Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Relações comerciais nos países árabes.


Quem nunca viajou para os países árabes perdeu certamente, ou melhor está a perder uma experiência única de vida. É que lá quem se presta a andar pacatamente nas ruas fica-se somente... com essa intenção, já que é bombardeado a todo o momento com sugestões para comprar tudo. E quando falo em tudo, é mesmo tudo aquilo que imaginar se possa. É no passeio, que os mais diversificados vendedores nos colocam literalmente toda a carga em cima. Em cima do meu couro eu posso afirmar que já equilibrei: uma série numerosa de camisolas, muitos tapetes, outros acessórios vários e até quase que posso jurar que já segurei à cabeça uma pesadíssima manta. Eu que por definição sou algo avessa a compras. É ponto assente que adoro viajar, adoro visualizar novas paisagens, gosto muito de conversar com... quem nunca conversei (se bem que por vezes a comunicação não é fácil pois existe a barreira linguística). Mas eu acredito que com o conhecimento de algumas frases básicas (em inglês, claro) até se pode conquistar o mundo.
Não gosto pois nada de gastar dinheiro em coisas de que não necessito. Tenho inclusivamente a ideia de que se conseguia viver (e muito bem), com muito menos coisas. Já fizeram a experiência de olhar para a vossa casa, especialmente quando se dedicam às limpezas e verificarem que têm tanta tralha inútil? Eu já. Prefiro gastar o dinheiro na viagem e a imaginação e a vontade de viver novas experiências, fazem o resto.
Há uns anos eu viajei para o Egipto com uma amiga, que há cerca de trinta e muitos, foi baptizada com o pomposo nome de Pancrácia Sofia. Pancrácia, ao contrário de mim, adora fazer compras. E como compra aquela mulher!!! Ora, na altura em que desfrutávamos de um muito interessante cruzeiro pelo Rio Nilo acima, parámos numa terreola. Ali o objectivo único daquela paragem era comprar. Eu explico: É que à noite iria decorrer um baile (e já todos sabem da minha adoração pelos bailes!!!). No baile os participantes envergariam trajes típicos daquela zona. Achei lindo tudo aquilo. Eu comprei uma grande túnica salmão, com uns berloques dourados e mais umas lantejoulas que brilham muito quando lhes dá o Sol. E tive toda a noite assim vestida, sentadinha numa cadeira e a observar. Mas houve muito senhor que quis dançar comigo, ah pois foi! Eu é que como prezo muito pela segurança alheia, recusei-lhes a minha dança ou o algo que se lhe poderia assemelhar. 
Depois disso, eu já usei aquele lindo traje, na minha casa (quando andava a regar as flores no pátio). Só fui vista pelo meu vizinho da frente mas foi o que bastou. É que o mesmo ao avistar-me ele afirmou, que: "a sua vizinha... estava muito sexy". Imaginem lá se eu tivesse comprado um traje daqueles que se usam para dançar a dança do ventre? O sucesso que não seria? Com filas e filas de gente à minha porta, para... me verem dançar.
Ora justamente no acto da compra, compra única que eu fiz naquela terra e ao sair de uma tenda dos Núbios, eu sou literalmente disputada pelos mais variados vendedores. Tenho a afirmar que naquele momento, eu e a Pancrácia, já havíamos entrado em muitas tendas similares àquela em que comercializamos as belas das roupas. Conversámos gostosamente com uma série de senhores de tez muito escura, sobre as possibilidades infinitas de se comprarem coisas. E como eu me ri com um, que quis ficar comigo por trezentos camelos. A ideia era eu ficar lá a viver com ele, e o meu pai receber aqui os animais. Até parece que já estou a ver. O meu pai primeiro tinha que ir à Alfândega resgatar os bichinhos. E depois o que faria? Bem se calhar ir vendê-los para a feira de Carcavelos. Ou para a feira da Malveira. Envergaria um traje preto, seguraria uma beata apagada na boca (pois ele não fuma. Era só para dar estilo). Só por um instante ele pensaria em mim e na minha nova vida. Mas depois concluiria que eu é que havia escolhido mudar de rumo (afinal ninguém me mandara ir para o Egipto e aceitar a troca). Depois sorriria ante-visando o belo lucro que iria conseguir com... aquela transacção comercial. Com o dinheiro conseguido ele conseguiria ter uma velhice tranquila e confortável mais a sua Patroa. Quem sabe irem todos os anos passar férias a uma ilha das Caraíbas.
E depois daquela transacção, quem sabe se ter um camelo, não viraria moda? O camelo até se poderia transformar num eficiente e barato meio de transporte (logo agora que se fala tanto na Crise Energética)? Conseguir-se assim transportar toda uma família para o trabalho? Acabar de vez com as filas de trânsito no IC 19? Fazer depois criação de camelos neste país que se está a transformar num deserto. Com bandos de gente a sair dele todos os dias. Com os nossos eficientes governantes a apelarem à emigração. E para piorar tudo isso, nem sequer chove. Bem...
Mas retomemos a nossa história de hoje. Ora já na rua e para me libertar de tanto assédio por parte dos vendedores, eu usei uma táctica que me pareceu na altura absolutamente infalível. Quando eles me carregaram com as suas coisas eu, disse que nada poderia comprar. E com o ar mais constrangido do mundo eu revelei: "I'm a poor widow". Eles olharam fixamente para mim. Observaram a minha robustês natural. A minha cara pálida de papel. Sempre pronta para rir, e... ficaram confundidos. E para rematar aquilo tudo, eu afirmo que nada posso comprar pois por tudo, eu só poderia oferecer... um euro. Após isso, eles ficaram muito revoltados. É que eu estava a desvalorizar ao máximo os seus produtos, não é? Se eu estivesse no lugar deles, eu também ficaria triste. Contudo quem os mandara insistir! Após isso, um deles, olha para mim ainda com mais insistência que os outros. E depois ele não se conteve. Abriu as goelas o máximo que pode e desatou a chamar-me aos gritos de CATALANA!!! Mas "catalana" porquê? Perguntei. Mas ninguém me respondeu. Passados instantes ouvi uma data de vendedores também aos gritos, a apontar para mim e a chamarem-me outra vez de "catalana". Homens que olhavam para mim, para a minha figura e para a minha aqui confessada... desfaçatez. Pois...
E eu que fiquei a pensar naquilo! Porque é que eu era "catalana"? Eu que sou portuguesa. Segui os passos de milhões de lusitanos e fui nascer na Maternidade Alfredo da Costa. Será que "Catalana" ali, tem alguma coisa a ver com os residentes da Catalunha? Mas esses são espanhóis. Ou são mais ou menos espanhóis. Mas sempre são mais espanhóis que eu. Será que os catalães são por definição os mais semíticos dos espanhóis? Os mais bota-de-elástico?
Eu de concreto e ali nada soube. Ninguém teve a coragem de me explicar. Mas eu também posso aqui afirmar que se eu fosse espanhola, o mais natural era torcer pelo Futebol Clube de Barcelona. Sim senhora. Era até capaz de ter um poster em tamanho natural do grande Messi, que ao que parece, até  é pequeno. O poster ocuparia assim uma pequena parte da parede do meu escritório ou mesmo do meu quarto. Ficaria desta maneira com um grande motivo de inspiração, de alguém que concretiza, de alguém que marca golos. De alguém que persegue sempre um objectivo e não... chuta para canto, como tantos outros. 
E depois honra se lhes faça, eu tiro-lhes daqui a minha boina anarquista. Foi na Catalunha que se acabou primeiro, com aquele deprimente e horroroso espectáculo das Touradas. E só por isso eu digo: "Deus abençoe e para sempre a... Catalunha". Agora eu ser "Catalana"? Bem, isso nem lembraria ao diabo, não é?
E a Pancrácia? Bem, ela olhava para mim e para estas minhas interrogações várias e ria que tombava (eu mesma tive que a segurar, porque senão caía). E  Deus meu, como aquela mulher se riu. E as comprinhas foram assim prosseguindo por seculo seculorum.
Entretanto o tempo disponível para as transacções comerciais, já há muito que havia terminado.  E era altura de regressarmos ao barco. E o que é que aconteceu? Pois o barco já não estava no mesmo sítio. Ai ai, os nossos problemas tiveram ali o seu inicio. Nós as duas, sozinhas, em terreno hostil e desfavorável a liberdades femininas. Andarmos assim à cata do nosso "barco seguro" que se recusava a aparecer no horizonte. E como andámos naquele dia. Entrámos para aí em duzentos barcos, que eram todos iguais uns aos outros. Mas o que era facto é que estava a ser muito difícil... encontrar o nosso. No fim e já sentindo um certo nervosismo nos ossos, tanto eu como a minha amiga Pancrácia que é uma competente compradora profissional, lá encontrámos o bote, mas não foi nada fácil. Ah pois não!
Para sempre eu vou recordar o merecidíssimo "responsolo" que ouvimos, por parte de uma jovem e competente guia. Ela ali, transmitindo-nos (com cara de poucos amigos),  uma "catrefa" de perigos que duas mulheres corriam se se perdessem ali naqueles locais. Naquele lugar compusemos uma estranha dupla, composta por uma gastadora compulsiva, detentora de um belíssimo nome e por mim, que assumi um papel de falsa e ardilosa criatura, que se pareceu um pouco com uma mulher muito desgostosa com a partida antes de tempo de um Falecido Qualquer. Falecido esse que é o contrário da pescada, ou seja, nunca o foi. Regressámos depois a este belo e agora atormentado país. Do Egipto, trouxe belas recordações, algumas histórias para contar. E não fiquei lá, ninguém me raptou. Mas acredito que se tal tivesse acontecido, eles a esta hora já estariam... muitíssimo arrependidos. Na volta eu  já seria uma líder e dirigente sindical num... harém qualquer. Exigir novas e melhores condições laborais. Mais respeito pelas...hierarquias. Promoções profissionais, baseadas em factores como a... maior produtividade. Redefinição de objectivos... Ai Credo!
A sugestão de leitura para esta semana é: "A Via Sinuosa" de Aquilino Ribeiro.
DIVIRTAMSEMAZÉ! 




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não houve festa como aquela.



Quando eu era mais nova (tinha para aí 19 anos), eu fui uma vez à Festa do Avante. Decidi ir com uma amiga da mesma idade que eu. Até ao dia aprazado eu pensei que íamos as duas sozinhas. Só que ao atravessar uma pequena ponte que passava por cima de uma linha férrea e enquanto conduzia o meu primeiro carro, um amigo da minha amiga fez-me sinal para parar. Esse senhor teria para aí uns sessenta e tal anos. Mal eu parei, ele saudou-me alegremente e enfiou-se de rajada dentro do meu carro. E eu, que na altura tinha acabado de tirar a carta. Tinha um minúsculo Austin Metro Surf de cor azul escura. Para que conste eu sempre fui uma moça roliça, contudo aquele senhor era bem mais pesado do que eu (e muito mais alto). Por consequência e enquanto eu ia a conduzir o "meu pequeno bólide", o mesmo quase que fazia cavalinhos. É claro que eu não gostei nada de dar boleia ao homem, considerei inclusivamente um grande abuso, mas como ele era amigo da minha amiga... que naquele dia, também me acompanhava...
Já na margem esquerda e ao avistarmos uma placa que dizia: "Coina", num imediato eu e o amigo da minha amiga, o Senhor B. começámos a cantarolar uma cantiga que dizia: "Ai vamos à Coina rapaziada, vamos a todas não escapa nada!" Na verdade eu não ouvia aquela canção há muitos anos. No meu tempo de criança pequena, aquela música era muito tocada em festas e romarias. Ainda no tempo da Revolução dos Cravos. E desgraçadamente... eu decorara-lhe a letra. Ali e passados tantos anos, eu espantei-me muito com a vinda inusitada daquela recordação. E ainda mais com o facto daquele sexagenário me ter acompanhado na cantoria. E, senti medo, senti muito medo.
Já na entrada da Quinta da Festa, o senhor B. pagou-nos o Bilhete de Acesso, também era o mínimo, não? Lá dentro, no recinto havia gente, havia mesmo muita gente, mas eu fiquei convencida de que nem toda aquela gente pertencia ao género dos "camaradas".
Tenho a dizer que aquela festa me agradou na sua generalidade. Tinha boas exposições, boas mostras de teatro, vendas de livros a preços muito convidativos e também boa e muito variada música. Na festa constavam ainda uns moços, que envergavam uns folgados barretes de croché em tons laranja, castanho e preto. Estes rapazes eram muito democratas, já que dividiam irmãmente entre eles e com aquele que se lhes quisesse juntar, um cigarrito muito irregular. E depois riam, riam mesmo muito e eu pensei: "Bem, estes aqui devem de professar a mesma religião que eu, que é rir por tudo e por nada e até perder o fôlego. A diferença é que eu não preciso de fumar nada... para gargalhar". 
Depois vi uns outros moços e umas outras moças. Estes estavam abraçados e deitados ao pé de umas tendas. Acho que estavam a fazer exercícios físicos já que realizavam uns movimentos corporais muito ritmados e sincronizados. E, meus amigos podem acreditar, o incrível aconteceu. É que pela segunda vez naquele dia, eu lembrei-me outra vez da tal canção da "Coina". 
Eu era nova e inexperiente. Andava de cabecita no ar a observar aquilo tudo, quase que com um certo fascínio. E quando finalmente olho para trás o que é que eu vejo? Bem, a minha amiga já vinha de mão dada com o seu amigo sessentão. Eu inicialmente estranhei aquilo, mas não muito. É que naquele recinto eu havia comprado um livro de Contos do Imprevisto. Até podia ser que a "Magia da Leitura" já ali se fizesse sentir. Mudasse dessa maneira o curso de tudo aquilo que era expectável. 
Depois e se calhar quem sabe, eles tinham era medo de se perderem. No meio de toda aquela gente, é que havia ali muita gente mesmo. Ou então a inalação involuntária daquele fumo adocicado que por vezes se fazia sentir, é que poderia explicar muita coisa.
Depois e rapidamente chegou a altura do jantar. O mesmo teria que se dar ali, no campo da Festa mais famosa da Atalaia. Sem perder tempo nem compostura, nós os três, fomo-nos meter numa gigantesca fila de gente muito ordeira. E ali fomos informados que dispúnhamos de dois pratos à escolha: a saber ou era Caldeirada ou Arroz de Marisco. 
Só que depois de permanecermos ali durante tanto tempo e de pé, munidos de pratos e de talheres de plástico branco, fomos informados pelos membros do Comité Central que o Arroz de Marisco se havia esgotado. Ou melhor, o que havia estava reservado para uns Membros Importantes do Partido (MIP), porque VIP é só usado por fascistas. Lol. Estes MIP iriam desta maneira chupar regaladamente, cabeças de gamba. Meu Marx (ali não é nada conveniente falar em Deus). Aquilo não podia ser. Pelo que, sem perder tempo algum eu transmiti em viva voz: "Ai que injustiça tão grande. Se os tais camaradas importantes querem o Arroz de Marisco já deveriam de estar aqui. É que ninguém gosta de comer arroz empapado".
Mas aqui eu tenho que ser franca. O que eu não queria aceitar de todo, era o facto de ter ali estado tanto tempo e ver-me obrigada a comer... uma caldeirada... que nunca desejara. E contrafeita eu lá continuei dizendo que na generalidade eu poderia compreender toda aquela situação. Mas no particular aquilo custava-me um bocado a engolir, assim como à caldeirada. E continuei dizendo que tinha dificuldade em entender que numa festa de um Partido que afirmava com tanta propriedade a igualdade entre todos os homens... aparentemente a coisa não parecia ser bem assim. Dessa forma parecia evidenciar-se que afinal uns eram bem mais iguais do que os outros. Meus amigos, tudo é licito quando a intenção é conseguir comer aquilo que se deseja. E silenciosamente, apelei às forças invisíveis de... Maquiavel. E para completar toda aquela minha excelente encenação, eu fiz a minha cara de tristeza número trinta e seis.
O senhor marxista que estava ali de serviço, olhou para mim com muita pena. Depois mostrou muito respeito pelo meu desgosto e pela minha mais recente contrariedade. É que tal situação era muito bem capaz de me provocar uma profunda Depressão Nervosa. E... não é que passado pouco tempo ele me aparece com um pratinho de cerâmica, com uma foice e um martelo pintados, mas com... Arroz de Marisco! Sinceramente não sei de onde é que veio aquela comida. Afinal a mesma estava reservada para alguém. Se calhar aquele camarada compreensivo, pensou ali o mesmo que a minha avó quando afirmava que: "Onde comem dois, comem três." Não sei.
O que eu sei é que não houve festa como aquela. Naquela dia houve um Fiat que ficou um bocadito riscado no pára-choques (mas eu deixei lá um papel com o meu contacto, só que ninguém me ligou). E se calhar Um Genuíno e Importante Seguidor de Marx e de Lenine teve que se contentar com uma Caldeirada que não queria, mas... ou era isso ou era ficar com fome. Ou se calhar comeu só metade do marisco que lhe estava destinado.
Para aliviar um bocadinho o meu peso de consciência e passados todos estes anos, gosto de alimentar a ideia de que o camarada que, de qualquer maneira ficou espoliado, foi bem capaz de ter tido direito a usar... uns talheres de... metal. Se calhar fabricados na URSS, que eram os melhores.
Mas vendo bem a coisa, também não foi nenhuma tragédia grega não é? Eu também não fiquei assim com muitos remorsos. É que os comunistas estão habituados a dividir tudo com os mais carenciados. Pois com muita  facilidade eles cortam a meio, ou mesmo em três partes, um frango e um paposseco. E é ou não é verdade, que uma das suas grandes máximas é justamente a frase composta: "De cada um, de acordo com as suas habilidades. A cada um de acordo com as suas necessidades"? Ah pois é!
Sugestão de leitura para esta semana: "Casei com um Comunista" de Philip Roth.
DIVIRTAMSEMAZÉ.


PS: Aquela canção dedicada à bela povoação da Coina, era omnipresente (tal como eu disse em festas e romarias). Pensando bem até acho que o meu próprio pai comprou a bela da cassete. Fico espantada é como as memórias de criança permanecem em nós absolutamente intocáveis. E é assustador para mim saber-me conhecedora da totalidade da letra. Até poderei um dia participar num Karaoke. Lol. DIVIRTAMSEMAZÉ!!!



sábado, 11 de fevereiro de 2012

Relações virtualmente desconexas.


Há uns anos atrás, li algures que uma pessoa se encontra afastada de outra pessoa qualquer do mundo, por apenas sete contactos, ou seja basta falar com sete pessoas diferentes para se encontrar... quem se quer encontrar. Já li isto há bastante tempo. Acredito que hoje em dia é tudo muito mais fácil. Estamos no tempo da Internet em "velocidade cruzeiro". Das Redes Sociais. Temos os mais diferenciados contactos generalizados e em grande escala. Mas serão estes (e na sua maioria), absolutamente compensadores?
Arménio trabalha numa Junta de Freguesia situada a sul do país. Tem 57 anos, de altura mediana, moreno, calvo, de olhos castanhos escuros e de farto bigode. Ele é um homem divorciado. Tem a seu cargo uma filha quase quase a ultrapassar a barreira dos dezoito anos. A filha está assim a atingir a maioridade mas não necessariamente a independência monetária. Isso ficará naturalmente para muito mais tarde como é costume da sociedade actual. Como hobbies, Arménio tem um pombal onde residem cerca de 200 pombos. Cria também galinhas pedreses. E também percebe muito de jardinagem. Tem ainda uma pequena horta.
Há noite Arménio costuma divertir-se com os seus numerosos amigos, vai a tabernas, pubs, discotecas etc. Ás vezes vai a um ou outro salão erótico (assim como que para lavar a vista). 
Porém também passa parte do seu tempo na Internet, nas chamadas Redes Sociais. Ai convive com muitos/as, amigos/as virtuais. Como perfil, ele usas-se de um nickname inconfessável e de uma fotografia de um jovem modelo, muito belo, porém algo desconhecido para a maioria das pessoas. O uso dessa fotografia e regra geral, cria alguma confusão. 
Muitas vezes, as conversas mantidas naquela plataforma por ele, versam motivos tão importantes como a: criação de pombos, a situação económico/social do país, o Poder Local... Mas o que ele verifica mais é que as "suas amigas internautas" perdem mesmo muito mais tempo no engate. Ora como amiga virtual, o nosso herói de hoje tem a "Maria Repimpada", que é um nick que uma certa senhora usa para formalizar e dignificar os seus contactos. A Repimpada auto-define-se como uma trintona enxuta, decidida porém muito amorosa e capaz. À primeira vista esta "vitoriosa" encantou-se com a fotografia do tal modelo que o Arménio usa. Mas este fez logo questão de dizer que aquela fotografia não o retrata a ele, muito antes pelo contrário. Contudo a Repimpada logo se fez de coquete e lhe disse que poderia até não ser ele, mas que tinha a certeza que o Arménio possuía os seus "bons atributos" e as suas "belíssimas qualidades próprias", o que não deixa de ser uma grande verdade. Arménio aqui nada respondia. Impedia-o a modéstia e a educação que tivera. E a Repimpada continuava, fazendo-lhe as mais variadas perguntas: "Quantos anos tinha?", "De que cor eram os seus olhos?", "Se era comprometido?", "Se tinha namorada ou amiga colorida?", "De que cor eram os seus mamilos?". E o Arménio não se fazia rogado e respondia mais ou menos a tudo. Um dia destes a Repimpada até lhe perguntou qual é que era o perímetro do seu testículo esquerdo. Arménio ficou varado. Para que raio é que a mulher queria ter tal informação? Seria para colmatar uma estranha e inapropriada curiosidade? Ou seria para a elaboração de uma complexa equação que determinasse a correspondência efectiva entre a funcionalidade e o tempo em que a mesma decorre? Acho que para a obtenção desse resultado, ela também teria que perguntar qual é que era a temperatura atmosférica e o nível de precipitação. (lol) Mas Arménio, pensou, pensou e depois foi à Casa de Banho para medir. 
Com o decorrer das conversações, Arménio apercebia-se que a sua amiga, parecia ter desenvolvido um estranho e continuado fascínio pelo retrato do tal moço bem parecido. E por mais que desviasse a conversa, a Repimpada só queria uma coisa: conhecer o aspecto do Arménio. Mas este foi adiando a "revelação" enquanto pôde.
Por muitas vezes, o Arménio ficou farto de tanta insistência. Apetecia-lhe era falar dos pombos, das flores, das galinhas. Da educação dos jovens... Mas a Repimpada não desistia assim facilmente dos seus intentos. Arménio foi repetindo (quase até à exaustão) que a fotografia exposta não correspondia à sua pessoa. Ele era muito mais trigueiro e idoso do que aquele jovem. Além do mais não tinha os músculos tão definidos nem desenvolvidos como os do referido modelo. E mais, até já possuía uma crescente barriguinha. A Repimpada sorria (usava até ao exagero, de uma série de sinais gráficos que correspondiam directamente à sua risada). E dizia que acreditava que o Arménio deveria ser um homem muito interessante e detentor de muita beleza, principalmente de beleza interna (?). Mas continuava, dizendo que um dia o queria conhecer de facto. Arménio receava  muito essa "exposição".
Mas as conversas entre os dois lá se iam mantendo e a temática lá ia continuando quase sempre a mesma. Ao fim de muitas horas de paleio escrito, os dois finalmente decidiram conhecer as respectivas facies, pelo que decidiram ligar as Web Camera ao mesmo tempo. Conheceram assim o aspecto visual um do outro. Arménio olhou para a Maria Repimpada. A Maria Repimpada olhou para o Arménio e... começou logo e imediatamente a gritar. Depois chamou-lhe todos os nomes. Amaldiçoou-o até à sua sexta geração. E mais, abriu muito os olhos e ficou sem cor. Depois colocou os seus dois dedos indicadores em cruz e começou a dizer em voz alta e grave o: "Vai de Retro Satanás". E desligou imediatamente a câmara e a conversa, a tal que já durava havia tanto tempo. 
Arménio inicialmente não teve qualquer tipo de reacção. Ficou abismado. Ele não havia conseguido prever uma reacção tão radical por parte da mulher. É que vendo bem as coisas ele jamais lhe havia mentido. Sempre lhe dissera toda a verdade. Porque é que a Maria reagira assim? Foi um comportamento muito despropositado. 
Mas depois Arménio pensa melhor. Afinal ele também vira a Repimpada. Ela também não era assim tão dotada como... à partida queria fazer crer. E além disso ele continuava a ter muitos motivos para sorrir. Afinal sempre tinha uma vida própria que ele considera muito gratificante. Tinha uma filha feliz, tinha duas centenas de pombos ordeiros, umas galinhas muito poedeiras e graciosas e um coração aberto a novas experiências, mas tranquilo. E já agora ele ficara com uma certeza: Na sua vida ele não quer mais incluir nenhuma outra "Maria Desarvorada".
Sugestão de leitura para esta semana: "Destino de um Homem" de Somerset Maugham.
DIVIRTAMSEMAZÉ e votos de "Bons Encontros", patrocinados ou não por um Cupido Qualquer!


E o que aquela se deve de ter divertido! Ali no chão, deitada e aos beijos ao Bono!!!
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A crise.


Crise: Palavra perversa, terrível e hedionda. Muito repetida e infelizmente muito sentida por todos, ou por quase todos. A ideia de poupar até à exaustão. Trabalhar até morrer e depois quem ficar, continuar a pagar tudo ao Estado. Um dia destes, deram-me a ideia de fazer uma pequena mudança no preenchimento do meu IRS, ou seja, no local onde é para pôr as pessoas que temos ao nosso cargo, eu passe a colocar: o Presidente da República, o Primeiro Ministro, a Presidente da Assembleia da Republica, uma parga de ministros e também umas centenas de deputados. Pois...
Fala-se e torna-se a falar das causas que deram origem a toda esta situação. O dinheiro que era fácil e que vinha de uma União Europeia muito optimista. Depois os subsídios para tudo, para Agricultura, para as Pescas, para a  Criação de Gado etc. Depois foi a vez de se acabar com a Pesca, com a Agricultura e com a Criação de Gado. Fizemos assim a vontade a uma Europa Unida (?) porém algo bipolar. Depois veio a maravilhosa época da Expo 98 e do Euro 2004. E andámos todos aos pulos na rua e muito orgulhosos com a nossa alegre situação (mas no Euro, quem nos lixou... foi a Grécia). Mas agora sabemos que no fim... perdemos os dois.
Hoje somos acusados de termos vivido muito acima das nossas possibilidades. Mas que vergonha!!! É que tivemos a coragem e a ousadia de ir passar umas férias às Caraíbas, (cruzes, credo e canhoto!!! Isso não era para nós, que somos e seremos sempre... muito pobrezinhos!) Muitos de nós até nos esquecemos onde ficava a Costa da Caparica (essa sim, é uma praia que está de acordo com as nossas reais possibilidades!!!). Mas agora... o mal já está feito, pelo que o melhor mesmo é...  aguentar.
Mas conheço gente que se debate com o problema da crise com muita inteligência, pelo menos é o que eu penso. É que no fundo, todos nós pretendemos diminuir as consequências desta crise. Mas nisto e como em tudo, a imaginação é o limite.
O casal Ferreira é um casal composto por dois idosos de setenta e poucos anos. Um dia destes quase que tiveram uma sincope quando souberam que iam perder os 50% de desconto a que tinham direito no preço dos transportes públicos. Contudo e superado o susto, eles não se deixaram abater. Compraram uma bicicleta de dois lugares e agora é vê-los a percorrer grandes distâncias um atrás do outro. Regra geral o senhor é que vai no lugar da frente. E que belas conversas eles devem de ter enquanto pedalam.
Tenho uma amiga que um dia destes decidiu aceitar ir jantar fora com o vizinho do terceiro andar. Bem jantar fora é como quem diz, pois o vizinho e por causa da crise, convidou a minha amiga a ir jantar lá na casa dele. O vizinho tem cinquenta e tal anos e ainda vive com o seu paizinho. É detentor de um poderoso metro e oitenta e de um muito generoso bigode. Não fora a crise e a minha amiga ficava sem conhecer os predicados do homem: o mesmo é um grande cozinheiro, quase um master chef. E comeram regaladamente os três, um peixinho cozido ao vapor com ervas e um arrozinho de grelos. 
Mas as surpresas não ficaram por ali. A minha amiga foi convidada a ir (e a pretexto de observar uma grande mancha de humidade que se formara na parede), ao quarto do seu vizinho. E não é que ela ficou muito emocionada! Não, não ficou admirada com uma grande mancha irregular e amarelada de bolor que "decorava" uma das paredes, não foi isso. O que ela apreciou mesmo foi o edredon cheio de folhos e com muitas florzinhas, que estava a cobrir escrupulosamente, uma minúscula cama. A minha amiga ainda disse ao seu querido vizinho: "Mas que belo edredon o vizinho tem?" Mas ele nada respondeu. E ficou também muito ruborizado.
E mais. A minha amiga teve oportunidade de verificar que o seu solicito vizinho, para além do facto de dormir (naturalmente muito encolhidinho naquela caminha), ainda fazia a dita com muito desvelo e atenção. Para além disso, o delicado homem, faz colecção de bibelots. E como a minha amiga rejubilou ante a prespectiva de imaginar aquele seu vizinho, de grandes dimensões e de bigode, de paninho na mão e a limpar o pó que naturalmente, não deixa acumular por muito tempo. Acredito piamente na união futura daquelas duas almas gémeas. E a sua aproximação deu-se... por causa da crise.
Sei também que o senhor António é cada vez mais solicitado. O senhor António tem quase oitenta anos. É viúvo já há alguns anos, e toda a vida se prestou a resolver aqueles pequenos problemas que acontecem nas casas de todos nós: mudar uma lâmpada, arranjar um interruptor, colocar um quadro na parede... Ele é procurado maioritariamente por mulheres solitárias que não têm facilidade nem jeito de executar esses trabalhos. Um dia destes, a D. Hermínia, que ficara viúva há dois anos, solicitou os serviços do António pela primeira vez. Hermínia é uma viúva de setenta e sete anos, mas ainda em muito boa forma. Precisava que o senhor António lhe substituisse o arrancador da lâmpada da cozinha. O senhor António, obviamente não se fez rogado e fez o trabalho solicitado com toda a dedicação. No fim e satisfeito, ele subiu para um tripé (que serve de pequeno banco e que o acompanha para todo o lado), e começou a coreografar e a cantar com voz de barítono a pérola seguinte: "Delícia, delícia, assim você me mata, aí se eu ter pego, ai se eu te pego aí..." Inicialmente a D. Hermínia estranhou tudo aquilo, mas depois "fingiu" que fugia para a Sala de Estar. Não fora a crise e a D. Hermínia teria chamado um "electricista encartado", que para além de lhe levar um preço muito mais elevado, também não teria para ela, nenhuma atenção especial.
Da mesma ordem de ideias, corresponde uma outra realidade. Um grupo de amigas, frequentava até à pouco tempo um ginásio. Mas e como está tudo a subir de preço, elas chegaram à conclusão que a mensalidade do referido ginásio, estava a ficar incomportável. Decidiram deixar o ginásio e começar a fazer grandes caminhadas. Como trabalham, só tinham tempo de executar aquele exercício tão livre e barato, à noite. E as senhoras tinham muito medo de serem assaltadas. O passo seguinte, foi o de convenceram os seus maridos e amantes a acompanharem-nas naquelas incursões nocturnas. Ficaram desta maneira todos a ganhar. Não pagam nada pelo exercício. Quando chove (o que infelizmente tem sido raro), ou faz muito frio, aquele conjunto de pessoas reúnem-se, ora na casa de uns, ora na casa de outros. Juntam-se ali com um objectivo... o de se exercitarem. Fazem muitas flexões. Um dia destes, até descobriram que o senhor Aires faz umas belas massagens (aprendeu a técnica quando andava na tropa). Pelo que aquelas pessoas têm ali, mais uma excelente motivação para fazerem alongamentos e serem simultaneamente muito felizes por serem assim tão unidos. Não fora a crise...
Depois há um prédio, habitado maioritariamente por quarentões. Estas pessoas gostavam muito de sair à noite. Iam a bares, discotecas, ao cinema, ao teatro... enfim... Só que descobriram, que grande parte dos seus orçamentos se perdia naqueles agradáveis, porém muito dispendiosos divertimentos. Foi durante uma Reunião do Condomínio, que por acaso se falou daquela tão dramática situação. Concluíram que corriam o risco de se tornarem pessoas bem mais tristes e solitárias, pois teriam que permanecer mais... lá por casa...
Com o decorrer da conversa e para combaterem todo aquele desanimo, eles decidiram, experimentar festas conjuntas na casa ora de um, ora de outro. As primeiras party´s correram muito bem. Antes tinham ido comprar e em conjunto, uma série variada de géneros alimentares e  muitas bebidas (foram ao Pingo Doce, porque é mais barato). Depois e em conjunto, eles confeccionaram e comerem opíparas refeições.
Acabada a refeição, bem alimentados e satisfeitos eles foram "remoer". Andaram a dançar com uma vassoura, tirando depois os pares uns aos outros. Seguiu-se o lindo Jogo das Cadeiras, jogo em que o perdedor é justamente... aquele que perde o acento. Faço-me entender, não é? Porém toda aquela rotina, mudou um destes dias. É que Rosalinda, a porteira, atirou para longe com a vassoura e  pôs-se a dançar à volta de um bengaleiro que por ali estava. Depois o tempo começou a aquecer e a Rosalinda começou a tirar a roupa, peça a peça. Passados poucos minutos, já toda a assistência estava também... muito acalorada. Logo a Rosalinda, a tal que tanto passava umas escadas a pano, como recebia diariamente... o carteiro, quer ele tocasse duas, quer ele tocasse três vezes. Aquela sua inovação fez ali toda a diferença.
Na festa seguinte foi a vez da menina Elsinha tomar coragem. Elsinha era uma trintona solteira, belfa, muito miúpe e recatada que trabalhava nos Correios. Elsa pensou, pensou e achou que estava na altura de desfrutar um pouco da vida. E era ali entre os seus vizinhos, que era como estar entre a sua própria família. Com coragem e ousadia (tal qual a de todos aqueles que haviam passado férias nas Caraíbas), ela também andou a dançar à volta do bengaleiro, tal qual fizera a porteira. Hoje Elsa é uma nova mulher. Começou por subir a bainha de todas as suas saias. Também já usa um baton muito carmim nos lábios. Ainda usa óculos, pois se não os usar, ela corre o risco de andar a colidir contra as coisas. Contudo pondera usar lentes de contacto e até está disposta a gastar algum do seu dinheiro, na colocação de umas unhas de gel. E vai finalmente entrar na "Loja das Brasileiras".  Como se vê, foi a crise que aproximou e uniu todas estas pessoas. É pois urgente ver o lado positivo das coisas.
Mas à conta da crise, eu lembro-me de um dialogo que tive à uns anos com um jovem brasileiro. O mesmo fora à biblioteca. A dada altura e fazendo um pouco a figura de conselheira (figura que não me assenta muito bem), eu falei ao jovem da necessidade... de o mesmo juntar dinheiro. Resposta pronta do rapaz: "Juntar dinheiro? Mas porquê eu? É que não fui eu que o espalhei!" Ah pois não!!!
Sugestão de leitura para esta semana: "A Biblioteca Pública como Conhecimento Público" de Bob Usherwood.
DIVIRTAMSEMAZÉ  e combatam a crise, mais que não seja através de um sorriso.



PS: Foi ao assistir ao jogo do Real Madrid, que o senhor António aprendeu a dança da sedução que dedicou à D. Hermínia. E eu tenho cá uma desconfiança que a D. Hermínia até já deu uma dentadinha naquele seu "merengue".