Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 11 de maio de 2013

Relato de uma grande aventura.


A minha mãe foi muito recentemente operada às cataratas. A intervenção correu mais ou menos bem. Foi algo dolorosa e difícil, porque as cataratas já eram muito densas. Mas tudo piorou quando ela teve uma má reacção à anestesia. Que foi local. E passadas algumas horas sobre a mesma, a minha mãe já não dizia coisa com coisa. Para além disso… vomitou. O meu pai ficou aflito de noite e telefonou para a Cruz Vermelha. Porque era utente de um serviço que garantia a vinda de um médico a casa. Era para isso que pagava uma cota… todos os meses. Mas tal não aconteceu. Ao telefone lá lhe disseram que era normal ela estar assim, devido à anestesia. Depois ele telefonou-me a mim. Eu fui lá para casa para a acompanhar. Só para terem uma ideia, ela estava de tal forma “apardalada” que se sentou num sofá da sala, às três da manhã e não queria de todo ir para a cama. Eu cheguei lá às 4 ou 5 da manhã e usei de toda a minha força e determinação. Consegui levá-la para a cama. Dormiu profundamente mais ou menos até às 10 da manhã.
O pior deu-se quando já de manhã, eu vi a casa buscar roupa lavada, tomar duche e depois regressar novamente à casa paterna. É que mais ou menos perto do destino, liga-me uma colaboradora da biblioteca onde trabalho, a dizer que o meu pai já ia com a minha mãe para um Hospital Público recentemente inaugurado. É que o meu pai, na minha ausência, havia ligado novamente para a Cruz Vermelha. E no meio do seu susto, aconselharam-no a chamar o INEM. Que levaria a minha mãe para o tal Hospital. A minha intenção era levá-la ao Hospital onde ela havia sido intervencionada. Tinha inclusivamente uma consulta já marcada. Uma consulta de pós-operatório. Mas não foi isso que aconteceu. Fomos para o tal Hospital de má memória, do passado. Mas agora com "roupagens" novas. E foi assim que eu tive direito a viver as aventuras que aqui passo a relatar. Acompanhando, (se me permitem) de cinco conselhos:
1º Conselho: É muito arriscado irem parar a um hospital sem dominarem a “língua hospitalês”:
Quando se ali chega, tem que se tirar uma senha com todas as letras do alfabeto latino e também do cirílico. Os números e as letras das senhas são chamadas através de uns vistosos plasmas, que estão sempre p’ra ali a piar. Mandam a letra e o número x para o gabinete médico y, mas onde raio é que fica o gabinete? O z para a triagem, mas o que é isso da triagem? É que aquele pessoal do meio hospitalar, alimenta a ideia que as pessoas não fazem mais nada, do que passar a vida no Hospital. Estar ali a aprender para a vida. Género serviço militar. Acreditam mesmo que aquilo ali é para se saber tudo. Como uma prova de vida, ou de reconhecimento de uma identidade. Perdemos-mos assim por interstícios e paredes, que estando a brilhar, não camuflam grande coisa, das misérias que por lá se repetem. Segundo a segundo
2º Conselho: Acreditem, vocês são mesmo os melhores dos médicos:
A minha mãe teve lá das 11 da manhã até às 23 horas. Com a necessidade de levar gotas, tal qual o cirurgião prescrevera. Mas naquele Hospital recém-inaugurado, ninguém estava disposto a dar-lhas. Andei eu pois, de hora a hora a entrar pelas Urgências a dentro, para lhe colocar as gotas. E o que eu lá vi, meus amigos! É que se assim não fosse, ela poderia ter mais complicações devido à sua permanência forçada ali. E se ninguém a medicava como lhe haviam prescrito à altura da operação, o que é que afinal ela lá estava a fazer? Vendo bem as coisas, eu só deslocalizei o meu posto de trabalho. Naquele dia, eu laborei no Hospital. E nem recebi um cêntimo pelos serviços prestados. Mas eles não me quiseram nunca despedir. Pelos vistos o meu trabalho agradou-lhes. É que eu só tinha um desejo: ver a minha mãe fora daquele Hospital. Mas eles, nadinha. Por mais que as despistagens realizadas a todas as desgraças, dessem negativo.
3º Conselho: Reflictam bem queridos doentes. Contabilizem ao máximo as vossas necessidades de verter líquidos e outros vestígios corporais. Como os mais sólidos. Mas eu explico:
A dada altura ao chegar ao pé da minha mãe, ela a custo comunicou-me que estava com muita vontade de fazer xixi. Eu, talvez altaneira de mais, mas estava já farta de toda aquela inoperância, dirigi-me a uma tal de chefe das enfermeiras, visivelmente com peso a mais, meã de altura e com muitíssimo pelo na venta. Perguntei-lhe como e onde é que eu poderia conseguir uma arrastadeira. Resposta da mesma, pronta e seca: “Tem que ser a funcionária x, (que eu desconfio que seja aquela que ocupa a escala menor daquela hierarquia iluminada de hospitalários), que tem que trazer a arrastadeira. Mas olhe, que eu perguntei à senhora sua mãe se ela queria urinar e ela disse-me que não”.
Mas quando é que tal questão havia sido colocada? E há quanto tempo? Naquele hospital urinar deve de ser previsível, somente com uma requisição formal. E não mais que uma vez por dia. Sugestão que eu compreendi e interferi imediatamente, àquela muito superior e ríspida profissional. Sim, ela também só deveria de urinar uma vez por dia. Aquele seu volume era bem capaz de ser devido a alguma retenção de liquidos. Para que não perdesse tempo. E fosse a melhor das melhores. Infelizmente, e para todos nós, ela está infinitamente longe de conseguir atingir esse seu objectivo secreto.
Mas, e a tal funcionária x? Onde raio é que ela estava? Se calhar estava também ela a urinar. Da vez única e diária que lhe era ali concedida. E a minha mãe, que doente e catatónica se estava ali a encolher toda? Uma vez que a “intocável profissional” aparentemente se recusava a vir (intocável numa aproximação clara às castas indianas, pelo menos segundo a linha de pensamento e a consideração da sublime e iluminada da tal enfermeira chefe). E desta maneira eu sugiro à Mami: “Olha, mija mazé aí, na maca. E depois alguém terá que limpar!” E não é que a arrastadeira veio logo? E mais. Parecia que voava. Quase que veio à velocidade da luz.
A Mami, mijou. E o senhor que ocupava a maca ao lado, ao ver o sucedido, encorajou-se e também ele replicou: “Mas eu também quero urinar. Já pedi, faz tanto tempo!” E foi assim que eu depois intercedi também por ele. Mas desta vez pedi um urinol. Esse objecto veio muito mais rápido. Se calhar aproveitou a boleia da arrastadeira. E foi colocado por uma outra funcionária, mas daquelas que representava a tal classe das “intocáveis”. Puxou, foi a cortina, para ter maior privacidade. E o senhor também ele se aliviou e finalmente.
Mas depois de aliviada, a minha mãe continuou a ter debaixo de si a arrastadeira. Como viera rápido, só muito após a minha intervenção magnética, agora ela... estava ali para ficar. Tal como a Toyota. Com os meus procedimentos, eu fora ali diagnosticada, por aquele “mui competente” pessoal médico como pessoa, perturbada e passível de ser perigosa ao seu semelhante. Ou à ordem pública ali presente. Que tem tudo a ver com desordem e incompetência. Eu na altura não estava lá como utente. Mas tive direito aos seus implacáveis serviços de diagnóstico. E nem sequer paguei qualquer taxa moderadora. Pois o Gaspar que saiba disso! Não me deram, foi medicação nenhuma. E não me fizeram calar. Nem farão. Pois continuarei a exigir os meus direitos, Assim como os direitos daqueles que me rodeiam.
E a arrastadeira ali permanecia sobe o peso dolente da minha mãe doente. A mesma arrastadeira, agora demonstrava ter a sua vontade própria. E muita auto-estima. Já fazia questão de permanecer debaixo do “sim senhor” de minha mãe por uma grande temporada. Se calhar vinha mesmo passar o fim-de-semana. Mas eu, e como sou contrária às visitas que são inconvenientes. Que não avisam que vêm, mas sobretudo que não comunicam quando se vão embora, tirei-lhe aquela peça de fino recorte utilitário, debaixo das nádegas. Mas e agora? Onde é que eu ponho isto? Pensei e comuniquei sempre à tal chefe. Que já sentia por mim uma verdadeira adoração. E era por mim, amplamente correspondida. E mais lhe perguntei: “É que se me disser onde é, eu mesma vou lá despejar o conteúdo”. Resposta da intrépida senhora: “Pois deixe-a aí, que alguém a tirará.” É que não se fala mais nisso, pensei eu. E coloquei-a cuidadosamente debaixo da maca do senhor que também teve direito ao seu urinol.
Passados minutos, aparece a primeira “intocável”. A que fora a taxista da arrastadeira. E pergunta-me por ela. Eu olho para o local onde a coloquei e… nada. A magana da arrastadeira já ali não estava. E eu gelei amigos. Será que agora me iam acusar de desvio de material hospitalar? Ou então, ser membro activo de um grupo que pratica o rapto, de penicos e afins? Não. E foi a intrépida chefe que me sossegou. Não me quis ver sofrer mais. E comunicou-me que fora ela própria que a despejara! Viram? Eu juro, olhei para o alto e cantei o: “Glória, Glória e Aleluia!” E agradeci ao Senhor muito embevecida, a ocorrência daquele verdadeiro milagre. É que a tal da chefe dos enfermeiros, tão importante e naturalmente cheia de predicados e de boas referências curriculares, havia posto… os pés ao caminho. E havia sido útil. Obrigado Senhor! E mais, nem sequer os seus parentes lhe haviam caído na lama.
Minutos passados, verifica-se que um outro senhor, que estava do outro lado da maca da minha mãe, havia defecado nos lençóis. Ao que parece, ele pedira a arrastadeira tempos atrás, mas ninguém o ouvira. E eu também ainda ali não estava. E não tivera oportunidade de me aperceber da súplica do homem. Se calhar o pedido deu-se por alturas, de alguma greve de arrastadeiras e de taxistas “intocáveis”. A enfermeira chefe teve assim direito… ao seu "presentinho". Que precioso! Misteriosos são os desígnios do destino. É que costumamos receber, consoante aquilo… que vamos contribuindo.
4º Conselho (que é mais uma “feliz” constatação): Homens e mulheres são todos iguais aos olhos daqueles competentes corpos clínicos. Que acreditam piamente estar a fazer um bom trabalho.
Vejo com muita apreciação, a junção dos dois sexos nas urgências do Hospital. É ali tudo tão claro e evidente! Estão ali corpo a corpo, e maca a maca. À distância de nada. Até poderão mesmo trocar carinhos. E têm a privacidade necessária. É que ali ninguém vê nada. Muito menos o pessoal hospitalar. Que prefere estar por detrás de um ecrã de computador a rir e a falar da bola. A minha mãe estava no meio de dois homens. Pois olhem, aquela magana, nunca me enganou! E como ela ali se poderia ter divertido, senhores! E não fora uma utente, também ela muito combalida, a avisar aqueles lentes da medicina, sobre a iminente queda da minha mãe da maca, (que entretanto se havia sentado na ponta da mesma) e ela sofreria ali uma monumental queda. E eu teria sido brindada com uma mãe cheia de problemas de saúde (como infelizmente já tem) e mais uma perna ou a cabeça partida, que entretanto ali herdara. E quem é amiguinho, quem é?
5º Conselho: Não tenham a ousadia de duvidar daquele tão insuspeito profissionalismo.
E depois, não havia mesmo maneira de darem alta à minha mãe. Pois desconfiavam não sei do quê. Mas todos os testes de despistagem davam negativo. E porquê insistir?
Tirei-a de lá, muito a custo, depois de uma negociação cerrada com o médico. Que de todos os que lá estavam, acabou por ser o mais simpático e capaz. Mas comigo ali a sarnir-lhe aos ouvidos a toda a hora, o dito não tinha mesmo outro remédio.
Na sala de espera, outros tantos acompanhantes esperavam já há horas. Uma senhora que acompanhava a sua mãe, desde as quatro da manhã. Saiu de lá às 18h. Um moço que teria trinta e muito poucos anos, que havia sido acometido de algumas dores alegadamente cardíacas. Assim como algum desconforto na zona das carótidas? Pois esperou lá sentadinho, mais de sete horas. Bem poderia morrer. E uma mulher trintona, que esperava a saída da sua mãe, pois haviam-lhe prometido a alta, já há três ou quatro horas atrás? E como ela esperava pacientemente. Mas a dada altura aparece à sua frente uma maca devidamente ocupada, mais a sua dedicada maqueira. E foi esta última, que comunicou sorridente à serena trintona: “Parabéns, trago-lhe aqui a sua mãe. Ela já teve alta”. A trintona olha para a maca, depois olha para a convalescente e… arrastada ela disse: “Mas esta não é a minha mãe”. “Há não?” Responde a “competente” maqueira. E num instante leva dali, a sua passageira Que havia de ser mãe de outros, mas não daquela que ali esperava. Passada uma hora, ainda ali estava a mulher da idade referenciada por Balzac. Da saída da sua mãe, ela não teve mais notícias. Mas não é de admirar claro está! É que lhe haviam trazido uma mãe. Não era a sua, está certo. Mas não se deve rejeitar ninguém. E se ela recusara aquela, que eles lhe quiseram atribuir com tanta bondade, agora teria muito que esperar. Fosse ser mal-agradecida para outro lugar qualquer. Não ali.
Depois havia sempre, muita gente na sala de espera. Que aguardava com muita ansiedade, notícias dos seus. Iam lá de vezes a tempos, alguns profissionais indiferenciados. Desculpem mas eu tenho que reconhecer aqui a minha ignorância. Não tenho conhecimentos do organograma dos hospitais. E os referidos profissionais lá perguntavam: “Mas quem é o acompanhante do senhor B.?”. Ninguém respondia. Depois, eles voltavam à carga, mas com outra pergunta: “E a acompanhante da senhora C.?” Também ninguém respondia. Muitos não apareciam de forma alguma. Será que haviam abandonado ali os seus familiares? Como se tem ouvido falar ultimamente? Ou os acompanhantes dos referidos, não dominavam devidamente a língua hospitalês? É que essa é mesmo uma grande falha. Que os profissionais hospitalários não perdoam. E convenhamos, aquela língua é muito complexa. Não tenham dúvidas. É que a pessoa ali facilmente se perde. 
Depois, ninguém nos garante que os familiares dos doentes não tenham desistido do processo. É que não é fácil estar para ali 325 horas à espera de uma simples informação. E ninguém nos garante que o familiar doente, ao fim daquele tempo todo, não tenha preferido emigrar. Ou ter juntado os seus lençóis, aos lençóis da vizinha da maca do lado. E quem sabe, se não fugiu com com alguém do corpo hospitalar. Levando como dote, uma arrastadeira e um urinol? É que se essa foi a vontade do doente, os seus familiares pouco ou nada podem fazer. Pelo que o melhor é mesmo, regressarem a casa e irem ver a bola, acompanhados de umas belas bejecas. E mais uns tremoços. A vida continuaria, mas numa era pós hospitalar. Garantidamente.
Obtive a alta da minha mãe, depois de mais de 12 horas de permanência no local. E após uma constante e cerrada negociação com o clínico. Assumindo eu mesma, alguma responsabilidade, que jamais negarei. Quanto a ela, só se lembra do momento em que saiu dali. E tem vontade de não regressar.
Acho absolutamente deplorável a forma como tratamos os nossos doentes. Que estão por definição muito frágeis e a sofrer. Esquecemo-nos, (particularmente os pertencentes ao campo da medicina) que a doença é um estádio absolutamente natural. E que mais tarde ou mais cedo, poderá fazer parte da nossa condição. É que tal como diz o sábio e muito dedicado sportinguista Eduardo Barroso: “A saúde é um estado transitório, que não augura nada de bom”. É um facto. E era bom que reflectíssemos um pouco mais… sobre esse assunto.
Sugestão de leitura para esta semana: “Retalhos da Vida de Um Médico” de Fernando Namora.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Depois de exigirem e de verem cumpridos todos os vossos direitos inalienáveis.


Nota: Vivi efectivamente e na integra, todas as experiências que aqui relato. 

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