No tempo da “outra senhora”,
muito poucos eram os casos de indivíduos possuidores de uma simples licenciatura.
O número diminuía ainda mais, quando se tratava de contabilizar o número dos
sujeitos detentores de cursos de Pós Graduação. Mas hoje (e felizmente) já não
é nada assim.
Hoje fazemos parte de uma
sociedade muitíssimo mais bem preparada. Estudámos mais e durante mais tempo. E…
ao sairmos do país, porque este canto está impróprio para todo aquele que quer
progredir na vida, já vamos muitíssimo melhor preparados. Por isso é que muitos
de nós já ocupam no exterior, lugares de destaque, E também, muito bem bem remunerados.
Pena é mesmo que tenham que sair. E Portugal fica assim e necessariamente, sem parte considerável
da útil e muito prometedora massa encefálica nacional.
Pois eu, possuo também uma
licenciatura e mais uma pós graduação. Ah pois é! Só que não tenho mesmo, é nenhum mestrado pois sofro de uma
indisfarçável perguicite aguda, que me arrepanha as pernas e depois me sobe pela espinha acima.
Ora, mas em certo dia, eu tive oportunidade de viajar, com um grupo de prometedores
Futuros Doutores (e por extenso), à bela e enigmática cidade de Amesterdão. E
foi muito engraçado. Todos eles, muito pipis, andavam
sempre atrás do mestre, que era o próprio do Reitor. Vi que ali, todos acertavam o
passo com o seu líder. Seguiam-no incondicionalmente. E as opiniões ali expressas, não variavam muito
entre si. O magnifico reitor pensava, e os seus discípulos anuíam solidariamente, abanando as
cabecinhas astutas, na sua grande maioria já algo envelhecidas, Mas todas elas, ainda em
formação. Como convém.
E
muitos Museus foram visitados. Galerias
de Arte também. Descobri na companhia de "tais doutores", que existe uma
Galeria que se dedica somente à exposição de
cabelos. Onde os mesmos foram cortados e depois enfiados dentro de copos
(daqueles que servem
por três vezes nas tabernas, eu juro!) e voltados de "perna a pino".
Dentro dos copos, os cabelos parecem-se muito, com verdadeiros ninhos de
ratos. Só que segundo todas aquelas doutas opiniões, há por ali muita arte. E
muito conhecimento. E quem sou eu para duvidar? Há
inclusivamente naquele mesmo espaço, a presença de uns pelinhos, muito encaracolados e pequeninos, que eu
acreditei na altura que pudessem ser provenientes, de zonas corporais
mais obscurecidas. Onde o Sol nunca
brilha. Só se for no Meco... Pois tudo isso nós vimos. Com todos aqueles
doutorandos,
mostrando sempre e a todo o momento, uma grande reverência. E muita
devoção.
Mas daquela viagem de componente de alto
nível cultural, fazia também parte uma visita à Casa de Anne Frank. E uma vez que a mesma ia
inserida, e fora pensada previamente, nós não tivemos que avolumar as filas
indianas, que se dispersavam por quarteirões até à entrada da casa. Nós entrámos logo, obtendo
inclusivamente não só livre passe, como um sorriso rasgado de boas vindas, por
parte do pessoal. Ah pois foi!
Gostei
muito de visitar aquela singular habitação. Desprovida necessariamente
de mobiliário. Gostei de subir aquelas escadas
tão íngremes e estreitas. E por fim chegar ao sótão. Que é tão exíguo!
Como é também todo o resto da casa. Foi com
uma "dor d’alma", que eu me pus a imaginar, como é que seria o
dia-a-dia, daquelas
duas famílias, que ali estiveram escondidas. Sempre tão temerosas de
serem
descobertas pelos nazis, como depois efectivamente vieram a ser. É que
uma coisa é ler
o Diário, e imaginar o espaço. Outra bem diferente é poder estar ali.
Por breves
momentos enxerguei a minúscula fresta da janela, por onde as crianças
espreitavam para a rua. Tomando sempre todo o cuidado para não serem
vistas. Observei o espaço. Vislumbrei a árvore, que é a mesma de
outrora,
mas que agora está desprovida de vida. E é terrível ver ali aquela
árvore, segura por
todos os lados. Mas morta. Mas eu até entendo. Aquilo é quase como um murro
no estômago. E
lembra a todo o instante, sobre aquele tempo de sombras e de incontáveis
crimes
contra a humanidade. E que por isso mesmo, não se deve de esquecer nunca. É
aliás muito
conveniente, que tais acontecimentos jamais se venham a repetir. E no
entanto…
Depois e apesar de não ser o
verdadeiro, gostei de ver ali uma cópia perfeita do diário original.
Só que aquela visita não poderia ser
muito demorada. E é também compreensível que assim seja. Primeiro porque as pessoas
que lá querem entrar, são mais que muitas. Depois porque aqueles espaços a
visitar, são efectivamente, de uma extensão muito reduzida. Pelo que é de todo
aconselhável que se circule. Que não se façam pois, paragens muito demoradas.
Por fim, saímos daquela "funesta" e histórica habitação. E
depois fomos para uma sala, onde um simpático jovem nos explicou em inglês, um pouco
da história de tudo o que ali fora vivido. Já na longínqua década de quarenta do século passado. Falou do sufoco
que deve de ter sido para aquelas pessoas, permanecerem ali escondidas. Relatou
também (e sucintamente) da descoberta e do envio para os Campos de Concentração, daquelas
mesmas pessoas. Informou sobre a sobrevivência do pai de Anne Frank. Já num período pós guerra. Anuiu para a presença
daquela árvore morta, assim como o porquê da mesma ainda ali estar. E aquele
moço, depois de uma boa e muito compreensível predica, e sempre de sorriso no rosto, deu espaço a que aqueles
nobres doutorandos pudessem também eles fazer as suas inquirições. Passados instantes,
no ar e acenando vigorosamente, aparece uma delicada mão feminina. E contando com o assentimento
do jovem, a dona da mão, questionou-o resolutamente. E ela disse: “Poderia a Anne Frank ser considerada a Joana
d’Arc dos Países Baixos?”
Fez-se silêncio. "Mas que feliz
comparação!" Pensei. "Igualar uma moça na idade da adolescência, cheia de sonhos por
realizar. E com muito medo de ser capturada, a uma mulher já feita, patriota e
guerrilheira... Sim, senhora!" Aquela doutoranda, conseguiu fazer tripla… só com uma simples jogada.
Só faltou mesmo, foi lembrar-se também, da Padeira de Aljubarrota. Que
para tantos é figura inventada, mas que ajuda a responder na perfeição, pela continuidade
de muitos peitos inflamados, desta Lusitânia Nação. Mas tudo indica, que tivesse sido mesmo falta de
lembrança. Ou… se calhar, até talvez tenha sido melhor assim. É que depois, quem é
que ia explicar àquele jovem, sobre quem fora aquela Padeira? De pá em punho e
a espantar Espanhóis? Na certa, foi mesmo mais prudente assim. E depois, sempre se pode guardar… tanta
sapiência para momentos futuros. Momentos que não faltam nunca, a tais ilustres cabecinhas,
como todos nós sabemos.
E foi no momento, em que esta
minha mente delirante, entabulava tais desenvolvimentos, que uma senhora que estava sentada ao meu
lado, (e que também era doutoranda), me bateu no braço e me perguntou, com uma
voz bastante audível: “Mas afinal… quem é que era a Ana Franco?”
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Diário de Anne Frank” por
ela própria.
Vivo no meio dos livros. Graças a
Deus. E é em casa e no trabalho. Mas que bela companhia! E é também com a
alguma regularidade que vou aos chamados Encontros onde se fala sobre livros. Encontros com os Pais dos Livros. Que são justamente... os Escritores. E posso
dizer que já passaram alguns anos, desde que assisti pela primeira vez a uma
prédica protagonizada pelo jornalista e escritor Fernando Dacosta. Que é "especializado"
em assuntos directamente correlacionados com o Estado Novo. E o homem é de tal
maneira "versado na matéria" e bom comunicador (e também conheceu tanta gente que viveu naquela altura) que foi para mim
um prazer imenso poder ouvi-lo falar.
Naquele dia eu fui acompanhada
por uma amiga que tem a minha idade, pelo meu pai, que é um senhor vinte e oito
anos mais velho do que eu e por um escritor neo-realista de boa memória, mas infelizmente
já falecido. Este escritor neo-realista era na altura, o chefe directo da minha
amiga. E era já um excelente senhor. E já octogenário.
Ora, ante o interesse do tema e o
facto de aquele período de tempo, ter sido vivenciado in loco por parte das pessoas mais velhas daquele meu grupo
restrito, fazia com que existissem por ali alguns curtíssimos comentários, mas em
baixa voz, dos mesmos sobre o assunto. Mas nada que perturbasse grandemente a
necessária audição da sessão. Contudo, duas ou três senhoras que ocupavam os
lugares atrás de nós, sentiram-se muitíssimo perturbadas. E fizeram mesmo questão de se
levantarem e de falarem sobre esse assunto. E à frente de toda a gente. Ou seja,
fez-se uma interrupção, com toda a assistência de olhos postos em nós. E com
aquelas duas, a fulminarem-nos literalmente, com os seus olhares ferozes de
aves de rapina. Pelo sucedido o moderador da altura, também se levantou e pediu muitas
desculpas pelo sucedido. Pedindo desculpas de mote próprio, mas por nós. E
aquele moderador, meus amigos, era o meu chefe.
Considerei que aquele momento
fora um dos mais "vergonhosos" da minha (naquela altura) muito jovem existência. E
se eu tivesse uma toca que fosse, mas onde eu coubesse mais a minha robustez
natural e sexy, na certa que me teria sumido dali. Ou então, se eu tivesse
ali contado com a tal tinta, tinha-me mascarado numa tímida e pacata guineense. Passados alguns segundos intermináveis, a coisa passou e os (nossos) comentários findaram. É que nós os quatro,
demonstrávamos todos um grande empenho, pela continuidade da nossa integridade
física.
Só que eu confesso: aquele
acontecimento ficou-me de emenda. E foi a partir dali, e em similares
situações, que eu jamais ocupo os lugares traseiros. Sei lá eu, se não
comento qualquer coisa, mesmo com desconhecidos? E seja assim chamada novamente
à atenção? E seja outra vez, absolutamente cilindrada pela vergonha? Apesar de, e Graças a
Deus, eu não sofrer muito desse mal? Vergonha, mas o que é isso? Pelo que desde
essa altura, eu coloco-me logo ali à frente. Muito decidida e a oferecer o peito
às “balas”. E agora eu já não falo, nem com quem está ao lado nem com quem está
atrás. Só falo mesmo é com quem está à frente. Sim, se há comentários a fazer,
eu faço-os ali e directamente com os escritores convidados. E curiosamente, eu não me tenho dado
mal.
Foi desta maneira, que
eu entabulei gostosamente, conversação com os mais ilustres escritores desta nossa
"mui nobre praça" literária. Recordo com prazer a conversa mantida com Mário Cláudio.
Esse excelente escritor. Ora foi deliciada,
que eu me apercebi que ele também detesta o “espectáculo” da tourada. Como eu. E
foi com ele que eu raciocinei pela primeira vez, o facto de que os trajes
utilizados pelos toureiros, serem muitíssimo esquisitos, já para não falar que
são deveras… suspeitos. Sim estarem p’ra ali a envergar aquelas leggins tão justinhas e reveladoras? Mas
aquilo serve para quê, Senhores? E depois, com aqueles folhos todos em perfusão.
E os bordadinhos a fio de ouro ou que raio é aquilo? Se eles querem ter assim
tantos contactos com os toiros e com a violência e barbárie daí decorrente,
porque raio é que têm que andar assim vestidos? Estão com isso a querer
transmitir-nos o quê? Coisa boa não deve de ser com toda a certeza.
Foi com o Miguel Real que eu me
ri (e a bom rir), quando no decorrer do encontro, conversamos sobre um
acontecimento muito em voga naquela altura. Quando o Richard Gere ficou proibido de
entrar na India, porque andou para lá, aos beijos a não sei quem. E o que aquilo
rendeu, amigos. E é muito divertido. Poder falar assim sobre causas comezinhas, com alguns daqueles que nos escrevem
tratados para a alma. E que nos fazem "viajar e sonhar".
E com o próprio Fernando Dacosta?
Noutras ocasiões? O que não falámos já sobre a D. Maria? Sim, a que servira de
criada ao Salazar. A que também se comportava, como uma verdadeira preceptora do
governante. Só lhe faltou mesmo… foi dar alguns tautaus. Pelo menos se os houve, eles não estão documentados. Aquela D. Maria que (dentro da sua
rudez natural) sentia um até um certo "carinho" pelo escritor de obras tão interessantes
como “As Máscaras de Salazar” e “O viúvo”.
E o que eu me ri também com o
jornalista escritor Joaquim Furtado? Quando lhe aconselhei, após conversa
periférica com alguns dos presentes, que o que ele agora tinha que fazer, era
um estudo sobre a etiqueta mais em voga, usada pelos ex-combatentes das ex-colónias. Um bocado à semelhança das figuras encrostadas e deliriosas dos
nossos meios televisivos? Com o homem depois, a dizer exaustivamente que não,
com a cabeça e com as mãos. E a recusar-se em absoluto, em ser uma versão
masculina da Paula Bobone?
Pois tudo isto eu falei, amigos.
E se eles me continuarem a der “abébias”, eu continuarei a falar. Os escritores
são parte integrante desta nossa sociedade. São seres atentos e necessariamente
interventivos. São como nós, destituídos de outras reverências bacocas. E
alguns deles até são tão interessantes de serem conhecidos!
Mas existem sempre aqueles (leitores
ou não) que insistem em tratá-los como se os mesmos fossem umas celebridades
intransponíveis. A quem não se deve dizer nada "fora do tom expectante", por reverência. A quem depois consideram
como “deuses” temerosos e distantes. Mas nem toda a gente pensa como eu, é
verdade. E tenho mesmo é que respeitar a diferença.
Só que um dia destes, contámos como
convidado, um escritor médico, da família daquele outro escritor que sendo
também médico, gosta muito de falar com a mão a tapar a boca. E depois nós
ficamos para ali a adivinhar o que é que ele está para ali a dizer. E o que aquele
mano médico ali foi relatar? Chegou mesmo a ser arrepiante a dada altura.
Falava nos casos clínicos extremos. Na ocorrência das chamadas doenças terminais, em que se
tem que lidar directamente, com a eminência, (mais do que certa) da morte. Positivamente... aquele
assunto não era para risos, nem para outras grandes divagações. Eu que adoro
rir. É esse aliás o meu desporto favorito. Nunca o faria com tais temáticas,
por Deus!
Ora, como é então o meu hábito,
(e desde aquela altura) mais uma vez eu fiquei lá à frente. Pois claro. Mas perante aquela temática, eu
fiquei ali muito sossegadita. E a rezar a Deus, para que me fosse possível
manter-me um pouco mais cá por baixo. Sem grandes ralações. Nem visitas aos médicos.
E foi no fim da comunicação, que com
grande espanto meu, eu ouvi o meu chefe dizer-me: “Então o que é que se passa? Porque é que você
esteve aí, sempre tão séria e quietinha?”
Ah pois é! Vai na volta o meu
“patrão” gosta é dos meus comentários. E da outra vez só reagiu, porque as
fulanas de trás, deram em fazer queixinhas.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena.
Invariavelmente… a aventura
começa lá pelas cinco horas da madrugada. Na rua, circulavam somente duas ou
três pessoas. Que em passo acelerado se dirigiam para as paragens dos
transportes públicos. Irão necessariamente para os locais da sua
empregabilidade. E onde, de enfregona em riste, elas desenvolverão tarefas
iguais a outras que tais, executadas em todos os outros dias de suas vivências.
Mas na paragem mais recôndita, já
estavam também três ou quatro senhoras, que coleccionam (cada uma delas),
sessenta ou setenta Primaveras. E estavam visivelmente felizes. Abraçam-se e
beijam-se muito reconhecidamente. E procuravam no ar, augúrios para um dia que
se sonhara, muito bem passado. A elas juntou-se Anabela, que tinha metade dos
anos e nenhuma experiência naquele tipo de aventuras. Anabela estava de férias,
e devido a alguns cortes orçamentais a que fora sujeita, decidira que naquele
ano, ela não iria fazer qualquer viagem mais dispendiosa. Das que ela mais
gosta.
E assim, naquele ano atípico, Anabela
decidira finalmente levar em consideração, um dos trinta e nove mil prospectos,
que lhe punham diariamente no correio. Onde se ofereciam, a troco de muito pouco,
muitas viagens de sonho.
Passados quinze minutos, lá
apareceu o autocarro prometido. De lá de dentro, saiu um motorista escanhoado,
mas com cara de poucos amigos. Na mão, ele agrafanhava duas ou três folhas. E
depois de se exprimir num “bom dia” mal disposto, ele desatou a ler num
rompante, quatro ou cinco nomes. Uma a
uma, e depois de dizerem o “sim” espectável, lá entraram todas elas, para aquele
veículo motorizado. E com um sistema de ar condicionado bastante audível.
Lá dentro já estavam mais duas
mulheres. E mais um homem, solitário e gordo. Que cabeceava no acento, aspirando
por noites bem melhor dormidas. E as mulheres mais velhas da paragem
cumprimentam as outras que ali já estavam sentadas.
Verificadas as condições
necessárias, já com toda a gente sentada nos seus lugares, o veiculo lá arrancou.
É que era necessário recolher o resto das pessoas, que ocupariam os lugares
ainda vagos daquele autocarro. Aquelas oito ou nove pessoas, eram manifestamente
insuficientes (e por si só), para produzirem um dia de festa. Com boas e
futuras recordações. Pelo que lentamente lá se prosseguiu para mais outras dez
paragens recônditas. Muito difíceis de concluir. É que o autocarro era muito
grande. E as ruas pequenas. E o estado de espirito era ali tão expectante…
Anabela só lamentava para os seus botões, que o autocarro não tinha luz
suficiente que lhe permitisse ler, mais dois ou três capítulos do seu
livro-acompanhante.
Passadas duas horas e meia,
estava finalmente concluída a recuperação das gentes. Que tal como a Anabela,
decidiram analisar os papéis de cores brilhantes, que enxameavam as suas respectivas
caixas de correio. Onde se prometiam viagens com muita emoção. E a troco de
pouco.
Eram sete e trinta e sete, quando
o autocarro entrou finalmente na autoestrada. E foi em velocidade cruzeiro. Ou melhor,
em velocidade excursionista, para ser mais exacta. Os diálogos foram feitos,
banco a banco por quem os ocupava. Em vozes mais ou menos estridentes que apresentavam
sem contenção, aspectos vivenciais. Que faziam com que os outros mais
silenciosos, se apercebessem de muitas outras tramas e começassem a entrelaçar
pedaços de histórias alheias. Mas… mentalmente. Àquelas conversas de vida,
entrecruzavam-se outras, onde se dizia expressamente, da enorme felicidade que
constitui, o facto de existirem assim viagens, tão boas, tão boas… E a preços
tão convidativos. É que aquelas viagens eram-lhes praticamente oferecidas…
E foi mais ou menos por essa
altura, que de umas colunas potentes, começou a sair música. Como numa torneira
de forte alcance. Zás! E de lá de dentro saía também, a voz potente de uma
senhora que lhes comunicava, em jeito de disfrute pleno que: “já lhe haviam
ido… ao pacote”. Assim… e sem espinhas! Pelo que no ar ficou a dúvida. Era bem
capaz, de se tratar de mais um caso de abuso, aos direitos do consumidor. Abrir
assim à bruta um qualquer pacote (de leite por exemplo) sem a necessária
autorização do seu real proprietário? Ou da sua proprietária, como parecia ser a
situação? Anabela não conhecia ainda aquela artista. Nem lhe conhecia outros
êxitos de similar calibre, que a mesma por ali procedeu ad eternum. Tal cantoria, fez com que no autocarro, não se pudessem ouvir
em condições, outras histórias de vida. Nem mais palavras de reconhecimento.
Ouvia-se somente uma música de duvidosa proveniência. Mas como em tudo, caros
amigos… existem sempre aqueles que apreciam.
Fez-se depois uma curta paragem,
para libertar líquidos, (ou sólidos, pois ninguém perguntou nada às pessoas que saíram), numa
das diversas estações gasolineiras que se espalham um pouco por todo o lado,
pelos domínios da Brisa. E depois, já recolhidas as pessoas, o autocarro lá
continuou a andar, sempre com grande pujança.
E só passadas mais duas horas, é
que o autocarro decidiu sair da via rápida. Onde depois, com alguns avanços e
recuos, lá buscou encontrar a primeira paragem. Depois de todas aquelas onde se
recolheram as pessoas. E da das “mijadelas”.
Eram dez e trinta, quando o
autocarro finalmente estancou numa propriedade longínqua. Os letreiros ali presentes, ofereciam um restaurante. E o ambiente oferecia também, boas e vastas paisagens de
verde. Destituídas de outras realizações humanas. E via-se ao longe uma serra
imponente. Aparentemente intransponível.
Pouco tempo após, as pessoas, (uma
a uma e já com alguma dificuldade, atendendo às mazelas trazidas pela provecta idade), lá saíram
do autocarro. A grande maioria delas, procurou mais uma vez os sanitários. E as
poucas restantes, procuraram o local onde teria lugar a primeira refeição do
dia. Antecipadamente, já duas ou três pessoas, se haviam apresentado como os
técnicos responsáveis pelo acompanhamento e distracção daquele grupo informal.
Feito à medida e à vontade, de empresas que têm muito mais “longo alcance”, do que
aquele que querem deixar transparecer. Afinal está ou não está tudo mais caro?
E aqueles senhores ali… são sempre tão bonzinhos? Credo! A fazerem as excursões
tão baratinhas!
Paulatinamente, toda a gente lá foi
entrando para uma sala, com mesas e cadeiras. E foi servido à descrição, um
pequeno-almoço composto por pão fresco, queijo, fiambre e manteiga. Foram
servidas também três bebidas, que o freguês pode escolher ou misturar. Café,
leite e sumo de laranja. Daqueles sumos conseguidos com um litro de néctar
encorpado e de origem duvidosa, ao qual se junta água, E com o mesmo,
consegue-se encher, dois ou três camiões cisterna. Os convivas comeram com gana,
e depois olharam uns para os outros. E agradeciam quase todos, poder continuar
a fazer aquelas excursões. Sempre tão ao alcance dos mais pobrezinhos!…
Passado o tempo da deglutição de
tais acepipes, é hora de se passar para a sala do lado. As cadeiras foram
irrepreensivelmente colocadas, à volta de uma montra coberta laboriosamente…
por panos de cor garrida. Tal qual como se fossem fantasmas galhofeiros e de
bem com a vida. E as pessoas, maioritariamente pertencentes à terceira idade, (avaliando
pelo prateado dos cabelos, assim como pelas profundas rugas enriquecidas com pó de arroz), sentaram-se
à discrição. Mas prefencialmente… lá mais para os lugares de frente. É que
assim eles ouvem melhor, não é? E depois também vêm melhor o senhor das vendas.
Que é tão simpático mas que está ali só para vender. “Só para quem quiser e
poder comprar, como é obvio”. Dirige-se assim e sedutoramente para aquela “sua”
exemplar assistência. “E também, só para quem precise do que ali se vende”, ele continuava.
“É que ninguém obrigará ninguém a comprar nada”, diz confiantemente aquele
homem, que entretanto já havia transmitido também… a sua graça. Comunicava-se-se
assim, para toda aquela assistência. Mas também como se acreditasse piamente no que para
ali estava a dizer.
E de um rompante são destapados,
tachos, panelas, aspiradores, faqueiros de luxo, almofadas, colchões, poltronas
de massagens, aparelhos que tremem e fazem tremer… E aquela oferta era tanta e tão
aliciante, “que ninguém no se perfeito juízo se dignaria a recusar”. É
bombardeado a todo o momento, pela voz canora e muito presente daquele senhor que
vende. Mas... depois, há que pagar, claro está.
Anabela contudo… ia resistindo. Ela
não queria comprar nada. Não precisava de nada daquilo. Considerava até, que já tinha
tudo aquilo que lhe fazia falta… E então em tempos de crise…
Mas o senhor que vende, lá ia
continuando. Sempre com aquele mesmo tom de voz. Falava da vida. Das grandes
dificuldades vividas “por todos nós”. Falava da mulher, dos filhos que tem e de
quem muito se orgulha. E finalmente…falou de preços. Preços que todos juntos (tais são as preciosidades ali
reunidas), poderiam pagar parte considerável da Dívida Pública. É que tudo ali é
tão bom… e tão valioso. A dada altura a maioria das velhinhas, parece convencer-se
que está defronte dos utensílios utilizados no próprio Palácio de Buckingham. E
que são usados e abusados pela própria Isabel II.
E depois de mais duas ou três
horas de paleio. E somadas todas aquelas quantias, aquilo dava um resultado
imponente. Só que aquele senhor é generoso. Sempre o foi. E ali, defronte daquela
assistência a coisa não poderia ser diferente. E passados escassos segundos,
aquela conta imponente desce a um terço. Milagrosamente. E assim, ficara
uma vez mais provado, que aquelas pessoas são mesmo tão boazinhas!... E foi só depois disso, que o
senhor das vendas abandonou a sala, mas de forma dramática. Tal qual a diva
maior do Teatro Nacional.
As pessoas olharam-se. As mais
experientes… diziam já ter tudo aquilo. Transmitiram-no a todos os outros,
inclusivamente. Mas as menos experientes, não. E demonstravam claramente o seu
pouco à vontade perante aqueles acontecimentos. Sinais claros, que eram directamente
recepcionados, pelos membros restantes daquela equipa de vendas. Que se
passarinhavam por ali. E um pouco por toda o parte. Anabela, nada dizia. É que
não precisava mesmo nada daquilo. Veio só porque lhe haviam posto no correio todos
aqueles prospectos. Que lhe ofereciam assim... viagens de sonho. E a custo de quase
nada. Mas do sonho prometido, e até àquele momento, Anabela, ainda não vira nada. “Até
ali”, ela concluíra, “teria sido muito mais gratificante, ter ficado em casa”.
Ter ficado a dormir. Com toda a certeza ela teria tido muito melhores sonhos
que aquele. E quando acordasse, contaria também com um sumo de laranja no
frigorífico. E de muito melhor qualidade. Agora ali… Mas ela sabia. Não fora
enganada. Todo aquele paleio, fazia parte do “programa de festas”. Pelo que
ficou (também não teria outro remédio), para ali a ouvir. E sossegada, ela
ficara. Só não comprava… era nada.
Mas agora o senhor das vendas havia-se
ido embora. Tinha mesmo saído da sala. Tudo indicava que aquela conversa toda tinha
acabado. Finalmente. Pelo que, a Anabela se levantou da cadeira e foi para a
varanda fumar um cigarro. E quando ainda não tinha dado três baforadas, que lhe
apareceu à frente um outro senhor das vendas. Que lhe pediu encarecidamente,
que regressasse novamente à sala. Só por mais dez minutos. É que a assistência delirante,
solicitara os preços dos produtos. Individualmente. Anabela entrou outra vez. Convencida
que eram somente, mais dez minutos… Mas como a conversa é “como as cerejas”, lá
se prolongou. E quintuplicou-se como que por um milagre. E pessoas, umas, à vez
lá iam comprando daquilo. E era mais uma almofada lá para casa. Mais uma panela daquelas que
não esturra nada. Mais um aparelho dos que treme e faz tremer… Mas mais uma
vez, quem não comprava nada era Anabela. Nem aquele senhor idoso e solitário,
que ela vira e conhecera no autocarro. Aqueles aparentemente não se vendiam,
nem se faziam comprar. E eram senhores plenos das suas próprias decisões.
Depois das panelas e dos
colchões, vieram os cremes. Com baba de caracol e de lagartixa. Todos com muito
bons preços e de propriedades terapêuticas de elevadíssimo valor. E foi mais
uma hora naquilo.
Eram duas da tarde, quando
finalmente as pessoas foram ocupar os seus lugares nas mesas onde se serviriam
as refeições. Onde se degustaria um leitão, que havia sido tão apregoado por
todos. E fora o senhor das vendas que avisara, que ali podiam comer tudo o que
quisessem. Só não podiam era levar nada para casa. Dentro de marmitas. Como um
outro grupo qualquer fizera.
A sopa indistinta e líquida,
desceu velozmente a todos aqueles estômagos esfomeados. Também não se previa
que houvesse lugar a muita razão de queixa. É que todos tinham tomado, um substancial
e muito proteínico pequeno-almoço. E depois só tiveram que ficar ali, a ouvir todas
as prédicas do senhor. Do tal do senhor das vendas. Não haviam por isso feito
grandes esforços. Nem muitas caminhadas.
À sopa seguiram-se uns bocados de
leitão. Que ninguém pôs em marmitas. Mais umas batatinhas de pacote e uma saladinha
de alface. Os vinhos servidos, tinham marcas secretas. De pouca publicidade. E sumo de
laranja? Esse era o mesmo do pequeno-almoço. Se calhar sobrara.
E para culminar àquele verdadeiro
festim das pupilas gustativas, viria a sobremesa. Numa excelente salada de
frutas, conseguida com frutas conservadas em latas. Já bem moles e de
indefinido sabor. Mas tudo isso fora pensado, ou não fora? É que aquele pessoal
já era dotado (maioritariamente) de dentes postiços.
O café é que não estava incluído
na pechincha. Ah pois claro que não! E ali ele fora vendido ao mesmo preço, do praticado na
Finlândia.
E quando as pessoas estavam
finalmente convencidas que lá pelas quatro da tarde, iriam sair do Restaurante
e iniciar (finalmente) o passeio prometido, eis que regressa outra vez, o
senhor das vendas. E veio acompanhado de mais uns pacotes. E a ladainha dele, era
quase a mesma da manhã. É que aquele pessoal… ali não ganhava nada. Só ganhavam o que
vendiam. Coitadinhos! Pelo que agora era mesmo… a recta final das vendas. E usando
de um linguajar próprio para crianças, ele lá foi distribuindo por todo aquele que
abria a boca, mais umas panelas e tachos. Só não deu nenhuma foi à Anabela. Nem
ao senhor obeso. É que nem um nem outro lhe responderam (uma vez que fosse) ao chamamento. E
permaneceram ali… de boca bem fechada. Era previsível que, nem um nem outro,
precisassem de nada daquilo ali. Mas mesmo que precisassem…
E para culminar, o senhor das
vendas lá referenciou, que quem não gostasse daquele fenómeno ali, pois que não
viesse mais. Pois aquele era precisamente o seu trabalho. E a equipa que ali estava, só ganhava
mesmo o que vendia… Pobrezinhos!
Àquele sermão não encomendado,
seguir-se-ia (e finalmente) o passeio de barco. Que teve a duração de cinquenta
minutos. De cinquenta minutos, senhores! Porque depois, todos tiveram que ir de
novo para o autocarro, para poderem regressar finalmente a suas casas.
Foi isto, o que se conseguiu
naquele dia. Com a realização de mais um “maravilhoso passeiozinho… de sonho”. Mas sem
baile, como o que era prometido do tal prospecto. Se bem que a Anabela ainda temesse
bastante, pela ocorrência de uma última paragem. Por aí, e num pinhal qualquer.
Para se poder dar um pé de dança. E para se poderem vender… mais umas panelas…
A Anabela regressou a casa,
quando já passava das dez da noite. Depois de um dia de “grande emoção” e com
muitas histórias para contar. Ela só não ficou, foi com qualquer vontade de se
meter noutra igual. Afinal nem havia sido necessário que o senhor das vendas a “tivesse”
alertado para esse efeito. É que fora justamente “aquela viagem”, a que lhe custara
quase nada, a mais “cara” de toda a sua (ainda jovem) existência. Pois fora exactamente essa, a
mais penosa por que passara.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Vidente” de Lars Kapler.
É capaz de constituir o cliché
mais escandaloso, dizer-se que tudo melhora… quando se faz aquilo que se gosta.
Principalmente quando se acha que se tem a profissão certa, e que se não fora
aquela, não seria mais nenhuma.
Pois Amélia adora ler, olha que
coisa? E para melhorar o seu estado anímico nada melhor do que poder também
trabalhar enfiada no meio de milhares de livros. Os seus colaboradores dizem-lhe
que em cima da sua secretaria, ela tem por vezes um “muro” de tal maneira imponente, que a poderá defender de qualquer tempestade ou agressão. E é todo composto
inteiramente por livros. Que desafiam ali e diariamente a própria lei da
gravidade. E como isso é maravilhoso.
Mas… e depois a Biblioteca deverá
ser muito frequentada. Ah pois deve. Só assim é que fará sentido. E é então que à
Biblioteca acorrem muitas pessoas, das mais diversas proveniências,
geográficas e culturais, dos diversos extractos sociais, idade, sexo ou religião…
E viva pois a diferença. A interacção conseguida, e desta maneira será muito
proveitosa. É que querendo, estaremos sempre todos a aprender. E uns com os
outros. E depois a leitura é a receita recomendável para toda a gente. Toda a
gente, mesmo.
Ora Amélia considera (e para ela
é mesmo ponto assente), que todo o profissional que trabalhe numa Biblioteca se
deverá considerar um privilegiado. E de forma simpática, o mesmo deverá saber expor
ao leitor (quando a isso é solicitado), tudo aquilo que o mesmo poderá esperar no
referido estabelecimento. E se se procura algo sobre um determinado assunto, o
profissional deverá de forma objectiva, saber informar sobre o máximo do que
ali se encontra. E na escassez de informação, o mesmo deverá saber explicar
sobre outros estabelecimentos que eventualmente detenham maior volume de
informação. Fazemos assim todos, parte de uma mesma realidade. Somos pois todos
parte integrante de um terreno parcelar que com outros tais, completam o
conjunto de instituições detentoras do conhecimento global. E só faremos sentido se promovermos
interligações com o resto dessa mesma realidade.
Amélia é assim, uma Bibliotecária
responsável por uma Biblioteca Pública Portuguesa. Só não está é no atendimento
ao público. E só vai aparecendo, quando lhe solicitam a presença. Para poder
responder a algo, que o resto da sua equipa, por inerência não poderá (ou deverá) esclarecer.
Contudo Amélia nasceu com uma particularidade inacta: acha que o mundo poderá
funcionar muito melhor se interagirmos mais uns com os outros. Afinal, não
somos estátuas, nem personagens destituídas de humanidade. Pelo que, e muito de
vez em quando, a Amélia lá saí do seu gabinete e vem observar in loco aquilo que se vai passando pelo
estaminé.
E se por ventura alguém vem ter
com Amélia e lhe pergunta qualquer coisa sobre a Biblioteca, aquela profissional
jamais responderá para ir ter com a técnica A. que está ao serviço na Sala. E, logo
“desavergonhadamente”, ela estabelece um o diálogo prévio. E avisada sobre o
que se procura, ela irá mesmo com o leitor, ao local onde está a pretendida
documentação.
Nem sempre fará esse serviço da
forma mais competente e profissional possível (é que errar é humano), mas é
alguém muito esforçada. Que procura melhorar o seu desempenho diariamente. E
depois ela verifica, que à custa desse seu modo de ser, ela também não tem
ouvido muita reclamação. Tem que se entender que um cliente da biblioteca
deverá ser entendido como um outro cliente qualquer. Deverá ser atendido da
forma mais eficiente possível e com simpatia. E quem é que não gosta de ser bem
tratado?
Mas só que um dia lá na
Biblioteca, Amélia conheceu uma jovem com os seus vinte e muitos. Que
enfaticamente, procurava algo… sem procurar. A moça andava numa verdadeira azáfama,
incompreensível para Amélia. E com muita rapidez ela ia para um lado. Depois e com
igual desenvoltura ela lá ia para o lado oposto. Procurando a cota, buscando
nas estantes. Mas lamuriando-se sempre por não encontrar. Foi então que Amélia,
a tal “abelhuda de serviço”, se abeirou da moça e lhe perguntou:
“Bom Dia. Queira ter a gentiliza
de me informar sobre o que procura. Terei todo o gosto em poder ajudá-la.”
A jovem finalmente… estancou.
Olhou admirada para a profissional. É que agora já ninguém fala assim. O que é
que se estava ali a passar? Mas como a Amélia não se demovia dali, e com um
sorriso na cara, a moça não teve outro remédio que lhe responder. Pelo que a
custo ela lá informou, sobre o que andava à procura. Era pois de seu interesse,
obter informações variadas sobre o concelho onde residia. Que era justamente o
concelho onde a Biblioteca estava implantada.
“Nada mais fácil de responder”,
pensou Amélia. Tudo o que dizia respeito à informação local, estava reunido no
espaço que se denomina de Fundo Local. E ali, há a obrigação de estar toda a
documentação que é possível reunir sobre a região. Arrumada por assunto, por datas…
Deverão constar ali, todas as publicações que vão saindo sobre o tema. E desde
tempos imemoriais. Assim como excertos retirados de publicações periódicas…. Querendo
também se podem visualizar jornais antigos (a pedido), porque naturalmente
esses estarão em Reserva, para que a sua preservação seja efectiva.
Para além do mais, e nas
imediações, também estarão colocadas as publicações nacionais que revelam os
dados estatísticos de todas as zonas do país. “É só procurar bem, que se encontra
o que se procura”, disse de sorriso na cara, Amélia a Bibliotecária.
E para lhe demonstrar toda a
extensão do Fundo Local, Amélia levou (como aliás é seu hábito), a leitora até
ao local.
Só que contrariamente ao
que era espectável, a leitora continuava na dúvida. Abria um dossier, abria outro. E depois
dizia: “Não, não é bem isto que eu procuro”. Depois disso. Ela abria um livro,
consultava-lhe o índice. E torcia mais uma vez o nariz. Também tinha sido ao
lado. Via as publicações do Instituto Nacional de Estatísticas. E abanava a
cabeça em jeito de negação. Definitivamente, a Biblioteca parecia não estar
dotada de nada que fosse susceptivel de lhe poder interessar.
A profissional Amélia, já algo descorçoada
pela constatação absoluta, que se calhar não tinha ajudado em nada… muito antes
pelo contrário… Quem sabe se não havia confundido a leitora ainda mais. E em
jeito de conclusão, lá lhe acaba por recomendar.
“Olhe, e uma vez que nada do que
está aqui contido lhe parece interessar, tente talvez pesquisar um pouco mais em
enciclopédias. Pesquise sobre alguns termos na nossa base de dados, num destes computadores.
Consulte ainda a Internet. Quem sabe se num artigo qualquer, não haja
referência a uma fonte exacta. Que seja exactamente… essa a temática que procura?”
E com a recomendação,
demonstrando mesmo alguma angústia, Amélia preparava-se para deixar a leitora,
que permanecia visivelmente insatisfeita. Ia ainda desejar-lhe um bom resto de dia. E
que tivesse sorte na busca da informação pretendida... quando a moça, abrindo
somente meio sorriso, lhe questiona:
“Mas… e onde é que está o rapaz?”
Foi só nesse momento que se fez
luz, na cabecita já algo envelhecida da profissional Amélia. É que Amélia até lhe
poderia ter feito o trabalho todo, que isso não seria o bastante. Pois o que a
jovem queria mesmo, era ser atendida por N. o rapaz técnico de Biblioteca, que
ainda conservava um palminho de cara laroca. E que também arruinava os seus
ossos trintões… a fazer surf. Ah pois era!
Há coisas incontornáveis,
senhores! Que nem com todo um grau de profissionalismo elevado e posto em
acção, poderá satisfazer em pleno, uma legítima cliente… de uma qualquer Biblioteca
Pública.
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Herói das Mulheres” de Adolfo Bioy Casares.