Sendo Ana uma profissional
competente dentro das suas responsabilidades profissionais, de vezes a tempos fazia
uma ou outra Formação. E pretendia-se (é certo) que desta maneira ela fosse
melhorando continuadamente a sua performance
profissional. E não eram os seus chefes quem a inscrevia em tal, eles
simplesmente mostravam-lhe as possibilidades e a Ana escolhia aquela que à
altura, ela achasse mais conveniente para si. E já haviam sido mais que muitas, as
Acções de Formação frequentadas pela Ana. Eram tantas que por vezes ela tinha
dificuldade em se lembrar se já tinha ou não frequentado uma especifica.
Naquele ano coubera-lhe a escolha
da que versava sobre: “Motivação de Equipas de Trabalho”.
Ana era responsável por várias
equipas de trabalho, já há mais de uma década. Contudo, ela acreditava que o
saber não ocupava lugar. E Ana achou que iria aprender mais qualquer coisa.
O grupo era suficientemente
heterogéneo e demonstrativo de uma realidade laboral típica da Função Pública.
A maioria dos formandos abeirava os cinquenta e tinha sempre muitas queixas. E
a culpa nunca era deles. E dois ou três deles, que eram os mais tímidos, ainda
estavam nos inícios da casa dos trinta.
A formadora, muito loura, muito
magra e muito baixa, apresentou-se como psicóloga clínica. E que psicóloga clínica,
Santo Deus! Sem problemas com a idade que o B.I. comprovava, ela orgulhava-se também
de dizer que parecia ter muito menos anos. E mais ninguém a contradisse.
E já em plena Formação, ela lá
foi comunicando sobre as diferentes fases motivacionais. Que são mais que
muitas. Motivar equipas significa ainda ser eficiente e demonstrar e realizar os
tipos de coordenação mais adequados a uma realidade concreta. E as palavras a
proferir, têm que ser sempre muito bem pensadas, antes de nos saírem disparadas
da matraca. Isso é mesmo muito conveniente. Mas disso, já Ana sabia. E desde os
tempos em que a sua mãe ou avó, lhe batiam na boca, após ela ter soletrado
algumas palavras susceptíveis de ofender a honra e os predicados dos vizinhos e demais
familiares.
E o toque. Pois o toque é
necessário entre as pessoas. E não fosse dar-se o caso de o mesmo ser
considerado cínico ou bajulador, o toque era mesmo bem-vindo nas relações
interpessoais. Sim está bem. Mas por vezes o toque é enganador, e faz-nos
pensar em situações dementes, jamais concebidas na mente atormentada de um
qualquer tocador de corpos. E Amélia uma formanda, empinou o seu nariz. E fez
cara feia.
“O que se passa Amélia?” Disse
preocupada a formadora.
“Pois eu não gosto nada que me
toquem. Para que é que me tocam? É que eu não sou nenhum cão!”
Sim, é possível que só os cães
mereçam e tenham as caricias. As carícias todas. É conveniente adoptar-mos
todos, um gracioso canito. É que as pessoas são muito ariscas. E pouco
confiáveis. Cruzes! Mas, e a Amélia? Será ela casada? Não se dará também o caso,
de ela ter sofrido muito com os toques conjugais? Parece-me bem que sim. É que a
Ana é observada muitas vezes pelas vizinhas. E com dois ou três pimpolhos. E
não consta que a mesma alguma vez tenha ocupado, uma qualquer lista de
candidatos à adopção.
Lubélia, era outra formanda.
Muito cabisbaixa e entristecida, confessou logo no primeiro dia que já ia bem era
para a reforma. Tendo somente cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, ela
já trabalhava desde os dezoito. Além disso até já era avó. E muito ela gostaria
de ir para casa, tomar conta do seu querido netinho!
Com o decorrer da formação,
Lubélia deu em confessar outra coisa muito desconcertante. Tinha uma depressão
ia já para cinco anos. E sofria de bulling
no seu local de trabalho. Tudo porque certa vez, ela havia sido intempestiva e
tratara mal uma colega. Com muita raiva à mistura. Mais tarde reconhecendo aquela
sua má acção, ela pediu desculpas à outra. E aparentemente a colega até aceitou
o pedido. Contudo a partir daquela data começaria a gozar permanentemente com a
arrependida. E fazia-o de tal maneira, que era impossível para a agora formanda,
conseguir continuar a ser uma boa profissional.
Psicóloga era somente a
formadora. Ana era de outras áreas. Contudo Ana também era assoberbada quanto
baste. E ao aperceber-se daquela malévola situação, logo aconselhou:
“E porque é que a Lubélia não
goza com ela também?”
Mas este conselho foi rebatido imediatamente
pela formadora. É que não se pode responder ao mal com outro mal. Pois assim só
se ia conseguir “mal ao quadrado”. “Certo”, pensou Ana. Mas era bem pior ver
ali aquela mulher cabisbaixa, sem saber defender-se e a padecer com as atitudes
parvas da colega. “Era então melhor não fazer nada?”, Formulou Ana. “Não”,
respondeu a formadora. “A atitude tem que ser outra. E concertada”.
Diz então a depressiva: “É que
até o meu chefe diz que eu sou muito brusca!”
Ana não se conteve e continuou: “E
o seu chefe? Ele também goza consigo?”
“Gozar, não goza, contudo é
conivente de alguma maneira com a outra gozona de serviço.”
“E porque é que a senhora não diz
ao seu chefe que ele cheira mal dos pés?”, Disse a espevitada Ana. Obteve-se
uma peculiar risota, e as palavras de contenção proferidas pela clínica muito cool. “Isso seria muito perigoso de
afirmar. Podia até lhe dar despedimento”. Diz a loira. Contudo era bem pior,
eternizar-se aquela situação de bulling.
E podia provocar tal desconforto na vítima do mesmo, que ela poderia perigar
pela continuidade da sua própria existência. Como tem acontecido com tantas
pessoas igualmente vítimas de bulling.
Além de mais sendo o chefe
conivente com a farsante, ele também teria a temer numa futura acusação. Além
do mais, e depois da provocação do bullimizada,
ele ficaria na dúvida se cheirava ou não mal dos pés. E iria depois ao WC
certificar-se. Isso amigos, é mais do que certo. E depois quem sabe se não
mudaria de procedimentos. E abraçaria amorosamente aquela trabalhadora tão
sofrida e incompreendida. E naquele escritório a partir daquele momento,
reinaria a paz do Senhor. Ámen.
E Ana lá continuava naquilo. Aprendeu
desconcertada, que existem palavras e expressões que são proibidas de se dizer.
Muito diferentes das que a mãe lhe proibira. Agora era proibido por exemplo
dizer: “Tive muito prazer”. Essa coisa do prazer é unicamente obtida entre
casais. “Prazer é aquilo que eu obtenho com o meu marido.” Disse mais uma vez a
loira elegante.
“Ah valente!”, pensou Ana. “Esta
vem para aqui expressar-nos sobre o bom desenvolvimento dos seus jogos
conjugais. E tem ‘corpitxo’ para
‘prazerar’ durante muito mais tempo. Vai uma aposta?”. Pois ali ficou mais ou
menos decretado, que ninguém poderia expressar o prazer sentido, em ouvir uma
belíssima área musical. Ou deleitar-se prazerosamente com uma fruta sumarenta. Ou
mesmo sentir um orgasmo nas pupilas gustativas, ao saborear um belo copo de
vinho. Não senhor. Tem-se gosto. Tem-se muito gosto. E quando numa conversa (já
mais para o final), a pessoa quiser expressar o seu contentamento, também
terá que dizer:
“Tive muito gosto em conhecê-lo,
caro senhor. Ainda mais porque o senhor, também não cheira mal dos pés”.
E o outro responderá: “O gosto
foi todo meu”. E depois darão um casto e muito inocente aperto de mão. É desta maneira
que se descartará para o futuro, a possibilidade de acções libidinosas a
acontecer entre aqueles dois seres, apesar de tudo, aparentemente muito
satisfeitos com a vida.
Aprendeu-se também que jamais se
poderá referir a siglas, numa conversa telefónica como: “C de cão, S de sapo, q
de quáquá”. Isso é uma coisa considerada muito ridícula. E susceptível de
causar até, um enorme embaraço diplomático. Temos pois que usar os
nomes de países. Isso sim amigos, é que é fino e muito elegante. Assim teremos:
“C de Canadá, S de Suécia e Q de Qatar”. “Ah pois é!” Pensou Ana. Desta maneira
faremos bonito. Só temos é que esperar que os todos os nossos interlocutores futuros,
saibam exactamente como se escreve… Quatar. E que a tal letra não se transforme involuntariamente em “C” ou mesmo em
“K”.
Ao referirmos assim o nome dos
países, não só demonstramos que temos muitos conhecimentos do Mapa Mundi, como até poderemos dar a impressão
de que somos pessoas muito viajadas. Falar desta maneira dos países! Com tanta
propriedade! E ao agir desta maneira tão assertiva, é mais do que certo, que
jamais sejamos vitimas de bulling. Mas
quem é que se atreverá a gozar connosco? Além do mais, ainda poderemos dar a
impressão de estarmos a jogar aos “Países Países”, das nossas alegres
infâncias. E o nosso receptor, do lado de lá do telefone, sentirá por nós uma
admiração muito profunda.
Ana aprendeu muito naquela
formação. E ficou ciente de que existe mesmo muita gente diferente dela. A
pensar em coisas que a ela jamais havia pensado. Assertividade é necessária,
quando se dirigem equipas. Mas também são necessárias, muitas outras coisas
mais.
No fim da formação, a Lubélia depressiva
agradece emocionada à loira formadora. Aquela acção havia-lhe como que mudado a
vida. A formadora que avaliasse a forma como ela agora estava vestida. E que
verificasse in loco as cores garridas
com que ela agora mascarava a fácies. Nada a ver com o passado. Passado tão
recente de há dois ou três dias atrás. Ela agora considerava-se uma outra
mulher. E abençoada fosse a Formação. Até pode ser, que já não tenha que dizer
ao chefe, sobre o cheiro fétido que lhe sai dos pés.
E a finalizar a Formação, toda a
gente a dizer que aquilo deveria de ter durado muitos mais tempo. Teriam assim
aprendido muito mais! Ana por seu turno mantinha-se calada. É que para ela, se
aquilo tivesse durado metade, já era muito. Mas há sempre opiniões díspares. E
por isso é que nem toda a gente gosta do Passos Coelho. Que é um ser tão
maravilhoso. Sempre tão preocupado com o nosso conforto. Com o nosso futuro e
de quem se nos segue.
E foi só após um formando que era
arqueólogo ter saído (mais cedo devido à greve dos comboios), é que a formadora
disse a sua mais brilhante e lustrosa pérola:
“É que eu nem sei para que é que
existem arqueólogos. Não era melhor deixarem tudo como está, muito lá em baixo,
ao invés de andarem para aí, sempre a esburacar o solo?”
E foi desta maneira gloriosa que
Ana saiu da Sala de Formação. Restabelecida com a vida, porque recuperara
finalmente a sua preciosa liberdade. E ficou também a acreditar, que às vezes os
choques eléctricos ainda fazem muita falta. Para aplanar conteúdos que proferidos dão
todas as sensações. Menos a da motivação.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Tempos de Esperança” de Pedro Beltrão.
DIVIRTAMSEMAZÉ!






