No tempo da “outra senhora”,
muito poucos eram os casos de indivíduos possuidores de uma simples licenciatura.
O número diminuía ainda mais, quando se tratava de contabilizar o número dos
sujeitos detentores de cursos de Pós Graduação. Mas hoje (e felizmente) já não
é nada assim.
Hoje fazemos parte de uma
sociedade muitíssimo mais bem preparada. Estudámos mais e durante mais tempo. E…
ao sairmos do país, porque este canto está impróprio para todo aquele que quer
progredir na vida, já vamos muitíssimo melhor preparados. Por isso é que muitos
de nós já ocupam no exterior, lugares de destaque, E também, muito bem bem remunerados.
Pena é mesmo que tenham que sair. E Portugal fica assim e necessariamente, sem parte considerável
da útil e muito prometedora massa encefálica nacional.
Pois eu, possuo também uma
licenciatura e mais uma pós graduação. Ah pois é! Só que não tenho mesmo, é nenhum mestrado pois sofro de uma
indisfarçável perguicite aguda, que me arrepanha as pernas e depois me sobe pela espinha acima.
Ora, mas em certo dia, eu tive oportunidade de viajar, com um grupo de prometedores
Futuros Doutores (e por extenso), à bela e enigmática cidade de Amesterdão. E
foi muito engraçado. Todos eles, muito pipis, andavam
sempre atrás do mestre, que era o próprio do Reitor. Vi que ali, todos acertavam o
passo com o seu líder. Seguiam-no incondicionalmente. E as opiniões ali expressas, não variavam muito
entre si. O magnifico reitor pensava, e os seus discípulos anuíam solidariamente, abanando as
cabecinhas astutas, na sua grande maioria já algo envelhecidas, Mas todas elas, ainda em
formação. Como convém.
E
muitos Museus foram visitados. Galerias
de Arte também. Descobri na companhia de "tais doutores", que existe uma
Galeria que se dedica somente à exposição de
cabelos. Onde os mesmos foram cortados e depois enfiados dentro de copos
(daqueles que servem
por três vezes nas tabernas, eu juro!) e voltados de "perna a pino".
Dentro dos copos, os cabelos parecem-se muito, com verdadeiros ninhos de
ratos. Só que segundo todas aquelas doutas opiniões, há por ali muita arte. E
muito conhecimento. E quem sou eu para duvidar? Há
inclusivamente naquele mesmo espaço, a presença de uns pelinhos, muito encaracolados e pequeninos, que eu
acreditei na altura que pudessem ser provenientes, de zonas corporais
mais obscurecidas. Onde o Sol nunca
brilha. Só se for no Meco... Pois tudo isso nós vimos. Com todos aqueles
doutorandos,
mostrando sempre e a todo o momento, uma grande reverência. E muita
devoção.
Mas daquela viagem de componente de alto
nível cultural, fazia também parte uma visita à Casa de Anne Frank. E uma vez que a mesma ia
inserida, e fora pensada previamente, nós não tivemos que avolumar as filas
indianas, que se dispersavam por quarteirões até à entrada da casa. Nós entrámos logo, obtendo
inclusivamente não só livre passe, como um sorriso rasgado de boas vindas, por
parte do pessoal. Ah pois foi!
Gostei
muito de visitar aquela singular habitação. Desprovida necessariamente
de mobiliário. Gostei de subir aquelas escadas
tão íngremes e estreitas. E por fim chegar ao sótão. Que é tão exíguo!
Como é também todo o resto da casa. Foi com
uma "dor d’alma", que eu me pus a imaginar, como é que seria o
dia-a-dia, daquelas
duas famílias, que ali estiveram escondidas. Sempre tão temerosas de
serem
descobertas pelos nazis, como depois efectivamente vieram a ser. É que
uma coisa é ler
o Diário, e imaginar o espaço. Outra bem diferente é poder estar ali.
Por breves
momentos enxerguei a minúscula fresta da janela, por onde as crianças
espreitavam para a rua. Tomando sempre todo o cuidado para não serem
vistas. Observei o espaço. Vislumbrei a árvore, que é a mesma de
outrora,
mas que agora está desprovida de vida. E é terrível ver ali aquela
árvore, segura por
todos os lados. Mas morta. Mas eu até entendo. Aquilo é quase como um murro
no estômago. E
lembra a todo o instante, sobre aquele tempo de sombras e de incontáveis
crimes
contra a humanidade. E que por isso mesmo, não se deve de esquecer nunca. É
aliás muito
conveniente, que tais acontecimentos jamais se venham a repetir. E no
entanto…
Depois e apesar de não ser o
verdadeiro, gostei de ver ali uma cópia perfeita do diário original.
Só que aquela visita não poderia ser
muito demorada. E é também compreensível que assim seja. Primeiro porque as pessoas
que lá querem entrar, são mais que muitas. Depois porque aqueles espaços a
visitar, são efectivamente, de uma extensão muito reduzida. Pelo que é de todo
aconselhável que se circule. Que não se façam pois, paragens muito demoradas.
Por fim, saímos daquela "funesta" e histórica habitação. E
depois fomos para uma sala, onde um simpático jovem nos explicou em inglês, um pouco
da história de tudo o que ali fora vivido. Já na longínqua década de quarenta do século passado. Falou do sufoco
que deve de ter sido para aquelas pessoas, permanecerem ali escondidas. Relatou
também (e sucintamente) da descoberta e do envio para os Campos de Concentração, daquelas
mesmas pessoas. Informou sobre a sobrevivência do pai de Anne Frank. Já num período pós guerra. Anuiu para a presença
daquela árvore morta, assim como o porquê da mesma ainda ali estar. E aquele
moço, depois de uma boa e muito compreensível predica, e sempre de sorriso no rosto, deu espaço a que aqueles
nobres doutorandos pudessem também eles fazer as suas inquirições. Passados instantes,
no ar e acenando vigorosamente, aparece uma delicada mão feminina. E contando com o assentimento
do jovem, a dona da mão, questionou-o resolutamente. E ela disse: “Poderia a Anne Frank ser considerada a Joana
d’Arc dos Países Baixos?”
Fez-se silêncio. "Mas que feliz
comparação!" Pensei. "Igualar uma moça na idade da adolescência, cheia de sonhos por
realizar. E com muito medo de ser capturada, a uma mulher já feita, patriota e
guerrilheira... Sim, senhora!" Aquela doutoranda, conseguiu fazer tripla… só com uma simples jogada.
Só faltou mesmo, foi lembrar-se também, da Padeira de Aljubarrota. Que
para tantos é figura inventada, mas que ajuda a responder na perfeição, pela continuidade
de muitos peitos inflamados, desta Lusitânia Nação. Mas tudo indica, que tivesse sido mesmo falta de
lembrança. Ou… se calhar, até talvez tenha sido melhor assim. É que depois, quem é
que ia explicar àquele jovem, sobre quem fora aquela Padeira? De pá em punho e
a espantar Espanhóis? Na certa, foi mesmo mais prudente assim. E depois, sempre se pode guardar… tanta
sapiência para momentos futuros. Momentos que não faltam nunca, a tais ilustres cabecinhas,
como todos nós sabemos.
E foi no momento, em que esta
minha mente delirante, entabulava tais desenvolvimentos, que uma senhora que estava sentada ao meu
lado, (e que também era doutoranda), me bateu no braço e me perguntou, com uma
voz bastante audível: “Mas afinal… quem é que era a Ana Franco?”
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Diário de Anne Frank” por
ela própria.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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