Como é do conhecimento comum, e fazendo valer o titulo de um filme celebre, "O Amor Acontece". Acontece mesmo nas situações mais inusitadas. Conheço uma pessoa que é uma grande recolectora de memórias futuras, vulgo fotografias. Ela fica com a espinha torta de carregar todo um manancial de equipamentos fotográficos, e depois fotografa tudo aquilo que mexe e também tudo o que não mexe. Fotografa também pessoas que são alentejanas, que como bem sabemos, são pessoas que se mexem assim assim.
Teresa é uma mulher já feita e muito amante de fotografias. E quem tiver confiança com ela e se dispuser a ver todos os seus milhões de películas, observará que na sua grande maioria, o que as fotografias têm, são homens que para ela continuam a ser verdadeiros desconhecidos. (Terá ela esperança de os vir a conhecer um dia?) Eu que sou amiga dela pergunto-lhe o porquê. Ela invariavelmente responde-me que eu sou analfabeta visual, pois não consigo ver a grande arte que está patente nos seus trabalhos fotográficos. Mas existem lá homens, muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Eu tenho para mim, que o impulso que a leva a eternizar o momento, se prende com a ocorrência de uma atracção fulminante mas momentânea. Mas eu confesso, lá existem exemplares muito interessantes. Belíssimas caras em corpos bem torneados.
Recordo por exemplo a fotografia de um senhor que ia num Cruzeiro no Rio Nilo. O senhor ia numa embarcação no sentido contrário à embarcação onde seguia a Teresa. As embarcações passaram muito juntas uma da outra o que fez com que os olhos dos dois, se tenham cruzado, entendido e gostado do que viram. Acredito que os seus corações bateram a compasso apesar de estarem fisicamente afastados. O senhor terá uns cinquenta e tal anos. Teresa ainda hoje tem muito prazer em mostrar essa fotografia. O senhor era algo rechonchudo. Envergava unicamente umas cuecas. Tinha um bigode bem farfalhudo. De resto estava completamente depilado. (Bem quanto a isso Teresa não pode ter a certeza, pois o senhor sempre levava umas cuecas, não é?)
O seu corpo parecia o de um grande golfinho. Tinha uma barriguinha que atestava a sua feliz situação emocional. A sua pele estava vermelha devido à muita exposição solar. Conforme vislumbrou Teresa, o homem (e para a ver melhor), colocou a mão à altura da testa, tipo pala. Teresa teve oportunidade de ver que o homem tinha uns belíssimos olhos castanhos enfiados numas muito garbosas e também muito farfalhudas sobrancelhas. Ainda hoje quando Teresa olha para a fotografia, recorda aquele belo momento por ela vivido. Um momento mágico, irrepetível e perfeito. Um momento em que duas pessoas se olharam pela primeira vez e em que se amaram muito. Mas momentaneamente. Afinal e prefaseando Vinícios de Moraes: "Que o amor seja infinito enquanto dure!" E aquele durou breves instantes. O senhor rechonchudo ainda mostrou interesse em saltar para o barco onde ia Teresa, mas não o fez, pois teve medo de cair para o rio.
Teresa não tem culpa, mas é uma sedutora. É-lhe inato. Como método de engate ela "prega" na sua cara um sorriso enigmático. Depois começa a olhar pelo canto do olho. A seguir pestaneja de sete em sete segundos. Este é um método de sedução usado e concertado com o método que havia sido usado pela Mata-Hari. Mas Teresa é muito mais eficiente que a espia do passado. Teresa não necessita de fazer danças eróticas nem Streaptease. Os homens só com o método acima descrito, caiem-lhe aos pés. Tipo tordos.
Noutra vez e numa viagem a uma ilha do Caribe, Teresa catrapiscou um cozinheiro. Este profissional era uma réplica perfeita do Artur Albarran, no tempo do anúncio à pasta dentifríca. O cozinheiro, já seduzido pela Teresa tenta agarrá-la ali mesmo. Contudo Teresa barrica-se e escuda-se no corpo de um seu amigo militar, que na altura a acompanhava. O cozinheiro teve assim e ali um grande desgosto. Em desespero, o homem queimou as pestanas no fogão e foi para o luar cantar ao Comandante Che Guevara.
Mas a sedução no barco do Nilo não foi só conseguida com o exemplar gorducho que seguia numa outra embarcação. Teresa conseguiu também seduzir um barman egípcio. O rapaz tinha os seus trinta e picos. Tinha um número tatuado na mão que é muito visível na fotografia. Usado o método anteriormente aqui descrito, o barman começa a olhar "bovinamente" para Teresa. A Teresa ao deparar com o sucesso conseguido, riu, riu e riu. Como quem se está a dar conta de que... começa a estar interessada... por outrém. A minha amiga Teresa, pediu-me assim para lhe tirar uma fotografia a ela e ao tal rapaz. Ficaram assim lado a lado, a minha amiga "Mata-Hari"e o recém seduzido egípcio. E depois os olhares trocados prosseguem. É o elevamento total, é a magia. O ruborizar da face... (Bem no caso dele isso não era fácil de verificar, pois ele era muito escuro). Teresa não sabe mais o que havia de fazer. Mas a história não acaba aqui!
Após o jantar temático, em que andavam todos vestidos com trajes típicos e à roda, dançando com uma garrafa, Teresa começou com arrepios e suores frios. Tinha também o coração a mil. No fim decidiu ir para o quarto descansar. Ela partilhava na altura o quarto comigo. Eu acompanhei-a por solidariedade. Já deitadinha na cama, e com os pés em cima de três almofadas, ouviu, ou melhor, ouvimos o telefone a tocar. Teresa atendeu. Era o seu apaixonado egípcio que exigia encontrar-se com ela na cobertura da embarcação, para se conhecerem melhor. Teresa teve novo embate. Estava muito emocionada mas temerosa. Sem saber mais o que fazer, Teresa desliga o telefone abruptamente. Mas o telefone insistiu em tocar mais vezes. O egípcio não era de desistir. Teresa começou a fazer-se de dama, apanhada desprevenida e pediu-me que eu atendesse o telefone. Eu que não tinha nada a ver com aquela história, acedi ao seu pedido com alguma relutância, não é? Mas como sou amiga dela...
É claro que do outro lado da linha continuava o... egípcio, como não podia deixar de ser. No início, o rapaz pensou que estava a falar com Teresa e não foi de modas, insistiu no tal encontro em cima do barco... dentro de um bote de borracha que por lá estava. Eu ainda lhe disse que eu não era a Teresa. Não era portanto a sua apaixonada da noite. Mas o egípcio não quis saber disso para nada. O que ele queria era encontrar-se... com Teresa. Eu e em simultâneo, fui traduzindo para a Teresa os desejos eróticos do rapaz: Os dois, em cima do tal bote de borracha... A beberem champanhe sem alcóol (devido à proibição religiosa), e depois passearem-se todos nus junto à piscina. Envolverem-se em amassos e beijinhos dentro de água. Tirarem as medidas um ao outro... Enfim a imaginação foi o limite. Teresa ouviu tudo aquilo e abanou vigorosamente os braços e a cabeça dizendo que não. Não estava interessada naquele encontro. Não estava assim interessada naquele tão generoso convite. E eu, não sabia mais o que responder ao homem. A Teresa também não. Não queria sequer atender o telefone. No fim e em desespero de causa eu lembrei-me de uma dramática e incontestada argumentação e disse ao determinado homem: "But she is married!" Mas nem assim resultou, já que o cavalheiro me respondeu imediatamente que: "I don´t see what is the problem!"
Em jeito de conclusão só me resta aqui dizer: Mas qual "Primavera Árabe" qual carapuça. Aquele rapaz, e já há alguns anos atrás, já se encontrava... No pico do Verão.
Sugestão de leitura para hoje: "Vai aonde te leva o coração" (Nem que seja para cima de um barco), de Susanna Tamaro.
Divirtamsemazé e votos de um Muito Bom Ano de 2012. Vamos contrariar tudo aquilo que nos é tão dramaticamente prognosticado para o ano que há-de vir.













