Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

No creo en brujas, pero que las hay, las hay.



Quando a vida não nos corre de feição, a primeira tendência que temos, é a de atribuir responsabilidade a factores externos. E depois rogamos ao altíssimo, ou a pessoas de virtude, a resolução de todas as embrulhadas que nos vão condicionando a vida. Mas, e quem são estas pessoas de virtude? Conhecem alguma?
Sabemos através dos anúncios na imprensa escrita, da existência de algumas das individualidades que publicitam os seus serviços. Prometem resolver-nos os mais variados problemas. E juram poder encontrar por nós: o emprego desejado, o amor que tarda a vir, o aumento de todos os pénis resfriados e encolhidos, da libertação efectiva das vaginas em reclusão, do culminar das más influências, assim como a resolução definitiva dos bicos de papagaio e do mau hálito.
Esses magnânimos indivíduos, são frequentemente intitulados de Professores. E na sua grande maioria, aparentam ser de ascendência africana. Isto no caso dos homens. As mulheres de virtude parecem-me ser, muito mais parecidas connosco. Têm nomes actuais e estão quase sempre de bem com a vida. Elas que até tiveram necessidade de aumentar (e muito) os seus seios e unhas. E puseram também, extensões histriónicas nos cabelos. Falam é somente por um cantinho da boca. E assumem muitas outras características, que consideram ser imprescindíveis para o desenvolvimento efectivo da sua/delas, profissão.
Um dia e em viagem, eu conheci uma certa velhota. Conheci-a é como quem diz… Comecei por conversar com ela. Mas com o desenrolar da conversação, eu descobri que não simpatizava lá muito com ela. E a reciproca também era verdadeira. Existem pessoas que são incompatíveis. Lamento dizer, mas é a mais pura verdade.
Ora num certo dia, e ainda em viagem, eu ouvi da boca envelhecida da dita idosa, um pregão que rezava assim: “Estas meninas que parecem ser tão boazinhas, mas na realidade são umas bruxas.”
Obviamente que eu não me revi naquela observação e por isso mesmo resolvi não argumentar. Afinal se o fizesse estava a reconhecer a condição que ela ali me queria atribuir. Além do mais nem o barrete me servia. Nem aquele lenço preto (ou às bolinhas) que as bruxas costumam usar na cabeça. Para além disso, se eu respondesse, acho que ainda era pior. A senhora em causa era muitíssimo mais velha do que eu. E eu apesar a provocação (que poderia atingir todas as meninas que ali estavam), decidi dirigir-lhe todo o meu respeito. Ou melhor, a névoa crua e algo desbotada de toda a minha indiferença. E quem é que me podia garantir que a velhota já não havia recebido a visita do senhor Alzeimer? Coitadita!
Numa outra ocasião, em data bem anterior à do conhecimento que acima transcrevi, eu vivi uma experiência que ainda não tenho qualquer explicação para ela. Ia com os meus pais, fazer comprar a um grande hipermercado. Tivemos a necessidade de efectuar as chamadas compras do mês. O meu pai é uma pessoa de linguajar fácil. Péla-se por uma boa conversa com boatos à mistura (porque não dizê-lo se é verdade). E lá ao longe ele avistou uma sua querida amiga. Amiga mesmo, nada com outras intenções contra-indicadas a quem é casado e bem casado há muito ano. E foi assim (e só num salto), que ele se pôs ao pé da venturosa. E quanto à senhora minha mãe? Pois nunca gostou nada destas coisas, e ali naquele supermercado, muito menos. E a mim (e sem saber muito bem porquê), também me desagradou bastante toda aquela abordagem. A mulher estava ali somente, para comprar umas sardinhas. Mas os peixes e a partir dali, era o que menos interessava. É que a conversa daqueles dois, nunca mais acabava! E eu ali à seca. A minha mãe também. E os dois perdidos em falas intermináveis, entrecortadas com muitas risotas.
Mas de repente, e sem que nada o previsse, eu comecei a sentir-me mal. Com uma vontade muito grande de “ir ao Gregório”. Quase a desmaiar. A ver tudo branco. Depois senti a minha temperatura corporal a subir acentuadamente. Após isso, tão depressa eu tinha frio, como suava em bica. E tremia, meu Deus, como eu tremia. Pelo que sem alternativa, eu digo ao meu pai que era tempo daquela conversa acabar. Que de tão distraído que estava, nem sequer deu conta da minha má disposição. Dei-lhe a conhecer aquele meu estado, usando de meias palavras, pois não queria ser rude para com a tal senhora.
Sei dizer que foi muito difícil para mim, concluir aquele processo de aquisição de víveres. Nem sequer consegui conduzir o meu carro de regresso a casa, como é habitual. Levou-o o meu pai, que é somente o condutor mais aselha que eu conheço.
Em casa corri para a cama e ali fiquei em grande sobressalto. Mas o que é que se passava comigo? Fiquei ali tolhida, quase sem me poder mexer. Como sou alérgica aos médicos (essa é efectivamente a minha maior alergia), pedi ao progenitor que fosse à farmácia e lá relatasse os meus sintomas. Ele muito revoltado, lá foi. Pois o que ele queria, porque queria, era levar-me para as urgências de um hospital.
Na farmácia, a farmacêutica a custo lá me receitou uns comprimidos. Ela que achava que eu tinha era que ir era o mais urgentemente possível ao médico. Pois podia tratar-se de doença súbita e mortal. Ou podia também ser, uma qualquer febre reumática, que mal curada, me poderia arrasar e para sempre, o coração. No fim, e muito contrariada, a farmacêutica lá receitou uns antipiréticos, fazendo prometer ao meu pai, que se eu não melhorasse nas próximas horas, me obrigasse a procurar acompanhamento clinico. O meu pai lá prometeu. E ficou também cheio de medo de me perder. É que eu ainda lhe fazia muita falta.
Tenho a dizer que tomei somente um comprimido. Mais, quando o meu pai regressou a casa vindo da farmácia, já eu apresentava claras melhorias. Isto sem ter tomado absolutamente nada. Tomei só um comprimido, dos receitados, porque depois eu já não tinha qualquer sinal daquela estranha enfermidade. Passada uma hora, eu já estava como se nada fosse.
Muito mais tarde, informaram-me que a mulher com que o meu pai tão gloriosamente falara, era uma mulher de virtude. Já a sua mãe o fora, assim como a sua avó. Mas se calhar a coitada esteve sempre inocente? É que eu tenho tendência em duvidar destas coisas. Pois estas coisas, (e a meu ver), são muito difíceis de comprovar. Pois em tais circunstâncias, quem é que testemunha? E quem é aquele que se atreve a acusar? Aproveito para dizer que aquela virtuosa mulher, quiçá inocente, já não pertence ao mundo dos vivos.
Só passado algum tempo, é que a minha tia me disse, que as habilidades daquela natureza se passam, no momento da morte da antecessora. E mais me disse a titi. Quando a bruxa está a morrer, fá-lo rodeada pela família. E do nada a moribunda põe-se para ali a pregar: “Eu deixo, eu deixo, eu deixo…” E isto pode ir até ao infinito. Ou até ao momento em que alguém se ponha para ali a adivinhar.
Regra geral “os novelos”, que é a designação que a plebe dá às habilidades das bruxas, passam directamente de mãe para filha e assim sucessivamente. Existe pois uma tradição familiar. Na passagem de testemunho, realiza-se assim um pequeno ritual. E uma vez que a exânime está para ali a repetir feita doida, a intenção de deixar, (não se sabe bem é o quê), a filha, logo lhe pergunta: “Mas deixa o quê, minha mãe?” (Era assim mesmo que se falava antigamente, no tempo do Salazar). A moribunda aproveita logo a deixa e conclui: “Pois aí os tens.” E depois disso… ela emite o flato mestre.
Só que tenho a dizer que toda esta transição profissional, me oferece muitas dúvidas. Mais, eu não acho nada justo que as coisas se processem assim. É que se trata de uma falta de respeito muito grande, pelas vontades e ambições da descendência. A filha implicada pode muito bem não querer ser bruxa. Pode achar que não tem vocação. Pode achar que será muito mais feliz como cartomante, astróloga, ou mesmo como uma daquelas senhoras que põe unhas de gel. Agora bruxa?... Além do mais, a pessoa não se preparou convenientemente para a acepção do cargo. Não contou com uma formação adequada, nem estágio profissional. E como é que se vai exercer bem uma profissão, se se desconhece o que é básico? Se se ignora também as competências técnicas, assim como os conteúdos funcionais? E depois, nem sequer há o reconhecimento de uma assinatura? A execução de um contrato de trabalho? Um mês ou dois de experiência, contando com a supervisão do chefe? Nem sequer um simples estágio não remunerado?
Diz a tradição que a profissão de bruxa se trespassa assim e nestes moldes. Sem burocracias, nem direito a qualquer concurso público. Há somente a tradição familiar. E quem sabe, talvez uma qualquer organização sindical? Ligada a uma qualquer central sindical? Por exemplo à CGTP?
Ora há dois ou três anos, eu fui a um país situado no Extremo Oriente. E fui com uma amiga, assim como mais algumas pessoas conhecidas. Eu gostei muito do que vi e a minha amiga também. Mas num último jantar e à despedida, a minha amiga começa a queixar-se de dores muito incomodativas na zona que corresponde à localização dos pulmões e do coração. E aquilo que não lhe passava de maneira nenhuma… Ela andou assim quatro ou cinco dias. Mesmo depois de ela já ter regressado à pátria lusa. Mas… e o que era aquilo? Perguntava-se a ela própria e a toda a gente. De concreto, ela nada apurou, nem descobriu. Só que passados esses quatro ou cinco dias, ela melhorou, sem ter tido mais qualquer queixa de idênticas sintomatologias. E nunca mais foi acometida por tal mal. Passada a tormenta, ela pensou, repensou e tornou a pensar. E calmamente ela também chegou a uma conclusão. É que no tal ultimo jantar, ela havia sido “muito mirada”. Quase até ao incómodo. E não foi por nenhum homem jeitoso. Quem lhe dera! Mas, perguntam vocês quem é que fora a tão impertinente observadora? Pois foi a velha. A mesma que no início deste texto, me havia querido chamar a mim de bruxa. Há com cada uma?!
Sugestão de leitura para esta semana: “As Bruxas de Salém” de Arthur Miller.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


domingo, 26 de maio de 2013

Não bastou "acarditar"!



Dedico este fadinho ao meu "rico menino" Jorge Jesus. Em solidariedade pelos maus momentos, que deve de estar a passar. Para a próxima será melhor, tenho a certeza.


Nota: Aproveitei e decidi seguir a dica de uma querida leitora. Aproveito ainda para lhe desejar votos sinceros, de um rápido e total restabelecimento. Quanto a "futebóis"? Para o ano há mais.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sábado, 25 de maio de 2013

O incontornável Mangueiras.



Este post em particular, exige de mim uma declaração de honra. Considero a pedofilia a coisa mais execrável do mundo. Não concebo a ideia sequer. Acho que a castração química era mesmo, a melhor solução para esses casos. E depois disso, eu considero que os atentados perpetrados a animais assim como a sua exploração, é também algo absolutamente perverso e contra natura. E que deveria ser condenado pelas instâncias máximas.
Pelo exposto, eu considero que o tema pedofilia, não é absolutamente nada divertido. Como é evidente. E mais, tal conceito nem sequer deveria de ser pronunciado neste meu modesto cantinho. E no entanto…
Este tema surge como a necessidade de discutir algo, que em maior ou em menor escala, todos nós nos podemos aperceber um dia, enquanto pequenos. Todos, no sentido de que (uma vez ou outra), formos “presenteados” com algumas palavras menos próprias, que tiveram o condão de nos incomodar. E penso que tal ocorreu um pouco com toda a gente. Falo assim no pouco cuidado que algumas vezes, algumas pessoas se dirigiram a nós, achando estarem a ser, muitíssimo divertidas. Todos nós, e a dada altura, demos com verdadeiros homúnculos e mulheres grunhas, que foram tudo, menos as mais adequadas e bem-intencionadas. Que tiveram as saídas mais infelizes. E nós enquanto crianças, algo crédulas e inocentes, tivemos que usar de alguma destreza, para conseguir ultrapassar esse momento de verdadeiro mal-estar.
Mas eu explico melhor. Lembro-me de ser menina e moça (cerca de 10/11 anos) e permanecer durante grande parte das minhas férias escolares no meio rural. E aquilo era adorável. Marcou-me para sempre. Contudo e apesar dos pesares, houve por essa altura uma pergunta que me inquietou e que me transtornou (à época) a existência de alguma forma. É que a dada altura, quer fossem homens, quer fossem mulheres, deram em perguntar-me: “Ouve lá. Mas tu já pintas?”
Eu que me iniciei na escolaridade aos seis anos de vida, sem ter tido oportunidade de frequentar qualquer pré-primária, entendia, que aquilo que eles me estavam a perguntar, era sobre o facto de eu já fazer e pintar… desenhos. E isso, eu já fazia desde os meus dois, três anos, através do impulso e sugestão dos meus próprios progenitores e outros familiares. Mas o que é que essa actividade em particular, poderia interessar assim tanto os meus conterrâneos à época? Só se eles quisessem que eu lhes pintasse algum quadro. Ou então mesmo, alguma parte da casa.
Depois, e com o passar do tempo, apercebi-me, que o que as pessoas queriam saber era, se eu já era fornecida de pelos púbicos. Mas com franqueza… o que é que isso lhes poderia interessar? É manifestamente algo susceptível de ser bem menos interessante, do que as minhas próprias capacidades no que concerne às artes visuais? Ou não será? Mas não. Ao que parecia, e naquela aldeia específica, tal temática era de superior importância.
Depois e com o passar do tempo, e já adulta, conheci alguém que tinha uma relação algo complicada com todos os velhinhos e com todas as velhinhas. E por mais que lhe repetisse, que os velhinhos, já são seres muito débeis, alguns deles já sem condição de se susterem sozinhos… Que muitos deles até são simpáticos. Que devem pois ser alvo dos nossos carinhos e da nossa atenção, ela torcia sempre o nariz. E em última instância lá referenciava, que muitas vezes as pessoas, não são bem aquilo que aparentam ser. Eu ouvia aquilo e tendia a concordar. Mas daí à generalização apresentada, eu confesso, achava que era um bocado forçada.
Com o continuar do convívio, e uma vez que a sua antipatia pelos velhos em geral, prosseguia, de vento em popa, ela finalmente esclareceu-me daquilo que vivera.
Quando era muito criança, ela vivera com a sua família nuclear, num bairro típico da capital. Aquele bairro era habitado por inúmeras famílias, que entre cruzavam os laços entre si. E que funcionavam muitas vezes como uma verdadeira família alargada. Una e indivisível. A minha amiga teria na altura, dois ou três anos. Ora lá no bairro, vivia um casal de velhinhos, muito velhinhos, sem descendência. Que eram alvo de toda a preocupação por parte dos vizinhos. E eram considerados insuspeitos aos olhos de toda aquela micro-comunidade. Ora e de uma forma geral, todos concorriam para que a vida dos anciãos fosse o mais confortável possível. Pelo que os vizinhos não mediam esforços. E realizavam-lhes pequenas reparações, iam às compras por eles, iam-lhe à farmácia e chamavam-lhes o médico, quando necessário.
E a minha amiga lá estava sempre e por perto. Só que uma vez e estando sozinha com o muito envelhecido casal, ela passou por uma horripilante experiência: é que o velhaças puxou para fora da sua braguilha, o seu muito flácido pénis. E solicitou à gaiata que lhe mexesse. E a velha? Como é que reagiu ao sucedido? Pois riu-se a bandeiras despregadas. Não senhores. Isto não é nada divertido. A velha não tinha qualquer motivo para se rir. Mesmo que já tivesse sido visitada pelo senhor Alzheimer!
A sorte foi que uma vizinha assistiu e tirou de lá rapidamente a menina. Avisando depois os pais da mesma sobre o ocorrido. É claro que os pais (e em revolta absoluta) quiseram limpar o sebo ao velho. Mas, ficou tudo por ali, com a certeza de que o convívio entre aqueles três elementos, não fosse de forma alguma continuado. E não foi mesmo.
A minha amiga retém imagens difusas. Alega lembrar-se de alguns cheiros, mas não se lembra efectivamente… de ter tocado. E quer acreditar, para a tranquilidade de seu espírito, que parte dessas muito desagradáveis sensações, possam ser devidas à sua própria imaginação. E ao facto de ser uma criança muito pequena, que ainda não sabia distinguir devidamente as coisas. Mas o asco ficou lá. E para sempre. E a menina, hoje mulher, torce o nariz a situações a que mais ninguém torce. Uma vez que… e felizmente, a grande maioria de nós, escapou a tão nojenta e horrível experiência.
Mas quando eu era menina, e com outras meninas da minha idade, tivemos oportunidade de conhecer também um grunho miserável. A sua alcunha era o Mangueiras. Mas o seu nome real era Sousa. A alcunha Mangueiras era devida a algo. Mas nós nem sequer imaginávamos.
Ora inicialmente, nós achamos que o Mangueiras, (que era o homem que para ali estava a vender casas), pudesse ser alvo da nossa simpatia e confiança. É que afinal o homem estava sempre ali. Cumprimentava os nossos pais e vizinhos. E à partida, não tivemos de facto, necessidade de desconfiar ou mesmo de temer o homem. Mas depois, e com o continuar do convívio, ele começou por abordar temas, que mesmo aos nossos olhos de crianças inocentes, nos pareceram ser absolutamente inconvenientes. E à defesa, começámos mesmo por evitar o sujeito. É que nós éramos crianças mas não éramos parvas. Pelo que conjuntamente, jamais permitimos que qualquer uma de nós, ficasse alguma vez sozinha com o estafermo. E recusámos-lhe sempre a oferta dos "rájas", que ele permanentemente nos oferecia. Eu até já tenho alguma idade, mas não sou propriamente do tempo “dos "rájas”. Fora através da conversa com aquele homem, que soubemos efectivamente que os gelados tiveram aquela designação em tempos de outrora. E nós felizmente recusámos-lhe sempre as suas ofertas. É que apesar de gulosas e lambareiras, nós contámos sempre com as gulodices oferecidos por familiares e amigos. Que são por definição, pessoas de confiança. Pelo menos têm a obrigação disso. E como depois começamos por sentir pelo homem, um verdadeiro asco, começamos ali a gozar com ele. E a chamar a todo o momento à atenção, para a sua tão indesejável presença. Eu nunca aqui afirmei que tivesse sido sempre… politicamente correcta.
Na altura estava muito em voga aquela canção que fala de um camelo, que se chamava Areias. Camelo que teve muita aceitação por toda a comunidade. E enquanto a Suzy Paula cantava: “O Areias é um Camelo!”, nós adaptávamos a dita e berrávamos: “O Mangueiras é um atropelo”. Mas de onde é que nós tirámos tal nomenclatura, céus?
Devido a esse procedimento, muito a minha mãe me ralhou. E dizia-me. "Se nós não gostávamos do homem, porque raio é que lhe dávamos tanta atenção? Deixássemos pois o homem em paz." E que fossemos sempre… muito educadas. Mas tanto eu como as outras, lá continuávamos com aquela verdadeira… “pouca vergonha”. É que se eu informasse a minha mãe (ou mesmo algum vizinho), sobre as minhas suspeitas, era mais que certo que ficaria proibida de brincar na rua. E isso era algo, que eu não conseguia sequer congeminar.
Com aquela tão desagradável cantoria, o homem ficava possesso. O que não era nada de admirar. E ficava muito hirto e revoltado com o continuar daquele nosso tão estranho comportamento. Mas não se queixava dele a ninguém. Nem sequer aos nossos pais. Mistério!
Um pouco mais tarde, e devido a toda aquela agitação, soubemos que o Mangueiras, se chamava assim, porque havia sido sovado por um pai, em defesa da sua filha. E qual o objecto que serviu para o efeito? Pois fora uma enorme e colorida mangueira. O “atropelo do Mangueiras”, foi-se assim embora passado muito pouco tempo. E consta que não deixou saudades a ninguém. Quanto a nós e sem sabermos, safamo-nos bem, devido à simples referência da sua tão inusitada alcunha. A do tal homúnculo. O tal que foi bem sovado. E tenho a dizer que, com toda a certeza, ainda foram poucas.
Foi desta maneira, que constatamos que: “Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus as mãos por baixo”. Muito lamentável é mesmo… as vezes em que tal não sucede.
Sugestão de Leitura para esta semana: “A Sexualidade Traída: Abuso Sexual Infantil e Pedofilia” de Francisco Allen Gomes.
Ajudemos pois a combater esta gigantesca perversidade. A este enorme e verdadeiro atentado à condição humana. É que todo o cuidado é pouco. Não usemos pois de qualquer disfarce, artifício ou antídoto para escamotear o problema.
Mas depois de tudo bem resolvido e ultrapassado:
DIVIRTAMSEMAZÉ!


domingo, 19 de maio de 2013

Ai Jesus!...



Eu não sou do Benfica. Fico-me mais pelo outro lado, da Segunda Circular. Consequentemente, eu não aprecio lá muito o clube encarnado. Nem aquele seu estádio, que mais parece que nunca foi acabado. Mas quando é que eles vão pintar o resto?
Só que eu… simpatizo (e muito) com o seu líder. Com Jorge Jesus, E o que é que se há-de fazer? O amor tem destas coisas. É misterioso e absolutamente inexplicável.
Sinto que existe naquele homem, muita criatividade. Ele que só pode ser, bem ousado e lutador. E é também, um fazedor efectivo de toda uma nova linguística. Ele que até pode ser considerado, a correspondência máxima de um Mia Couto. Mas do futebol. Eu confesso, até nem percebo lá grande coisa do jogo. Fico-me somente pelo básico. Só que é para mim um verdadeiro prazer, poder ouvir falar Jorge Jesus. É que ele é mesmo um senhor, carago!
E hoje proponho-me apreciar aqui, alguns dos seus mais apreciados e célebres vocábulos. Que foram criados por ele, mas que talvez tenham sido mal interpretados. Pois, perante a novidade, a primeira reacção que se tem, é logo a de se dizer mal. Quando se calhar, as verdadeiras intenções do mister ao proferir tais sábias palavras, não tenham sido devidamente compreendidas pela plebe. É que o sentido das mesmas pode muito bem ter sido, muitíssimo mais abrangente: 

Apresento pois, um brevíssimo dicionário “do meu tão apreciado” Jesus:

Empulgam: Pode efectivamente tratar-se da referência àquelas pessoas que ficando muito contentes com algo, o aumentam propositadamente. Desformam assim, e em consequência, a real dimensão da coisa. Ou que pelo contrário, de tão tristes que ficam, aumentam até ao infinito, uma desgraça. Ou ainda, todos aqueles que aumentam coisas mínimas, sem qualquer valor. Contudo pode tratar-se também de algo bem diferente. Lembrem-se de que os tempos estão difíceis. É-nos pois, cada vez mais difícil comprar aquilo que é necessário. E devido ao facto, acabemos mesmo por descurar o básico da nossa higiene. É que pode muito bem acontecer, que alguns de nós, já andem para aí a empulgar tudo. E as coleiras dos gatos que não nos servem! E Jorge Jesus, que nunca se engana!
Ganda: Esta palavra, poderá ser confundida com a palavra que prevê, um enorme número de coisas. Muitas coisas mesmo. Ou uma coisa muito extensa. Grande. Mas não poderá ser também, a forma do mister falar daquele país africano. Quando fala num tal de Um Ganda?
Morecer: Poder-se-á tratar efectivamente, de uma nova forma de se falar da atitude de ter merecimento de algo. Lutar para… e ser justo obter. Contudo, ninguém nos garante que esta palavra não possa ter sido proferida noutras situações. Tais como aquela vez em que Jorge Jesus, muito apaixonado e agradecido à vida, e após uma lânguida e perfeita noite de amor, tenha dito à esposa, num jeito de uma perfeita recitação muito sentida: “Mor ser a coisa mais linda e mais bela…Mas só muito depois do Eusébio, que é coisa linda, sem paralelo!”
Padrada: Os mais incautos e precipitados, tendem a dizer que, e mais uma vez, o Jorge Jesus se enganou, ao proferir a intenção de arremessar com um qualquer calhau. Atirar com uma pedra, num alvo odiado e que se quis abater. Mas não poderá ser também, a palavra que ele usou, quando certo dia, lhe entraram pelo estádio adentro, aquele conjunto numeroso de… sacerdotes? Que tenham lá ido por exemplo, para benzer a Capela da Luz? Ou então, quando foram baptizar o passarinho?

E as brilhantes frases:
Bode Respiratório: Os mais anti-tudo, criticam logo, dizendo que ele nem sabe referir-se ao Bode Expiatório. E que nem sabe fazer a devida correlação com o costume ocorrido no passado. E que deu real sentido à designação. Mas eu sou mais previdente. E nem é costume. É que alguém já viu algum bode? Esteve ali mesmo, mesmo… ao pé de um? Alguém já viu a fúria do animal, quando as coisas não lhe correm de feição? Não é a sua respiração agitada e ameaçadora, o que mais se faz ouvir? Acreditem em mim. Eu já vivi no campo. Sei do que estou a falar. E já vi muita gente a correr à frente de um bode. Que em consequência também fica com a respiração muitíssimo alterada. E o mister lembrou-se da fera. É que naquele estádio, podem não ter só entrada, as pacificadas com a vida e muito orgulhosas, Águias Vitória.
Forno Interno: É muito natural, chegarmos à conclusão precipitada de que o Jorge se queria mesmo, referir ao “foro interno”. À intimidade de cada um. Ao que tem que ser reservado, do conhecimento geral. Mas pode muito bem não ser isso, senhores! É que as pessoas que não têm que contar os cêntimos como nós, têm jardins floridos e muito bem apetrechados. Com muito animais de barro espalhados por todo o lado. E com mais duas águia altivas, com as asas abertas (mas em pedra), à entrada da porta. Além disso, também têm no jardim, fornos em cerâmica onde costumam assar os couratos e os pimentos. E depois, têm também, lá dentro de casa, um outro forno, (o tal do forno interno), onde costumam cozinhar o Arroz de Pato. E o Bacalhau à Zé do Pipo.
E quem é que vos garante, que essa não possa ser efectivamente, a realidade, de Jorge Jesus? E lá na conferência de imprensa, ele pode muito bem ter sofrido, de um autêntico e verdadeiro, lapsus linguae?
Vocês quatro, formem aí um triângulo: Aqui é que se vê, a verdadeira genialidade do homem. É que isto não é para todos. Ele consegue formar um triângulo perfeito, com quatro jogadores! É por versatilidades como esta e como outras tantas, que os lampiões tiveram quase, quase o campeonato ganho. E consequentemente, muitos outros ficaram bem longe desse objectivo, e a chuchar no dedo. É que aquele homem (o meu querido J.J.), é mesmo muito bem capaz, de formar um octógono perfeito, só com cinco cidadãos. E em cuecas, está bem?
Jorge Jesus teve o pendor de fazer com que os benfiquistas pudessem sonhar com o título. Que foi sonhado, bem até ao fim. Usou para isso, de toda a sua força anímica. Com o seu apurado, complexo e muito criativo linguajar. Mas e afinal? Não ganharam? Pois acontece. Mas pelo menos não ficaram em sétimo lugar como alguns que eu conheço e que até aprecio, não é? E aqueles “jesuístas” tiveram lá tão perto!… Posso afirmar que foi desta vez, que eu desejei mesmo que eles ganhassem. Mas depois, veio aquela derrota com o Chelsea. E que mau que foi… perder nos descontos… Para sempre ficou comprovado: Béla Guttmann era efectivamente um grande feiticeiro. Com um poder muito abrangente e de longo alcance. Apre!
Mas... e o que é que se passa comigo? É que sendo eu tão verde, por dentro e por fora, (e com tudo o que isso possa implicar, em meu prejuízo), porque raio é que eu gosto assim tanto de tal mister? E que até desejei que o Benfica ganhasse? Pela primeiríssima vez na minha vida? Credo!
Ah já sei. Só pode ser. É que olhando bem para ele, eu só me consigo lembrar de uma coisa. É que eu confesso, fico completamente “derretida” e absolutamente extasiada quando me ponho a olhar… para aquela sua tão monumental e fantástica... juba.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Luz Não se Apaga - O Livro de Ouro” de Luís Miguel Pereira.
Perder e ganhar é desporto. E a sorte é tal e qual os alcatruzes da nora. Não anda sempre… por cima.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 11 de maio de 2013

Relato de uma grande aventura.


A minha mãe foi muito recentemente operada às cataratas. A intervenção correu mais ou menos bem. Foi algo dolorosa e difícil, porque as cataratas já eram muito densas. Mas tudo piorou quando ela teve uma má reacção à anestesia. Que foi local. E passadas algumas horas sobre a mesma, a minha mãe já não dizia coisa com coisa. Para além disso… vomitou. O meu pai ficou aflito de noite e telefonou para a Cruz Vermelha. Porque era utente de um serviço que garantia a vinda de um médico a casa. Era para isso que pagava uma cota… todos os meses. Mas tal não aconteceu. Ao telefone lá lhe disseram que era normal ela estar assim, devido à anestesia. Depois ele telefonou-me a mim. Eu fui lá para casa para a acompanhar. Só para terem uma ideia, ela estava de tal forma “apardalada” que se sentou num sofá da sala, às três da manhã e não queria de todo ir para a cama. Eu cheguei lá às 4 ou 5 da manhã e usei de toda a minha força e determinação. Consegui levá-la para a cama. Dormiu profundamente mais ou menos até às 10 da manhã.
O pior deu-se quando já de manhã, eu vi a casa buscar roupa lavada, tomar duche e depois regressar novamente à casa paterna. É que mais ou menos perto do destino, liga-me uma colaboradora da biblioteca onde trabalho, a dizer que o meu pai já ia com a minha mãe para um Hospital Público recentemente inaugurado. É que o meu pai, na minha ausência, havia ligado novamente para a Cruz Vermelha. E no meio do seu susto, aconselharam-no a chamar o INEM. Que levaria a minha mãe para o tal Hospital. A minha intenção era levá-la ao Hospital onde ela havia sido intervencionada. Tinha inclusivamente uma consulta já marcada. Uma consulta de pós-operatório. Mas não foi isso que aconteceu. Fomos para o tal Hospital de má memória, do passado. Mas agora com "roupagens" novas. E foi assim que eu tive direito a viver as aventuras que aqui passo a relatar. Acompanhando, (se me permitem) de cinco conselhos:
1º Conselho: É muito arriscado irem parar a um hospital sem dominarem a “língua hospitalês”:
Quando se ali chega, tem que se tirar uma senha com todas as letras do alfabeto latino e também do cirílico. Os números e as letras das senhas são chamadas através de uns vistosos plasmas, que estão sempre p’ra ali a piar. Mandam a letra e o número x para o gabinete médico y, mas onde raio é que fica o gabinete? O z para a triagem, mas o que é isso da triagem? É que aquele pessoal do meio hospitalar, alimenta a ideia que as pessoas não fazem mais nada, do que passar a vida no Hospital. Estar ali a aprender para a vida. Género serviço militar. Acreditam mesmo que aquilo ali é para se saber tudo. Como uma prova de vida, ou de reconhecimento de uma identidade. Perdemos-mos assim por interstícios e paredes, que estando a brilhar, não camuflam grande coisa, das misérias que por lá se repetem. Segundo a segundo
2º Conselho: Acreditem, vocês são mesmo os melhores dos médicos:
A minha mãe teve lá das 11 da manhã até às 23 horas. Com a necessidade de levar gotas, tal qual o cirurgião prescrevera. Mas naquele Hospital recém-inaugurado, ninguém estava disposto a dar-lhas. Andei eu pois, de hora a hora a entrar pelas Urgências a dentro, para lhe colocar as gotas. E o que eu lá vi, meus amigos! É que se assim não fosse, ela poderia ter mais complicações devido à sua permanência forçada ali. E se ninguém a medicava como lhe haviam prescrito à altura da operação, o que é que afinal ela lá estava a fazer? Vendo bem as coisas, eu só deslocalizei o meu posto de trabalho. Naquele dia, eu laborei no Hospital. E nem recebi um cêntimo pelos serviços prestados. Mas eles não me quiseram nunca despedir. Pelos vistos o meu trabalho agradou-lhes. É que eu só tinha um desejo: ver a minha mãe fora daquele Hospital. Mas eles, nadinha. Por mais que as despistagens realizadas a todas as desgraças, dessem negativo.
3º Conselho: Reflictam bem queridos doentes. Contabilizem ao máximo as vossas necessidades de verter líquidos e outros vestígios corporais. Como os mais sólidos. Mas eu explico:
A dada altura ao chegar ao pé da minha mãe, ela a custo comunicou-me que estava com muita vontade de fazer xixi. Eu, talvez altaneira de mais, mas estava já farta de toda aquela inoperância, dirigi-me a uma tal de chefe das enfermeiras, visivelmente com peso a mais, meã de altura e com muitíssimo pelo na venta. Perguntei-lhe como e onde é que eu poderia conseguir uma arrastadeira. Resposta da mesma, pronta e seca: “Tem que ser a funcionária x, (que eu desconfio que seja aquela que ocupa a escala menor daquela hierarquia iluminada de hospitalários), que tem que trazer a arrastadeira. Mas olhe, que eu perguntei à senhora sua mãe se ela queria urinar e ela disse-me que não”.
Mas quando é que tal questão havia sido colocada? E há quanto tempo? Naquele hospital urinar deve de ser previsível, somente com uma requisição formal. E não mais que uma vez por dia. Sugestão que eu compreendi e interferi imediatamente, àquela muito superior e ríspida profissional. Sim, ela também só deveria de urinar uma vez por dia. Aquele seu volume era bem capaz de ser devido a alguma retenção de liquidos. Para que não perdesse tempo. E fosse a melhor das melhores. Infelizmente, e para todos nós, ela está infinitamente longe de conseguir atingir esse seu objectivo secreto.
Mas, e a tal funcionária x? Onde raio é que ela estava? Se calhar estava também ela a urinar. Da vez única e diária que lhe era ali concedida. E a minha mãe, que doente e catatónica se estava ali a encolher toda? Uma vez que a “intocável profissional” aparentemente se recusava a vir (intocável numa aproximação clara às castas indianas, pelo menos segundo a linha de pensamento e a consideração da sublime e iluminada da tal enfermeira chefe). E desta maneira eu sugiro à Mami: “Olha, mija mazé aí, na maca. E depois alguém terá que limpar!” E não é que a arrastadeira veio logo? E mais. Parecia que voava. Quase que veio à velocidade da luz.
A Mami, mijou. E o senhor que ocupava a maca ao lado, ao ver o sucedido, encorajou-se e também ele replicou: “Mas eu também quero urinar. Já pedi, faz tanto tempo!” E foi assim que eu depois intercedi também por ele. Mas desta vez pedi um urinol. Esse objecto veio muito mais rápido. Se calhar aproveitou a boleia da arrastadeira. E foi colocado por uma outra funcionária, mas daquelas que representava a tal classe das “intocáveis”. Puxou, foi a cortina, para ter maior privacidade. E o senhor também ele se aliviou e finalmente.
Mas depois de aliviada, a minha mãe continuou a ter debaixo de si a arrastadeira. Como viera rápido, só muito após a minha intervenção magnética, agora ela... estava ali para ficar. Tal como a Toyota. Com os meus procedimentos, eu fora ali diagnosticada, por aquele “mui competente” pessoal médico como pessoa, perturbada e passível de ser perigosa ao seu semelhante. Ou à ordem pública ali presente. Que tem tudo a ver com desordem e incompetência. Eu na altura não estava lá como utente. Mas tive direito aos seus implacáveis serviços de diagnóstico. E nem sequer paguei qualquer taxa moderadora. Pois o Gaspar que saiba disso! Não me deram, foi medicação nenhuma. E não me fizeram calar. Nem farão. Pois continuarei a exigir os meus direitos, Assim como os direitos daqueles que me rodeiam.
E a arrastadeira ali permanecia sobe o peso dolente da minha mãe doente. A mesma arrastadeira, agora demonstrava ter a sua vontade própria. E muita auto-estima. Já fazia questão de permanecer debaixo do “sim senhor” de minha mãe por uma grande temporada. Se calhar vinha mesmo passar o fim-de-semana. Mas eu, e como sou contrária às visitas que são inconvenientes. Que não avisam que vêm, mas sobretudo que não comunicam quando se vão embora, tirei-lhe aquela peça de fino recorte utilitário, debaixo das nádegas. Mas e agora? Onde é que eu ponho isto? Pensei e comuniquei sempre à tal chefe. Que já sentia por mim uma verdadeira adoração. E era por mim, amplamente correspondida. E mais lhe perguntei: “É que se me disser onde é, eu mesma vou lá despejar o conteúdo”. Resposta da intrépida senhora: “Pois deixe-a aí, que alguém a tirará.” É que não se fala mais nisso, pensei eu. E coloquei-a cuidadosamente debaixo da maca do senhor que também teve direito ao seu urinol.
Passados minutos, aparece a primeira “intocável”. A que fora a taxista da arrastadeira. E pergunta-me por ela. Eu olho para o local onde a coloquei e… nada. A magana da arrastadeira já ali não estava. E eu gelei amigos. Será que agora me iam acusar de desvio de material hospitalar? Ou então, ser membro activo de um grupo que pratica o rapto, de penicos e afins? Não. E foi a intrépida chefe que me sossegou. Não me quis ver sofrer mais. E comunicou-me que fora ela própria que a despejara! Viram? Eu juro, olhei para o alto e cantei o: “Glória, Glória e Aleluia!” E agradeci ao Senhor muito embevecida, a ocorrência daquele verdadeiro milagre. É que a tal da chefe dos enfermeiros, tão importante e naturalmente cheia de predicados e de boas referências curriculares, havia posto… os pés ao caminho. E havia sido útil. Obrigado Senhor! E mais, nem sequer os seus parentes lhe haviam caído na lama.
Minutos passados, verifica-se que um outro senhor, que estava do outro lado da maca da minha mãe, havia defecado nos lençóis. Ao que parece, ele pedira a arrastadeira tempos atrás, mas ninguém o ouvira. E eu também ainda ali não estava. E não tivera oportunidade de me aperceber da súplica do homem. Se calhar o pedido deu-se por alturas, de alguma greve de arrastadeiras e de taxistas “intocáveis”. A enfermeira chefe teve assim direito… ao seu "presentinho". Que precioso! Misteriosos são os desígnios do destino. É que costumamos receber, consoante aquilo… que vamos contribuindo.
4º Conselho (que é mais uma “feliz” constatação): Homens e mulheres são todos iguais aos olhos daqueles competentes corpos clínicos. Que acreditam piamente estar a fazer um bom trabalho.
Vejo com muita apreciação, a junção dos dois sexos nas urgências do Hospital. É ali tudo tão claro e evidente! Estão ali corpo a corpo, e maca a maca. À distância de nada. Até poderão mesmo trocar carinhos. E têm a privacidade necessária. É que ali ninguém vê nada. Muito menos o pessoal hospitalar. Que prefere estar por detrás de um ecrã de computador a rir e a falar da bola. A minha mãe estava no meio de dois homens. Pois olhem, aquela magana, nunca me enganou! E como ela ali se poderia ter divertido, senhores! E não fora uma utente, também ela muito combalida, a avisar aqueles lentes da medicina, sobre a iminente queda da minha mãe da maca, (que entretanto se havia sentado na ponta da mesma) e ela sofreria ali uma monumental queda. E eu teria sido brindada com uma mãe cheia de problemas de saúde (como infelizmente já tem) e mais uma perna ou a cabeça partida, que entretanto ali herdara. E quem é amiguinho, quem é?
5º Conselho: Não tenham a ousadia de duvidar daquele tão insuspeito profissionalismo.
E depois, não havia mesmo maneira de darem alta à minha mãe. Pois desconfiavam não sei do quê. Mas todos os testes de despistagem davam negativo. E porquê insistir?
Tirei-a de lá, muito a custo, depois de uma negociação cerrada com o médico. Que de todos os que lá estavam, acabou por ser o mais simpático e capaz. Mas comigo ali a sarnir-lhe aos ouvidos a toda a hora, o dito não tinha mesmo outro remédio.
Na sala de espera, outros tantos acompanhantes esperavam já há horas. Uma senhora que acompanhava a sua mãe, desde as quatro da manhã. Saiu de lá às 18h. Um moço que teria trinta e muito poucos anos, que havia sido acometido de algumas dores alegadamente cardíacas. Assim como algum desconforto na zona das carótidas? Pois esperou lá sentadinho, mais de sete horas. Bem poderia morrer. E uma mulher trintona, que esperava a saída da sua mãe, pois haviam-lhe prometido a alta, já há três ou quatro horas atrás? E como ela esperava pacientemente. Mas a dada altura aparece à sua frente uma maca devidamente ocupada, mais a sua dedicada maqueira. E foi esta última, que comunicou sorridente à serena trintona: “Parabéns, trago-lhe aqui a sua mãe. Ela já teve alta”. A trintona olha para a maca, depois olha para a convalescente e… arrastada ela disse: “Mas esta não é a minha mãe”. “Há não?” Responde a “competente” maqueira. E num instante leva dali, a sua passageira Que havia de ser mãe de outros, mas não daquela que ali esperava. Passada uma hora, ainda ali estava a mulher da idade referenciada por Balzac. Da saída da sua mãe, ela não teve mais notícias. Mas não é de admirar claro está! É que lhe haviam trazido uma mãe. Não era a sua, está certo. Mas não se deve rejeitar ninguém. E se ela recusara aquela, que eles lhe quiseram atribuir com tanta bondade, agora teria muito que esperar. Fosse ser mal-agradecida para outro lugar qualquer. Não ali.
Depois havia sempre, muita gente na sala de espera. Que aguardava com muita ansiedade, notícias dos seus. Iam lá de vezes a tempos, alguns profissionais indiferenciados. Desculpem mas eu tenho que reconhecer aqui a minha ignorância. Não tenho conhecimentos do organograma dos hospitais. E os referidos profissionais lá perguntavam: “Mas quem é o acompanhante do senhor B.?”. Ninguém respondia. Depois, eles voltavam à carga, mas com outra pergunta: “E a acompanhante da senhora C.?” Também ninguém respondia. Muitos não apareciam de forma alguma. Será que haviam abandonado ali os seus familiares? Como se tem ouvido falar ultimamente? Ou os acompanhantes dos referidos, não dominavam devidamente a língua hospitalês? É que essa é mesmo uma grande falha. Que os profissionais hospitalários não perdoam. E convenhamos, aquela língua é muito complexa. Não tenham dúvidas. É que a pessoa ali facilmente se perde. 
Depois, ninguém nos garante que os familiares dos doentes não tenham desistido do processo. É que não é fácil estar para ali 325 horas à espera de uma simples informação. E ninguém nos garante que o familiar doente, ao fim daquele tempo todo, não tenha preferido emigrar. Ou ter juntado os seus lençóis, aos lençóis da vizinha da maca do lado. E quem sabe, se não fugiu com com alguém do corpo hospitalar. Levando como dote, uma arrastadeira e um urinol? É que se essa foi a vontade do doente, os seus familiares pouco ou nada podem fazer. Pelo que o melhor é mesmo, regressarem a casa e irem ver a bola, acompanhados de umas belas bejecas. E mais uns tremoços. A vida continuaria, mas numa era pós hospitalar. Garantidamente.
Obtive a alta da minha mãe, depois de mais de 12 horas de permanência no local. E após uma constante e cerrada negociação com o clínico. Assumindo eu mesma, alguma responsabilidade, que jamais negarei. Quanto a ela, só se lembra do momento em que saiu dali. E tem vontade de não regressar.
Acho absolutamente deplorável a forma como tratamos os nossos doentes. Que estão por definição muito frágeis e a sofrer. Esquecemo-nos, (particularmente os pertencentes ao campo da medicina) que a doença é um estádio absolutamente natural. E que mais tarde ou mais cedo, poderá fazer parte da nossa condição. É que tal como diz o sábio e muito dedicado sportinguista Eduardo Barroso: “A saúde é um estado transitório, que não augura nada de bom”. É um facto. E era bom que reflectíssemos um pouco mais… sobre esse assunto.
Sugestão de leitura para esta semana: “Retalhos da Vida de Um Médico” de Fernando Namora.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Depois de exigirem e de verem cumpridos todos os vossos direitos inalienáveis.


Nota: Vivi efectivamente e na integra, todas as experiências que aqui relato. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Quando o mestre canta, boa vai a obra.



Desde que me entendo por gente, que sempre ouvi o meu pai a repetir o mesmo desejo: “Quem me dera ver, a minha querida professora!” Para além do facto daquela, ter sido a sua única docente, acresce a ideia de que, se a mesma for viva, contará 195 Primaveras. E viverá amorosamente com o seu muito extremoso marido Matusalém. Lá na bela povoação… do Entroncamento.
E é com muito carinho que o meu pai fala da mesma. Autoritária como tudo. Assinava-se como Regente Preponente, só o nome assusta. E quis o destino que o meu pai fosse bom aluno. Porém algo preguiçoso, característica herdada pela sua única descendente que se assina, através deste modestíssimo blogue.
Pois eu tive muito mais professoras que o meu progenitor. Consequência de ter vivido num outro tempo. E da dedicação de meu pai, que me patrocinou inteiramente, dezasseis ou dezassete anos de vida estudantil.
Mas, e quanto a professoras primárias? Pois…
Eu tenho a confessar que, jamais quis rever a minha primeira professora primária. Foi ela efectivamente que me ensinou as primeiras letras. E também os primeiros números. Chamava-se Pulquéria Maria. Era esse o seu nome de guerra. E era brava cum’ó raio! Muito brava mesmo.
Com o prosseguir dos estudos, cheguei à conclusão que aquela mestra, só poderia ter andado, na escola da Gestapo. Estagiado seguidamente na fábrica da PUVE. E depois deverá ter passado para os quadros da PIDE, onde terminou gloriosamente a sua carreira. Num cargo bem superior. É que só pode mesmo!
Os seus métodos de ensino, para além de tenebrosos, não admitiam qualquer opinião contraditória. E foi ao fixar-lhe os seus olhos tão arregalados e imóveis, que eu vi muitas vezes a minha vida a andar para trás. É que ela castigava duramente, todo aquele que não fizesse os trabalhos de casa, que desse erros ortográficos ou que falasse nas aulas… E logo eu que sempre tive uma relação tão complicada com os celebres TPC’s… Nunca achei que os mesmos me acrescentassem lá grande coisa à minha vida. Era tempo perdido. Ou melhor era tempo roubado ao tempo glorioso das brincadeiras. Assim como ao tempo dedicado ao convívio com os amigos e familiares.
E além disso também adoro falar. Sempre adorei. Cultivo a veleidade de pensar, que tenho sempre algo “muito importante” a comunicar a quem quer que seja. Por isso, a minha vida não se adivinhava, nada fácil. Muito antes pelo contrário. Estava assim reunida em mim, uma mistura explosiva.
À primeira oportunidade, ela lá “molhava a sopa”. E os castigos envolviam uma grossa régua de madeira, que um dia “morreu”, quando ela não conseguiu acertar na mão de um desgraçado qualquer, e bateu com ela na mesa. Só que a intrépida professora não perdeu tempo. E num instante ela substituiu aquela agora, sua disfuncional ferramenta de trabalho. Já que foi rapidamente à Grande Loja das Torturas, que era gerida e da propriedade da Santa Inquisição. Lá ela utilizou o seu cartão de cliente. Trouxe de lá uma outra régua similar. E aproveitando a época dos descontos, ela adquiriu também uma férula e mais um manual, com muitos ensinamentos e ilustrações em perfusão.
Havia contudo um grupinho restrito de intocáveis. Que eram aqueles dois ou três meninos, muito bem comportadinhos. Que faziam sempre tudo aquilo, que a professora mais queria e mais desejava. E a esses infames, ela nunca tocava. Mais. Para ela, esses eram exactamente os exemplos, que o resto da turma deveria de seguir. Só que eu jamais ambicionei ser como um daqueles elementos. Lamento, mas é a mais pura verdade. Até poderei dizer mais: até sentia por eles uma verdadeira antipatia. Desejava-lhes mal. E queria que eles tivessem, muitas contrariedades na vida. Credo! Logo àqueles que nunca haviam sentido o peso efectivo da régua, nas suas tão delicadas, virgens e muito submissas mãos.
Estava-se nos anos 70. Década que serviu de transição para tempos de maior tranquilidade e para outros métodos pedagógicos, mais eficazes. Necessariamente sujeitos a críticas, mas o que é que na vida não é alvo de contestação? Só mesmo a minha professora à altura. Ela que ainda pertencia à velha guarda. Recordo, com um arrepio monumental, que percorre toda a minha coluna vertebral, das alturas em que ela envergava umas botas de cano alto. Parecia tal qual o Himmler. Será que eles ainda eram parentes?
Relembro uma outra vez, em que ela abordou questões levemente ligadas, à vida sexual do ser humano. Ora logo ela que era solteirona. Eu não tenho nada contra, as pessoas dessa condição, como é evidente. Mas ela devia de ser, uma solteirona… das mais empedernidas. Então e qual foi mesmo, a abordagem que ela fez quanto ao assunto supracitado? Pois virou-se de perfil e disse-nos: “Como vêm eu sou um bocadinho diferente de vocês. Tenho aqui no meu peito, estes tão delicados planaltos”. Ora, com franqueza!... “Carecas” estávamos nós de observar aquele seu monumental par de mamas. Não era necessário que ela nos chamasse à atenção para aquela sua tão previsível diferenciação, em relação a nós. Que aos seus olhos, só éramos (e na grande maioria) uns burros preguiçosos e uns indisciplinados. Com a lamentável excepção daquele grupo glorioso de engraxadores.
Mas houve um dia que fez toda a diferença. Foi quando ela chegou à aula, e muito triste nos comunicou: “Tenho tanta pena! Mas não vou ser mais a vossa professora. Vou ser transferida para uma outra escola.” Ohhhhhhhhhhhhh!
Acreditem, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Eu fiz de conta que fiquei muito triste e infeliz. É que… convenhamos, a régua ainda ali estava presente. E no activo. Pelo que fingi ficar muito desolada com aquela comunicação. Mas ia-lhe ver as costas. E finalmente. E para sempre! Por dentro, toda eu rejubilava. Já ia era tarde…
Para sempre (e para mim), o nome Pulquéria Maria,  ficaria associado à violência e à autoridade extrema. Ela foi a pessoa que eu conheci, que menos foi capaz de motivar alguém, para os livros e para a leitura. Ou para a obtenção de conhecimento em geral. Numa prática pedagógica que ao invés de agregar, somente conseguia afastar os alunos das boas práticas escolares. É que obrigada, eu não vou mesmo a lado nenhum! E aquela política de vangloriar os bufos e os engraxadores? Absolutamente lamentável. Pelo que os meus primeiros três anos de escolaridade revelaram-se assim, uma verdadeira… agonia.
Só que tive o reverso da medalha na minha quarta classe. E qual era o nome da virtuosa professora? Chamava-se… Matilde. Essa sim. Foi uma excelente professora. Ela teve a virtude de nos ensinar a matéria que constava no programa, assim como outros ensinamentos que ela considerava passíveis de serem úteis para as nossas (jovens) vidas. O início de cada aula era iniciado com a leitura de um capítulo de um livro, que ela escolhia para nós. Era ela quem lia. E como nós ansiávamos pelo prosseguir da narrativa!
Connosco ela fazia desporto. Aceitava as nossas diferenças. Ainda hoje e nas noites de insónia, eu recorro a um dos seus conselhos. É que para dormir, nada é melhor, que nos concentrarmos em partes distintas do nosso corpo. Uma a uma. E o sono não tarda a vir.
Aquela professora não fazia distinção entre ninguém. É evidente que todos tínhamos competências diferenciadas. Uns eram mais dotados para uma matéria específica, outros para outra. Outros menos dotados. Mas ela, e consequentemente não amesquinhava ninguém.
Quando fazíamos os exercícios da praxe e quando finalmente os entregávamos, ela motivava-nos para a leitura. E enquanto os outros colegas não acabavam os seus trabalhos escolares, nós íamos ler. E eu que ainda sou do tempo, em que a realidade das Bibliotecas Escolares era bem diferente da da actualidade.
Pois aquela professora no início do ano lectivo, havia-nos solicitado, que levássemos de nossa casa para a sala de aula, um ou dois livros dos nossos. Constituiu-se desta maneira, uma singela e pouco representativa biblioteca. Mas que de alguma maneira, cumpriria a sua função. E foi desta forma que eu, e acabando as minhas tarefas escolares, me deleitava a ler os livros dos meus colegas. É que os meus próprios livros, eu já havia lido muitas vezes. E depois de acabado o ano escolar, nós recuperamos na íntegra, todos os nossos haveres.
Um dia a minha mãe, e numa reunião lá explicou à professora sobre como é que havia de proceder, uma vez que via a sua única filha, pouco dedicada à causa escolar lá em casa. Resposta pronta daquela excelente senhora: “Pois deixe-a brincar à vontade. É que a sua filha, orienta-se e aprende muito bem. Aqui, na sala de aula”. E que mais é que uma criança sonha poder ouvir, da boca de uma docente?
E aquela professora não massacrava ninguém. Nunca teve régua, nem Menina-de-Cinco-Olhos. E nós gostávamos tanto dela, que todos os dias, (mas todos os dias, mesmo) íamos esperá-la à estação dos comboios. Elaborámos mesmo uma espécie de escala para o efeito. E como ela ficava contente por nos ver ali. Ficava contente sempre… todos os dias. Exactamente como se fossemos ali esperá-la, pela primeira vez.
Essa foi efectivamente a minha professora primária de eleição. A outra foi uma espécie de guarda prisional, de um campo de concentração, onde eu e mais alguns tivemos a infelicidade de cair durante três anos consecutivos. Contámos com algumas saídas precárias, consubstanciadas através da existência de feriados, fins-de-semana e de férias. Mas que passavam muito rapidamente. E depois vinha outra vez a descida aos infernos. Onde imperava o medo e a raiva. Pois aquela facínora e carrasca, para além de nos castigar “forte e feio”, ainda tinha a desdita de ir contar tudinho aos nossos pais. Que inexplicavelmente aceitavam tudo aquilo, como parte integrante do processo que constituía o nosso crescimento e formação. Vá-se lá entender porquê. Ao que parecia, também os meus pais haviam assinado um solene contrato, com aquela carcereira efectiva e muito competente nas suas funções.
Nunca mais soube dela. Nem sei se é viva se não. Mas acredito, que de qualquer das maneiras, ela terá lugar cativo, no lado esquerdo do Belzebú!
E em relação à minha pessoa? Pois considero ter sido um verdadeiro milagre, eu ter estudado e apreciado até à exaustão, os livros e as leituras. Depois de um começo tão pouco promissor. Ou se calhar… até talvez não!
Sugestão de leitura para esta semana: “O Rapaz do Pijama às Riscas” de John Boyne.
DIVIRTAMSEMAZÉ!