dedicados e presentes filhos. Também "ia à bola" com a sogra, dando-lhe de vez em quando um beijinho na testa, e rezando com ela na Quaresma um terço ou outro. Mas, palavra de militar não volta atrás. E uma coisa é certa, era imperioso para aquela família passar o Natal em conjunto. Só que naquele ano seria passado numa Casa de Repouso.
Pelo Lar, foram advertidos de que não poderiam levar com eles quaisquer iguaria natalícia, pois tal poderia ser perigoso para a saúde dos residentes. Os cinco entraram na instituição por volta das 17:30 h. indo logo colocar as malinhas nos respectivos quartos. A ceia começou às 20:00 h. e foi composta por: uma sopa de legumes (sem sal), bacalhau com batatas e couve portuguesa (tudo sem sal e sem ovo por causa do colesterol) e como sobremesa uma maça assada, das reinetas adoçada com adoçante. Depois beberam todos um chá de carqueja. 
A troca de prendas começou às 21:30. Foi bonito de ver. Trocaram-se ali e em abundância: arrastadeiras, copos para colocar as próteses dentárias, meias para o frio, andarilhos e cornetas acústicas.  Mas a festa teve que terminar pelas 22:45 h. pois às 23:00 já tinham que estar todos recolhidos nos seus quartos.
A alvorada foi dada às 8:00 da manhã, com a acção de uma muito competente funcionária da casa, que agitava vigorosamente um guizo e de apito na boca. Todos, mas todos tinham assim que se levantar. O pequeno-almoço foi composto por: pão com manteiga (magra e sem sal) e café com leite (magro). Tiveram depois direito a uma pêra rocha e quem quis, pode comer um queque. Mas ainda havia de sobra, chá de carqueja.
Depois foi a vez de se fazerem uns exercícios físicos. Os ocupantes da casa estavam sentados e era-lhe pedido que elevassem os braços à altura dos ombros e mexessem depois todos os dedinhos. Avaliava-se assim o estado das articulações. Depois foi a vez do pescoço. Virar para a direita, depois para a esquerda, depois para a direita... Numa alusão perfeita à alternância politica, dos que nos têm (des)governado nos últimos anos.
Depois e pelas 11:00 foi a vez de assistirem a uma actuação brilhante, do grupo coral dos velhinhos do Lar Mais Próximo. Todos em trajos de gala tentando fazer soar vibrantes as suas já cansaditas vozes.
Pelas 13:00 h. vem o Almoço de Natal que foi composto por: Canja de Galinha (sem sal), um pratinho de Pescada Cozida com Grelos (mas sem sal) e como sobremesa um iogurte caseiro. 
Aquela solidária família saiu do Lar pelas 15:00. Teve assim a sua ordem de soltura. E os cinco foram passar o resto do Natal para casa.
Mas poderá muito bem acontecer que no futuro a Carolina Maria, a tal dos saltos altos, se zangue outra vez com os filhos e mostre interesse e ir passar o Natal... numa Penitenciaria. Nesse caso, juro-vos meus amigos, se por cá ainda andar, terei todo o gosto em lhes contar mais uma história de similar calibre.
Sugestão de leitura para hoje: "Um Conto de Natal" de Charles Dickens.
Divirtamsemazé e BOM NATAL. 


sábado, 17 de dezembro de 2011

Números [de] primos.


Umberto Eco tem uma teoria muito importante quando afirma que as bibliotecas por si só são locais de sedução. Pois, e isto numa leitura inteiramente minha  (para o mal ou para o bem), para mim quem lê livros é um ser necessariamente sexy. Mas as viagens meus amigos, as viagens também são por si só muito propícias à ocorrência desses devaneios. A pessoa vai mais tranquila, mais liberta de preconceitos e de outras castrações diversas e... pimba! O amor pode ali estar ao virar da esquina.
Sei de gente que se apaixonou em viagens, outros que se desapaixonaram por terem tido visões melhores (lol). Sei de outros que continuaram uma relação que se quis intensa mas em cenários diferentes. Mas nem sempre estas situações correm pelo... melhor. E também nem tudo é carnal e pecaminosos (lol 3x)
O casal Garcia estava junto já há quarenta e tal anos. Idalina Garcia era uma sessentona bem enxuta e interessante. De pele muito clara, bem maquilhada e de sorriso aberto, ela levava a vida como queria. Naquela manhã ela apresentou-se no aeroporto com o seu marido César. Este ficaria em terras lusas, mas a sua mulher ia viajar para um país, situado bem lá no Extremo do Oriente. O marido estava manifestamente preocupado com o facto da mulher ir viajar sozinha pela primeira vez. E ainda mais devido ao facto de ir sem ele, para um país tão distante.
Com o decorrer da conversa entre o casal, outras pessoas que também elas iam para o mesmo país longínquo, ao verem a aflição do senhor, logo trataram de o sossegar. Disseram-lhe que não se preocupasse,  pois iam todos juntos. Olhariam assim uns pelos outros, pelo que não era espectável que acontecessem surpresas desagradáveis que pudessem pôr em perigo, a segurança e o bem estar da simpática Idalina. César ficou visivelmente mais tranquilo e, uma vez que a mulher já se encontrava bem acompanhada, deu-lhe um beijinho na testa e foi-se embora  (presumivelmente para o ninho de amor do casal).
Idalina a mui sorridente senhora, ficou ali à conversa com as suas mais recentes amigas. Mas, passados poucos minutos, surge um simpático senhor já com os seus setenta anos. E ocorre ali um verdadeiro milagre. Idalina fica radiante. Olha uma e outra vez para o recém chegado, abre muito os braços e exclama de felicidade: "Então Custódio, também vem viajar connosco? Mas que grande alegria!!!" Ao que Custódio responde: "Pois vou Idalina, nem a propósito. Se tivéssemos combinado, as coisas não tinham dado tão certas." E, Idalina apresenta o simpático Custódio às outras pessoas como sendo... o seu primo.
A partir dali, os primos jamais se largaram e deixaram de falar. Falaram tanto tanto, que até incomodaram espíritos mais solitários e silenciosos. Estavam assim muitíssimo felizes.
Durante toda a viagem não acompanharam o resto da comitiva, alegando que queriam ver todas as cidades "a fundo". Verificara-se que eles... tinham outros motivos de interesse. Só acompanhavam o restante grupo, quando o grupo se mudava de uma cidade para a outra.
É imperioso para mim ressaltar aqui a importância máxima que tem a família nas nossas vidas. Veja-se a importância que teve para Idalina, o facto de ter encontrado um primo quando ela menos esperava. Devemos de estimar muito os nossos primos. A propósito disso, veja-se o grau de generosidade patente por parte dos homens quando afirmam: "Quanto mais prima, mais se lhe arrima". Mas o que quererá dizer "arrimar"? Terá alguma coisa a ver com versejar? Se calhar este ditado popular tem as suas reminiscências na Época Trovadoresca. Vai na volta era usada pelos trovadores que eram mais ligados... às suas  famílias. Mas aguardem só um momento, pois vamos todos ficar sem dúvidas. Eu vou ver o significado desta palavra no dicionário.
Ora cá está. Arrimar: pôr, dispor em rima (vêm! Eu tinha razão. Já são muitos anos a virar frangos. Mas continua); encostar, amparar (oh! Que lindo! Tanto carinho, tanto sentimento!); arrumar (também dá jeito); bater... (mas o que isto? Isso não, nunca! Nem com uma flor. Já viram o que era, levar com um girassol!). Bem avaliando a coisa e tirando definitivamente desta história, a palavra "bater" ao seu significado, a palavra "arrimar" até é uma palavra "quiduxa", não é?
Mas a nossa história de hoje ainda não acabou. Quem ia também naquela viagem era a D. Adosinda e a sua amiga, a D. Elia. Estas mulheres de setenta anos eram viúvas muito distintas e sentimentais. Dormiam castamente uma com a outra no mesmo quarto de hotel. Ora numa noite quis o destino, que estas senhoras ocupassem o quarto que estava de frente para o quarto que estava ocupado pela... Idalina. Tudo decorria dentro da mais perfeita normalidade. Mas eis se não quando e pela manhã, quando as viúvas já bem lavadinhas, bem vestidinhas e perfumadas abandonavam o quarto, são surpreendidas pela Idalina que saía do quarto dela acompanhada pelo... seu prestimoso primo. Estes dois vinham muito sorridentes e coradinhos. Só que ao dar de caras com as mui saudosas de outros tempos e de outras companhias, a Idalina diz assim e sem qualquer tipo de hesitação: "Muito obrigada primo Custódio, por me ter vindo ajudar... com a mala!" Bonito e muito enternecedor, não?
Acreditem pois, pessoas deprimidas e de pouca fé: Ainda existem no mundo homens muito solícitos e muito bem intencionados. Para memória futura de todos aqueles que participaram naquela excursão, fica a ocorrência natural daquele sentimento tão casto e tão puro. Sentimento este, que teve o seu desenvolvimento na coincidência que foi a viagem de dois primos (muito amigos e preocupados um com o outro), que não haviam combinado... nada.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Amor é Um Lugar Comum" de Paulo Nogueira.
DIVIRTAMSEMAZÉ e não abandonem nunca a vossa família alargada. É que esta pode vir a dar-vos muito jeito.
BOAS LEITURAS também.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Incidentes de percurso.


Parte integrante e de muita importância em todo o processo das viagens é a alimentação. E quem é que nunca ouviu comentários tipo: "Não há comida como a portuguesa!", "Em Portugal é que se come muito bem..." etc, etc.
Depois de alguns dias fora, o pessoal começa todo a desabafar, falando da "bela sopa", "do belo cafezito lusitano". A esse propósito sabemos  da opinião dos estrangeiros quanto ao nosso café. Referem-se a ele como sendo pó de café em profusão,  misturado com muito pouca água. Mas nós gostamos tanto dele assim, isso é algo absolutamente inquestionável.
De uma vez e de viagem ao Brasil, ouvi da boca de alguns portugueses, que como eu estavam lá pela primeira vez coisas como: "Então esta é que é a terra da café? Como é que nos servem uma mistela tão "mixuruca"?" Usaram esta expressão natural do Brasil para transmitirem  ares de grandes entendidos, não é?
Mas, falemos hoje um pouco dos cuidados a ter com a alimentação, quando andamos em viagem. A primeira questão que germina nas nossas mentes de pessoas cuidadosas é: "Será que as saladinhas são bem lavadinhas?", "E o gelo que refresca tanto a nossa bebidinha, será que não foi conseguido através da água do charco?", "Será que os cadáveres dos bichinhos, enterrados nesse gelo não ofereceram o seu corpinho à ciência?" Eu juro que de uma vez vi uma senhora a obrigar um cozinheiro, que cozinhava ao ar livre num jardim a deitar uma quantidade imprecisa de ovos fora. O homem tentava fazer... uma omeleta. Ora a mulher cismou que um ovo, que ele tinha colocado na frigideira, estava estragado e, o que é que se havia de fazer? A mulher foi tão determinada na sua argumentação, que o profissional atirou com a omeleta para o lixo. Ora tanto a mim como ao cozinheiro nos parecera que aquele ovo estava absolutamente igual... a todos os outros, mas...
Pois é, amigos,  todos nós temos medo, muito medo de uma coisa! Que a nossa acção fique  limitada com a ocorrência de distúrbios gástrico-intestinais.
Quando fui ao Egipto, acontecia que as baixas provocadas por tão funesto mal iam sendo graduais e progressivas. Por exemplo, ontem o senhor X. ficara indisposto no hotel. Hoje era a vez da sua mulher e da sua filha. Amanhã, adivinhava-se que seria a vez da sogra, da tia solteirona e do canário. O senhor X. entretanto havia regressado à lide, mas vinha muito amarelinho e só comia as pontas de um panado de galinha. E depois sempre e com uma voz muito sumida, lá explicava a todos, que a mulher e a filha tinham ido só de noite, umas duzentas vezes à sanita (ele só conseguira contar as primeiras setenta). Eu ouvia solidária temendo muito o dia de amanhã. É que eu também poderia ter que contribuir para as estatísticas, não é? Mas acreditem, até agora tal situação em viagens, nunca me aconteceu. (Um momento pois estou a bater três vezes no meu telefone de madeira!!!) Já estou isolada.
Há uns anos, um moço de quem eu gostava muito, justificou-se numa manhã, o facto de não ter podido sair comigo à noite. Não pudera sair pois  havia sido acometido de... distúrbios gástrico-intestinais. O meu sentimento de raiva e perante aquela confissão, deu lugar ao facto de ter achado a cena... absolutamente encantadora. Imaginá-lo toda a noite, a correr de calças na mão, sentar-se na sanita e ter o seu ténue e passageiro momento de alívio. Depois e muito a medo, reerguer-se daquele "trono" e de nádegas bem apertadinhas, dirigir-se à sala e sentar-se novamente no sofá. Não descalçaria os chinelos, porque a "contracção seguinte" poderia vir a qualquer momento. Bem, todos nós sabemos que o nosso sentido crítico e a nossa capacidade de discernimento fica dramaticamente abalada quando nos apaixonamos, não é?
Ora uma aflição algo similar a esta, teve contudo contornos bem distintos numa viagem que eu há anos fiz à Polónia. A tal viagem com os padres. As pessoas que me acompanhavam tinham todas já uma certa idade e tiveram o azar de ficar, quase na sua totalidade e ao mesmo tempo, com os problemas acima transcritos. Os que iam escapando, estavam muito preocupados com a continuidade daquela situação. Ora tudo aquilo fora vivido com muito drama e com muito horror por alguns, mas com um sentido de oportunidade desta vossa amiga que se assina e de mais uma outra jovem que na altura me acompanhava. É que nós ali apostávamos uma com a outra, dinheiro e outros favores. Eu explico: Aquela cena faz-me lembrar muito a minha querida avó Maria. Essa rija mulher que já faleceu há alguns anos era camponesa. E entre muitos, tinha um hábito diário de que não abria mão: Por volta das 17 horas, ela abria as suas queridas galinhas da capoeira. Ora eu deliciava-me a ver aquilo. Eram as galináceas  todas a sair ao mesmo tempo. Umas passavam por cima das outras. Depois divergiam nos seus percursos já que ia cada uma para seu lado, cacarejar à vontade e esgaravatar a terra procurando as minhocas mais suculentas.
Agora estava na Polónia e com pessoas, é certo. Contudo, mal se parava numa estação de serviço qualquer, todos aqueles que estavam acometidos por aquela desgraça (e eram muitos), queriam sair do autocarro ao mesmo tempo. Acho contudo que ninguém passou por cima de ninguém. Mas ao contrário das galinhas da minha avó, aquelas pessoas convergiam todas para um único destino: os sanitários. Ora o que é que eu e a minha amiga fazíamos ao olhar toda aquela cena? Pois apostávamos em quem conseguia lá chegar primeiro. Se era a D. Aida, ou se era o Sr. Joaquim? Ás vezes era muito fácil ganhar a aposta, pois quem saía do autocarro primeiro conseguia ter um grande avanço sobre os demais.
Este assunto e não sei porquê, leva-me a pensar num título e a sugerir a sua leitura. Então como sugestão de leitura para esta semana, proponho o livro "Apuros de um Pessimista em Fuga" de Mário de Carvalho.
Divirtamsemazé e BOAS LEITURAS, misturadas com muita alegria. Sei que esta receita não é fácil de conseguir nos dias de hoje mas pelo menos... tentem, não é?


Estamos sempre a aprender. Afinal o nosso mal (e a nossa necessidade), já vem de longe.
DIVIRTAMSEMAZÉ, mas reflictam por favor neste belo poema. E como ele é magnificamente interpretado. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Objecto de recordação.


Quando os viciados em viagens como eu, se iniciam nessas aventuras, acham que todos os materiais são susceptíveis de vir a fazer falta. Eu explico. Queremos trazer connosco tudo, mas tudo aquilo que possa ser capaz de nos trazer boas recordações. Era como se trouxéssemos connosco um pedaço do país visitado. Depois e com o passar do tempo, verificávamos que esses objectos ficam lá por casa a ganhar pó. Com a continuidade da sua visualização quase que já não lhe reconhemos o mérito que inicialmente lhe havíamos projectado. A propósito desse assunto, tenho uma colega de trabalho que me diz que nas viagens, ela quase que já não compra nada, pois está farta de ver as suas gavetas cheias de tralha. Eu cada vez tendo a concordar mais com ela, mas claro está, "não há regra sem excepção".
Hoje o meu pensamento vai para aqueles "bens", que são gratuitos, ou seja, foram-nos graciosamente oferecidos pela "mãe natureza". Ou então aqueles partículas de objectos, surripiados às construções humanas. Mas acontecem situações absolutamente condenáveis.
Lembro-me de, há uns anos andar no jardim da casa do Chopin, em Varsóvia, placidamente a ... apanhar bolotas. Não queridos amigos, não se tratava do meu almocinho, se bem que com a crise... até pode vir a ser a base da minha alimentação. O que eu mais temo depois é ficar com uma aparência porcina. Mas... a Miss Piggy era muito sensual e determinada. 
Ainda hoje um  familiar meu, guarda religiosamente essas bolotas, que já estão um bocado para o ressequido.
Lembro-me ainda com saudade de umas pedrinhas que apanhei em Roma, nos acessos para as Catacumbas. Essas pedrinhas ainda hoje vivem em agradável convívio com as bolotas. Existe também por lá uma pedrinha trazida de uma praia do Pacífico. 
Mas não sou só eu que tenho estas lindas ideias, claro está! Um dia um colaborador meu, jovem adulto e surfista, pediu-me que eu lhe trouxesse uma pedrinha de Machu Picchu. Já no recinto arqueológico e preparando-me para o resgate, falo com um senhor que estava a meu lado sobre a necessidade de levar a pedra. O homem abre-me muito os olhos e avisa-me que, eu não poderia retirar nenhuma pedra daquelas construções. Mas é claro que não! Pensei eu. Então aquelas pedras pesam toneladas! Bem, avaliando bem a coisa, eu também não tinha ali nenhuma grua à mão. Hoje sei que o surfista quando vai surfar, leva sempre aquela pedrinha que eu lhe trouxe. Leva-a enfiada dentro daquele fato de borracha.
Na mesma ordem de acções condenáveis, consegui umas folhinhas de oliveira, placidamente apanhadas no Monte das Oliveiras em Jerusalém. E aí eu confesso, estranhei muito aquilo. É que eu pensava que à frente de cada uma das oliveiras estava um jovem judeu, munido de uma metralhadora e disposto a abater o primeiro surripiador. Mas não. Há que ter cuidado é certo, mas consegue-se... (sempre existem aqueles raminhos na base das árvores). Depois e já em Portugal, vi o brilho presente nos olhos daqueles a quem eu ofertei as folhas. Muito religiosos na sua grande maioria. Hoje acredito que as folhinhas, permaneçam muito sossegadas em finas caixinhas, junto a imagens de santos e demais objectos de culto. E junto a elas devem-se rezar muitas orações para os mais variados motivos. Agora o motivo principal deve de ser o fim da crise.
Sei também de um senhor que trouxe do Japão uma mala cheia de garrafas vazias, pois o seu genro fazia colecção.
Mas houve algo que me marcou pela negativa, numa tentativa de resgate de "objecto de recordação". Há uns anos valentes fui à Polónia na companhia de 35 padres. Aquilo era uma espécie de Peregrinação. Havia um que se auto-intitulava de Monsenhor Qualquer Coisa. Era quem visivelmente mandava nos outros 34. Eu mesma assisti impávida ao facto de que, quando os outros padres queriam dançar, tinham que ir pedir autorização a esse tal de Monsenhor. Ora da viagem fazia parte uma visita ao Campo de Concentração de Auschwitz. A experiência vivida com a visita ao referido Campo foi marcante para todos, obviamente. A visualização de todos aqueles edifícios tão numerosos e sempre iguais. O local parece ainda hoje, ressoar todas as angústias de um passado absolutamente lamentável. Ora fora justamente ao pé da cela, onde havia estado aprisionado um padre chamado Maximiliano Maria Kolbe (hoje considerado santo), que o tal Monsenhor pediu uma navalha à assistência para (e pasme-se!), retirar para ele uma lasquinha da porta! Espantosa a lata do religioso homem!!!  Eu, não me contive e desatei a ralhar com ele. Afinal ele não era o meu chefe. E disse-lhe: "Com a distinta lata que lhe é tão natural, se eu fosse a si, levava logo a porta toda!" O homem ficou a olhar para mim, como se eu fosse a gémea da Maria Madalena antes de ser santa e quando ainda tinha aquela profissão. Mas reflectiu, reflectiu  e felizmente achou que o melhor era ficar "mais ou menos bem na fotografia". Desistiu assim do seu intento. 
Diga-se que nenhum dos outros padres, lhe passou para a mão nenhuma navalha. Ali acharia estranho, ministros de Deus, andarem armados de objectos cortantes e perfuradores (Bem desses últimos, deve de ter, cada um o seu!). Contudo eu confesso: se alguém tivesse tido a ousadia de lhe fornecer tal navalha, eu própria lha retirava da mão e era bem capaz de lhe cortar os "penduricalhos". Obviamente que não ficaria com os ditos, para recordação. Sem apelo nem agravo atiraria os mesmos ou para o caixote do lixo, ou para o forno crematório.  Acredito que tratando-se de um Padre Católico, esses "penduricalhos" não lhe deveriam de  fazer muita falta. Ou estarei enganada?
Sugestão de leitura de hoje: "A Relíquia" de Eça de Queirós.
Divirtamsemazé... E não levem nada que não seja vosso. 


Nota: Os meus favoritos, são os padres de Fevereiro e de Agosto (se bem que o de Maio também não está mesmo nada mal!). E que pena tenho eu destas "verdadeiras preciosidades" não terem ido à mesma excursão que eu fui? É que se fossem eu garanto que: quem traria as "relíquias" era eu. Bem, pelo menos tentava, não é?
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! 

sábado, 26 de novembro de 2011

Fotografando...


Que bela que é a arte de fotografar! Pensando bem, muitos de nós somos do tempo em que viajávamos munidos de velhinhas máquinas fotográficas e mais 300 rolos de 36 fotos. As saudades que temos de não termos que recarregar baterias! Só tínhamos era que abrir o pacote, colocar a pelicula devidamente na máquina e usar desta arte com parcimónia. Às vezes pessoas como eu, tinham depois da viagem um grande desgosto. É que verificávamos que tínhamos posto mal o raio do rolo. E pronto! Lá se tinham ido os registos fotográficos "para os anjinhos". Mas agora não é nada assim, é tudo muito diferente.
Agora nós vamos munidos de portentosas máquinas, com objectivas capazes de abranger o piolho bebé, que vive na cabeça do cavalheiro, que se encontra a quilómetro e meio de distância de nós. É impressionante. Eu também faço parte das pessoas que gostam de carregar no botão. Contudo por vezes fico de tal maneira estasiada com aquilo que estou a ver (com algumas paisagens e monumentos), que confesso, até me esqueço de "retratar". Mas depois há toda uma panóplia de registos de fotos, por parte de todos aqueles que me acompanham, que, nada está perdido. A dificuldade está,  é a posteriori, quando se tenta identificar aquilo tudo.
Depois existe a escolha dos cenários, assim como os critérios utilizados e a utilizar. Juro que um dia ouvi uma senhora com os seus setenta anos a gritar para a filha: "Oh Vânia, vem aqui depressa filha! Vem aqui tirar uma fotografia. Aponta para ali, é que está lá o senhor Pires a fazer xixi!" A esse propósito, tenho uma grande amiga que certo dia me mostrou uma fotografia, que faz parte do seu arquivo mais sagrado. E o que é que lá consta? Bem, vê-se  um senhor octogenário, de costas, ao pé de uma árvore. Está com a mão esquerda apoiada no tronco, enquanto que a direita segura o "regador". Aquele senhor também ele estava ali... pacatamente a urinar.
Mas existem muitos critérios, subjacentes à arte de "reportar" toda uma situação. Um dia eu viajei com uma senhora que teria 47,50 anos de idade. Ao que parecia, ela estava muito apaixonada. Sabemos que devemos de desculpar muita coisa a todo aquele que se encontra apaixonado não é? A mesma andava radiante. A dada altura ela tirou um retrato que a fez ficar ainda mais contente. Após isso, ela falou para quem estava ao pé dela (eu estava lá!), e disse assim: "Olhem, tirei mais uma fotografia ao A. Ainda não tinha uma fotografia dele, nesta posição". Curiosa eu fiquei e olhei para o A. e o que é que eu vejo? O seu "objecto de desejo" estava com a cara mais melancólica do mundo e com uns headphones dependurados nas orelhas. Algum tempo já passou sobre esta situação, pelo que naturalmente eu me questiono: Será que a apaixonada senhora conseguiu obter, mais tarde uma fotografia do seu apaixonado... a defecar? E uma fotografia tirada quando o mesmo estivesse distraidamente, a coçar a sua região púbica? E depois disso, sei lá, obter aquele grande plano do pentelho mais rebelde, ou do mais encaracoladinho...
Há aqui uma nota que desde já, tem que ficar aqui expressa: "Pentelho" não é nenhuma asneira, nem nenhum  palavrão. Quem nos esclareceu quanto a isso, foi um ex-ministro da nossa praça. É que pensando bem, não existe qualquer razão para não confiarmos nos "nossos queridos políticos", esses seres tão bondosos e sempre tão preocupados com o bem comum.
Mas continuando. Depois há as preferências de cada um de nós e nisso também não poderá haver nada a criticar, claro está. Uma amiga minha contou-me que uma vez foi à Noruega, que é como se sabe um belíssimo país cheio de Fiordes e de Glaciares. Fora justamente a visualização de um determinado glaciar, o que lhe havia chamado mais à atenção. Ela ficou como que prostrada perante aquela imensidão e beleza, ao pé daquele magnifico gelo de cor azulada, que ali permanecia por seculo seculorum. Ora quando a minha amiga se preparava para registar todo aquele cenário, e já muito emocionada, é interrompida por uma idosa e simpática senhora. Esta anciã, estava com uma máquina fotográfica e também queria registar aquele acontecimento para a posteridade. Pelo que pediu à D. para lhe tirar um retrato. Pegando-lhe na máquina, a minha amiga sugere então: "A senhora coloque-se então aí à frente, que eu farei todo o enquadramento". Mas ao ouvir aquilo, a senhora ficou com o ar mais revoltado do mundo e respondeu: "Desculpe mas eu não quero tirar nenhuma fotografia à frente deste gelo. O que eu quero mesmo é ficar aqui... sentada dentro... deste bote de borracha!" A minha amiga ainda ia para dizer que, assim não apanhava o Glaciar, mas... nada disse, pois a senhora tinha todo o direito a ter as suas próprias preferências, não é?
Quanto àquilo  que se pretende fotografar, também é algo muito pessoal, mas muito interessante e digno de nota. Eu própria certo dia, e num outro continente, assisti deliciada  à contemplação de toda uma família. No chão passava... um pacato caracol. O elemento mais velho daquele núcleo familiar dizia: "Que curioso. É muito parecido com os caracóis lá da terra. Até tem corninhos!!!" Eu mentalmente concluí: É verdade! As caracolas são iguais em todo o lado! Umas flausinas adúlteras, resumindo umas grandes meretrizes,  é o que é!
Mas à parte disto tudo, há que concluir que esta democratização total dos registos fotográficos, tem muito mais vantagens que desvantagens. Um ano destes havia regressado de uma grande viagem. E, ultrapassando a fase depressiva subsequente ao facto da viagem já ter acabado, eu encontro um grande amigo numa rua da minha cidade. Este naturalmente, ficou todo contente de me ver. Depois e muito calorosamente ele saudou-me mais ou menos assim: "Bons olhos te vejam! Com que então vinda de mais uma viagem, não é? Como é que está o tempo nas Caraíbas? Maravilhoso, não? É que estás cá com uma corzinha!!!"
Caraíbas? Pensei. Mas quais Caraíbas? Eu havia estado era na Suécia e o Sol havia estado sempre encoberto. Quanto à minha corzinha adquirida, só posso pensar que: esta só poderia ter origem nos holofotes de luz, provenientes dos inúmeros flashes das máquinas "retrateiras". Máquinas de todos aqueles danados e danadas furiosos, dos recolectores profissionais de memórias futuras.
Sugestão de leitura: "Chovem Cabelos na Fotografia" de Antonieta Preto.
Divirtamsemazé e... até p'ra semana.


sábado, 19 de novembro de 2011

Gatos.


Muita gente pode não concordar comigo, mas eu acho que os gatos são uns animais fantásticos. Eu que sou amante de felinos desde que me conheço por gente, estou convencida que os gatos têm a capacidade de ao olharem para nós, nos lerem os pensamentos e tentarem comunicar-se telepaticamente connosco. Se esta minha teoria estiver certa, poder-se-á afirmar com segurança que os bichanos estão muito mais avançados que nós.
Conheço dois na sua intimidade: o Júlio César (que é o mais velho) e o Marco António, que por definição (e por minha vontade) é sobrinho do mais idoso. Um dia destes o mais novo ficou doente, com cálculos na uretra que o fazia urinar sangue. Em consequência, foi levado ao seu doutor que após a consulta, decidiu que o mesmo teria que ser hospitalizado. O gato ficou assim fora de casa durante três dias. Quando regressou o Marco António, vinha visivelmente mais magro. Vinha com "um grande funil de plástico" enfiado na cabeça. Trazia ainda duas tiras de pelo raspado em cada braço, pois fora necessário tirar sangue para análises e receber soro. Em suma, o seu estado geral vinha necessariamente mais fragilizado.
Mas o mais velho e imperador gato, não recebeu o seu "sobrinho" nada bem. Soprava muito, ameaçava ainda mais... em resumo, já não podia ver o convalescente. Este contudo tentava comunicar através de miadelas agudas e muito arrastadas. Para mim, que infelizmente sou analfabeta funcional daquela linguagem (mas estou a tentar superar essa situação), o que o mais novo queria dizer era: que compreendêssemos a sua difícil situação, já de si tão periclitante. E que em particular o tio Júlio César, compreendesse o seu sofrimento e a necessidade da sua recuperação... A dada altura eu até parecia que ouvia: "Mas tu não vês que eu estou doente? Olha-me só para estes braços? Tu não vês que eu até estive ligado ao soro? Repara bem ó sócio? Não vês que a nossa empregada (referindo-se naturalmente a mim!) até me tem dado os antibióticos a horas certas?" 
Bem, aquela incompreensão felina durou no máximo dois dias. Hoje são os melhores amigos do mundo. Se os quero ver é juntos (e no mesmo bercinho), abraçadinhos um ao outro. Mas os meus gatos são muito machos, está bem? (lol).
Um ano destes conheci um gato (mesmo felino ok?), na Ilha de S. Miguel, Açores. Foi nas Furnas. Enquanto que os homens andavam a retirar do solo, gigantescas panelas envolvidas em panos brancos, onde se haviam cozido doses industriais de carnes e legumes, um gatito ali circulava, pisando com as suas patitas, aquele chão castanho e aquecido pelo vulcão. Ele sabia que por ali havia muito petisco, pelo que necessariamente... tentava a sua sorte.
Conheci também uma senhora gata que tinha uma rica vida! Vivia num magnifico hotel junto às Cascatas de Iguaçu, Brasil. A gatinha era siamesa. Fui informada pelos funcionários daquele hotel, que a hospedagem da sortuda se estava a acabar, pois os seus "familiares" humanos (detesto a palavra dono!) iam levá-la para a grande metrópole de São Paulo, onde aliás estavam todos a viver. Mas a gata por ali andava naquele ambiente paradisíaco, que para mim é só o mais belo local que eu já vi até ao momento.
Consegui pegar a gata ao colo. Depois pedi a uns familiares que comigo viajaram, para me tirarem uma fotografia, a mim e à bichana a fim de eternizarmos aquele feliz encontro. Conseguimos duas fotos, porque depois... ela fugiu. E por mais que quiséssemos, já não conseguimos repetir o feito. A gata já não estava para aí virada, e quando isso acontece, já não há nada a fazer porque... é o felino quem manda.
A gata seguiu o seu caminho, sem sequer olhar para trás, para mirar e se ir despedindo, daquele maravilhoso cenário, idílico e paradisíaco. Ali ao pé daquelas maravilhosas quedas de água, onde as belíssimas borboletas abundam,  e os quatis encaram toda a gente, mesmo todo aquele, que, (sabe-se lá porquê), não os quer encarar. O quati que é outro animal fantástico.
Por fim falo dos gatos egípcios. Bem esses também são muito especiais. Então não é que por mais que eu tentasse, nunca consegui que a minha objectiva os apanhasse de frente? Só os consegui apanhar de ... perfil. Estariam eles convencidos que estavam a pousar para uma desenhadora de hieróglifos? Ai ai ai: os gatos e a sua mania da superioridade!
Sugestão de leitura: "Os Gatos" de Ramalho Ortigão.
Credo Senhor! Então não é que com a loucura dos gatos me enganei no autor do livro? Auto-penitencio-me até à eternidade... O autor do livro "Gatos" é Fialho d´Almeida. Sem traumas, amigos, pois errar é humano, e... DIVIRTAMSEMAZÉ!!!  
Boas Leituras!



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Uma paixão unilateral.


No tempo das nossas avós a vida era muito mais previsível e ordeira. Tudo era combinado. A população era na sua grande maioria analfabeta, detentora de pouquíssimos bens (quem nunca ouviu falar na situação em que uma sardinha dava para dez sócios)? As pessoas não tinham muito tempo para divagações, pelo que eram pouco ligadas a questões que envolvessem sentimentos. Os filhos serviam não só para perpetuar a espécie como para garantir o rendimento familiar. Serviam ainda para ajudar os pais a terem uma velhice capaz. As pessoas começavam a trabalhar quando eram muito novas, sem estudos, nem grandes ambições... Bem depois com o passar das décadas tudo ficou diferente, não é?
Conheço alguém que conheceu da pior maneira a modernidade das relações humanas. Chama-se Clara. Clara é uma mulher feita, bem disposta, descomprometida com a vida e com maiores preocupações. Ela sabe que o mundo nem sempre é o melhor dos mundos, mas tem a convicção de que também não tem contribuído muito para que o mesmo tenha ficado pior. Clara é detentora de um sorriso franco, riso alto e contagiante. Vive feliz e convicta de que tudo no mundo é transitório pelo que não valerá mesmo nada a pena envolver-se em muitas tricas e confusões. Sabe ainda que quando menos se espera toda a nossa vida pode mudar ou mesmo acabar.
Clara detesta ficar em casa, adora os seus amigos que considera muito fiéis e confiáveis. Refere muitas vezes que até nem tem grandes razões de queixa da vida que consegue levar. Conta com uma boa saúde, pelo menos acha ela, pois sabe que quem muito procura, corre o risco de encontrar algum mal de que nem desconfiava.
Contudo houve um dia em que a vida dela levou um pequeno abanão. E foi assim: Ia Clara distraída pela vida, quando surge algo que inicialmente não lhe chamou sequer à atenção. Depois e devido a continuidade de solicitações, esse algo começou a marcar presença e a fazer com que as suas batidas cardíacas soassem de forma mais retumbante. A minha amiga ficou ainda com um sorriso mais aberto (assim como que a atirar para o aparvalhado) e uma gargalhada muito mais estridente. Sim, avaliaram bem os sintomas, a Clara estava apaixonada. Ora onde é que tu foste cair mulher!!! A vida já tinha mostrado a Clara que por vezes o amor tem trilhos muito tortuosos. Bem mas agora o mal já estava feito... diga-se que Clara estava longe de ser uma turista de primeira viagem. No passado já havia sentido tais sensações, já tinha rido e chorado (quase em simultâneo), pois como todos nós bem sabemos, a alegria e a tristeza tendem a andar de braço dado em todo este processo. Pelo menos numa fase inicial.
Clara sabia da realidade. Nestas coisas  há o perigo de se ganhar um jogo fajuto, assim como também se corre o risco de perder um verdadeiro Jackpot. A pessoa incauta e com medo (porque é de medo que se fala quando a pessoa desconhece a natureza dos sentimentos do outro), ao avançar pode magoar-se seriamente. E isto sem que a outra pessoa tenha necessariamente responsabilidade em todo aquele processo. Mas e como o rapaz se "fazia" à Clara, ela arriscou, declarou e aparentemente perdeu. Mas será que perdeu mesmo? Não haverá jogo em que o melhor que acontece é mesmo perder, pois caso contrário pode-se ganhar um "acidente fatal"?
Clara disso nada soube, pois não obteve qualquer resposta, nem "sim", nem "não" e nem mesmo o velho "nim". A Clara sabe que a "não resposta" é já de si uma resposta. Estarrecida ela ficou, mas depois pensou melhor. Ela já sabe que o caminho é mesmo em frente. Esta situação é infelizmente muito habitual e naturalmente associada à imagem de um "coito interrompido". Em casos tais a solução é mesmo levantar-se, apanhar os despojos de um coração partido, remendar o que se conseguir e depois o tempo encarregar-se-á do resto. Inicialmente a pessoa atingida por tal fatalidade vai periclitante e é natural que caia ainda algumas vezes, mas Clara, mulher feita que é, sabe que a vida é mesmo assim. Passado algum tempo, recuperará a vontade de rir, de gargalhar mesmo e de amar novamente. Desta vez desejo que a Clara encontre alguém que valha a pena ou pelo menos alguém que consiga dizer alguma coisa.
Toda esta história faz-me lembrar a Pesca Desportiva. Eu nunca entendi muito bem todo aquele desporto. O peixe lá em baixo, vai muito despreocupado a nadar. De repente encontra um isco e pensa: "Olha que belo petisco para o meu Pequeno-Almoço". Já muito confiante, ele aproxima-se e abocanha o quinhão e... é puxado dramaticamente para o lado de fora da água. O peixe fica confundido, não compreende muito bem a situação que está claramente a protagonizar. Depois fica literalmente nas mãos do pescador (o peixe  debate-se com a desgraça que há-se ser, ter um anzol enfiado pela goela abaixo). O pescador que era o ser letárgico que já ali estava havia tantas horas a olhar para a água, pega no peixe com carinho e liberta-o do "ferrão". Depois e ainda com mais carinho, pesa o bicho. Naquele momento dá-se um insinuante contacto visual entre o homem e o peixe e entre o peixe e o homem. Gera-se ali um clique. Depois o peso do peixe é contabilizado e sem que nada o faça prever, o animal  é atirado borda fora, sem apelo nem agravo.
Tenho para mim que nos lagos, lagoas, rios e mares deste mundinho, existem enormes associações de peixes deprimidos e carentes que em certo dia foram pescados e não entenderam muito bem porquê. Conheceram um homem que os libertou de um sofrimento (eles naturalmente desconhecem que fora o mesmo homem quem começara tudo). O pescador olhou para eles,  piscou-lhes o olho e ficou todo contente. Preocupou-se ainda com o estado físico do bicho, pois quis saber quanto o mesmo pesava e... depois chutou para canto, logo aquele ser que havia sido tão desejado.
Acredito que debaixo de água existam mesmo enormes cardumes de peixes, agrupados em associações de auto-ajuda. Até parece que já os estou a ver. Todos numa grande roda, de barbatanas dadas uns aos outros, emitindo em unissona voz uma reza tipo: "Cuidado, tenham todos muito cuidado na procura do desjejum. Procurem ser sempre muito selectivos." No meio da roda estarão outros peixes, mas inválidos, alguns de canadianas, também a rezar. Outros não emitirão um único som, pois têm ainda a boca... rebentada pelo anzol.
Sugestão de leitura para hoje: "O Amor é Fodido" de Miguel Esteves Cardoso.
Divirtamsemazé e tentem fazer poucos estragos.


sábado, 5 de novembro de 2011

Livros excursionistas.


Quem tem mais de trinta e cinco anos lembra naturalmente as velhinhas carrinhas da Calouste Gulbenkian. Estas traziam os livros às terras desapossadas de Biblioteca Pública. Eu lembro-me disso muito bem. Todo aquele processo era mágico, havia a espera, depois o fascínio de escolher novos livros entregando os que já haviam cumprido a sua função. Na requisição havia o preenchimento de um pequeno impresso que atestaria a morada temporária daqueles "objectos encantados". Sempre achei todo aquele processo fantástico, nós a escolhermos os livros... bem, há quem teorize que são os livros que nos escolhem a nós.
Por um determinado tempo aqueles livros acompanhavam a nossa existência, testemunhavam de alguma maneira as nossas vivências. Eu mesma pensava que por algum tempo, eu também seria a "dona" daqueles "seres comunicantes", os mesmos que já haviam "pertencido" a inúmeras pessoas, que os haviam lido, se deliciado e depois haviam cumprido a obrigação de os entregar à procedência. Este gosto acompanhou-me mas... nem sempre eu achei muita graça à leitura em si. Acredito que a leitura (e o gosto pela mesma) deriva de um  processo muito complexo.
Quando eu era muito nova (seis, sete, oito anos), eu era uma rapariga ladina que ia com toda a desenvoltura de mão dada com o meu pai buscar livros às carrinhas da Gulbenkian. O meu pai pertencia ao operariado, como habilitações literárias tem somente a instrução primária. Contudo havia algo que o distinguia e bem de grande parte da população pertencente ao seu extracto social/económico, o meu pai tinha (e felizmente ainda tem) um enorme amor pelos livros. Sempre foi assim desde criança, o seu pai também já havia sido um bom leitor. O meu pai é só o maior leitor compulsivo que eu conheço. Ele lê tudo e quando eu falo tudo é tudo mesmo, inclusivé este meu singelo blogue, pois tem ligação à Internet vai para dez anos.
Escusado será dizer, que como pai desta filha única e ladina, desde sempre ele tentou que eu tivesse uma paixão pelos livros idêntica à sua, mas o processo não foi fácil. Para mim eram bem mais atractivas as actividades como as brincadeiras na rua, na companhia de enormes bandos de crianças pequenas, gozando da maior liberdade que se possa congeminar. 
Mas o pai queria que eu lesse e eu fazia-lhe a vontade e como ficava contente de me ver de livro na mão! É claro que eu gostava de ir buscar livros à carrinha, só que os mesmos tinham que ter um simples requisito: tinham que ter o menor número possível de letras e consequentemente o menor número possível de palavras. Assim os cinco livros que era possível requisitar e por mim eram escolhidos, eram lidos nos dois dias seguintes ao acto da requisição. Depois eram ordenados na estante e no lugar próprio para eles e até ao regresso da carrinha a minha intenção era  não falar mais sobre aquele assunto. Contudo o meu pai enquanto lia os seus, perguntava-me a minha opinião sobre os livros que eu havia trazido e, fazia mais ainda aquele magano, depois de ler os seus livros de adulto, ia ler os livros que eu havia requisitado, apontando depois o seu titulo e autor num velhíssimo porém precioso caderninho de anotações de leituras.
Bem mas isso não me preocupava nada é certo, e a vida lá ia decorrendo na maior e mais alegre naturalidade. E os meses foram-se passando. Mas certo dia algo acabou com a placidez e facilidade das minhas leituras descomprometidas, pois surgiu um personagem que mudaria para sempre o curso daquelas minhas secretas intenções. E quem era o ladino? O técnico/condutor da Biblioteca Itinerante. Este já andava desconfiado da minha "preguicite aguda" no campo das leituras e num certo dia, num assombro repentino chegou ao pé de mim e disse: "Minha menina, a partir de agora acabaram-se estas leituras para si. Daqui para a frente, a minha amiga vai escolher destes livros daqui" (apontando para outra prateleira que continha livros dedicados à faixa etária que inclui a fase da adolescência). E mais disse aquele "mui prestável" senhor: "E a primeira sugestão de leitura quem lha faz sou eu!" Apresentando-me de imediato o livro: A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe. Fiquei sem pinga de sangue, saltou-me tudo em cima e por mais que tentasse, não arranjava desculpa capaz para recusar tão "prodigiosa dádiva". A partir dali a coisa "piava muito mais fino". Agora já não levava comigo a historieta dos patinhos malandrinhos, do cãozinho carinhoso, dos palhaços trapalhões nem das varinhas de condão. Agora a minha narrativa era bem diferente. A história do Tomás é sobejamente conhecida. Trata-se do relato de algo tão obscuro e tenebroso como é a condenação perpéctua do ser humano à condição de escravo, só porque nasceu com uma coloração de pele mais para o carregado.
Eu peguei no livro, que depois li e senti-me atrapalhada, afinal a vida de muita gente era bem mais complicada que aquela que eu havia tido a sorte de ter, rodeada de cuidados e carinhos de uns óptimos e muito competentes pais. Afinal havia gente que nada tinha. Havia gente que pagava com a própria vida por pensar de maneira diferente. Eu antes daquela leitura, ainda não havia tido grande oportunidade de pensar nessas coisas, pois como a generalidade das crianças e adolescentes daquele tempo eu preferia mesmo era correr, saltar, fazer maroteiras e  continuar a ser criança (de preferência para todo o sempre). Aquele senhor contudo teve uma particularidade muito ímpar na minha vida, já que com aquela simples e oportuna sugestão, conseguiu acordar em mim uma consciência que permanecia inerte.
As minhas leituras continuaram e aqui vou ser franca, eu ainda continuei a  aproveitar o momento em que o técnico estava mais para o distraído, para juntar alguns  livros "menos trabalhosos" à minha lista de requisições, mas também fui fazendo outras escolhas. Depois há uma altura em que o  processo é irreversível, e em que se diz não ao facilitismo e se empreende por algo mais complexo.
Hoje leio muito, não tanto como o meu pai esse vence-me literalmente. É com muito prazer que recordo aqueles tempos e é ainda com muito mais prazer que converso sobre leituras com o meu progenitor. Oxalá o consiga fazer por muitos anos.
Sugestão de leitura: "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera.
Boas e gratificantes vivências (apesar da crise) e... divirtamsemazé.




quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ler em voz alta.


Quem gosta de ler e já tem uma certa idade (lol), recorda com alguma nostalgia os espaços que no passado eram consagrados à presença e empréstimo de livros (as queridas bibliotecas antigas!!!). Eu recordo-as bem! Esses espaços eram sacramentais, irremediavelmente enegrecidos, com luzes directas que insidiam sobre o suporte que continha a informação.
Relembro com saudade, o cheiro a papel misturado com o cheiro a madeira, o ranger do soalho e a doce técnica de biblioteca, quase sempre de óculos à ponta do nariz e de dedo em riste a mandar-nos calar. Ela que quase ficava sem saliva sempre a repetir: "Shiiiuuu... façam pouco barulho!" O livro era de acesso dificultado, pelo que o leitor fazia o pedido à técnica, que depois munida de um porta-chaves gigantesco ia buscar o objecto tão desejado, este estava necessariamente fechado na estante mais inacessível. Depois disso acontecia um momento de pura magia, o objecto do nosso desejo era-nos depositado nas mãos.
Quando eu era nova, mas mais velha que aquando o post anterior (lol), contava para aí uns 14, 15 anos tinha um grande amigo, o T. que era da mesma idade que eu, (tinha e tenho, pois graças a Deus ele ainda faz o favor de ser muito meu amigo). Os dois eramos dotados de uma rebeldia própria da idade, tínhamos um riso muito fácil e uma disponibilidade total para a felicidade. Tanto eu como o meu amigo adorávamos ler e liamos tudo. Não eramos contudo os leitores mais convencionais do mundo, isso é verdade. 
A ida à Biblioteca Pública fazia parte dos nossos rituais diários. Conheciamos toda a gente que ali trabalhava e que era na sua grande maioria muito simpática. Quando entravamos ali, entrava também a alegria e a vontade de fazer rir. Mas isso enervava um bocado aqueles senhores idosos que iam àquele espaço saber as últimas da crise com a leitura dos jornais, (sim Senhores da Troika, a crise já por aqui anda há muitos anos, é-nos muito familiar). A nossa entrada ali era bastante espaventosa. 
Quisera o destino que eu e o meu amigo nos interessasse-mos muito por um livro intitulado: "Os Tomates Enlatados" da autoria de Benjamin Peret e uma vez que gostávamos tanto desse livro, fazíamos a sua requisição até à exaustão. Esta acção repetida e concertada divertia a maioria das pessoas que ali trabalhava e que achava muita graça ao "nosso atrevimento", mas... Trabalhava lá também uma jovem técnica muito profissional mas de temperamento algo reservado. Esta não achava lá muita piada ao facto de ter que andar sempre com o(s) "Tomates" na mão. Quando ela nos via, já sabia o que a esperava. Naturalmente que fazia o seu papel e ia buscar o livro, mas ia algo revoltada. Em consequência dessa sua indignação sempre aproveitava para nos dizer: "Mas vocês não sabem ainda o livro de cor?" "É que já tiveram  tempo para isso." "Para que é que vocês só querem este livro? Se não fossem vocês este livro nunca saia daqui..." "Vocês não têm mais nada que fazer?..." e nós ali inocentemente a olhar para ela e a fazer cara de caso.
Ora este livro continha uma linguagem deveras apimentada (com umas quantas "orações" escabrosas). Adorávamos assim aquela leitura. Líamos e relíamos "aquela maravilha" em voz alta o que fazia as delicias de toda a gente que nos ouvia. Íamos preferencialmente para o Jardim Municipal  onde muitos senhores idosos, aproveitavam esta nossa iniciativa para  fazerem um intervalo ao jogo da Bisca Lambida. Depois era com muita emoção e com algumas lágrimas nos olhos, que os velhotes assistiam a mais um magnifico... momento cultural.
Belos tempos... Só que me aconteceu mais uma ironia do destino:  hoje sou a superior hierárquica da jovem técnica (agora bem menos jovem), que ficava muito revoltada connosco... Mas estou convencida que ela já não se lembra de nada. Ainda bem!
Sugestão de leitura: "A Biblioteca" de Umberto Eco.
Divirtamsemazé.


sábado, 22 de outubro de 2011

Viver com a mentira.


Quando eu era nova, muito nova (11, 12 anos), eu tinha um extenso número de amigos, inseridos numa sociedade muito bem organizada. C. era uma rapariga "bué da fixe", que a dada altura descobriu que os pais não confiavam lá muito nos bancos, já que guardavam muito dinheiro em casa. Pelo que C. achou que se retirasse dali umas notinhas não haveria problema de maior. Foi desta maneira que nós descobrimos uma excelente e activa fonte de financiamento. O dinheiro jorrava quando víamos C. a nossa banqueira de serviço.
Enquanto durou aquele curto período paradisíaco, nós vivemos muito além das nossas possibilidades, consumindo em profusão, bens de primeiríssima necessidade tais como: granizados fá, petazetas, batatas fritas, gelados, chocolates e sumos. Desconheço se algum de nós tenha assinado algum vulgar papel azul de vinte cinco linhas, confirmando os empréstimos recebidos. Desconfio que não. Os empréstimos eram assim concedidos em prole do bem comum, sem avaliação prévia sobre as nossas reais capacidades de saldar dívidas contraídas. Alguns de nós ainda tinham uma ligeira noção sobre os perigos do endividamento excessivo, mas outros acharam-se no direito de receber um subsídio.
Mas... e como  "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe", os pais de C. acabaram por ir ao "esconderijo" dando assim com uma muito triste realidade: nas suas vidas havia agora um buraco financeiro de elevadas proporções. C. foi chamada a depor na boca de cena e teve que explicar aos progenitores toda aquela infeliz ocorrência. Naturalmente que não sei os detalhes da conversa, mas ouvi falar. O tempo de crise começara ali para todos nós, miúdos rufias e inconsequentes. Alguns de nós havíamos contraído mais de 40 empréstimos... Eu tremi de medo, pois se calhar estava chegada a altura de confessar aos meus patrocinadores naturais (pais), que os mesmos tinham dívidas de que nem sequer desconfiavam. Vi ali a minha vida a andar para trás. Depois veio o natural tempo de reflexão e de arrependimento: "quem me mandara a mim viver com aquilo que não era meu, assumindo uma identidade que naturalmente não tinha qualquer credibilidade no panorama económico do bairro". E com muito medo, eu decidi esperar.
Em relação à família espoliada, que sem saber creditara grande parte das crianças daquele lugar, conjuntamente com a filha traidora, elaboraram um plano de resgate muito próprio, nem sequer tiveram que pedir ajuda ao BCE ou ao FMI. Fizeram depois um Plano de Entendimento... Deles Próprios.
Quanto a nós, receio que tenhamos apanhado uma boa e eficaz lição. Uma vez que não havíamos assinado qualquer papel de contracção de dívida, não havia assim forma de provar a nossa real condição de faltosos. A minha amiga C. viveu muitooooooo tempo a "pão e água", teve que cumprir um plano de acção, onde constava um aperdadíssimo Plano de Austeridade, que incidiu totalmente sobre aquele Memorando de Entendimento. Tenho a certeza que pagou elevadíssimos juros, para aí a 60, 70%, com numerosas doses de chineladas bem assentes no traseiro, na primeira, segunda e até na terceira tranche. Quanto a mim, depois de toda aquela aflição veio uma certeza: não devemos nunca, embarcar em ilusões, por muito apetecíveis que elas nos pareçam ser. Não devemos também, contar com aquilo que não é nosso. Temos assim que olhar para o futuro e gastar com parcimónia. Além disso aprendi a dar muita razão àquele provérbio popular que afirma: "Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhes vem".
A propósito de tal temática sugiro a leitura do livro: O Enigma do Capital: Crises do Capitalismo" de David Harvey.
Divirtamsemazé e...  já agora gastem poucochinho...


sábado, 15 de outubro de 2011

O poder da oração.


Há uns anos resolvi ir com a família a Fátima. Eu sou aquilo que se pode considerar de agnóstica: reconheço a possibilidade da existência de algo superior, contudo não sinto necessidade de personificar a sua identidade. Quis a sorte e o destino, eu ter nascido no seio de uma família que professa activamente a sua fé, indo com muita regularidade à igreja e rezando diariamente. Naquele dia, os meus familiares foram àquele espaço renovar os seus votos, na esperança de conseguirem uma vida melhor ou, pelo menos que a vida conseguida não piorasse, pois como já lá dizia o outro: "Para melhor, está bem está bem! Para pior já basta assim".
Sou uma rapariga dada ao riso fácil, gosto muito da risota e da diversão. Deus a existir é encontrado por mim nas pequenas e  simples coisas. Eu não sinto necessidade de frequentar igrejas e capelas. Acho que também a haver Deus, ele já deve de estar um pouquito farto das mesmas fórmulas, das mesmas rezas sempre iguais. Deus a existir, deverá ser grande, infinitamente generoso e sem problemas de auto-estima. Contudo a minha tia dizia-me sempre e a este respeito: "Tem juízo minha filha, tem juízo, pois graças a Deus muitas, graças com Deus poucas." E aí, eu ficava sem argumentos, não é? Logo a minha tia que era mais velha que eu e andava sempre com o terço na mão...
Naquele dia assistimos à missa na Capelinha da Aparições. Enquanto isso eu pensava na minha jovem vida. Naquele espaço estavam religiosas em atitudes muito reflexivas, assim como membros da sociedade civil em atitudes muito religiosas. Eu teria à altura vinte e tal anos e estava ali, com respeito, seguindo a homilia, fazendo aquilo que me era pedido, dando a esmola etc, etc. Isto sem me estar a rir, o que é muito difícil para mim permanecer assim durante muito tempo com muita seriedade. A dada altura chega a parte em que o padre solicita à assistência que se cumprimentem todos uns aos outros. Beijinho no pai, beijinho na mãe, beijinho na freira da frente e... sinto um suave toque no meu ombro. Viro-me para trás e o que é que eu vejo? Atrás de mim estava só um dos homens mais lindos que me foi dada a oportunidade de ver na vida, acreditem. E o que é que eu havia de fazer? Bem, fora o padre quem solicitara a ocorrência de abraços e de beijinhos, ali naquele local, abençoado e visitado pela Virgem de Fátima. O Adonis, antes de me espetar dois beijinhos na cara, ainda me disse: "Na paz de Cristo." Ao que eu respondo: "Você é quem sabe, mas avaliando tanta beleza, acho que se deveria de dedicar mais a actividades belicistas e resgatar no mínimo uma meia dúzia de corações, é mais seguro." Resultado, rimos os dois o mais silenciosamente que conseguimos.
Já no carro o meu pai pergunta-me, de onde é que eu conhecia aquele rapaz da missa, com quem havia estado a falar. Tive todo, mas todo o prazer em contar toda aquela história ao papá, que colocando as mãos ao alto, se queixou do facto de ter uma estranha e inconveniente filha, que se dá ao péssimo hábito de rir nas mais inusitadas situações. 
Foi assim e desta maneira, que esta pecadora e modesta criatura que se assina, também teve direito ao seu milagre de Fátima.
Contudo pondero agora a possibilidade de voltar a Fátima. É urgente. Então não é que um senhor na Quinta-Feira, veio à televisão dizer que me iam roubar o subsidio de Férias e de Natal? Nossa Senhora do Rosário de Fátima tem pena de nós. Peço-te encarecidamente que termines de vez, com os atentados a que este país lusitano tem estado sujeito, logo este país  tão conhecido por ti... Eu confesso, agora faz-me muito mais falta o "pilim" que um qualquer Adónis desta vida.
A proposito desta temática recordo e sugiro a leitura do livro: "O Deus das Pequenas Coisas" de Araundhati Roy.
Se conseguirem... Divirtamsemazé.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Num táxi peruano.


Este meio de transporte é de importância máxima nas comunidades actuais e, em Portugal, regra geral são os carros de gama alta e necessariamente mais confortáveis que mais são usados para este serviço, mas não é assim em toda a parte.
Um ano destes, cinco pessoas decidiram ir fazer Sandboard de noite para o deserto peruano. Sandboard ok? Não estou aqui a utilizar qualquer metáfora, para uma outra qualquer actividade, era mesmo praticar aquele desporto radical. Pelo que alugaram um táxi. Eu era uma das participantes.
Em Portugal, cinco pessoas mais o motorista não poderiam viajar no mesmo táxi, pelo menos nos táxis que são para transportar cinco pessoas, contando com o motorista. Mas ali não houve qualquer problema. Afirmo ainda que os táxis peruanos são de dimensões bem mais pequenas, que os convencionais táxis portugueses. Não era nenhum Audi ou Mercedes. Eu confesso, já não me lembro da marca, mas garantidamente que não era maior que um Renault Clio. 
À ida para o deserto, ia um jovem cavalheiro à frente e atrás iam os restantes quatro passageiros, eu a uma ponta, um pai e um filho no meio e na outra ponta uma jovem rapariga. Íamos ali para o "apertadito" não é, mas a vontade de "desertar" era tão grande... Eu ia literalmente "esborrachada" contra a porta. Depois de uma viagem interminável de sensivelmente trinta minutos eu advogo que, uma vez que eu era a pessoa mais larguinha de anca, o melhor a fazer era, no regresso eu ir à frente ao lado do senhor motorista, assegurando desta maneira um maior conforto para todos, exceptuando talvez um pouco a comodidade do cavalheiro que viajava à frente. Contudo o mesmo foi compreensivo e simpático como é, logo acedeu a que assim fosse. E lá fomos nós praticar a sublime arte de descer em considerável velocidade em cima de uma "tábua" pelas colinas abaixo...
No regresso e ao pé do táxi, eu ocupei o lugar da frente, os três homens o lugar de trás e a outra moça teria que se sentar atrás e junto a uma janela... Esta seria a última a entrar. Antes que ela desse o passo definitivo e ocupasse efectivamente o seu lugar, o senhor mais velho, com cinquenta e tal anos, diz a pérola seguinte: "Anda para aqui anda, deitas-te ao nosso colo e terás seis mãos a fazerem-te massagens..." Sublime! A moça ficou ali a olhar cheia de medo, olhou para mim sem saber o que decidir. O que havia ocupado o lugar da frente na viagem de ida, ainda sossegou a jovem dizendo, que ele não iria fazer massagens a ninguém, mas o pai e o filho não pareceram demarcar-se dessa sua/deles mui  benemérita intenção. A jovem sentiu medo, sentiu muito MEDOOOOOOO. 
Como não podíamos ficar ali toda a noite, a moça pensa, pensa e no fim reage. Nada diz, mas em menos de um momento tenho a rapariga sentada no meu colo enquanto eu ocupava... o banco da frente... 
Foi assim desta maneira e todas tortas, que viajamos por mais trinta minutos. Eu não tenho mesmo sorte nenhuma. Queria conforto, há pois queria!!! Mas as leis do Universo não estavam para aí viradas. Eu viajara anteriormente "esborrachada" contra o vidro, mas agora tinha uma mulher feita sentada ao meu colo. A desgraçada viajou todo o tempo com a "espinha" dobrada, que mais parecia um triste e lazarento cisne. Eu viajei novamente "esborrachada", mas desta vez... contra o taxista, com a minha perna a pressionar fortemente... o manipulo das mudanças. Eu ainda sugeri ao profissional da condução: "O senhor avise-me quando quiser pôr a mudança, que eu faço esse serviço por si, de forma a que o senhor não me esteja consecutivamente a "apalpar" a perna. Mas o homem estranhamente não foi na conversa, pelo que ficou por momentos a olhar para mim com cara de caso, com um sorriso "monalísico" a sair-lhe de um generoso bigode.
Naquela noite ficou provado que as boas intenções das pessoas, nem sempre são entendidas devidamente pelos seus semelhantes. Afinal aqueles dois senhores; pai e filho só queriam praticar a boa acção do dia: fazer umas reconfortantes massagens na pequena. Tinham assim a certeza de lhe melhorar o estado anímico. Ela porém não entendeu assim. E assim viajamos em sofrimento, os que seguiam nos lugares da frente, e muito regalados os três homens que ocupavam o banco de trás. Por essa e por outras é que eu cada vez mais, me vou abstraindo de dar sugestões, é porque, como dizem os mais velhos e experientes: "De boas intenções, está o Inferno cheio!"
A propósito deste episódio por mim vivido e aqui recordado, sugiro a leitura do livro: "Histórias do Deserto" de Carlos Teixeira Luís.
Divirtam-se muito e massagem o cérebro com boas e GRATIFICANTES LEITURAS.


sábado, 1 de outubro de 2011

O arrebatamento.


Não pretendendo ser muito repetitiva, mas já o sendo, proponho-me mais uma vez falar nos bailes e na dança. Hoje presto-me a falar um pouco sobre a genitália presente nessas situações. Também não deve de ser só isso. A frequência dos mesmos contudo é crescente, o que pode também ser levado como uma tentativa de combate à solidão. Também deverá ser visto como uma mais valia para a preservação da auto-estima: com todos os preparativos dedicados ao vestuário e maquilhagem, mais por parte das senhoras, mas agora também nesse aspecto, tudo é muito diferente. É no baile que muitas vezes se consegue, aquele abraço desejado, aquela palavra amiga, mas também me dá a entender que haverá para ali muito deleite.
Um dia  destes uma amiga contou-me que nos locais, onde os bailes são realizados, já existem pequenos cubículos onde os casais querendo têm privacidade para desenvolver práticas mais luxuriosas, mas será verdade? Tenho que lá ir e apurar não é?
Por outro lado, uma amiga minha de infância, comunicou-me com ar de grande conhecedora desta temática, de que, todo aquele que se entende bem a dançar, também se entenderá bem na cama. Mas haverá estudos sobre este "tão interessante assunto"? Onde está a comprovação de tal afirmação?
Eu tentei uma vez dançar (AHAHAH!) foi o desastre. Hoje sei que o "mártir" ainda é vivo porém coxeia, e coxeia ainda mais, quando me vê... Ai os remorsos que eu tenho...
Há muitos anos, ouvi da boca de uma amiga mais velha do que eu, que num baile um par havia dançado de forma tão arrebatadora que no calor do momento haviam praticado sexo em plena pista de dança, ali no melhor da festa e com toda a gente a olhar. Eu recusei-me a acreditar e disse-lhe:  "Maria não pode ser, pois ninguém iria ter coragem de fazer "aquilo" à frente de tanta gente, ninguém poderia assistir a tal! Ao que desconcertante a  Maria me respondeu: " Oh sua grande... (palavra feia e que me recuso aqui a repetir!), eu vi  e por ter visto é que te estou aqui a contar, não é?
Fiquei quase convencida, pois para que raio é que ela me iria mentir?  Compreendi e "geniosa" como sou, logo tratei de elaborar uma teoria inquestionável: É sabido que nos anos 80, o processo da poluição do planeta estava no seu máximo. Também já se falava do "aquecimento global", daí e uma vez que já estava tudo muito "aquecido", que diferença haveria de fazer, mais um casalito em ebulição, a contribuir com toda a sua determinação para a reprodução da espécie? Pelo menos contaram com música ambiente e uma claque numerosa.
A propósito de tal temática, recordo o titulo do livro (e recomendo a leitura) "A Dança da Vitória" de António Skarmeta. Divirtam-se e BOAS LEITURAS... Com ou sem aquecimento prévio.


Como facilmente se constata nesta canção, o cantor tinha um grande poder. Quando ele se dedicava às "delicias libertinas" com a sua partner, parava tudo. O que deve de ter causado bastantes prejuízos. Tal situação deve de ter causado muitas paragens forçadas de fábricas e de escritórios. Para além disso deve ter causado a atribuição de muita tolerância de ponto. Crê-se que tal facto poderá ser mal visto pelas "Associações de Industriais". No caso presente da história aqui postada, pois tudo leva a crer que o baile continuou sem interrupções de maior. É capaz de ter havido um olhar de um ou outro curioso. Ou então de algum reparo por parte de alguém contagiado pelo mal da inveja.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!