Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não houve festa como aquela.



Quando eu era mais nova (tinha para aí 19 anos), eu fui uma vez à Festa do Avante. Decidi ir com uma amiga da mesma idade que eu. Até ao dia aprazado eu pensei que íamos as duas sozinhas. Só que ao atravessar uma pequena ponte que passava por cima de uma linha férrea e enquanto conduzia o meu primeiro carro, um amigo da minha amiga fez-me sinal para parar. Esse senhor teria para aí uns sessenta e tal anos. Mal eu parei, ele saudou-me alegremente e enfiou-se de rajada dentro do meu carro. E eu, que na altura tinha acabado de tirar a carta. Tinha um minúsculo Austin Metro Surf de cor azul escura. Para que conste eu sempre fui uma moça roliça, contudo aquele senhor era bem mais pesado do que eu (e muito mais alto). Por consequência e enquanto eu ia a conduzir o "meu pequeno bólide", o mesmo quase que fazia cavalinhos. É claro que eu não gostei nada de dar boleia ao homem, considerei inclusivamente um grande abuso, mas como ele era amigo da minha amiga... que naquele dia, também me acompanhava...
Já na margem esquerda e ao avistarmos uma placa que dizia: "Coina", num imediato eu e o amigo da minha amiga, o Senhor B. começámos a cantarolar uma cantiga que dizia: "Ai vamos à Coina rapaziada, vamos a todas não escapa nada!" Na verdade eu não ouvia aquela canção há muitos anos. No meu tempo de criança pequena, aquela música era muito tocada em festas e romarias. Ainda no tempo da Revolução dos Cravos. E desgraçadamente... eu decorara-lhe a letra. Ali e passados tantos anos, eu espantei-me muito com a vinda inusitada daquela recordação. E ainda mais com o facto daquele sexagenário me ter acompanhado na cantoria. E, senti medo, senti muito medo.
Já na entrada da Quinta da Festa, o senhor B. pagou-nos o Bilhete de Acesso, também era o mínimo, não? Lá dentro, no recinto havia gente, havia mesmo muita gente, mas eu fiquei convencida de que nem toda aquela gente pertencia ao género dos "camaradas".
Tenho a dizer que aquela festa me agradou na sua generalidade. Tinha boas exposições, boas mostras de teatro, vendas de livros a preços muito convidativos e também boa e muito variada música. Na festa constavam ainda uns moços, que envergavam uns folgados barretes de croché em tons laranja, castanho e preto. Estes rapazes eram muito democratas, já que dividiam irmãmente entre eles e com aquele que se lhes quisesse juntar, um cigarrito muito irregular. E depois riam, riam mesmo muito e eu pensei: "Bem, estes aqui devem de professar a mesma religião que eu, que é rir por tudo e por nada e até perder o fôlego. A diferença é que eu não preciso de fumar nada... para gargalhar". 
Depois vi uns outros moços e umas outras moças. Estes estavam abraçados e deitados ao pé de umas tendas. Acho que estavam a fazer exercícios físicos já que realizavam uns movimentos corporais muito ritmados e sincronizados. E, meus amigos podem acreditar, o incrível aconteceu. É que pela segunda vez naquele dia, eu lembrei-me outra vez da tal canção da "Coina". 
Eu era nova e inexperiente. Andava de cabecita no ar a observar aquilo tudo, quase que com um certo fascínio. E quando finalmente olho para trás o que é que eu vejo? Bem, a minha amiga já vinha de mão dada com o seu amigo sessentão. Eu inicialmente estranhei aquilo, mas não muito. É que naquele recinto eu havia comprado um livro de Contos do Imprevisto. Até podia ser que a "Magia da Leitura" já ali se fizesse sentir. Mudasse dessa maneira o curso de tudo aquilo que era expectável. 
Depois e se calhar quem sabe, eles tinham era medo de se perderem. No meio de toda aquela gente, é que havia ali muita gente mesmo. Ou então a inalação involuntária daquele fumo adocicado que por vezes se fazia sentir, é que poderia explicar muita coisa.
Depois e rapidamente chegou a altura do jantar. O mesmo teria que se dar ali, no campo da Festa mais famosa da Atalaia. Sem perder tempo nem compostura, nós os três, fomo-nos meter numa gigantesca fila de gente muito ordeira. E ali fomos informados que dispúnhamos de dois pratos à escolha: a saber ou era Caldeirada ou Arroz de Marisco. 
Só que depois de permanecermos ali durante tanto tempo e de pé, munidos de pratos e de talheres de plástico branco, fomos informados pelos membros do Comité Central que o Arroz de Marisco se havia esgotado. Ou melhor, o que havia estava reservado para uns Membros Importantes do Partido (MIP), porque VIP é só usado por fascistas. Lol. Estes MIP iriam desta maneira chupar regaladamente, cabeças de gamba. Meu Marx (ali não é nada conveniente falar em Deus). Aquilo não podia ser. Pelo que, sem perder tempo algum eu transmiti em viva voz: "Ai que injustiça tão grande. Se os tais camaradas importantes querem o Arroz de Marisco já deveriam de estar aqui. É que ninguém gosta de comer arroz empapado".
Mas aqui eu tenho que ser franca. O que eu não queria aceitar de todo, era o facto de ter ali estado tanto tempo e ver-me obrigada a comer... uma caldeirada... que nunca desejara. E contrafeita eu lá continuei dizendo que na generalidade eu poderia compreender toda aquela situação. Mas no particular aquilo custava-me um bocado a engolir, assim como à caldeirada. E continuei dizendo que tinha dificuldade em entender que numa festa de um Partido que afirmava com tanta propriedade a igualdade entre todos os homens... aparentemente a coisa não parecia ser bem assim. Dessa forma parecia evidenciar-se que afinal uns eram bem mais iguais do que os outros. Meus amigos, tudo é licito quando a intenção é conseguir comer aquilo que se deseja. E silenciosamente, apelei às forças invisíveis de... Maquiavel. E para completar toda aquela minha excelente encenação, eu fiz a minha cara de tristeza número trinta e seis.
O senhor marxista que estava ali de serviço, olhou para mim com muita pena. Depois mostrou muito respeito pelo meu desgosto e pela minha mais recente contrariedade. É que tal situação era muito bem capaz de me provocar uma profunda Depressão Nervosa. E... não é que passado pouco tempo ele me aparece com um pratinho de cerâmica, com uma foice e um martelo pintados, mas com... Arroz de Marisco! Sinceramente não sei de onde é que veio aquela comida. Afinal a mesma estava reservada para alguém. Se calhar aquele camarada compreensivo, pensou ali o mesmo que a minha avó quando afirmava que: "Onde comem dois, comem três." Não sei.
O que eu sei é que não houve festa como aquela. Naquela dia houve um Fiat que ficou um bocadito riscado no pára-choques (mas eu deixei lá um papel com o meu contacto, só que ninguém me ligou). E se calhar Um Genuíno e Importante Seguidor de Marx e de Lenine teve que se contentar com uma Caldeirada que não queria, mas... ou era isso ou era ficar com fome. Ou se calhar comeu só metade do marisco que lhe estava destinado.
Para aliviar um bocadinho o meu peso de consciência e passados todos estes anos, gosto de alimentar a ideia de que o camarada que, de qualquer maneira ficou espoliado, foi bem capaz de ter tido direito a usar... uns talheres de... metal. Se calhar fabricados na URSS, que eram os melhores.
Mas vendo bem a coisa, também não foi nenhuma tragédia grega não é? Eu também não fiquei assim com muitos remorsos. É que os comunistas estão habituados a dividir tudo com os mais carenciados. Pois com muita  facilidade eles cortam a meio, ou mesmo em três partes, um frango e um paposseco. E é ou não é verdade, que uma das suas grandes máximas é justamente a frase composta: "De cada um, de acordo com as suas habilidades. A cada um de acordo com as suas necessidades"? Ah pois é!
Sugestão de leitura para esta semana: "Casei com um Comunista" de Philip Roth.
DIVIRTAMSEMAZÉ.


PS: Aquela canção dedicada à bela povoação da Coina, era omnipresente (tal como eu disse em festas e romarias). Pensando bem até acho que o meu próprio pai comprou a bela da cassete. Fico espantada é como as memórias de criança permanecem em nós absolutamente intocáveis. E é assustador para mim saber-me conhecedora da totalidade da letra. Até poderei um dia participar num Karaoke. Lol. DIVIRTAMSEMAZÉ!!!



1 comentário:

MJB disse...

Nos meus 17, 18 e 19 anos, a Festa do Avante era um acontecimento a que nunca faltava! E nessa altura os meus ideais politicos eram coisa que não me preocupavam, talvez por isso ma agradesse tanto tal festa. Todos eram bem vindos, tudo cantava, comia e se divertia. Os comissios eram apenas para que queria, a festa era para todos.
Indiferentes a cores politicas, o importante era estar.
Hoje para se fazer festa é necessário ter a mesma cor politica. Acabou-se a "camaradagem" e ficaram apenas os "camaradas". É pena.