Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 26 de abril de 2014

Representações...



O local era espantoso. Situado exactamente no centro da freguesia, era frequentado por uma parte muito considerável da sua população. E no estabelecimento guardavam-se e emprestavam-se livros. Muitos livros mesmo. A sua coordenadora, tinha a sorte de poder disponibilizar a todos,  livros, das mais variadas temáticas. E disponibilizá-los mesmo... a toda a gente, independentemente do seu estrato social, religião, situação económica, etnia etc, etc. Também e afortunadamente, o espaço era muito frequentado por quem ali gostasse de ler e de computar. E a utilização daquele espaço tinha vindo a crescer progressivamente.
E disponibilizava ainda, um vasto leque de actividades ligadas à animação. Preferencialmente para os mais pequenos. Além do mais, dispunha ainda de um excelente espaço, muitíssimo agradável para as crianças, onde não faltavam também computadores, jogos, CD Rom’s, CD Áudio. E livros, muitos livros. E para completar e dar ainda mais charme, também lá não faltavam, vários e muito atractivos brinquedos.
Ora como toda a gente infelizmente sabe, a partir de 2008 a palavra de ordem foi: poupar. Poupar em tudo. Usando medidas de austeridade que desafiaram até os menos ousados. E foi a partir de certa altura, que uma das expressões mais apreciadas e aconselhadas no meio era: “fazer actividades a custo zero”, usando-se para isso e necessariamente a chamada “prata da casa”. E sejamos francos, querendo muito, e tendo também alguma imaginação e background. até se é capaz de fazerem coisas com bastante qualidade. Pelo menos se atendermos às circunstâncias. É o que eu acho. A imaginação não pode conhecer é limites.
Mas naquele espaço, existiam ainda uns bonecos, que ainda deveriam ter servido, aos paizinhos dos pequenos utilizadores daquela altura. Deveriam de datar do início da existência da própria Biblioteca. Teriam então sensivelmente… vinte anos. E fora exactamente devido à idade, assim como ao seu elevado uso, que os mesmos já não conseguiam chamar muito à atenção. Adivinhava-se por isso, que quando os mesmos eram novos, deviam de ter vindo todos muito vestidinhos e bonitos. E muitíssimo bem cheirosos.
Só que o tempo passou, irreversivelmente. E as roupinhas, essas foram desaparecendo. Lavadinhos eram eles, todos os anos, mas… Pelo que a dada altura era ver montes de bonecos, uns em pano, outros com as entranhas de borracha por cima uns dos outros. Todos a monte e a nu. E com uma tal desolação para a vista, fora uma senhora idosa, que tinha a incumbência de limpar aquele espaço, quem lhes ia fazendo umas cuecas. Evitando desta forma que os bonecos estivessem para ali a mostrar “as suas vergonhas”. Ela que fazia a tal lingerie, somente no seu tempo livre. Necessariamente em sua casa. Fora desta maneira, que os tais bonecos ficariam muito parecidos com as pessoas, mas em épocas estivais. Quer fosse Inverno, quer fosse Verão. Mas o tempo passou e a bondosa senhora também ela se reformou. E até as cuecas que ela tão laboriosamente havia feito, foram progressivamente… desaparecendo.
Mas por obra do acaso, fez-se uma descoberta interessante. Descobriu-se assim que uma colaboradora daquele espaço era suficientemente prendada. E a dada altura, mostrou saber e teve interesse em vestir todos aqueles bonecos. A curiosidade estava no facto daquela colaboradora ser uma mulher muito moderna. Muito pró alternativo. Assim e desta maneira, ela não teve qualquer pejo em pegar em meia dúzia de lãs de cores diferentes e ainda de três ou quatro agulhas, e desatar a fazer calças, vestidos, boinas e coletes. E que belos modelitos saíram assim das suas mãos! Em tamanhos reduzidos, claro está, para aquele efeito. Então era vê-la de sorriso no rosto e na hora do serviço, (e enquanto não havia gente para atender), ali ao público e a fazer tricot. E como aquilo chamou à atenção, senhores! E que “belos” e depreciativos pensamentos não devem ter sido produzidos em doutas e muito bem informadas cabeças, para classificar a bibliotecária responsável por todo aquele espaço?
Mas foi assim, e quase que por magia, que aqueles tristes bonecos de outrora, ganharam uma nova existência. E também um interesse redobrado e uma singular preferência, por parte de toda uma série de olhos infantis.
O pior de tudo, foi quando o filho da “tricotadeira” a viu. Era já ele um universitário. E muito bem-sucedido aluno. Foi quando ele ficou muito triste, ao dar de caras com a sua mãe, naquela figura. Não porque ele achasse que aquela acção lhe ficasse propriamente mal. Ali, ele nunca a vira naqueles preparos. Mas farto estaria ele de a ver assim lá por casa. O que ele não apreciou mesmo nada, (e fez questão absoluta em o verbalizar) foi assistir ao facto, da mãe estar ali a fazer um vestidinho debruado, a um boneco com quem ele havia brincado tanto no passado. É que aquele boneco, senhores… era um MENINO e não uma menina. E chamava-o... de Zé Gabriel. Pois…
Ora como ninguém deve ser preconceituoso, eu tenho a firme convicção de que aquele espaço, ficou muitíssimo mais atractivo. E a partir daquela altura, passou a contar com a representação de um muito atraente travesti. Ali mesmo, naquela utilíssima… Biblioteca Pública.
Sugestão de leitura para esta semana: “Orlando” de Virginia Woolf
DIVIRTAMSEMAZÉ!





sexta-feira, 18 de abril de 2014

Se o velho pudesse e o jovem quisesse, não haveria nada que não se fizesse.



Claudina tem trinta e picos. Meã de altura quando comparada a uma nórdica, ela orgulha-se de sempre ter tido um bocadito de peso a mais. Mas não muito à que convir. É só o suficiente, para lhe permitir chegar às lojas e falar em números um bocadito maiores do que a sua própria idade. E se o seu físico já fez torcer o nariz a alguns "jovens" da sua idade, junto aos mais velhos ela sempre teve as melhores aceitações. “Ah cachopa, tu tás tão jeitosa!” Ouviu ela sempre e junto dos mais rugosos. Ao que ela modestamente baixava as vistas, aceitando assim e definitivamente aquele veredicto insofismável.
Certa vez fora mesmo o vizinho da sua mãe. O homem tinha já para lá de setenta anos. Era viúvo e até algo pacato. E quando a avistou e achando-a descomprometida, (é que o diacho da cachopa não havia meio de desfilar lá na Praceta com alguém), se abeirou da mesma e assim como que à queima-roupa se lhe dirigiu:
“O mundo só pode estar perdido, mazé! Tu aqui sempre sozinha rapariga! Sozinho, também eu estou. Só que eu já sou velho. Agora tu? Mas que raio de coisa. Sabes uma coisa catraia: eu por ti, ia ao fundo do mar e vinha se tu precisasses”.
Claudina ficou muito ensimesmada. Ela que até havia conhecido a falecida. Que até há tão pouco tempo, ainda gastava os cotovelos no postigo da janela. A quem depois dera uma travadinha que a fizera ir repousar lá para o cemitério. Se calhar, ela ainda era bem capaz de estar quente. E o vizinho ali, já a tentar a sua sorte. Que isto é um bocado como quem atira o barro à parede. Existe a probabilidade do mesmo cair. Mas se o barro lá ficar… Só que Claudina pensou (também ela era detentora dessa característica), e achou que era melhor não aceitar o convite. É que nem ela queria correr risco de vida. Nem desejava que o vizinho se matasse com o mergulho. E as suas vidas lá prosseguiram sem maiores dramatismos.
E era desta maneira, que a Claudina sempre contara com a corte de outros tantos velhotes. Calhava-lhe assim. Não tinha ainda era cedido à tentação. E quando os mesmos já haviam enviuvado, a coisa até se resolvia. Era não lhes ligar e pronto. O pior era quando ainda existiam as Mariazinhas. É que essas ao verem o fogaréu dos seus “santinhos”, se punham para ali, muito revoltadas a rogar pragas, e a "coser na casaca da gostosona". E a pobrezita que estava para ali, sempre tão inocente… Que as velhas bem podiam dormir descansadas.
Mas o melhor aconteceu quando Claudina teve que acompanhar o seu querido padrinho a uma festa. A festa que até seria maioritariamente frequentada pela camada mais idosa da população. Era assim um encontro de funcionários (reformados e no activo) de uma empresa portuguesa. Mas nesses acontecimentos regista-se de forma bastante considerável, muita presença de ex-funcionários. A festa costuma ser aberta a todos, claro está. Contudo era previsível que os funcionários que ainda estivessem no activo, não tivessem grande interesse em rever os seus colegas. Nem mesmo daqueles “que mamam” com resistência, as tetas entumecidas da Caixa de Previdência. E que por isso mesmo, são seres bastante odiados pelo “nosso querido” Governinho. Os funcionários no activo, pressupostamente, vêm os colegas todos os dias. E em relação ao sentimento que os liga aos velhos? Pois não dá assim tanto azo para a existência de grandes saudades. Até será melhor que os mesmos não se vejam muito para além do que é expectável. Previsivelmente.
Só que o padrinho de Claudina já era reformado havia mais de trinta anos. E gostava muito de ir a tudo aquilo. Só que do seu tempo, ele lamentava-se que via… cada vez menos gente. Até já lhe custava muito saber das novidades, que os seus dois ou três colegas, que eram mais ou menos da sua idade, lhe iam insistindo em comunicar.
E a Claudina? Não fosse devido ao afecto puro e descomprometido que a ligava ao padrinho, ela não poria nunca lá os pés. Mas sem ela… ele não ia… Ela sabia previamente que naquelas festas ela não conheceria ninguém. Ela que nunca havia trabalhado naquela empresa. Nem iria em tempo algum, para ali trabalhar. Faltavam-lhe os conhecimentos do tal do Senhor da Cunha. E por isso e por muito mais, ela achava que aqueles encontros eram absolutamente fastidiosos. Aquilo assemelhava-se um pouco à dinâmica dos casamentos. Pelo menos dos de outrora. Só que ali, ninguém se matrimoniaria. Pelo menos no local e à vista de toda a gente.
E o Programa das Festas era o seguinte: logo de manhãzinha, entravam todos para as cinquenta e cinco camionetas. Já instalados, eles falavam em tons bastante acima dos decibéis aconselhados. Paravam depois num lugar… pra bucha. E depois noutro, que era mais para esticar o pernil. Mas no bom sentido obviamente. No que será menos… definitivo. E só depois disso, é que eles iam para um local, preferencialmente a dez mil milhas de distância da povoação mais próxima. E era ali que começava a verdadeira festa. Sentavam-se todos nas mesas combinadas e comiam para cima de cinco ou seis pratos. E bebiam muito vinho. Nos intervalos (e se conseguissem) eles voltavam a falar dos tempos do antigamente.
A seguir a tal “combíbio”, um grupo musical desafinado, desatava para ali, a esgrimir emoções. E que lindo que aquilo era! Os “velhos”, já bem quentinhos decidiam-se a ir dançar. E depois era ficar para ali, a assistir ao desempenho funesto nas artes cénicas, por parte da antiguidade. Onde não faltavam, os velhinhos muito garbosos e encerados. Uns com o cabelinho bem ralo e fatos a preceito. Outros, assim mais… para o desportivo. As velhotas é que iam sempre bem. Cheias de joias e com muito batom. Mesmo nos dentes da frente. E com as faces bem rosadas por sopuesto..  E como eles todos dançavam Santo Deus! Até mesmo os coxos. Usando-se assim das mais variadas coreografias.
Inicialmente a Claudina ainda se punha para ali a olhar. É que dançar ela não dançaria. Definitivamente. Mas depois fartou-se. Ela começou a achar que aquilo também era… sempre muito igual.
Com o continuar da frequência de tais festas, ela começou por levar uns livros, umas revistas e até o Tablet. Também já havia andado a roubar flores. E até já lá escrevera alguns dos melhores posts, para um dos Blogues da Concorrência. É que havia de se passar o tempo da melhor maneira possível. E como as festas se davam em grandes Quintas onde por vezes até existiam… Parques Ajardinados…
A seguir ao baile, havia o tal do lanche ajantarado. E a finalizar as hostilidades aquele grupo cantava com muita emoção o hino lá do sítio. E depois? Era finalmente o tempo das despedidas, com muitos abraços e beijos. E promessas (algumas que lamentavelmente ficariam por cumprir) de regressar.
Ora foi numa dessas festas e naqueles momentos finais, que Claudina conheceu o auge do seu protagonismo. Passeava-se ela por entre as mesas rumo ao exterior, a fim de respirar um pouco de ar menos carregado. E secretamente, ela já dava graças de tal festa estar quase a chegar ao terminus. Envergava com desenvoltura a sua querida boina castanha. E maneava a preceito as suas coxas roliças. Eis se não quando, um velhote que ela não conhecia de lado nenhum, se dirigiu a ela desta maneira: “Mas que mulher tão bonita você é!” Claudina estanca rapidamente o seu movimento. Pensa um pouco naquilo que acabou de ouvir, e atreveu-se a responder:
“O senhor desculpe esta minha falta de modéstia. Mas por aqui essa realidade até costuma ser evidente. É que regra geral eu acabo por ser sempre das mais novas…”
“Não, não”, respondeu-lhe o idoso: “A senhora é mesmo bonita. E belezas como a sua não costumam abundar, nem por aqui nem por lado nenhum.”
Claudina achou que tinha o dia ganho. É que é sempre gratificante receber um elogio. Era evidente, que ela não tinha assim grande responsabilidade sobre a sua beleza. Afinal herdara-a. A resposta estaria mais nos genes e pronto. Ela tinha maiores culpas era na beleza do seu caracter. Que era inquestionável. Agora em relação à fisionomia…
E quando Claudina sorrindo à clara investida, se preparava finalmente para deixar aquele espaço, foi finalmente surpreendida pela mais recente intenção do idoso senhor. Quando o mesmo lhe disparou:
“Olhe, eu aproveito para me apresentar, e também dar-lhe a conhecer estes meus oito queridos amigos. Este aqui é o S. que é dono de um supermercado com muita clientela. Este aqui é o C. tem a vantagem de ter muitas Acções daquelas que dão algum dinheiro, mesmo nos tempos das… “vacas magras”. Este aqui é o E. é ainda agente comercial eu não sei de onde. E tem também uma bela reforma. Estes dois são sócios. Exploram com muito sucesso três estações de serviço. Este aqui é…”
E a Claudina conheceu assim e de uma assentada, nove vigorosos senhores. Muito garbosos e fundamentalmente muito bem de vida. Pelo menos era o que parecia. E quem é que no seu perfeito juízo (e com a crise que se atravessava), se recusava a aceitar a proposta de um dono de um Supermercado? Ou a dos proprietários das tais Estações de Serviço? Ou seria que eles já estavam todos bêbados e no dia seguinte já não se lembrariam de qualquer… Acção? Claudina contudo, dispôs ali, da admiração de todo um manancial de nove verdadeiros “pedaços de mau caminho”. Só que não escolheu nenhum.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Força da Idade” de Simone de Beauvoir.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Com uma excelente e gratificante Páscoa.



sábado, 12 de abril de 2014

Troca por troca.



Para quem gosta de ler, é impensável imaginar alguém, que passe pela vida sem jamais ter recorrido à companhia gostosa de um livro. Eu vivo e trabalho no meio deles. E chegada a casa, lá estarão outros à minha espera. Pois haverá felicidade maior? E no meio deles, sendo eu sua fiel guardiã já assisti a muita coisa, mas hoje inicio-me a recordar um episódio bastante comovente.
Foi numa visita guiada a este “meu” espaço, consagrado à presença maioritária de livros. E nela, eu tive oportunidade de conhecer um grupo de crianças muitíssimo irrequietas. As mesmas vinham mesmo muito agitadas. Tanto era assim, que a todo o momento as pessoas adultas apelavam à paz e à tranquilidade. “Que tivessem paciência e se portassem bem.” Repetiam tentando assim mudar-lhe radicalmente o comportamento. E se no primeiro minuto a coisa lá acalmava, passado pouco tempo a coisa regressava à confusão. Se não a pior. Pelo que os apelos à calma lá continuavam ad eternum.
E seria já no meio de algum desespero, e assumindo claramente o seu evidente mal-estar, que uma auxiliar de educação, falaria à “sua” prole nos seguintes modos: “Vocês não sabem a sorte que têm! Poderem assim usufruir livre e gratuitamente estes espaços. Tão bonitos e preciosos. É que quando eu tinha a vossa idade eu gostava muito de ler, só que não tinha a oportunidade de o fazer pois não tinha livros. E também não tinha a oportunidade de frequentar estes espaços. Desconheço até se os mesmos… existiam. Lá na minha aldeia eu sei que não.” E no fim, aquela senhora já cinquentona, estava a chorar. Eu e mais as crianças, olhamos atónitos para ela. E o que é certo, é que o comportamento dos meninos e em consequência, mudou radicalmente. Para melhor.
É certo que a leitura nos dias de hoje está democratizada. E hoje em dia, só não lê quem não quer. As Bibliotecas Publica estão aí e recomendam-se. Sempre muito desejosas de receber mais, sempre mais pessoas. Nós profissionais da área, ficamos mesmo muito contentes de fazer cartões para novos leitores. E eu, particularmente “faço sempre uma grande festa”, quando aumentam os níveis de empréstimos de livros. É por esse motivo mesmo, que eu apelo e chego a sugerir leituras, usando-me de toda a minha modéstia para constatar que tanto me falta para ler. E depois disso, pelo-me por ouvir as opiniões dos outros leitores sobre aquilo que leram.
Mas nem é só nas Bibliotecas Públicas que se apela à leituras. Muito mal estaríamos se assim fosse. E num dia eu soube de uma iniciativa muito curiosa que se passava num Hostel situado lá para o Bairro Alto. E era neste estabelecimento durante um certo dia, que se promovia e incentivava a troca de um livro… por um copo de vinho. Nem mais. A ideia era basicamente a seguinte: o leitor levava um livro e recebia em troca deste, um copinho da bebida de Baco. O que se pretendia assim era alicerçar o prazer conseguido com a leitura de um livro, com o prazer obtido através da degustação de um bom copo de vinho. E depois ficavam por ali um conjunto de livros que poderiam ser lidos e trocados por outros que tais.
E se ler é maravilhoso, degustar um belo copo de vinho também não lhe fica atrás. E até é ponto assente que o vinho quando bebido com moderação até consegue ter fins terapêuticos. O mal estará no seu uso exacerbado e em excesso. É também certo e sabido, que quando um leitor qualquer bebe demais, é bem capaz de começar a trocar as letras de lugar. E inadvertidamente fazer desta maneira… outras leituras. Mas a ideia a meu ver, até seria muito boa. Assim promovia-se não só um espaço, mas também se defendia e aconselhava a leitura. E estou convencida que também eu, era bem capaz de ali ir beber um belo copo de vinho.
Mas um ano destes aconteceu uma coisa (num dos espaços que é da minha responsabilidade), que a posteriori me fez rir a bandeiras despregadas. E fez sorrir somente, algumas das pessoas que comigo trabalham. Que são bastante mais comedidas do que eu. Tudo porque num dia particularmente invernoso, quando Ana a técnica muito solicita e competente se preparava para encerrar o espaço. Quando ultimava assim os preparativos para que no dia seguinte estivesse tudo na mais perfeita ordem. Justamente quando da torre da igreja se ouvia o relógio, que dava solenemente as seis badaladas, que assola à porta da Biblioteca, a cabecita de um ser muito idoso e andrajosamente trajado. Do sexo masculino. E o mesmo disse-lhe:
“Oh menina. Eu acho que me enganei. Estou mesmo convencido de que acabei de me enganar.”
A Ana olha atenciosamente para o senhor e pergunta-lhe calmamente o que é que ele poderia desejar dali. Acto continuo, o senhor olha para ela, para toda a sua solicitude e depois para o espaço. E continuou:
“Sim eu acho que me enganei mesmo. Vocês aqui não têm vinho, pois não?”
A Ana primeiramente ficou algo perplexa, depois ficou com alguma vontade de rir mas conteve-se. Naquele espaço, já lhe haviam feito imensas perguntas. Sobre as mais variadas temáticas. Contudo nunca por nunca a haviam confundido… com uma taberneira. E respondeu:
“Pois senhor: vinho exactamente… nós não temos. Temos é livros que falam sobre vinho. Agora o próprio, não.”
O senhor, arrepiou caminho. Pediu humildemente desculpa pela intrusão que não aconteceu. Afinal a Biblioteca Pública é para todos, independentemente de credos, cultura, etnias ou posição social. E o homem seguiu necessariamente para outras andanças. Ana ficou sem saber se a procura do vinho prosseguiu por outros locais. O mais certo é que sim. Pois que não houvesse confusões. O que aquele homem queria mesmo era beber. E a leitura, não fora em momento algum, congeminada. Pelo menos ali.
Sugestão de leitura para esta semana: “Vinho e Pão” de Ignazio Silone.



 DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Crescei e multiplicai-vos (já em pleno séc. XXI)



Verinha é uma criança intrépida. Sempre o foi. E que ninguém lhe fale em bonecas e em laços. Muito menos em casinhas ou carrinhos de bebé. Todas essas matérias, a Verinha detesta. Literalmente. Nem sequer suporta livros e filmes com Histórias de Encantar. Quem a conhece, sabe que para ela, será sempre uma blasfémia ouvir e reproduzir histórias como a da Bela Adormecida. Ou então a da Cinderela. E se a sua dedicada mãe lhe transmitiu um dia, que seria conveniente que na época do Carnaval, ela fosse vestida de princesa, a Verinha refilou. Ná! O que ela queria mesmo, era poder ir vestida de Homem Aranha. Ou então de Angry Bird (como aquele que é azul e que no seu expoente máximo se consegue subdividir por três). Só que a mãe? Népias. Não condescendeu nem por nada. É que há um limite para tudo, dizia. E então escolheu para a filha a fantasia de Branca de Neve. Assim e a seco. Contra os factos, a Verinha ficou sem argumentos. E isto apesar de jamais ter sentido em si, o peso da mão da mãe. Também era só o que lhe faltava! E se então era de Branca de Neve que a mãe queria, pois que assim fosse. Só que no tal processo negocial, a Verinha apresentou-lhe três condições. A saber:  Primeira, que não levava nada na cabeça, nem coroa nem laços. Segunda, iria sempre (mas sempre), com as calças de fato-de-treino por baixo. E por último, que iria de ténis, mazé!
E depois, quem quis divertir-se um pouco, era ir ver a Verinha, de vestido cor-de-rosa, com um ar absolutamente furibundo. Com as mãos por debaixo dos braços e sentadinha de perna aberta. E sem a companhia de um qualquer anão. Constituindo-se assim numa Branca de Neve muito p’ro alternativo.
A par de toda esta forte personalidade, a Verinha jamais desejou ser filha única. Isso sempre esteve fora dos seus planos de vida. E por isso, fora desde muito cedo, que ela replicava aos seus pais pela existência de mais um mano. Só que o preferia varão. Essa era aliás uma condição, muito mais vantajosa para si. Não só porque lhe faria companhia, como poderia até ser o seu fiel seguidor. Previsivelmente, ele compreenderia muito melhor, as suas preferências mais ligadas às áreas da reinação. E que belos desenvolvimentos se conseguiriam, com a acção concertada daquela dupla tão desejada! A Verinha, que sempre soube como é que as crianças eram conseguidas. Para ela nunca houve cá histórias de cegonhas, nem de sementes por regar. Nem outro qualquer devaneio fantasioso. Ela sabe (e sempre soube) como é que o tal acto se pratica.
A mãe ouvia-a naquela sua replicação e lá foi concordando com o projecto filial. E se inicialmente, ela até não mostrasse ter grande vontade de voltar a ser mãe, passou a achar que até poderia mudar de ideias e satisfazer assim a vontade da Vera. Só tinha era que continuar a ir era aos treinos. E a acertar na baliza por mais uma vez.
Mas sempre lá ia avisando a filha. O mano até se poderia arranjar. Só que poderia ser… era uma mana. É que, nem a mãe (nem ninguém) poderia garantir que se conseguisse assim um rapaz. Logo à primeira. A Verinha ouvia tudo aquilo muito atentamente. E depois condescendia. Era certo e sabido que ela gostava muito mais que fosse um mano. Mas se fosse uma menina como ela… enfim… também poderia estar bem. Elas as duas lá se haveriam de entender. Verinha sabia que tinha o poder supremo da persuasão. E quem sabe se a sua mana, não viria também a gostar das mesmas coisas que ela? Só tinham mesmo era que combinar tudo muito bem. Mas o tempo lá ia passando. Veloz e irreversivelmente.
E foi num dia em que Verinha estava mesmo a ver, que o seu desejo nunca mais se realizava, e que o seu mano não havia meio de aparecer, que ela destemidamente (e quando contava somente quatro anos de idade), se chegou ao pé do pai e lhe disparou:
“Ouve lá. Mas de que é que tu estás à espera? Quando é que tu fazes, o meu mano na mãe?”
E passados os meses da praxe, apareceu-lhe uma Soraia.
Sugestão de leitura para esta semana: “Fogo na Noite Escura” de Fernando Namora.
DIVIRTAMSEMAZÉ!