Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 28 de setembro de 2013

Viver para aprender.


No tempo da “outra senhora”, muito poucos eram os casos de indivíduos possuidores de uma simples licenciatura. O número diminuía ainda mais, quando se tratava de contabilizar o número dos sujeitos detentores de cursos de Pós Graduação. Mas hoje (e felizmente) já não é nada assim.
Hoje fazemos parte de uma sociedade muitíssimo mais bem preparada. Estudámos mais e durante mais tempo. E… ao sairmos do país, porque este canto está impróprio para todo aquele que quer progredir na vida, já vamos muitíssimo melhor preparados. Por isso é que muitos de nós já ocupam no exterior, lugares de destaque, E também, muito bem bem remunerados. Pena é mesmo que tenham que sair. E Portugal fica assim e necessariamente, sem parte considerável da útil e muito prometedora massa encefálica nacional.
Pois eu, possuo também uma licenciatura e mais uma pós graduação. Ah pois é! Só que não tenho mesmo, é nenhum mestrado pois sofro de uma indisfarçável perguicite aguda, que me arrepanha as pernas e depois me sobe pela espinha acima. 
Ora, mas em certo dia, eu tive oportunidade de viajar, com um grupo de prometedores Futuros Doutores (e por extenso), à bela e enigmática cidade de Amesterdão. E foi muito engraçado. Todos eles, muito pipis, andavam sempre atrás do mestre, que era o próprio do Reitor. Vi que ali, todos acertavam o passo com o seu líder. Seguiam-no incondicionalmente. E as opiniões ali expressas, não variavam muito entre si. O magnifico reitor pensava, e os seus discípulos anuíam solidariamente, abanando as cabecinhas astutas, na sua grande maioria já algo envelhecidas, Mas todas elas, ainda em formação. Como convém.
E muitos Museus foram visitados. Galerias de Arte também. Descobri na companhia de "tais doutores", que existe uma Galeria que se dedica somente à exposição de cabelos. Onde os mesmos foram cortados e depois enfiados dentro de copos (daqueles que servem por três vezes nas tabernas, eu juro!) e voltados de "perna a pino". Dentro dos copos, os cabelos parecem-se muito, com verdadeiros ninhos de ratos. Só que segundo todas aquelas doutas opiniões, há por ali muita arte. E muito conhecimento. E quem sou eu para duvidar? Há inclusivamente naquele mesmo espaço, a presença de uns pelinhos, muito encaracolados e pequeninos, que eu acreditei na altura que pudessem ser provenientes, de zonas corporais mais obscurecidas. Onde o Sol nunca brilha. Só se for no Meco... Pois tudo isso nós vimos. Com todos aqueles doutorandos, mostrando sempre e a todo o momento, uma grande reverência. E muita devoção.
Mas daquela viagem de componente de alto nível cultural, fazia também parte uma visita à Casa de Anne Frank. E uma vez que a mesma ia inserida, e fora pensada previamente, nós não tivemos que avolumar as filas indianas, que se dispersavam por quarteirões até à entrada da casa. Nós entrámos logo, obtendo inclusivamente não só livre passe, como um sorriso rasgado de boas vindas, por parte do pessoal. Ah pois foi!
Gostei muito de visitar aquela singular habitação. Desprovida necessariamente de mobiliário. Gostei de subir aquelas escadas tão íngremes e estreitas. E por fim chegar ao sótão. Que é tão exíguo! Como é também todo o resto da casa. Foi com uma "dor d’alma", que eu me pus a imaginar, como é que seria o dia-a-dia, daquelas duas famílias, que ali estiveram escondidas. Sempre tão temerosas de serem descobertas pelos nazis, como depois efectivamente vieram a ser. É que uma coisa é ler o Diário, e imaginar o espaço. Outra bem diferente é poder estar ali. Por breves momentos enxerguei a minúscula fresta da janela, por onde as crianças espreitavam para a rua. Tomando sempre todo o cuidado para não serem vistas. Observei o espaço. Vislumbrei a árvore, que é a mesma de outrora, mas que agora está desprovida de vida. E é terrível ver ali aquela árvore, segura por todos os lados. Mas morta. Mas eu até entendo. Aquilo é quase como um murro no estômago. E lembra a todo o instante, sobre aquele tempo de sombras e de incontáveis crimes contra a humanidade. E que por isso mesmo, não se deve de esquecer nunca. É aliás muito conveniente, que tais acontecimentos jamais se venham a repetir. E no entanto…
Depois e apesar de não ser o verdadeiro, gostei de ver ali uma cópia perfeita do diário original.
Só que aquela visita não poderia ser muito demorada. E é também compreensível que assim seja. Primeiro porque as pessoas que lá querem entrar, são mais que muitas. Depois porque aqueles espaços a visitar, são efectivamente, de uma extensão muito reduzida. Pelo que é de todo aconselhável que se circule. Que não se façam pois, paragens muito demoradas.
Por fim, saímos daquela "funesta" e histórica habitação. E depois fomos para uma sala, onde um simpático jovem nos explicou em inglês, um pouco da história de tudo o que ali fora vivido. Já na longínqua década de quarenta do século passado. Falou do sufoco que deve de ter sido para aquelas pessoas, permanecerem ali escondidas. Relatou também (e sucintamente) da descoberta e do envio para os Campos de Concentração, daquelas mesmas pessoas. Informou sobre a sobrevivência do pai de Anne Frank. Já num período pós guerra. Anuiu para a presença daquela árvore morta, assim como o porquê da mesma ainda ali estar. E aquele moço, depois de uma boa e muito compreensível predica, e sempre de sorriso no rosto, deu espaço a que aqueles nobres doutorandos pudessem também eles fazer as suas inquirições. Passados instantes, no ar e acenando vigorosamente, aparece uma delicada mão feminina. E contando com o assentimento do jovem, a dona da mão, questionou-o resolutamente. E ela disse: “Poderia a Anne Frank ser considerada a Joana d’Arc dos Países Baixos?”
Fez-se silêncio. "Mas que feliz comparação!" Pensei. "Igualar uma moça na idade da adolescência, cheia de sonhos por realizar. E com muito medo de ser capturada, a uma mulher já feita, patriota e guerrilheira... Sim, senhora!" Aquela doutoranda, conseguiu fazer tripla… só com uma simples jogada. Só faltou mesmo, foi lembrar-se também, da Padeira de Aljubarrota. Que para tantos é figura inventada, mas que ajuda a responder na perfeição, pela continuidade de muitos peitos inflamados, desta Lusitânia Nação. Mas tudo indica, que tivesse sido mesmo falta de lembrança. Ou… se calhar, até talvez tenha sido melhor assim. É que depois, quem é que ia explicar àquele jovem, sobre quem fora aquela Padeira? De pá em punho e a espantar Espanhóis? Na certa, foi mesmo mais prudente assim. E depois, sempre se pode guardar… tanta sapiência para momentos futuros. Momentos que não faltam nunca, a tais ilustres cabecinhas, como todos nós sabemos.
E foi no momento, em que esta minha mente delirante, entabulava tais desenvolvimentos, que uma senhora que estava sentada ao meu lado, (e que também era doutoranda), me bateu no braço e me perguntou, com uma voz bastante audível: “Mas afinal… quem é que era a Ana Franco?”
Sugestão de leitura para esta semana: “O Diário de Anne Frank” por ela própria.
DIVIRTAMSEMAZÉ!





sábado, 21 de setembro de 2013

As inconveniências...



Vivo no meio dos livros. Graças a Deus. E é em casa e no trabalho. Mas que bela companhia! E é também com a alguma regularidade que vou aos chamados Encontros onde se fala sobre livros. Encontros com os Pais dos Livros. Que são justamente... os Escritores. E posso dizer que já passaram alguns anos, desde que assisti pela primeira vez a uma prédica protagonizada pelo jornalista e escritor Fernando Dacosta. Que é "especializado" em assuntos directamente correlacionados com o Estado Novo. E o homem é de tal maneira  "versado na matéria" e bom comunicador (e também conheceu tanta gente que viveu naquela altura) que foi para mim um prazer imenso poder ouvi-lo falar.
Naquele dia eu fui acompanhada por uma amiga que tem a minha idade, pelo meu pai, que é um senhor vinte e oito anos mais velho do que eu e por um escritor neo-realista de boa memória, mas infelizmente já falecido. Este escritor neo-realista era na altura, o chefe directo da minha amiga. E era já um excelente senhor. E já octogenário.
Ora, ante o interesse do tema e o facto de aquele período de tempo, ter sido vivenciado in loco por parte das pessoas mais velhas daquele meu grupo restrito, fazia com que existissem por ali alguns curtíssimos comentários, mas em baixa voz, dos mesmos sobre o assunto. Mas nada que perturbasse grandemente a necessária audição da sessão. Contudo, duas ou três senhoras que ocupavam os lugares atrás de nós, sentiram-se muitíssimo perturbadas. E fizeram mesmo questão de se levantarem e de falarem sobre esse assunto. E à frente de toda a gente. Ou seja, fez-se uma interrupção, com toda a assistência de olhos postos em nós. E com aquelas duas, a fulminarem-nos literalmente, com os seus olhares ferozes de aves de rapina. Pelo sucedido o moderador da altura, também se levantou e pediu muitas desculpas pelo sucedido. Pedindo desculpas de mote próprio, mas por nós. E aquele moderador, meus amigos, era o meu chefe.
Considerei que aquele momento fora um dos mais "vergonhosos" da minha (naquela altura) muito jovem existência. E se eu tivesse uma toca que fosse, mas onde eu coubesse mais a minha robustez natural e sexy, na certa que me teria sumido dali. Ou então, se eu tivesse ali contado com a tal tinta, tinha-me mascarado numa tímida e pacata guineense. Passados alguns segundos intermináveis, a coisa passou e os (nossos) comentários findaram. É que nós os quatro, demonstrávamos todos um grande empenho, pela continuidade da nossa integridade física.
Só que eu confesso: aquele acontecimento ficou-me de emenda. E foi a partir dali, e em similares situações, que eu jamais ocupo os lugares traseiros. Sei lá eu, se não comento qualquer coisa, mesmo com desconhecidos? E seja assim chamada novamente à atenção? E seja outra vez, absolutamente cilindrada pela vergonha? Apesar de, e Graças a Deus, eu não sofrer muito desse mal? Vergonha, mas o que é isso? Pelo que desde essa altura, eu coloco-me logo ali à frente. Muito decidida e a oferecer o peito às “balas”. E agora eu já não falo, nem com quem está ao lado nem com quem está atrás. Só falo mesmo é com quem está à frente. Sim, se há comentários a fazer, eu faço-os ali e directamente com os escritores convidados. E curiosamente, eu não me tenho dado mal.
Foi desta maneira, que eu entabulei gostosamente, conversação com os mais ilustres escritores desta nossa "mui nobre praça" literária. Recordo com prazer a conversa mantida com Mário Cláudio. Esse excelente escritor.  Ora foi deliciada, que eu me apercebi que ele também detesta o “espectáculo” da tourada. Como eu. E foi com ele que eu raciocinei pela primeira vez, o facto de que os trajes utilizados pelos toureiros, serem muitíssimo esquisitos, já para não falar que são deveras… suspeitos. Sim estarem p’ra ali a envergar aquelas leggins tão justinhas e reveladoras? Mas aquilo serve para quê, Senhores? E depois, com aqueles folhos todos em perfusão. E os bordadinhos a fio de ouro ou que raio é aquilo? Se eles querem ter assim tantos contactos com os toiros e com a violência e barbárie daí decorrente, porque raio é que têm que andar assim vestidos? Estão com isso a querer transmitir-nos o quê? Coisa boa não deve de ser com toda a certeza.
Foi com o Miguel Real que eu me ri (e a bom rir), quando no decorrer do encontro, conversamos sobre um acontecimento muito em voga naquela altura. Quando o Richard Gere ficou proibido de entrar na India, porque andou para lá, aos beijos a não sei quem. E o que aquilo rendeu, amigos. E é muito divertido. Poder falar assim sobre causas comezinhas, com alguns daqueles que nos escrevem tratados para a alma. E que nos fazem "viajar e sonhar".
E com o próprio Fernando Dacosta? Noutras ocasiões? O que não falámos já sobre a D. Maria? Sim, a que servira de criada ao Salazar. A que também se comportava, como uma verdadeira preceptora do governante. Só lhe faltou mesmo… foi dar alguns tautaus. Pelo menos se os houve, eles não estão documentados. Aquela D. Maria que (dentro da sua rudez natural) sentia um até um certo "carinho" pelo escritor de obras tão interessantes como “As Máscaras de Salazar” e “O viúvo”.
E o que eu me ri também com o jornalista escritor Joaquim Furtado? Quando lhe aconselhei, após conversa periférica com alguns dos presentes, que o que ele agora tinha que fazer, era um estudo sobre a etiqueta mais em voga, usada pelos ex-combatentes das ex-colónias. Um bocado à semelhança das figuras encrostadas e deliriosas dos nossos meios televisivos? Com o homem depois, a dizer exaustivamente que não, com a cabeça e com as mãos. E a recusar-se em absoluto, em ser uma versão masculina da Paula Bobone?
Pois tudo isto eu falei, amigos. E se eles me continuarem a der “abébias”, eu continuarei a falar. Os escritores são parte integrante desta nossa sociedade. São seres atentos e necessariamente interventivos. São como nós, destituídos de outras reverências bacocas. E alguns deles até são tão interessantes de serem conhecidos!
Mas existem sempre aqueles (leitores ou não) que insistem em tratá-los como se os mesmos fossem umas celebridades intransponíveis. A quem não se deve dizer nada "fora do tom expectante", por reverência. A quem depois consideram como “deuses” temerosos e distantes. Mas nem toda a gente pensa como eu, é verdade. E tenho mesmo é que respeitar a diferença.
Só que um dia destes, contámos como convidado, um escritor médico, da família daquele outro escritor que sendo também médico, gosta muito de falar com a mão a tapar a boca. E depois nós ficamos para ali a adivinhar o que é que ele está para ali a dizer. E o que aquele mano médico ali foi relatar? Chegou mesmo a ser arrepiante a dada altura. Falava nos casos clínicos extremos. Na ocorrência das chamadas doenças terminais, em que se tem que lidar directamente, com a eminência, (mais do que certa) da morte. Positivamente... aquele assunto não era para risos, nem para outras grandes divagações. Eu que adoro rir. É esse aliás o meu desporto favorito. Nunca o faria com tais temáticas, por Deus!
Ora, como é então o meu hábito, (e desde aquela altura) mais uma vez eu fiquei lá à frente. Pois claro. Mas perante aquela temática, eu fiquei ali muito sossegadita. E a rezar a Deus, para que me fosse possível manter-me um pouco mais cá por baixo. Sem grandes ralações. Nem visitas aos médicos.
E foi no fim da comunicação, que com grande espanto meu, eu ouvi o meu chefe dizer-me: “Então o que é que se passa? Porque é que você esteve aí, sempre tão séria e quietinha?”
Ah pois é! Vai na volta o meu “patrão” gosta é dos meus comentários. E da outra vez só reagiu, porque as fulanas de trás, deram em fazer queixinhas.
Sugestão de leitura para esta semana: “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cada um acha prazer onde o encontra.


Invariavelmente… a aventura começa lá pelas cinco horas da madrugada. Na rua, circulavam somente duas ou três pessoas. Que em passo acelerado se dirigiam para as paragens dos transportes públicos. Irão necessariamente para os locais da sua empregabilidade. E onde, de enfregona em riste, elas desenvolverão tarefas iguais a outras que tais, executadas em todos os outros dias de suas vivências.
Mas na paragem mais recôndita, já estavam também três ou quatro senhoras, que coleccionam (cada uma delas), sessenta ou setenta Primaveras. E estavam visivelmente felizes. Abraçam-se e beijam-se muito reconhecidamente. E procuravam no ar, augúrios para um dia que se sonhara, muito bem passado. A elas juntou-se Anabela, que tinha metade dos anos e nenhuma experiência naquele tipo de aventuras. Anabela estava de férias, e devido a alguns cortes orçamentais a que fora sujeita, decidira que naquele ano, ela não iria fazer qualquer viagem mais dispendiosa. Das que ela mais gosta.
E assim, naquele ano atípico, Anabela decidira finalmente levar em consideração, um dos trinta e nove mil prospectos, que lhe punham diariamente no correio. Onde se ofereciam, a troco de muito pouco, muitas viagens de sonho.
Passados quinze minutos, lá apareceu o autocarro prometido. De lá de dentro, saiu um motorista escanhoado, mas com cara de poucos amigos. Na mão, ele agrafanhava duas ou três folhas. E depois de se exprimir num “bom dia” mal disposto, ele desatou a ler num rompante, quatro ou cinco  nomes. Uma a uma, e depois de dizerem o “sim” espectável, lá entraram todas elas, para aquele veículo motorizado. E com um sistema de ar condicionado bastante audível.
Lá dentro já estavam mais duas mulheres. E mais um homem, solitário e gordo. Que cabeceava no acento, aspirando por noites bem melhor dormidas. E as mulheres mais velhas da paragem cumprimentam as outras que ali já estavam sentadas.
Verificadas as condições necessárias, já com toda a gente sentada nos seus lugares, o veiculo lá arrancou. É que era necessário recolher o resto das pessoas, que ocupariam os lugares ainda vagos daquele autocarro. Aquelas oito ou nove pessoas, eram manifestamente insuficientes (e por si só), para produzirem um dia de festa. Com boas e futuras recordações. Pelo que lentamente lá se prosseguiu para mais outras dez paragens recônditas. Muito difíceis de concluir. É que o autocarro era muito grande. E as ruas pequenas. E o estado de espirito era ali tão expectante… Anabela só lamentava para os seus botões, que o autocarro não tinha luz suficiente que lhe permitisse ler, mais dois ou três capítulos do seu livro-acompanhante.
Passadas duas horas e meia, estava finalmente concluída a recuperação das gentes. Que tal como a Anabela, decidiram analisar os papéis de cores brilhantes, que enxameavam as suas respectivas caixas de correio. Onde se prometiam viagens com muita emoção. E a troco de pouco.
Eram sete e trinta e sete, quando o autocarro entrou finalmente na autoestrada. E foi em velocidade cruzeiro. Ou melhor, em velocidade excursionista, para ser mais exacta. Os diálogos foram feitos, banco a banco por quem os ocupava. Em vozes mais ou menos estridentes que apresentavam sem contenção, aspectos vivenciais. Que faziam com que os outros mais silenciosos, se apercebessem de muitas outras tramas e começassem a entrelaçar pedaços de histórias alheias. Mas… mentalmente. Àquelas conversas de vida, entrecruzavam-se outras, onde se dizia expressamente, da enorme felicidade que constitui, o facto de existirem assim viagens, tão boas, tão boas… E a preços tão convidativos. É que aquelas viagens eram-lhes praticamente oferecidas…
E foi mais ou menos por essa altura, que de umas colunas potentes, começou a sair música. Como numa torneira de forte alcance. Zás! E de lá de dentro saía também, a voz potente de uma senhora que lhes comunicava, em jeito de disfrute pleno que: “já lhe haviam ido… ao pacote”. Assim… e sem espinhas! Pelo que no ar ficou a dúvida. Era bem capaz, de se tratar de mais um caso de abuso, aos direitos do consumidor. Abrir assim à bruta um qualquer pacote (de leite por exemplo) sem a necessária autorização do seu real proprietário? Ou da sua proprietária, como parecia ser a situação? Anabela não conhecia ainda aquela artista. Nem lhe conhecia outros êxitos de similar calibre, que a mesma por ali procedeu ad eternum. Tal cantoria, fez com que no autocarro, não se pudessem ouvir em condições, outras histórias de vida. Nem mais palavras de reconhecimento. Ouvia-se somente uma música de duvidosa proveniência. Mas como em tudo, caros amigos… existem sempre aqueles que apreciam.
Fez-se depois uma curta paragem, para libertar líquidos, (ou sólidos, pois ninguém perguntou nada às pessoas que saíram), numa das diversas estações gasolineiras que se espalham um pouco por todo o lado, pelos domínios da Brisa. E depois, já recolhidas as pessoas, o autocarro lá continuou a andar, sempre com grande pujança.
E só passadas mais duas horas, é que o autocarro decidiu sair da via rápida. Onde depois, com alguns avanços e recuos, lá buscou encontrar a primeira paragem. Depois de todas aquelas onde se recolheram as pessoas. E da das “mijadelas”.
Eram dez e trinta, quando o autocarro finalmente estancou numa propriedade longínqua. Os letreiros ali presentes, ofereciam um restaurante. E o ambiente oferecia também, boas e vastas paisagens de verde. Destituídas de outras realizações humanas. E via-se ao longe uma serra imponente. Aparentemente intransponível.
Pouco tempo após, as pessoas, (uma a uma e já com alguma dificuldade, atendendo às mazelas trazidas pela provecta idade), lá saíram do autocarro. A grande maioria delas, procurou mais uma vez os sanitários. E as poucas restantes, procuraram o local onde teria lugar a primeira refeição do dia. Antecipadamente, já duas ou três pessoas, se haviam apresentado como os técnicos responsáveis pelo acompanhamento e distracção daquele grupo informal. Feito à medida e à vontade, de empresas que têm muito mais “longo alcance”, do que aquele que querem deixar transparecer. Afinal está ou não está tudo mais caro? E aqueles senhores ali… são sempre tão bonzinhos? Credo! A fazerem as excursões tão baratinhas!
Paulatinamente, toda a gente lá foi entrando para uma sala, com mesas e cadeiras. E foi servido à descrição, um pequeno-almoço composto por pão fresco, queijo, fiambre e manteiga. Foram servidas também três bebidas, que o freguês pode escolher ou misturar. Café, leite e sumo de laranja. Daqueles sumos conseguidos com um litro de néctar encorpado e de origem duvidosa, ao qual se junta água, E com o mesmo, consegue-se encher, dois ou três camiões cisterna. Os convivas comeram com gana, e depois olharam uns para os outros. E agradeciam quase todos, poder continuar a fazer aquelas excursões. Sempre tão ao alcance dos mais pobrezinhos!…
Passado o tempo da deglutição de tais acepipes, é hora de se passar para a sala do lado. As cadeiras foram irrepreensivelmente colocadas, à volta de uma montra coberta laboriosamente… por panos de cor garrida. Tal qual como se fossem fantasmas galhofeiros e de bem com a vida. E as pessoas, maioritariamente pertencentes à terceira idade, (avaliando pelo prateado dos cabelos, assim como pelas profundas rugas enriquecidas com pó de arroz), sentaram-se à discrição. Mas prefencialmente… lá mais para os lugares de frente. É que assim eles ouvem melhor, não é? E depois também vêm melhor o senhor das vendas. Que é tão simpático mas que está ali só para vender. “Só para quem quiser e poder comprar, como é obvio”. Dirige-se assim e sedutoramente para aquela “sua” exemplar assistência. “E também, só para quem precise do que ali se vende”, ele continuava. “É que ninguém obrigará ninguém a comprar nada”, diz confiantemente aquele homem, que entretanto já havia transmitido também… a sua graça. Comunicava-se-se assim, para toda aquela assistência. Mas também como se acreditasse piamente no que para ali estava a dizer.
E de um rompante são destapados, tachos, panelas, aspiradores, faqueiros de luxo, almofadas, colchões, poltronas de massagens, aparelhos que tremem e fazem tremer… E aquela oferta era tanta e tão aliciante, “que ninguém no se perfeito juízo se dignaria a recusar”. É bombardeado a todo o momento, pela voz canora e muito presente daquele senhor que vende. Mas... depois, há que pagar, claro está.
Anabela contudo… ia resistindo. Ela não queria comprar nada. Não precisava de nada daquilo. Considerava até, que já tinha tudo aquilo que lhe fazia falta… E então em tempos de crise…
Mas o senhor que vende, lá ia continuando. Sempre com aquele mesmo tom de voz. Falava da vida. Das grandes dificuldades vividas “por todos nós”. Falava da mulher, dos filhos que tem e de quem muito se orgulha. E finalmente…  falou de preços. Preços que todos juntos (tais são as preciosidades ali reunidas), poderiam pagar parte considerável da Dívida Pública. É que tudo ali é tão bom… e tão valioso. A dada altura a maioria das velhinhas, parece convencer-se que está defronte dos utensílios utilizados no próprio Palácio de Buckingham. E que são usados e abusados pela própria Isabel II.
E depois de mais duas ou três horas de paleio. E somadas todas aquelas quantias, aquilo dava um resultado imponente. Só que aquele senhor é generoso. Sempre o foi. E ali, defronte daquela assistência a coisa não poderia ser diferente. E passados escassos segundos, aquela conta imponente desce a um terço. Milagrosamente. E assim, ficara uma vez mais provado, que aquelas pessoas são mesmo tão boazinhas!... E foi só depois disso, que o senhor das vendas abandonou a sala, mas de forma dramática. Tal qual a diva maior do Teatro Nacional.
As pessoas olharam-se. As mais experientes… diziam já ter tudo aquilo. Transmitiram-no a todos os outros, inclusivamente. Mas as menos experientes, não. E demonstravam claramente o seu pouco à vontade perante aqueles acontecimentos. Sinais claros, que eram directamente recepcionados, pelos membros restantes daquela equipa de vendas. Que se passarinhavam por ali. E um pouco por toda o parte. Anabela, nada dizia. É que não precisava mesmo nada daquilo. Veio só porque lhe haviam posto no correio todos aqueles prospectos. Que lhe ofereciam assim... viagens de sonho. E a custo de quase nada. Mas do sonho prometido, e até àquele momento, Anabela, ainda não vira nada. “Até ali”, ela concluíra, “teria sido muito mais gratificante, ter ficado em casa”. Ter ficado a dormir. Com toda a certeza ela teria tido muito melhores sonhos que aquele. E quando acordasse, contaria também com um sumo de laranja no frigorífico. E de muito melhor qualidade. Agora ali… Mas ela sabia. Não fora enganada. Todo aquele paleio, fazia parte do “programa de festas”. Pelo que ficou (também não teria outro remédio), para ali a ouvir. E sossegada, ela ficara. Só não comprava… era nada.
Mas agora o senhor das vendas havia-se ido embora. Tinha mesmo saído da sala. Tudo indicava que aquela conversa toda tinha acabado. Finalmente. Pelo que, a Anabela se levantou da cadeira e foi para a varanda fumar um cigarro. E quando ainda não tinha dado três baforadas, que lhe apareceu à frente um outro senhor das vendas. Que lhe pediu encarecidamente, que regressasse novamente à sala. Só por mais dez minutos. É que a assistência delirante, solicitara os preços dos produtos. Individualmente. Anabela entrou outra vez. Convencida que eram somente, mais dez minutos… Mas como a conversa é “como as cerejas”, lá se prolongou. E quintuplicou-se como que por um milagre. E pessoas, umas, à vez lá iam comprando daquilo. E era mais uma almofada lá para casa. Mais uma panela daquelas que não esturra nada. Mais um aparelho dos que treme e faz tremer… Mas mais uma vez, quem não comprava nada era Anabela. Nem aquele senhor idoso e solitário, que ela vira e conhecera no autocarro. Aqueles aparentemente não se vendiam, nem se faziam comprar. E eram senhores plenos das suas próprias decisões.
Depois das panelas e dos colchões, vieram os cremes. Com baba de caracol e de lagartixa. Todos com muito bons preços e de propriedades terapêuticas de elevadíssimo valor. E foi mais uma hora naquilo.
Eram duas da tarde, quando finalmente as pessoas foram ocupar os seus lugares nas mesas onde se serviriam as refeições. Onde se degustaria um leitão, que havia sido tão apregoado por todos. E fora o senhor das vendas que avisara, que ali podiam comer tudo o que quisessem. Só não podiam era levar nada para casa. Dentro de marmitas. Como um outro grupo qualquer fizera.
A sopa indistinta e líquida, desceu velozmente a todos aqueles estômagos esfomeados. Também não se previa que houvesse lugar a muita razão de queixa. É que todos tinham tomado, um substancial e muito proteínico pequeno-almoço. E depois só tiveram que ficar ali, a ouvir todas as prédicas do senhor. Do tal do senhor das vendas. Não haviam por isso feito grandes esforços. Nem muitas caminhadas.
À sopa seguiram-se uns bocados de leitão. Que ninguém pôs em marmitas. Mais umas batatinhas de pacote e uma saladinha de alface. Os vinhos servidos, tinham marcas secretas. De pouca publicidade. E sumo de laranja? Esse era o mesmo do pequeno-almoço. Se calhar sobrara.
E para culminar àquele verdadeiro festim das pupilas gustativas, viria a sobremesa. Numa excelente salada de frutas, conseguida com frutas conservadas em latas. Já bem moles e de indefinido sabor. Mas tudo isso fora pensado, ou não fora? É que aquele pessoal já era dotado (maioritariamente) de dentes postiços.
O café é que não estava incluído na pechincha. Ah pois claro que não! E ali ele fora vendido ao mesmo preço, do praticado na Finlândia.
E quando as pessoas estavam finalmente convencidas que lá pelas quatro da tarde, iriam sair do Restaurante e iniciar (finalmente) o passeio prometido, eis que regressa outra vez, o senhor das vendas. E veio acompanhado de mais uns pacotes. E a ladainha dele, era quase a mesma da manhã. É que aquele pessoal… ali não ganhava nada. Só ganhavam o que vendiam. Coitadinhos! Pelo que agora era mesmo… a recta final das vendas. E usando de um linguajar próprio para crianças, ele lá foi distribuindo por todo aquele que abria a boca, mais umas panelas e tachos. Só não deu nenhuma foi à Anabela. Nem ao senhor obeso. É que nem um nem outro lhe responderam (uma vez que fosse) ao chamamento. E permaneceram ali… de boca bem fechada. Era previsível que, nem um nem outro, precisassem de nada daquilo ali. Mas mesmo que precisassem…
E para culminar, o senhor das vendas lá referenciou, que quem não gostasse daquele fenómeno ali, pois que não viesse mais. Pois aquele era precisamente o seu trabalho. E a equipa que ali estava, só ganhava mesmo o que vendia… Pobrezinhos!
Àquele sermão não encomendado, seguir-se-ia (e finalmente) o passeio de barco. Que teve a duração de cinquenta minutos. De cinquenta minutos, senhores! Porque depois, todos tiveram que ir de novo para o autocarro, para poderem regressar finalmente a suas casas.
Foi isto, o que se conseguiu naquele dia. Com a realização de mais um “maravilhoso passeiozinho… de sonho”. Mas sem baile, como o que era prometido do tal prospecto. Se bem que a Anabela ainda temesse bastante, pela ocorrência de uma última paragem. Por aí, e num pinhal qualquer. Para se poder dar um pé de dança. E para se poderem vender… mais umas panelas…
A Anabela regressou a casa, quando já passava das dez da noite. Depois de um dia de “grande emoção” e com muitas histórias para contar. Ela só não ficou, foi com qualquer vontade de se meter noutra igual. Afinal nem havia sido necessário que o senhor das vendas a “tivesse” alertado para esse efeito. É que fora justamente “aquela viagem”, a que lhe custara quase nada, a mais “cara” de toda a sua (ainda jovem) existência. Pois fora exactamente essa, a mais penosa por que passara.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Vidente” de Lars Kapler.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

É pela forma como se trabalha, que se avalia o artista.




É capaz de constituir o cliché mais escandaloso, dizer-se que tudo melhora… quando se faz aquilo que se gosta. Principalmente quando se acha que se tem a profissão certa, e que se não fora aquela, não seria mais nenhuma.
Pois Amélia adora ler, olha que coisa? E para melhorar o seu estado anímico nada melhor do que poder também trabalhar enfiada no meio de milhares de livros. Os seus colaboradores dizem-lhe que em cima da sua secretaria, ela tem por vezes um “muro” de tal maneira imponente, que a poderá defender de qualquer tempestade ou agressão. E é todo composto inteiramente por livros. Que desafiam ali e diariamente a própria lei da gravidade. E como isso é maravilhoso.
Mas… e depois a Biblioteca deverá ser muito frequentada. Ah pois deve. Só assim é que fará sentido. E é então que à Biblioteca acorrem muitas pessoas, das mais diversas proveniências, geográficas e culturais, dos diversos extractos sociais, idade, sexo ou religião… E viva pois a diferença. A interacção conseguida, e desta maneira será muito proveitosa. É que querendo, estaremos sempre todos a aprender. E uns com os outros. E depois a leitura é a receita recomendável para toda a gente. Toda a gente, mesmo.
Ora Amélia considera (e para ela é mesmo ponto assente), que todo o profissional que trabalhe numa Biblioteca se deverá considerar um privilegiado. E de forma simpática, o mesmo deverá saber expor ao leitor (quando a isso é solicitado), tudo aquilo que o mesmo poderá esperar no referido estabelecimento. E se se procura algo sobre um determinado assunto, o profissional deverá de forma objectiva, saber informar sobre o máximo do que ali se encontra. E na escassez de informação, o mesmo deverá saber explicar sobre outros estabelecimentos que eventualmente detenham maior volume de informação. Fazemos assim todos, parte de uma mesma realidade. Somos pois todos parte integrante de um terreno parcelar que com outros tais, completam o conjunto de instituições detentoras do conhecimento global. E só faremos sentido se promovermos interligações com o resto dessa mesma realidade.
Amélia é assim, uma Bibliotecária responsável por uma Biblioteca Pública Portuguesa. Só não está é no atendimento ao público. E só vai aparecendo, quando lhe solicitam a presença. Para poder responder a algo, que o resto da sua equipa, por inerência não poderá (ou deverá) esclarecer. Contudo Amélia nasceu com uma particularidade inacta: acha que o mundo poderá funcionar muito melhor se interagirmos mais uns com os outros. Afinal, não somos estátuas, nem personagens destituídas de humanidade. Pelo que, e muito de vez em quando, a Amélia lá saí do seu gabinete e vem observar in loco aquilo que se vai passando pelo estaminé.
E se por ventura alguém vem ter com Amélia e lhe pergunta qualquer coisa sobre a Biblioteca, aquela profissional jamais responderá para ir ter com a técnica A. que está ao serviço na Sala. E, logo “desavergonhadamente”, ela estabelece um o diálogo prévio. E avisada sobre o que se procura, ela irá mesmo com o leitor, ao local onde está a pretendida documentação.
Nem sempre fará esse serviço da forma mais competente e profissional possível (é que errar é humano), mas é alguém muito esforçada. Que procura melhorar o seu desempenho diariamente. E depois ela verifica, que à custa desse seu modo de ser, ela também não tem ouvido muita reclamação. Tem que se entender que um cliente da biblioteca deverá ser entendido como um outro cliente qualquer. Deverá ser atendido da forma mais eficiente possível e com simpatia. E quem é que não gosta de ser bem tratado?
Mas só que um dia lá na Biblioteca, Amélia conheceu uma jovem com os seus vinte e muitos. Que enfaticamente, procurava algo… sem procurar. A moça andava numa verdadeira azáfama, incompreensível para Amélia. E com muita rapidez ela ia para um lado. Depois e com igual desenvoltura ela lá ia para o lado oposto. Procurando a cota, buscando nas estantes. Mas lamuriando-se sempre por não encontrar. Foi então que Amélia, a tal “abelhuda de serviço”, se abeirou da moça e lhe perguntou:
“Bom Dia. Queira ter a gentiliza de me informar sobre o que procura. Terei todo o gosto em poder ajudá-la.”
A jovem finalmente… estancou. Olhou admirada para a profissional. É que agora já ninguém fala assim. O que é que se estava ali a passar? Mas como a Amélia não se demovia dali, e com um sorriso na cara, a moça não teve outro remédio que lhe responder. Pelo que a custo ela lá informou, sobre o que andava à procura. Era pois de seu interesse, obter informações variadas sobre o concelho onde residia. Que era justamente o concelho onde a Biblioteca estava implantada.
“Nada mais fácil de responder”, pensou Amélia. Tudo o que dizia respeito à informação local, estava reunido no espaço que se denomina de Fundo Local. E ali, há a obrigação de estar toda a documentação que é possível reunir sobre a região. Arrumada por assunto, por datas… Deverão constar ali, todas as publicações que vão saindo sobre o tema. E desde tempos imemoriais. Assim como excertos retirados de publicações periódicas…. Querendo também se podem visualizar jornais antigos (a pedido), porque naturalmente esses estarão em Reserva, para que a sua preservação seja efectiva.
Para além do mais, e nas imediações, também estarão colocadas as publicações nacionais que revelam os dados estatísticos de todas as zonas do país. “É só procurar bem, que se encontra o que se procura”, disse de sorriso na cara, Amélia a Bibliotecária.
E para lhe demonstrar toda a extensão do Fundo Local, Amélia levou (como aliás é seu hábito), a leitora até ao local.
Só que contrariamente ao que era espectável, a leitora continuava na dúvida. Abria um dossier, abria outro. E depois dizia: “Não, não é bem isto que eu procuro”. Depois disso. Ela abria um livro, consultava-lhe o índice. E torcia mais uma vez o nariz. Também tinha sido ao lado. Via as publicações do Instituto Nacional de Estatísticas. E abanava a cabeça em jeito de negação. Definitivamente, a Biblioteca parecia não estar dotada de nada que fosse susceptivel de lhe poder interessar.
A profissional Amélia, já algo descorçoada pela constatação absoluta, que se calhar não tinha ajudado em nada… muito antes pelo contrário… Quem sabe se não havia confundido a leitora ainda mais. E em jeito de conclusão, lá lhe acaba por recomendar.
“Olhe, e uma vez que nada do que está aqui contido lhe parece interessar, tente talvez pesquisar um pouco mais em enciclopédias. Pesquise sobre alguns termos na nossa base de dados, num destes computadores. Consulte ainda a Internet. Quem sabe se num artigo qualquer, não haja referência a uma fonte exacta. Que seja exactamente… essa a temática que procura?”
E com a recomendação, demonstrando mesmo alguma angústia, Amélia preparava-se para deixar a leitora, que permanecia visivelmente insatisfeita. Ia ainda desejar-lhe um bom resto de dia. E que tivesse sorte na busca da informação pretendida... quando a moça, abrindo somente meio sorriso, lhe questiona:
“Mas… e onde é que está o rapaz?”
Foi só nesse momento que se fez luz, na cabecita já algo envelhecida da profissional Amélia. É que Amélia até lhe poderia ter feito o trabalho todo, que isso não seria o bastante. Pois o que a jovem queria mesmo, era ser atendida por N. o rapaz técnico de Biblioteca, que ainda conservava um palminho de cara laroca. E que também arruinava os seus ossos trintões… a fazer surf. Ah pois era!
Há coisas incontornáveis, senhores! Que nem com todo um grau de profissionalismo elevado e posto em acção, poderá satisfazer em pleno, uma legítima cliente… de uma qualquer Biblioteca Pública.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Herói das Mulheres” de Adolfo Bioy Casares.
DIVIRTAMSEMAZÉ!