Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 28 de setembro de 2013

Viver para aprender.


No tempo da “outra senhora”, muito poucos eram os casos de indivíduos possuidores de uma simples licenciatura. O número diminuía ainda mais, quando se tratava de contabilizar o número dos sujeitos detentores de cursos de Pós Graduação. Mas hoje (e felizmente) já não é nada assim.
Hoje fazemos parte de uma sociedade muitíssimo mais bem preparada. Estudámos mais e durante mais tempo. E… ao sairmos do país, porque este canto está impróprio para todo aquele que quer progredir na vida, já vamos muitíssimo melhor preparados. Por isso é que muitos de nós já ocupam no exterior, lugares de destaque, E também, muito bem bem remunerados. Pena é mesmo que tenham que sair. E Portugal fica assim e necessariamente, sem parte considerável da útil e muito prometedora massa encefálica nacional.
Pois eu, possuo também uma licenciatura e mais uma pós graduação. Ah pois é! Só que não tenho mesmo, é nenhum mestrado pois sofro de uma indisfarçável perguicite aguda, que me arrepanha as pernas e depois me sobe pela espinha acima. 
Ora, mas em certo dia, eu tive oportunidade de viajar, com um grupo de prometedores Futuros Doutores (e por extenso), à bela e enigmática cidade de Amesterdão. E foi muito engraçado. Todos eles, muito pipis, andavam sempre atrás do mestre, que era o próprio do Reitor. Vi que ali, todos acertavam o passo com o seu líder. Seguiam-no incondicionalmente. E as opiniões ali expressas, não variavam muito entre si. O magnifico reitor pensava, e os seus discípulos anuíam solidariamente, abanando as cabecinhas astutas, na sua grande maioria já algo envelhecidas, Mas todas elas, ainda em formação. Como convém.
E muitos Museus foram visitados. Galerias de Arte também. Descobri na companhia de "tais doutores", que existe uma Galeria que se dedica somente à exposição de cabelos. Onde os mesmos foram cortados e depois enfiados dentro de copos (daqueles que servem por três vezes nas tabernas, eu juro!) e voltados de "perna a pino". Dentro dos copos, os cabelos parecem-se muito, com verdadeiros ninhos de ratos. Só que segundo todas aquelas doutas opiniões, há por ali muita arte. E muito conhecimento. E quem sou eu para duvidar? Há inclusivamente naquele mesmo espaço, a presença de uns pelinhos, muito encaracolados e pequeninos, que eu acreditei na altura que pudessem ser provenientes, de zonas corporais mais obscurecidas. Onde o Sol nunca brilha. Só se for no Meco... Pois tudo isso nós vimos. Com todos aqueles doutorandos, mostrando sempre e a todo o momento, uma grande reverência. E muita devoção.
Mas daquela viagem de componente de alto nível cultural, fazia também parte uma visita à Casa de Anne Frank. E uma vez que a mesma ia inserida, e fora pensada previamente, nós não tivemos que avolumar as filas indianas, que se dispersavam por quarteirões até à entrada da casa. Nós entrámos logo, obtendo inclusivamente não só livre passe, como um sorriso rasgado de boas vindas, por parte do pessoal. Ah pois foi!
Gostei muito de visitar aquela singular habitação. Desprovida necessariamente de mobiliário. Gostei de subir aquelas escadas tão íngremes e estreitas. E por fim chegar ao sótão. Que é tão exíguo! Como é também todo o resto da casa. Foi com uma "dor d’alma", que eu me pus a imaginar, como é que seria o dia-a-dia, daquelas duas famílias, que ali estiveram escondidas. Sempre tão temerosas de serem descobertas pelos nazis, como depois efectivamente vieram a ser. É que uma coisa é ler o Diário, e imaginar o espaço. Outra bem diferente é poder estar ali. Por breves momentos enxerguei a minúscula fresta da janela, por onde as crianças espreitavam para a rua. Tomando sempre todo o cuidado para não serem vistas. Observei o espaço. Vislumbrei a árvore, que é a mesma de outrora, mas que agora está desprovida de vida. E é terrível ver ali aquela árvore, segura por todos os lados. Mas morta. Mas eu até entendo. Aquilo é quase como um murro no estômago. E lembra a todo o instante, sobre aquele tempo de sombras e de incontáveis crimes contra a humanidade. E que por isso mesmo, não se deve de esquecer nunca. É aliás muito conveniente, que tais acontecimentos jamais se venham a repetir. E no entanto…
Depois e apesar de não ser o verdadeiro, gostei de ver ali uma cópia perfeita do diário original.
Só que aquela visita não poderia ser muito demorada. E é também compreensível que assim seja. Primeiro porque as pessoas que lá querem entrar, são mais que muitas. Depois porque aqueles espaços a visitar, são efectivamente, de uma extensão muito reduzida. Pelo que é de todo aconselhável que se circule. Que não se façam pois, paragens muito demoradas.
Por fim, saímos daquela "funesta" e histórica habitação. E depois fomos para uma sala, onde um simpático jovem nos explicou em inglês, um pouco da história de tudo o que ali fora vivido. Já na longínqua década de quarenta do século passado. Falou do sufoco que deve de ter sido para aquelas pessoas, permanecerem ali escondidas. Relatou também (e sucintamente) da descoberta e do envio para os Campos de Concentração, daquelas mesmas pessoas. Informou sobre a sobrevivência do pai de Anne Frank. Já num período pós guerra. Anuiu para a presença daquela árvore morta, assim como o porquê da mesma ainda ali estar. E aquele moço, depois de uma boa e muito compreensível predica, e sempre de sorriso no rosto, deu espaço a que aqueles nobres doutorandos pudessem também eles fazer as suas inquirições. Passados instantes, no ar e acenando vigorosamente, aparece uma delicada mão feminina. E contando com o assentimento do jovem, a dona da mão, questionou-o resolutamente. E ela disse: “Poderia a Anne Frank ser considerada a Joana d’Arc dos Países Baixos?”
Fez-se silêncio. "Mas que feliz comparação!" Pensei. "Igualar uma moça na idade da adolescência, cheia de sonhos por realizar. E com muito medo de ser capturada, a uma mulher já feita, patriota e guerrilheira... Sim, senhora!" Aquela doutoranda, conseguiu fazer tripla… só com uma simples jogada. Só faltou mesmo, foi lembrar-se também, da Padeira de Aljubarrota. Que para tantos é figura inventada, mas que ajuda a responder na perfeição, pela continuidade de muitos peitos inflamados, desta Lusitânia Nação. Mas tudo indica, que tivesse sido mesmo falta de lembrança. Ou… se calhar, até talvez tenha sido melhor assim. É que depois, quem é que ia explicar àquele jovem, sobre quem fora aquela Padeira? De pá em punho e a espantar Espanhóis? Na certa, foi mesmo mais prudente assim. E depois, sempre se pode guardar… tanta sapiência para momentos futuros. Momentos que não faltam nunca, a tais ilustres cabecinhas, como todos nós sabemos.
E foi no momento, em que esta minha mente delirante, entabulava tais desenvolvimentos, que uma senhora que estava sentada ao meu lado, (e que também era doutoranda), me bateu no braço e me perguntou, com uma voz bastante audível: “Mas afinal… quem é que era a Ana Franco?”
Sugestão de leitura para esta semana: “O Diário de Anne Frank” por ela própria.
DIVIRTAMSEMAZÉ!





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