Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Viver e aprender.




Sendo Ana uma profissional competente dentro das suas responsabilidades profissionais, de vezes a tempos fazia uma ou outra Formação. E pretendia-se (é certo) que desta maneira ela fosse melhorando continuadamente a sua performance profissional. E não eram os seus chefes quem a inscrevia em tal, eles simplesmente mostravam-lhe as possibilidades e a Ana escolhia aquela que à altura, ela achasse mais conveniente para si. E já haviam sido mais que muitas, as Acções de Formação frequentadas pela Ana. Eram tantas que por vezes ela tinha dificuldade em se lembrar se já tinha ou não frequentado uma especifica.
Naquele ano coubera-lhe a escolha da que versava sobre: “Motivação de Equipas de Trabalho”.
Ana era responsável por várias equipas de trabalho, já há mais de uma década. Contudo, ela acreditava que o saber não ocupava lugar. E Ana achou que iria aprender mais qualquer coisa.
O grupo era suficientemente heterogéneo e demonstrativo de uma realidade laboral típica da Função Pública. A maioria dos formandos abeirava os cinquenta e tinha sempre muitas queixas. E a culpa nunca era deles. E dois ou três deles, que eram os mais tímidos, ainda estavam nos inícios da casa dos trinta.
A formadora, muito loura, muito magra e muito baixa, apresentou-se como psicóloga clínica. E que psicóloga clínica, Santo Deus! Sem problemas com a idade que o B.I. comprovava, ela orgulhava-se também de dizer que parecia ter muito menos anos. E mais ninguém a contradisse.
E já em plena Formação, ela lá foi comunicando sobre as diferentes fases motivacionais. Que são mais que muitas. Motivar equipas significa ainda ser eficiente e demonstrar e realizar os tipos de coordenação mais adequados a uma realidade concreta. E as palavras a proferir, têm que ser sempre muito bem pensadas, antes de nos saírem disparadas da matraca. Isso é mesmo muito conveniente. Mas disso, já Ana sabia. E desde os tempos em que a sua mãe ou avó, lhe batiam na boca, após ela ter soletrado algumas palavras susceptíveis de ofender a honra e os predicados dos vizinhos e demais familiares.
E o toque. Pois o toque é necessário entre as pessoas. E não fosse dar-se o caso de o mesmo ser considerado cínico ou bajulador, o toque era mesmo bem-vindo nas relações interpessoais. Sim está bem. Mas por vezes o toque é enganador, e faz-nos pensar em situações dementes, jamais concebidas na mente atormentada de um qualquer tocador de corpos. E Amélia uma formanda, empinou o seu nariz. E fez cara feia.
“O que se passa Amélia?” Disse preocupada a formadora.
“Pois eu não gosto nada que me toquem. Para que é que me tocam? É que eu não sou nenhum cão!”
Sim, é possível que só os cães mereçam e tenham as caricias. As carícias todas. É conveniente adoptar-mos todos, um gracioso canito. É que as pessoas são muito ariscas. E pouco confiáveis. Cruzes! Mas, e a Amélia? Será ela casada? Não se dará também o caso, de ela ter sofrido muito com os toques conjugais? Parece-me bem que sim. É que a Ana é observada muitas vezes pelas vizinhas. E com dois ou três pimpolhos. E não consta que a mesma alguma vez tenha ocupado, uma qualquer lista de candidatos à adopção.
Lubélia, era outra formanda. Muito cabisbaixa e entristecida, confessou logo no primeiro dia que já ia bem era para a reforma. Tendo somente cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, ela já trabalhava desde os dezoito. Além disso até já era avó. E muito ela gostaria de ir para casa, tomar conta do seu querido netinho!
Com o decorrer da formação, Lubélia deu em confessar outra coisa muito desconcertante. Tinha uma depressão ia já para cinco anos. E sofria de bulling no seu local de trabalho. Tudo porque certa vez, ela havia sido intempestiva e tratara mal uma colega. Com muita raiva à mistura. Mais tarde reconhecendo aquela sua má acção, ela pediu desculpas à outra. E aparentemente a colega até aceitou o pedido. Contudo a partir daquela data começaria a gozar permanentemente com a arrependida. E fazia-o de tal maneira, que era impossível para a agora formanda, conseguir continuar a ser uma boa profissional.
Psicóloga era somente a formadora. Ana era de outras áreas. Contudo Ana também era assoberbada quanto baste. E ao aperceber-se daquela malévola situação, logo aconselhou:
“E porque é que a Lubélia não goza com ela também?”
Mas este conselho foi rebatido imediatamente pela formadora. É que não se pode responder ao mal com outro mal. Pois assim só se ia conseguir “mal ao quadrado”. “Certo”, pensou Ana. Mas era bem pior ver ali aquela mulher cabisbaixa, sem saber defender-se e a padecer com as atitudes parvas da colega. “Era então melhor não fazer nada?”, Formulou Ana. “Não”, respondeu a formadora. “A atitude tem que ser outra. E concertada”.
Diz então a depressiva: “É que até o meu chefe diz que eu sou muito brusca!”
Ana não se conteve e continuou: “E o seu chefe? Ele também goza consigo?”
“Gozar, não goza, contudo é conivente de alguma maneira com a outra gozona de serviço.”
“E porque é que a senhora não diz ao seu chefe que ele cheira mal dos pés?”, Disse a espevitada Ana. Obteve-se uma peculiar risota, e as palavras de contenção proferidas pela clínica muito cool. “Isso seria muito perigoso de afirmar. Podia até lhe dar despedimento”. Diz a loira. Contudo era bem pior, eternizar-se aquela situação de bulling. E podia provocar tal desconforto na vítima do mesmo, que ela poderia perigar pela continuidade da sua própria existência. Como tem acontecido com tantas pessoas igualmente vítimas de bulling.
Além de mais sendo o chefe conivente com a farsante, ele também teria a temer numa futura acusação. Além do mais, e depois da provocação do bullimizada, ele ficaria na dúvida se cheirava ou não mal dos pés. E iria depois ao WC certificar-se. Isso amigos, é mais do que certo. E depois quem sabe se não mudaria de procedimentos. E abraçaria amorosamente aquela trabalhadora tão sofrida e incompreendida. E naquele escritório a partir daquele momento, reinaria a paz do Senhor. Ámen.
E Ana lá continuava naquilo. Aprendeu desconcertada, que existem palavras e expressões que são proibidas de se dizer. Muito diferentes das que a mãe lhe proibira. Agora era proibido por exemplo dizer: “Tive muito prazer”. Essa coisa do prazer é unicamente obtida entre casais. “Prazer é aquilo que eu obtenho com o meu marido.” Disse mais uma vez a loira elegante.
“Ah valente!”, pensou Ana. “Esta vem para aqui expressar-nos sobre o bom desenvolvimento dos seus jogos conjugais. E tem ‘corpitxo’ para ‘prazerar’ durante muito mais tempo. Vai uma aposta?”. Pois ali ficou mais ou menos decretado, que ninguém poderia expressar o prazer sentido, em ouvir uma belíssima área musical. Ou deleitar-se prazerosamente com uma fruta sumarenta. Ou mesmo sentir um orgasmo nas pupilas gustativas, ao saborear um belo copo de vinho. Não senhor. Tem-se gosto. Tem-se muito gosto. E quando numa conversa (já mais para o final), a pessoa quiser expressar o seu contentamento, também terá que dizer:
“Tive muito gosto em conhecê-lo, caro senhor. Ainda mais porque o senhor, também não cheira mal dos pés”.
E o outro responderá: “O gosto foi todo meu”. E depois darão um casto e muito inocente aperto de mão. É desta maneira que se descartará para o futuro, a possibilidade de acções libidinosas a acontecer entre aqueles dois seres, apesar de tudo, aparentemente muito satisfeitos com a vida.
Aprendeu-se também que jamais se poderá referir a siglas, numa conversa telefónica como: “C de cão, S de sapo, q de quáquá”. Isso é uma coisa considerada muito ridícula. E susceptível de causar até, um enorme embaraço diplomático. Temos pois que usar os nomes de países. Isso sim amigos, é que é fino e muito elegante. Assim teremos: “C de Canadá, S de Suécia e Q de Qatar”. “Ah pois é!” Pensou Ana. Desta maneira faremos bonito. Só temos é que esperar que os todos os nossos interlocutores futuros, saibam exactamente como se escreve… Quatar. E que a tal letra não se transforme involuntariamente em “C” ou mesmo em “K”.
Ao referirmos assim o nome dos países, não só demonstramos que temos muitos conhecimentos do Mapa Mundi, como até poderemos dar a impressão de que somos pessoas muito viajadas. Falar desta maneira dos países! Com tanta propriedade! E ao agir desta maneira tão assertiva, é mais do que certo, que jamais sejamos vitimas de bulling. Mas quem é que se atreverá a gozar connosco? Além do mais, ainda poderemos dar a impressão de estarmos a jogar aos “Países Países”, das nossas alegres infâncias. E o nosso receptor, do lado de lá do telefone, sentirá por nós uma admiração muito profunda.
Ana aprendeu muito naquela formação. E ficou ciente de que existe mesmo muita gente diferente dela. A pensar em coisas que a ela jamais havia pensado. Assertividade é necessária, quando se dirigem equipas. Mas também são necessárias, muitas outras coisas mais.
No fim da formação, a Lubélia depressiva agradece emocionada à loira formadora. Aquela acção havia-lhe como que mudado a vida. A formadora que avaliasse a forma como ela agora estava vestida. E que verificasse in loco as cores garridas com que ela agora mascarava a fácies. Nada a ver com o passado. Passado tão recente de há dois ou três dias atrás. Ela agora considerava-se uma outra mulher. E abençoada fosse a Formação. Até pode ser, que já não tenha que dizer ao chefe, sobre o cheiro fétido que lhe sai dos pés.
E a finalizar a Formação, toda a gente a dizer que aquilo deveria de ter durado muitos mais tempo. Teriam assim aprendido muito mais! Ana por seu turno mantinha-se calada. É que para ela, se aquilo tivesse durado metade, já era muito. Mas há sempre opiniões díspares. E por isso é que nem toda a gente gosta do Passos Coelho. Que é um ser tão maravilhoso. Sempre tão preocupado com o nosso conforto. Com o nosso futuro e de quem se nos segue.
E foi só após um formando que era arqueólogo ter saído (mais cedo devido à greve dos comboios), é que a formadora disse a sua mais brilhante e lustrosa pérola:
“É que eu nem sei para que é que existem arqueólogos. Não era melhor deixarem tudo como está, muito lá em baixo, ao invés de andarem para aí, sempre a esburacar o solo?”
E foi desta maneira gloriosa que Ana saiu da Sala de Formação. Restabelecida com a vida, porque recuperara finalmente a sua preciosa liberdade. E ficou também a acreditar, que às vezes os choques eléctricos ainda fazem muita falta. Para aplanar conteúdos que proferidos dão todas as sensações. Menos a da motivação.
Sugestão de leitura para esta semana: “Tempos de Esperança” de Pedro Beltrão.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

À procura de um agasalho.



Diz a tradição que as mulheres são seres muito mais complexos do que os homens. Que nunca sabem muito bem o que querem. E que quando falam sobre alguma coisa, falam sobre a mesma, mas assumem também o seu contrário. Eu, espécie do género feminino, vai já para quatro décadas, acho que há muito exagero naquilo que se considera real. E se há mulheres complicadas, também as há simples e puras como a àgua cristalina, que desce tranquila do alto da serra. Seres que são fiéis, leais, inteligentes, amigas, amantes e sobretudo… simples. E os homens. Serão eles assim tão simples e directos? Saberão eles sempre o que querem sem muitas hesitações? Tomemos então como exemplo, o belíssimo anuncio que se segue:


“(Preciso) Vou divorciar-me de uma mulher má e prigoza” O anúncio começa muito bem. E da forma mais resoluta. O senhor que necessita é afirmativo quanto baste. Como nas receitas de culinária. É que ele “preciza” e está falado. E escreve também sempre em maiúsculas. Assumindo na certa, um tom de voz que é audível do lado de cá do Tejo. Mas também… do lado de lá. E repare-se: aparentemente este homem não tem dúvidas. E assume o que quer de forma inequívoca. É pelo menos aquilo que parece. Contudo….Estará ele já divorciado? É que pela conversa parece-me bem que não. Não seria então mais prudente, ele esperar pela cerimónia do desquite propriamente dita?
E depois, se a mulher (a renegada) for efectivamente perigosa? Não seria preferível ele, não assumir assim (e diante de toda a gente), as suas verdadeiras pretensões quanto ao futuro? E mais ainda: não estará ele, claramente a catalogar, alguém que não tem qualquer hipótese de se defender? E de nos fazer crer, sem sombra de dúvidas, sobre aquilo que efectivamente vale? Mas o homem… esse arrogantemente… lá continuou a preceito:
“Quero viver o resto da minha vida em paz.” Pois, e quem é que não quer, amiguinho? Tal situação deveria ser tida inclusivamente como condição sine qua no para toda a população mundial. Menos talvez para os que são guerrilheiros de ofício. Ou então para todos aqueles e aquelas que são zaragateiros/as convictos/as. Mas ele? Lá prosseguiu:
Porisso procuro uma mulher que seija. Amerosa. Carinhosa. Bondosa. Meiga. Compreenciva.” Está bem, está! Não é nada meigo a pedir. E além disso, vamos lá ver uma coisa: Não serão estas, condições excessivas? É que tudo o que é demais… é moléstia? E não será também melhor considerar a parte da: trabalhadora, inteligente, limpinha, sem dívidas excessivas e bicos de papagaio? E que tal que goste de cozinhar? Que goste da farra? Que goste de se rir? Que não tenha mau hálito? E já agora, que não dê assim muitos erros ortográficos? Agora ser só: bondosa, “amerosa”, meiga, carinhosa e “compreensiva”? E não serão todas estas características um bocado parecidas umas com as outras? E ao fim de algum tempo de “combíbio” a coisa corra o risco de se tornar claramente aborrecida? Trivial? Destituída de toda e qualquer empolgação? Mas o “menino” esse… aparentemente não quer saber disso para nada. Pelo que continuou:
“E que queira ser muito feliz.” É justo. E vai mesmo ao encontro do que este homem decidido também deseja para si. Não se preveem desta maneira rebeldias vãs. Nem objectivos díspares. E quem é que não quer ser “muito feliz”? Talvez só as que são de natureza masoquista. E essas por favor, não lhe telefonem. Não o façam perder tempo desnecessariamente. Logo a este senhor, aparentemente tão resoluto. E ele prossegue:
“sou homem que estou vem na vida”. Pois bem, caras e eventuais candidatas, acho que é muito bom, terem o conhecimento prévio dessa situação. Ou não é? O cavalheiro está “vem” de vida. Mas, e o que é que isto quererá exactamente dizer. Terá ele dinheiro a magotes? Vontade de viver? Boa saúde? Erecções frequentes? Vontade constante de se rir? Ou tudo isso em conjunto? Pois, na dúvida, aceitem o meu conselho: se eu fosse a vocês, desconfiava. É só cá uma cisma minha. É que se costuma dizer, que quando a esmola é muita, o santo fica para o desconfiado. Este senhor podia e devia ser muitíssimo mais objectivo.
E depois existe sempre a outra? A que ele vai deixar? Ela será má porquê? E perigosa em que sentido? É que tal não se entende. Ter tido ela a possibilidade de privar com um homem tão maravilhoso… e ser má? Perigosa? Será ela alguma mulher bombista? Ou alguém com problemas crónicos de flatulência? Andará ela armada com algum maçarico? Pois… Mas o homem não desiste e continua:
Se está em entreçada tem de ter 40 a 50 anos e ser bem apresentável.” Ai o magano! É que ele não é mesmo nada pedinchão. É que para além de querer uma “laide” mansa e contente, quase quase a roçar a paralisia, ainda a quer, relativamente nova e também bem “apresentável”. E o desavergonhado? Quantos anos é que ele terá? E será ele também algum Brad Pitt?
E depois, se uma senhora for muito meiguinha, compreenda todas as línguas e dialectos e tiver 51 anos? Ou 39? Será a mesma recusada por não se enquadrar inteiramente dentro dos pré-requisitos? Terá isto o mesmo procedimento que uma candidatura para um emprego qualquer? Medo, amiguinhas! Tenham pois muito medo! É que este senhor “vem” de vida (como ele próprio se define) poderá ser um daqueles que quer tudo, mas que depois… perde tudo também. Seja somente um verbo-de-encher. Mas continua:
“Não atendo privados”. E faz muito bem porque eu também não atendo. É que os privados são quase sempre de pessoas que nos querem vender coisas. Ou de quem simplesmente chagar-nos a cabeça. Com muitos inquéritos e perguntas parvas. Ou então poderá ser ainda de uma mulher “má e prigoza”. E brava e “prigoza”… já bem lhe bastou a outra. A “maçariqueira”. E ele finaliza:
“Ligue só se estiver entreçada para nos encontrarmos e conversarmos.” Isto parece-me razoável, não fosse dar-se o caso da pessoa poder ser acometida por muitas dúvidas. E não será normal? Ainda mais nesta situação. Afinal poderá tratar-se de uma futura… compagne de route. E antes que a mesma possa aceitá-lo, de ser feliz para sempre. E ficar “vem” de vida, tenha que tirar uma ou outra dúvida com uma chamada telefónica. E isto tendo sempre o número identificado. Como é aliás requerido. É que não será nada fácil, recusar um senhor como este: “vem” de vida. Contudo, este poderá ser alguém que não aprecie muito por aí além, certa característica presente numa mulher. Imagine-se por exemplo que a mesma só seja meiguinha nos dias ímpares. E que não compreenda lá muito bem todas as coisas, nos dias que antecedem… a vinda da menstruação. É que os dois até podem conversar à vontade. Presencialmente. Contudo à vontade não significa a mesma coisa que… à vontadinha. E se ficarem à partida, esclarecidos alguns pormenores, (mesmo ao telefone) a coisa poderá ficar (ou não) muito mais sedimentada.
E vá lá… não se pode crucificar ninguém, só porque tem uma ou outra dúvida. Mesmo que seja, antes de se escolher este excelso senhor que tão galhofeiramente diz, estar “vem” de vida.
E agora aqui muito entre nós: este requerente parece-me algo complexo. Até um pouco caprichoso e vulnerável. E é um homem. Que por definição deverá ser simples e descomplexado. Agora tomemos em consideração, este singelo anúncio de uma senhora:


Então amigos? Cai ou não cai por terra, tudo aquilo em que se acreditava, faz tanto tempo? Poderá ou não ser a mulher, um ser prático e muito decidido? É que para esta senhora, o “seu” homem até poderá ser um verdadeiro estafermo. Ser bravo e rude e cheirar a cavalo. E ter para cima de cento e trinta anos. Terá é que ter… um tractor atraente. Ora bem, nada mais fácil.
Sugestão de leitura para esta semana: “Uma Aventura Inquietante” de José Rodrigues Miguéis.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Rei se nomeia, quem não teme.




A criança nasce. Hoje em dia já se sabe qual é o seu sexo faz muito tempo. Compram-se com muita antecipação as roupas mais apropriadas, e da cor mais adequada. Se bem que isto das cores que são para menino e das outras que são para menina, “foi chão que já deu uvas”. E depois também com muita antecedência… escolhe-se o nome. O nome que acompanhará o individuo até ao final da sua existência. E o nome, senhores? E o nome é que nos define. Mas porquê? Porque é que, chamando-me eu Maria, tenho os atributos das Marias todas? Não serei eu ser específico e desigual de todas as outras? Afinal não será aconselhável sermos todas... umas Marias Vão com as Outras! Em carneirada…
E agora os super modernos pais, bastante informados, vão escolher os nomes para os filhos. E escolhem os nomes que detenham os atributos mais favorecidos. Nomes consultados em livros que só se dedicam à temática. E meus amigos, eu que até sou bibliotecária, sei muito bem que livros são esses. Mas é melhor assim. Ainda bem que já passou a fase do nome das personagens das telenovelas brasileiras. Com o perdão de todas as Cláudias Vanessas e dos Brunos Vanderlei.
Mas nem sempre assim foi. Os nossos antepassados tiveram a virtude de ter a sapiência da espera e da abnegação. E se a mulher emprenhava? Pois que bom que era! Não só era mais um elemento para a espécie humana, como era ainda uma força suplementar de trabalho lá para casa, mal o gaiato chegasse lá para os cinco ou seis anos. E quanto à escolha do nome? Bem, isso não deveria ter lá muita importância. Especialmente se a criança fosse proveniente das camadas da população mais desfavorecidas. E o registo da mesma? Pois, muitas vezes era feito à posteriori, quando um elemento masculino da família, quase sempre o pai, tivesse um tempinho para ir à Povoação dos Registos. Ou quando fosse à altura da semana da feira. É que há mesmo muita gente, que tem uma data de nascimento efectiva e uma outra que é a que corresponde à data do tal registo. E quanto ao nome? Bem esse era levado na língua do familiar que tivesse esse encargo. E com algum cuidado suplementar, não fosse ele esquecer-se. É que era uma tarefa exigente. Detentora de uma grande complexidade. Não era pois... delegada a qualquer um.
Conheço uma senhora que se chama Alicia. Sim é uma senhora devota, generosa, mas com um nome algo invulgar. E chama-se Alicia, não por ser uma mulher virtuosa até à quinta casa. Não é por ser patriota e membro activo e até votante nas eleições. Quase sempre. Também não é por ser uma competente profissional do campo das limpezas, das casas das senhoras mais ou menos privilegiadas. Não. Ela é Alicia porque a mãe achava que era mesmo Alicia que se dizia. E o profissional dos registos achou que não era com uma tal inovação, que viria grande mal ao mundo. E o que é que é mais um “i” no nome de uma pessoa? Não a deve de prejudicar muito. Pelo que… Alicia ficou.
Mas numa outra terra da nossa portugalidade, nasceu certo dia, uma criança do sexo masculino. Vai já para muitos anos. O menino havia sido muito desejado, e concebido após alguns anos sobre a ocorrência do sagrado enlace matrimonial. E era com muito desvelo que a sua mãe acariciava a barriga em crescendo. Na aldeia diziam que deveria de ser um rapaz. É que a barriga estava bicuda e “empicarotada”. Era assim mesmo feita a referência, às barrigas que continham gravidezes dos bebés masculinos. Faziam à mãe uma barriga bicuda e empicarotada. Vá-se lá saber porquê.
E o nome p’ró rebento? Sendo machinho, ele teria o nome de Frederico. É que a gestante “empicarotada”, havia ouvido tal nome, uma vez na vila, quando a senhora fidalga da Quinta Local, chamara desta maneira pelo seu descendente. E Frederico soara-lhe tão bem! Pelo que se o fidalgo se podia chamar Frederico, porque não também aquele primeiro rebento do casal de camponeses. E por isso, a partir daquela data, a gestante repetia continuadamente ao seu consorte:
“Oh home, quando o menino nascer, tu vais lá e dás-lhe o nome de Frederico.
E o marido? Pois acenava a cabeça, confirmando-lhe a intenção. Pois que diabos, se era esse o nome que a mulher queria chamar ao filho, pois que fosse. Ele achava-lhe alguma estranheza no soletrar. Frederico. Já ouvira também o nome Fredico e frigorífico. Pelo menos era o que ele achava, porque lá em casa só havia a arca da salgadura. Mas o nome Frederico, era para ele algo incomum. Que tinha alguma dificuldade em lhe entrar p’rá “cachimónia”.
E o menino nasceu. Confirmou-se-lhe in loco a sua varonilidade. Só que o pai não pode ir registar o seu filho. Os motivos serão irrelevantes porque são do desconhecimento desta muito sofrível cronista. O que se sabe é que o pai não pode ir mesmo. E quem é que foi registar o recém-nascido em sua substituição? Pois foi o avô. Sobraram assim, trabalhos acrescidos para um velhote de língua desempoeirada e muito apreciador da bebida de Baco. E para o efeito, o ancião com os seus trajos domingueiros, saiu de casa com a recomendação expressa da nora:
“Oh santinho! Vossemecê não se esqueça. O rapaz tem que ser… Frederico!”
Sim, estava bem. E se ao filho já custava tanto dizer a palavra, àquele pai a tarefa era ainda mais complicada. Mas havia que confiar, ou não era? Afinal o homem do registo também estaria lá e sempre haveria de ajudar. Nomes, era o que aquele profissional mais devia conhecer. Havia até de os saber todos. E era Frederico. O nome que se queria era Frederico. Pelo que o velhote lá foi repetindo o nome durante toda a caminhada que fez. E não fora nada fácil. Aquele senhor de provecta idade e de andar dificultoso, também nunca soubera ler nem escrever…
Chegado ao registo, e à pergunta de como é que se há-de chamar o pimpolho, o velhote…? Pois o velhote teve um lapso de memória. Agora é que era! "Qual é que é mesmo o nome?” repetia o profissional. O velho tirou a boina, coçou com atrapalhação a cabeça coberta por ralos cabelos. Procurou lembrar-se… E no fim? Ele achou a resposta. E lá registou o seu querido netinho.
E eu conheço muito bem aquele menino de outrora. É hoje um homem muito honrado e de bem com a vida.
Chama-se é Grifo! Como aquelas aves necrófagas e de exponencial figura.

 Nota: Eis um homónimo do meu caríssimo conhecido.

Mas numa outra localidade nasceu também uma menina. Bonita como só ela. Rosada e gorda de fazer inveja às outras mulheres, de uma região também rural do nosso pequenito porém encantador país. E Ana era o nome que se lhe haveria de chamar. Seria Ana, tal como a sua avó materna. E aquele nome era por si só, um nome muito auspicioso. E mais, se a criança seguisse os passos da sua avó Ana, seria uma mulher muito válida, honesta e muitíssimo determinada. Teria também… muito pelinho na venta. É que a avó dera ao mundo doze filhos escorreitos, para não se falar da meia dúzia de nados mortos. E Ana, a criança, também seria registada. Só que pelo seu pai, que ficara mesmo muito contente com o facto de ter sido pai! E à pergunta do registador sobre qual o nome escolhido, o homem rejubilante respondera:
“Olhe senhor… prante-lhe Ana!”
E fora exactamente esse, o nome escolhido para a rapariga. E que bem que dançava… a menina Prantelhana…!
Sugestão de leitura para esta semana: “Todos os Nomes” de José Saramago.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

E a necessidade que aguça o engenho?



Certo dia, ia eu contente e saltitante, a pisar todas as folhas de árvore que encontrava, em direcção ao meu local de trabalho, quando mesmo à entrada do mesmo vi uma senhora sentada no chão, com uma criança muito pequena ao colo. Estava muito frio e eu tive pena delas. Não lhes dei emprego, pois não tenho essa possibilidade, nem um suplemento vitalício, pois não possuo riqueza pessoal. E na tentativa de lhe minorar um pouco o seu desconforto expresso, ofertei-lhe uma moeda de dois euros. E quando a senhora viu a moeda a brilhar, levantou-se muito rapidamente e num ápice desatou a gritar. Gritava numa língua que eu não compreendia, mas que atribuí (sabe-se lá porquê), a um qualquer país do Leste da Europa.
Em dois tempos eu tinha a ladear-me, para aí outras cinquenta senhoras, cada uma carregando ao colo uma criança pequena. E pediram-me todas, pela alma dos que eu lá tenho (eventualmente), mais moedas de idêntica quantia. Eu, claro está disse que não podia, e fugi dali a sete pés, deixando cem pessoas, sem a sua esmola pedinchada.
Fiquei como é óbvio, admirada com todo aquele poder organizativo, que só pode fazer inveja, a um qualquer movimento de luta organizada. Ali não havia lugar à falta de motivação. Nem ao desencanto natural com a profissão que se trilha vai para tantos anos, e preferencialmente.
Mais tarde seria informada com detalhe sobre aquela verdadeira e muito eficiente capacidade organizativa. No que se pode designar facilmente como um Sistema Intrincado de Pedintes S.A.
E até se alugam crianças para o efeito. Discutem-se os locais “propícios ao ataque”. E deve de também haver uma legislação qualquer sobre a indumentária mais apropriada para o efeito pretendido. Eu ali fiquei advertida. E acabei por concordar com uma frase tantas vezes repetida por uma colaboradora minha, infelizmente já falecida quando me dizia: “que era o seu bom coração, o que fazia o seu marido cabrão”. Saberia ela de experiência própria?
É que vendo bem as coisas, há motivos para desconfiar daquele que se dedica a tempo inteiro à mendicidade. Eu que ouvi um dia destes um comerciante contar-me o seguinte:
Durante meses, apareceu lá no seu estabelecimento comercial, um pedinte muito convincente. De fatos rotos e encardidos e de voz débil e suplicante. E ele lá ia pedindo, não dinheiro, mas qualquer coisinha que lhe aliviasse a fome que tanto o fazia padecer. O comerciante apiedava-se dele, como é óbvio. E que diferença poderia fazer, distribuir um pouco do que felizmente tinha, com aqueles que eram menos abonados pela sorte? Ele até se sentia muito confortado em praticar o bem com os mais necessitados. Pelo que num dia, o logista podia oferecer-lhe um quilito de batatas. Num outro dia, ofertava-lhe uma quarta de azeite. E ainda noutro duas ou três peças de fruta. As ofertas não provocariam nenhuma congestão no homem, como é evidente. Mas se todos dessem um pouco... E a tudo o pedinte agradecia. E tudo levava, agradecendo ainda mais, e até à exaustão. Ou até o comerciante lhe dizer que não tinha nada que lhe agradecer, e que viesse sempre, pois alguma coisa se haveria sempre de arranjar. E o mendigo lá continuava a ir, efectuando sempre as mesmas acções.
Mas tudo mudou no dia em que o comerciante encontrou o supracitado pedinte, a entrar num ultra moderno Mercedes. E para o lugar de condutor. Ah pois foi!
Mas há pouco tempo, fui eu mesma que me surpreendi. Quando a minha confiança na humanidade já se havia começado a virar diametralmente. É que estava eu a andar alegremente pela rua (apesar da crise e do facto de estarmos no tempo da chuva. Fica aqui justificado o nome deste singelo blogue), quando me deparo com uma excelsa senhora. Toda ela ia de preto vestida, mas com muito elegância e requinte. Na mão levava também uma elegante malinha. E na camisa ela reunia um muito considerável conjunto de lantejoulas negras. Para além de todos esses artefactos, ela exibia ainda e orgulhosamente, um conjunto considerável de jóias, que até me pareceram ser verdadeiras. E pela rua, ela lá ia indo, sempre com um certo ar comprometido. Diria mesmo que ia algo afectada. Eu na minha ingenuidade natural achei que a mesma poderia estar perdida. Como aquelas pessoas que infelizmente padecem de Alzeimer. E foi com solicitude eu eu me abeirei da mesma, no simples intuito de a poder ajudar. Andei pois para ela. Ela andou também na minha direcção. Pensei que ela me iria perguntar alguma coisa. Só que, da boca da senhora, saiu somente uma frase lamentosa:
“Por obséquio, a senhora poderia dar-me uma moedinha?”
Fiquei pedrada. Então aquela seria a imagem de uma pedinte ultra-moderna, mas ainda muito pouco convincente. É que não me parece que a mesma convença assim muita gente, sobre as suas manifestas necessidades. Andar assim vestida... Pois que alguém lho diga, se ela ainda não o compreendeu.
E mais, fiquei convencida que naquela altura, a verdadeira pedinte… era mesmo eu.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Bíblia dos Pobres” de Agustina Bessa-Luís. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!