Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Machu Picchu.

Há uns anos fui ao Perú. Fui ao Machu Picchu e adorei. É verdadeiramente um lugar mágico e singular. Sem darmos conta, fazemos parte integrante de um cenário que é indiscutivelmente um lugar de sonho. Na nossa cabeça e ao olharmos para aquilo formam-se várias questões. Como é que foi possível a construção daquelas cidades? Naquele lugar tão ermo e de difícil acesso? Perguntamo-nos nós a todo o momento. Como é que foi possível, o transporte de pedras tão grandes e pesadas para ali? Sem a utilização da roda? Como é que aquelas construções (e passados tantos séculos) ainda ali se encontram de pé e em tão bom estado? Aquelas construções foram de tal maneira bem feitas, que mais parece que os seus habitantes foram dar uma viagem em conjunto, mas que devem de estar quase, quase a chegar. E quando chegarem vão acabar de construir as suas casas, colocando-lhes finalmente o telhado.
Eu tive a sorte de lá ter estado. Ter vivido e sentido toda uma série de momentos que eu jamais esquecerei. E vivi ali um dos mais felizes momentos da minha vida. Não. Não vivi lá nenhum grande amor. Também não foi lá que me apaixonei perdida e irremediavelmente. Naquele local eu também não ganhei o Euromilhões. (Lá eu não vi reunidas as condições necessárias para se proceder à extracção das bolas numeradas). Simplesmente eu estive lá, vivi e senti de uma forma muito intensa toda aquela realidade. Foi já há alguns anos. Fui na companhia de um grupo de pessoas. Que eram muito simpáticas na sua grande maioria. E repito: adorei lá ter estado.
Durante a manhã tive oportunidade de, e durante um bocado, ter trilhado alguns dos percursos, percorridos no passado, por todos aqueles que em tempos bem remotos para ali se dirigiam a pé. Caminhos que ladeavam a montanha e ficavam situados em elevadas altitudes. No seu percurso existem grandes ravinas. Era pois muito conveniente...  não tropeçar. E depois há sempre todas aquelas pessoas a quem  faz muita impressão as grandes alturas e que ali iam, mas mais ou menos de olhos fechados. Parece-me que tal situação e atendendo às circunstância será... muito pouco recomendável. Poderá ser bem pior a emenda que o soneto.
Também tive oportunidade de percorrer outros caminhos vários incluídos naquela importantíssima estação arqueológica. Contudo foi à tarde que vivi ali os melhores momentos. 
Com toda a liberdade do mundo eu entrei novamente naquele espaço. Levava vestida uma daquelas capas de plástico transparente, pois haviam-me assegurado que à tarde iria chover. Ainda andei por ali um pouco sem chuva. Contudo e passado pouco tempo começou a choviscar. A chuva estava prometida. Durante algum tempo eu achei que poderia ser possível, continuar a minha caminhada pois... e uma vez que tinha a tal capa... Mas a chuva continuava a cair e era cada vez mais forte. Para me proteger e continuar ali por mais algum tempo, recorri ao abrigo de uma cabana com telhado de colmo que ali estava. A referida cabana era dotada de um grande banco de madeira colocado a todo o seu comprimento. Ao aproximar-me verifiquei que já lá estavam sentadas umas vinte pessoas. Mas com boa vontade as mesmas encolheram-se um bocado e arranjaram também um lugar para mim. E foi assim que eu tive oportunidade de vivênciar um espantoso "espectáculo" da natureza ao lado de pessoas da mais variadas proveniências. Pessoas que naturalmente eu não conhecia de lado nenhum. Notei ali presença de alguns norte-americanos, franceses, brasileiros e peruanos. Mas havia lá gente de todo o lado. E foi isto que eu vi:

Na base da montanha, começavam-se a formar densas nuvens. No céu estava um arco-íris. E nós ali. Mas a a "coisa" prosseguia.

Nós esperávamos que a chuva parasse. Ela era contínua. Mas nós estávamos protegidos na cabana. Depois da chuva, começou a subir uma grande nuvem desde a base.


E a densa nuvem começou assim e lentamente a elevar-se. Sempre a elevar-se. Desta feita a montanha tendia a ficar toda encoberta.

E o espectáculo continuava.

Não dava tréguas. As nossas bocas tendiam a ficar cada vez mais escancaradas. E os nossos olhos ficaram com muita humidade. Alguma proveniente das nossas bolsas lacrimais.

Ficámos sem ver nada. Por uns momentos eu pensei que ali poderia ser possível o regresso do D. Sebastião. Estava era um bocadinho fora de mão. Assim como direi? Um "niquinho" longe de casa. Bem, mas ele havia tido muito tempo para fazer grandes andanças... Contudo... e lamentavelmente ele não veio. Nunca vem. E passados alguns anos, quem veio... foram os homens da Troika. Que não se perderam por Macchu Picchu... Infelizmente!

Mas eis senão quando, a nuvem subia para a atmosfera enquanto que o restante nevoeiro  se começara a dissipar. E no céu formaram-se três belíssimos arco-íris.

Lindo não? No fim ficamos para ali a falar daquilo nas mais diversas línguas. Aquilo mais parecia a "Cabana de Babel". Aparentemente ninguém se entendia. Mas ali isso não tinha a mínima importância. É que havíamos presenciado a um belíssimo momento que nos iria acompanhar até ao final dos nossos dias. Tenho a certeza disso. Quanto a mim eu revelo que, muitas vezes e nos dias em que me encontro menos bem (que felizmente têm sido muito poucos), eu tenho a tendência de relembrar-me... daquela magnifica tarde. No fim de tudo aquilo, tínhamos mais uma vez a magnifica montanha (mas desta vez descoberta), à nossa frente.

Recordo ainda que enquanto estava a chover, caminhava por ali e pacientemente (sem revelar particulares preocupações), uma família peruana bem numerosa. Escusado será dizer que a mesma ia literalmente à chuva. Eu ao ver aquilo perguntei-lhes: "Mas o que é que vocês vão a fazer assim à chuva? Venham para aqui e sequem-se um pouco. Esperem que a chuva passe." Eu confesso, não esperei que eles me respondessem. Afinal o que é que eu tinha a ver com a vida deles?  Contudo o patriarca daquela família parou, olhou para mim e disse com toda a sua paciência e boa vontade que, iriam fazer uma cerimónia (creio que algo parecido com um baptismo), ao membro mais novo da família. Esta criança também ali estava claro. E como todos os outros também se encontrava à chuva.
E continuaram o seu caminho sem me darem mais qualquer atenção. É óbvio que não tinham mais tempo a perder. Especialmente com uma cara pálida e metediça como eu. Naquele local e por alguns momentos pensei elevar-me a uma outra dimensão que não a terrestre. E naquele dia eu vivi algo memorável. Singelo e totalmente gratuito. Que não constava no que havia sido programado. Eu vivi ali algo que jamais esquecerei.
Sugestão de leitura para esta semana: "Notícias do Paraíso"  de David Lodge. 
Divirtamsemazé!!! E vivamos com muita intensidade aproveitando o melhor que a vida nos vai dando. Eu pelo menos... vou tentar. Até para a semana.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

 

A tomada de consciência das diferenças é uma das grandes mais valias de quem viaja. Se quiséssemos ver sempre a mesma coisa, não nos dávamos ao trabalho de sair do mesmo sítio. E ficávamos sempre no nosso país. Ao sairmos daqui, uma das coisas mais intrigantes, mas mais risíveis de apurar, tem a ver com as diferentes  formas de se fazer a higiene intima.
É comum nós mulheres, sentirmos umas grandes saudades do nosso "querido bidé". E pensamos: "Como é possível poder sobreviver-se sem ele? Como é que é possível não se sentir a falta da sua presença sossegada e tranquilizadora? Situado bem naquele cantinho do WC? É que o bidé nem sequer ocupa assim tanto espaço. E é tão engraçadinho e útil!...
Mas hoje a minha atenção primeira, vai para um sistema de limpeza automática incrustado na própria sanita. É claro que tal mecanismo é conhecido por muita gente, mas... eu quero aqui falar um pouco da primeira impressão que tive ao ver aquele "simpático e tão elaborado sistema".
Quando eu fui ao Japão, eu fui na companhia de uma querida amiga, a Diocleciana. E como nós nos rimos com aquilo da sanita! Aquilo era composto por verdadeiros repuxos que se esguichavam do interior do vaso sanitário. Para quem não sabe, aquilo funciona assim: A pessoa depois de fazer a sua necessidade fisiológica, tem a oportunidade de accionar um mecanismo muito elaborado. Há pelo menos três variações de repuxos, que são direccionados ou mais para a frente, ou mais para trás. Faço-me entender, não é? A pessoa é que decide. Até pode, se quiser, accionar os três repuxos em simultâneo e ter assim uma grande alegria. Poderá assemelhar-se um pouco à magnificência de um  vistoso fogo de artifício, só que... com água entenda-se. E um bocado parecido àquilo que acontecia na Expo mas sem as luzes.
Eu como pessoa curiosa e algo saloia (assumo), fotografei e filmei toda aquela actuação. Às vezes a olhar para aquilo, lembrava-me também de uma rotunda aonde eu passo todos os dias quando vou para o trabalho. É evidente que eu não me filmei nem fotografei enquanto estava lá sentada, claro! Eu sou pessoa muito decente e recatada! Contudo e já a descansar no quarto, ouvia as altíssimas gargalhadas da minha amiga. Não lhe perguntei depois o que é que ela havia estado a fazer, é claro. Mas estou convencida que a mesma se estava a divertir muito a lavar as miudezas, ou a "boca do corpo" como dizia a minha tia Alcina. E depois aquilo ainda tinha um sistema de secagem para todas aquelas partes que haviam sido lavadas. Aquilo é um bocado parecido com um sistema de lavagem automática de carros, mas em pequena escala. Só não lança é o shampoo. Eu poderia aqui falar disto durante muito tempo, mas acho que para o efeito, são dispensáveis mais pormenores.


Ouvi pela primeira vez a expressão: "boca do corpo", da boca da minha tia Alcina. Quando eu ficava a dormir na casa dela, ela fazia questão de anunciar a todos (e mais ou menos quando chegava a altura de ir para a cama dormir), que... ela ia lavar a "boca do corpo". Tal como a sobrinha, a minha tia era uma mulher recatada e  limpa. Tinha também um belo bidé e três penicos. Ela tinha W.C, contudo não dispensava a presença de um penico de barro, muito pesado por debaixo da sua cama.
Eu inicialmente não percebia patavina daquela conversa (da tal da "boca do corpo"). Em primeiro lugar, que necessidade tinha ela de notificar a todos aqueles que ali estavam, do que é que ela ia fazer para a Casa de Banho? O que é que nós tínhamos a ver com isso? Além do mais, ela fechava sempre a porta, pelo que... Bem. E se como eu no inicio pensava, se era só para ela ir lavar a boca (ou seja lavar os dentes), que necessidade tinha ela de se trancar lá dentro e de se demorar tanto? É que eu havia aprendido que o corpo humano, só tem uma boca. Que corresponde aquela abertura, que tem dentes ou dentadura lá dentro.Tem também lá dentro uma língua que poderá ou não ser afiada. E encontra-se localizada na cabeça. Mais ou menos entre o nariz e o queixo. Mas eu era uma rapariga muito inocente. E também não havia ainda a Internet para me tirar qualquer dúvida que eu tivesse.
Contudo e com a repetição de toda aquele ritual, eu fiquei a saber, que afinal a "boca do corpo" da minha tia ficava lá mais para baixo. Ficava situada numa encruzilhada. E também se encontrava geralmente muito escondida. 
Mas vamos lá reflectir um pouco. Não serão as duas partes anatómicas distintas pertencentes ao corpo? Ao mesmo corpo? Eu estou convencida que para a minha tia, não. A debaixo era do corpo, enquanto que a de cima, era da cabeça. E acredito que para ela, isso havia de fazer toda a diferença. Seriam mesmo quase independentes uma da outra. Com vida própria e autónoma.  
Mas vai na volta ela até tinha razão. É ou não é verdade que se diz que: "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga?" Pois... O corpo como a grande vítima dos desajustes da cabeça. Mas se fossemos a falar das acções da "boca do corpo" então... cala-te boca!!! Parece-me que neste jogo  poderá não haver lugar para partes... muito inocentes. Mas a minha tia era uma mulher muito religiosa, muito devota à causa do Vaticano. À causa do Santo Padre. Pelo que quando a temática da conversa evoluía e  versava tais "desajustes", a minha querida tia fazia uma cruz na boca, (mas na boca de cima), e rezava uma Avé-Maria. Eu nunca vi a minha tia fazer uma cruz... na sua "boca do corpo". rsrs.
Pena foi a minha tia não ter vivido o suficiente para ter uma destas maravilhas da técnica (destas sanitas japonesas) lá  na casa dela. Até poderia ter sido muito útil ao Senhor Prior quando ele a visitava por alturas do Domingo de Ramos. Era o momento em que o padre nos dava a todos uma singela amêndoa. E eu que sempre lhe pedia uma... amêndoa cor-de-rosa! Bem, mas eu estou mesmo em crer que se o Senhor Padre tivesse conhecimento daquela maravilha da técnica (a tal da sanita dos repuxos), poderia querer guardar as suas "vontades naturais" para quando estivesse... na casa da minha tia.
Por outra altura e quando eu tive oportunidade de ir ao Egipto, eu conheci outro "sistema de rega", das partes que estão mais escondidas por definição. Só que o mecanismo (e num fino Hotel situado na cidade do Cairo), funcionava num magnifico e muito brilhante bidé. Mas os repuxos ali, eram mesmo muito vigorosos. Também os vi e também os documentei detalhadamente. Os repuxos verticais tinham necessariamente a mesma funcionalidade que os mecanismos das sanitas do Japão. Só que mais uma vez tinham que se tomar alguns cuidados, não é? Para tudo na vida tem que haver sempre muito cuidado. Sempre muita precaução. Pelo que depois de tomadas todas as atenções devidas e mais uma vez retendo na mente os novos conhecimentos ali adquiridos, eu vesti-me convenientemente e desci para tomar a refeição da noite.
E foi quando eu me deliciava com um opíparo jantar, que o Sr. Mário (que era um senhor já com os seus cinquenta e tal anos), me segreda ao ouvido. E pergunta-me: "Olhe, nem sei bem como é que eu hei-de abordar isto, mas... a menina já teve oportunidade de experimentar o bidé?"
Eu, fiquei levemente ruborizada com o atrevimento do homem. Mas o que é que ele tinha a ver com isso? Estaria ele a imaginar-me naquela situação? Quereria ele revelar-me algum pormenor? Alguma recomendação? Algum cuidado especial? Mas mesmo assim, eu respondi. E a medo disse que: "Não!..." E aqui confesso, eu esperei o pior. E muito temerosa eu aguardei. O que é que mais dali poderia advir? É que eu não lhe havia dado assim tanta confiança. Mas de todo.
Mas o Sr. Mário deu conta da minha real atrapalhação, pelo que me revela a coisa mais inusitada, que me fez expulsar alimentos pelo nariz do tanto que eu me ri. É que positivamente, aquele senhor havia sido muito descuidado. Pelo que aproveitou para me informar que: "Olhe, então nesse caso tenha cuidado, tenha muito cuidado. É que eu já experimentei e estou aqui todo queimadinho. Até me custa a andar. E o que me está a custar estar aqui sentado! Se a menina utilizar aquilo por favor, verifique previamente... a temperatura". 
Tenho a dizer que ri mais naquela noite, que muita gente durante toda uma vida e até mais. Cuidado eu tive, pois sempre tenho. Mas na minha cabeça o Sr. Mário adquiriu para sempre o cognome de: O senhor d'Os Tomates Pelados.
A propósito desta temática a minha sugestão de leitura para esta semana vai para o livro: "A História do Pudor" de Jean-Claude Bologne.
DIVIRTAMSEMAZÉ e lavem-se bem. Mesmo por entre os refêgos. (Este também era um dos múltiplos e muito úteis conselhos da minha tia).


PS: Peço desculpa pela brejeirice, mas hoje apeteceu-me. E o sucesso que este homem fazia na Queima das Fitas? Pelo menos no meu tempo era assim.
Boas Leituras e Feliz Dia do Livro: (23 de Abril ou seja, na próxima Segunda-Feira).
BOAS LEITURAS!!!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poemando.


É usual o gosto pela poesia dar-se naturalmente na vida de uma pessoa. Creio não haver tempo definido a que isso aconteça. O gosto não se dá através da ocorrência de algum pré-aviso. Há contudo gente que nunca o adquiriu. Se calhar nunca se tentou pela sua leitura. Enquanto que outros, dizem-se amantes pela poesia desde sempre. Sempre a adoraram. Há ainda quem postule a tese de que a poesia, é a língua oficial dos deuses.
Eu, sendo a pessoa mais natural e previsível do mundo, posiciono-me no seio da maioria. Tive que aprender a gostar de poemas. Gosto e sempre gostei da palavra dita. Da cadência das palavras, do seu som. Enquanto pequena era naturalmente o som que mais me captava a atenção. Numa altura em que a real extensão do nosso vocabulário é necessariamente diminuta.
Quando era ainda criança eu lia naturalmente alguns livros onde estavam presente algumas poesias para crianças. Com rimas fáceis e engraçadas de repetir. Muito eu gostava das chamadas "destrava-línguas"! Já adolescente eu comecei a ler de tudo, mas como eu ficava particularmente tocada (mesmo emocionada), com a poesia muito sentimental e plangente da Florbela Espanca? Eu estava a viver a época das grandes paixões, dos grandes amores, das grandes "dúvidas existenciais". Quando me informei que o final da vida da poeta (acho que o vocábulo "poetiza" é actualmente considerado de reaccionário),  fora conseguido através da sua própria intervenção, ou seja, que a mesma se havia suicidado eu fiquei literalmente "arrepiada". Era a altura da minha vida em que eu apreciava muito a ideia de alguém morrer por amor. Mas morrer sem ser literalmente. Desmaiar e pronto! Alguém chorar até mais não poder, porque amava e não era correspondida no sentimento. Ter um dia ou dois de "acabrunhamento", mas... depois a coisa passava. Tinha que passar.
Como se sabe, alguns poemas da Florbela são de tal forma arrebatados de sofrimento que eu ficava na dúvida. Questionava-me se ela conhecera mais alguma coisa, para além do amor e da paixão contrariada. Deus do Céu! Eu na altura acreditava que se a tivesse conhecido (se tivéssemos sido amigas), poderia ter tentado mudar-lhe um pouco aquela "sua" obsessão. Se a tivesse conhecido poderia ter-lhe proposto (ao invés de ficarmos p'rá ali a chorar até morrer) irmos mas é comer umas sandes de coiratos e beber umas cervejolas.  E depois esquecermo-nos um pouco o género masculino. Género que era (e é), naturalmente descuidado e pouco receptivo a sentimentos verdadeiros. Especialmente quando se tem 15 anos, como era o meu caso e o caso dos meus potenciais (e distraídos), amores. Mas eu estava temerosa. E também fiquei um bocado desconfiada de que a coisa poderia não ser assim tão fácil. Poderia mesmo, acabar muito mal. Era conveniente pois cultivar uma certa calma e uma certa ponderação. É que apesar de tudo eu queria continuar a "virar frangos" por muitos e bons anos.
Ali eu já conhecia alguma da poesia Camoniana, especialmente a sua lírica. E bastante mais tarde "tentei-me" pela poesia de Fernando Pessoa. É um percurso básico, não é? Pois é, mas foi o meu percurso!
Foi ainda no tempo da Escola Secundária que eu me relacionei com um "grande amante e apreciador de poesia". Como facilmente se constata, esse meu amigo tinha conhecimentos muito mais sólidos sobre a matéria aqui citada, do que eu. Além disso tinha (e felizmente ainda tem), um excelente sentido de humor. Ora foi justamente numa fase inicial do nosso conhecimento mútuo, que apresentámos um ao outro as respectivas preferências no que toca ao "poemando". Depois e inicialmente muito em jeito de brincadeira, nós resolvemos partilhar com os nossos colegas, o nosso gosto pela matéria. Gosto que fora acrescentado com a partilha de experiências várias. Desta maneira, mostrámos disponibilidade em lhes recitar poesia. Só que infelizmente ninguém se mostrava muito interessado nisso. Ninguém queria levar com monumentais "secas", de poemas sofridos e plangentes, ditos por dois adolescentes imberbes, mas convencidos que já muito sabiam da vida, porque já muito haviam vivido. Esta situação poderia ter-se revelado, muito traumática para nós os dois. Mas nós contrariámos todo aquele processo. Era urgente reagirmos pela positiva àquela  rejeição e foi o que fizemos. Eles não queriam, mas poderia haver quem quisesse.
Foi com muita coragem e com uma imensa vontade de rir que decidimos que... estava na altura de procurar novos ouvintes para a nossa recém adquirida arte. Não tínhamos forma de entrar em qualquer espectáculo. Também ninguém estava interessado em contratar os nossos serviços, mesmo gratuitos. Pelo que, e de livro na mão, recitamos muita poesia na rua. Mas não nos limitávamos a ficar ali parados, numa esquina. Com uma caixa ou chapéu no chão à espera de uma potencial e bem merecida recompensa, não! Nós perseguíamos as pessoas que... pacatamente passeavam na rua. Sim. Nós tivemos a distinta "lata" de ir a recitar poemas atrás daqueles que sem nos conhecerem de lado nenhum, também não deveriam de ter... grande vontade em nos prestar atenção. Lembro com um sorriso bem rasgado no rosto o que nos acontecia nos dias de chuva. Queríamos espalhar a nossa arte, pelo que nos colocávamos debaixo dos chapéus de chuva das pessoas. Especialmente quando as mesmas passeavam acompanhadas. E lá recitávamos os poemas. Como não podíamos (nem devíamos) juntarmo-nos muito aos nosso potenciais ouvintes, levávamos com a força da chuva em cima das nossas costas. Mas isso não tinha qualquer importância, pois o que nós queríamos mesmo era espalhar a nossa sabedoria. Sermos solícitos e mestres de vida. Ficávamos com as costas todas molhadas. Apanhávamos com a água toda, contudo a nossa vontade de "poemar" era tanta, que justificava amplamente todo aquele sacrifício.
Tenho a dizer que não me lembro de alguém que nos tenha difamado. Alguém que tenha sido malcriado connosco. Houve mesmo gente que se riu às gargalhadas com a nossa actuação. Outros fizeram cara de pouco caso, mas nada disseram. Se calhar, acharam-nos suficientemente malucos para não sermos contrariados. Poderíamos com isso tornarmo-nos particularmente perigosos. E ninguém nos bateu. 
Mas houve um acontecimento que marcou toda a diferença. Certo dia, fomos a ler o seguinte poema, bem atrás de um casal de meia idade que alegremente se passeava pelo jardim.

O simpático casal, parou e ficou a olhar para nós. Nós dissemos o poema e eles ouviram-no atentamente e na sua totalidade. Enquanto lemos eles não fizeram qualquer comentário. Nós ficámos todos contentes com aquela aparente aceitação. Passado alguns instantes sobre o terminus do soneto, o elemento masculino do casal falou. E disse: "Coitados! Acho que a vossa vida, não deve de ser nada fácil. Não vos deve de correr nada bem. Segundo percebo, vocês devem de sofrer muito devido... ao amor. São contrariados no sentimento. Mas vejam as coisas pelo lado positivo. Pensem no dinheiro que vão poupar (e fazer poupar aos vossos pais), pois assim não se vão conseguir casar. E olhem que os casamentos ficam muito caros!!! E depois e consequentemente, também não se adivinha que venham a gastar qualquer quantia com... divórcios nem com... pensões alimentícias".
Recordo que tanto eu como o meu amigo demos uma grande e sonora gargalhada. E agora percebo: como aquele senhor tinha razão. Não me refiro ao facto de ser contrária à ideia do casamento. Nem sequer tenho posição formada nem elementos que me permitam perfilar-me numa posição absoluta e incontestada. O que eu sei é que, em tudo na vida há sempre um lado positivo. Há é que estar muito atento e... aproveitá-lo. Penso que esta teorização não é pura e falsa demagogia. Esta é que poderá e deverá ser tida, como uma verdade... absolutamente inquestionável.
Sugestão de leitura para esta semana: "A Amizade"  de Francesco Alberoni.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

 

PS: E não é que sonhei que ia outra vez para os Estados Unidos da América? Bem, ao que parece, tal situação poderá tornar-se...  numa realidade efectiva. Sair assim da condição de sonho. E como nós adoramos quando um sonho bom se torna realidade! Viajar assim com um grupo de gente bem simpática... E sem os "atropelos do costume".

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A generosidade juvenil.



Rebeldias juvenis? Bem, quanto a isso estamos falados, não é? Muita gente se queixa de atitudes muito pouco dignas protagonizados pelos mais jovens, nos tempos actuais. Principalmente e no que toca à sua condição de estudante. Tenho inclusivamente algumas amigas que são professoras que muito se queixam do comportamento da maioria dos seus alunos. Consideram-se vitimas de todo o sistema. E mais. Queixam-se da atitude dos pais, que em vez de se preocuparem em saber na realidade aquilo que se passou, preferem não acreditar no corpo docente e sim na versão do filho. É que o filho não tem comportamentos considerados desviantes no seio e no calor do lar. Pois...
Não quero aqui fazer qualquer juízo de valor. Este blogue não serve para isso. Se servisse teria que se chamar: "eduquemsemazé". E Deus me livre e guarde de tal situação. Credo!
Mas gosto sempre de pensar em mim e nos da minha geração, quando nós também éramos jovens e estudantes. E como eu fui feliz no meu tempo de estudante! 
Quando andava no Secundário, mais concretamente no 11º ano, eu era parte integrante de uma "turma" muito castiça. No final do ano e como forma de agradecer a dedicação e o profissionalismo patente em alguns professores, nós decidimos ofertar-lhes alguns presentes. Não. Essa não foi a nossa forma de engraxar. Foi sim a nossa singela forma de os homenagear. 
Ao professor de Filosofia, nós resolvemos oferecer-lhe um postal. No postal constava a fotografia de um homem, já de meia idade (tal qual o professor), mas que estava a brincar pacatamente com uns brinquedos de plástico. Brinquedos iguais aos que eram publicitados na revista "Selecções do Reader´s Digest". Aquele postal agradou-nos muito.
Diga-se em abono da verdade que o professor de Filosofia era uma pessoa muito preocupada. Andava sempre em busca do Seu Ser Pensante. Do seu Ego. Depois ele punha sempre em dúvida a sua existência? Se existia mesmo enquanto ser pensante? Pensava e existia e estava feito. Depois disso ele até poderia ficar contente, mais aliviado. Mas não... As dúvidas eram mais que muitas naquele homem. As dúvidas enlencavam-se umas nas outras. Prosseguiam sempre. Não tinham fim à vista. Por vezes e quase em delírio, ele falava na cor dos figos. Com toda aquela actuação, nós ficávamos um bocado com os nervos em franja. Nós que éramos mais adeptos da teoria: "Rimos logo existimos!". 
Agora e passados alguns anos a ideia está mais para: "Pagamos impostos, logo existimos". E como nós pagamos impostos, senhores!!! Não dá sequer para ficarmos com uma pequena dúvida sobre a nossa real existência. É todo o dia e a toda a hora... sempre a pagar. Por isso uma coisa é certa: como é generoso o nosso santo governinho. Já para não falar dos senhores da Troika.
Ora tudo indicava que aquele professor de Filosofia almoçava e jantava com o Descartes, com o Kant e até mesmo com o Kiekegaard. E depois sempre a repetir as formulas dos seus outros mestres. A dádiva daquele postal equivaleu a dizer, que nós alunos achávamos que estava na altura do professor... relaxar. E qual poderia ser uma das boas maneiras de ele relaxar? Podia muito bem ser, começar a brincar com brinquedos de plástico, tal como sugeria o postal. Nós sabíamos que havia outras maneiras de se relaxar. Não éramos parvos de todo. Nós sabíamos que a pessoa ficava muito contente e apaziguada com o mundo, após uma boa dose de amor e de sexo. Mas vamos lá contextualizar a coisa. Nós éramos jovens, éramos muito jovens mesmo. E achávamos que aquele senhor de meia idade (teria para aí uns quarenta anos), já há muito que deveria de estar retirado dessas lides. Das actividades como o deleite sexual nós achávamos que aquele professor já estaria reformado com certeza. Sim, ser jovem significa muitas vezes ser  cruel. Ser muito cruel. Ou então não se ter bem o sentido da realidade. Quando nós temos dezasseis anos, achamos que quem tem quarenta já está inevitavelmente... no fim da linha.
Tenho a dizer que o dito professor recebeu o postal, leu o seu conteúdo mas... no fim recusou-se a ficar com ele. Disse que não poderia aceitar tão generosa dádiva, pois não se revia minimamente naquela figura ali ilustrada. Ou seja, no homem a brincar. Nós não levámos isso muito a mal, claro está. Se ele não queria, não queria! Pronto. O postal sempre poderia ser oferecido...  a outra pessoa. Pelo que em conjunto pensámos e fomos oferecer aquele mesmo postal ao porteiro principal da escola que se chamava Amílcar. Amílcar já era bastante idoso (teria uns sessenta anos). E tinha a grande graça e a grande ventura de nos aturar havia dois anos. O senhor porteiro leu com toda a calma o postal. Ao que parece terá ignorado deliberadamente o nome que lá estava escarrapachado, (ou seja, o nome do Filosofo). E ficou muito emocionado. É claro que não lhe revelámos que aquele presente já havia sido recusado pelo clone do Xenófanes, mas... o senhor Amílcar agradeceu-nos muito embevecidamente a nossa lembrança e a nossa atenção. E quase se esqueceu do tempo em que nós o enervámos tão dedicadamente. Bem-aventurados os simples, porque deles é o Reino dos Céus.
Depois foi a vez de presentearmos o professor de Português. Este senhor que havia em tempos sido padre, já teria na altura sessenta e tal anos. Eu estou convencida que ele sabia de cor "Os Lusíadas", na sua totalidade. De palavra fácil e oportuna, este professor teve a graça de me fazer apreciar muito (e eu não estou a gozar), a leitura dos "Sermões do Padre António Vieira". Foi ao ler e compreender a sua obra, que eu fiquei a achar que mais do que padre e viajante, o que o Padre António Vieira era... era uma perfeitíssimo visionário. E como eu gostei  de ler e de estudar as "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett. Aquele professor só não me fez gostar mais de Eça, pois ao Eça eu já conhecia anteriormente. Já estava por ele totalmente apaixonada. E é paixão que nunca me passou, como devem de ser aliás todas as verdadeiras paixões. Como eu ainda hoje gosto de ler o "Primo Basílio". Eu ainda me lembro de quando li este romance pela primeira vez. Numa época de Estio. Num Verão muito Quente, mas de data bem posterior a 75.  E "Os Maias"? E a Tragédia da Rua das Flores? Bom...
Ao referido professor de Português nós decidimos ofertar-lhe um peão (sim, um daqueles de madeira com um cordel e tudo), e um pente. Com alguma antecipação nós embrulhámos tais presentes em lindo papel de embrulho. O professor ficou muito contente quando lhe demos os presentes para a mão. Mas quando os abriu... ele odiou-os literalmente. Mas aceitou-os apesar de tudo. Colocou-os foi abrupta e atabalhoadamente para dentro do bolso do casaco, como se não quisesse olhar muito para eles.
Ficámos na dúvida. Então um peão não é um bom presente? E como é gracioso observar alguém que lança, ou melhor que lançava, um peão na rua? E um pente não dá sempre jeito? Ah pois dá. É certo que o dito professor era careca, mas o que é que isso tem? É que aquilo que faltava na cabeça do docente (só cabelo não sejam mal pensantes), abundava na sábia cabeça da sua esposa. É que o nosso dedicado e competente professor era casado com uma senhora que tinha uma trança. Ela envergava orgulhosamente uma enorme trança loira. Pelas costas abaixo.
Tenho a dizer que após isso, não tivemos uma grande nota. Não fomos beneficiados no final do ano. Na altura achámos mal. Mas há uma coisa que eu tenho aqui que confessar. Valeu a pena ter somente um 14 a português e ter vivido aquela cena. E como nos rimos com a situação. Não ao pé do professor claro está. Mas ainda hoje e quando nos vemos (nós os ex alunos), é com uma imensa alegria e vontade de rir que nos lembramos daquela nossa aventura do passado. E acredito mesmo que tal situação continuará a ser lembrada repetidamente até ao final da nossa existência.
Sugestão de leitura para esta semana: "Pequeno-almoço com Sócrates" (e nem é preciso ir a Paris), da autoria de Robert Rowland Smith.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!


Repare-se neste vídeo e nesta canção. Há toda uma apologia a ofertas singelas. Nós não demos nenhuma rosa aos professores, é certo. Demos postais, um peão e um pente. Coisas de pouca monta é verdade. Mas temos que ver uma coisa, nós éramos jovens empobrecidos. Mas mesmo assim não fomos bem entendidos. Não apreciaram a nossa generosidade. O José Cid é que a sabia toda. Apanhou uma rosa na rua (nem sequer a comprou, nem teve pois necessidade de gastar qualquer dinheiro). E fez um brilharete lá em casa. E como o Cid se deve de ter divertido e relaxado lá na "mansarda"!!!
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!