Marcelina é uma sessentona bem
alegre e “muito enxuta”. É divorciada e possui um excelente grupo de amigos,
com os quais sai radiosa em algumas das noites mais apetecíveis. E quase sempre
a escolha envolve, ou bares com música ao vivo ou então animados bailes. E
quando a senhora se disponibiliza a dançar? Pois precisa de controlar muito bem
os constantes pedidos para que bailem com ela. É que são constantes, as
solicitações, para que ela dance com a grande maioria dos respeitáveis e
garbosos senhores, que também ali se deslocam. É que se não tiver algum
cuidado, corre o risco de estar toda a noite a dançar, sem descansar uma única
vez. E depois ficar com as suas elegantes pernas, transformadas em dois
trambolhos. E com muitas bolhas nos pés, devido à falta de jeito por parte de
alguns. E o seu sucesso é tal, que ela nunca precisou de participar naquele embuste, que consiste na
triste situação de estarem para ali as mulheres a dançarem umas com as outras.
E que me perdoem todas aquelas, que gostam de participar em bailaricos, nessas condições.
A Marcelina tem três filhas já
adultas. E adoptou um cão desde que mesmo era muito pequenino. Marcelina
apiedou-se do bicho, porque o seu primeiro dono havia-lhe feito uma grande
judiaria. Mas não fora um sofrimento premeditado. O que aconteceu é que o homem
achou, que se pusesse creolina no pêlo do animal, ele ficaria imediatamente
livre de pulgas, carraças e melgas. Ora este pérfido tratamento resultou em que
o cãozinho ficasse com queimaduras profundas. E depois disso, o pobrezinho do
cão, ficou com sinais daquele terrível sofrimento para toda a vida. Às vezes o
ser humano tem com cada ideia mais triste…
Mas aquele cãozinho simpático,
com o passar do tempo, e com os cuidados adequados (atendendo às particulares circunstâncias)
tornou-se um cãozão. De ideias mesmo muito próprias e definidas, no que
concerne a uma postura que exige muita atenção, não só por parte dos seus
iguais caninos, como das pessoas em geral. E para que conste diga-se que ele
detesta ficar em casa sozinho. E reclama, oh como reclama! É que quando ele
fica sozinho, ele põe-se a ganir de tal forma, que perturba sobremaneira a paz
de todo o seu prédio. O prédio onde naturalmente, ele reside com a sua dona.
Para aquele cão, ficar sozinho, é tal qual como se o mundo fosse acabar.
Diga-se que a sua dona está sempre muito preocupada com o seu bem-estar. E até se passeia muito com ele. Ou melhor, é levada a passear, pois por vezes ela quase que voa como se fosse um balão da feira.
Diga-se que a sua dona está sempre muito preocupada com o seu bem-estar. E até se passeia muito com ele. Ou melhor, é levada a passear, pois por vezes ela quase que voa como se fosse um balão da feira.
E quando a Marcelina vai às
compras? Pois regra geral, leva o cão com ela. Só que depois (e no momento em
que ela procede às aquisições) prende-o cá fora do estabelecimento. Como é evidente.
Marcelina não tem quaisquer motivos,
para recear eventuais investidas por parte do bicho. O cão não morde em
ninguém. Além disso, o seu enorme porte desencoraja completamente, qualquer
eventual aproximação. Só que o mesmo, ao sentir-se ali preso sem a sua querida
dona, julga-se abandonado. E fica mesmo muitíssimo nervoso. E a “cantar” muito
alto. E enquanto a dona não vem, aquele funesto “concerto”, vai-se mantendo. E
não há muito a fazer. A dona, claro está, tenta despachar-se o mais rapidamente
possível. Só que por vezes tal pretensão não é nada fácil de atingir. É que,
quem é que nunca teve à sua frente no supermercado, e na fila para pagamentos,
uma velhota que cisma, que tem que contar toda a sua vida, a senhora que está à
caixa? Quem é que nunca teve como colega de clientela do supermercado, um
senhor que só no último momento é que se lembra que necessita de umas lâminas
para a barba? E sai da fila muito rapidamente, (o mais rapidamente que consegue),
na sua condição de coxo? E quem é que nunca viveu a situação, em que
determinado género que se pretende comprar, não tem o preço incluso, pelo que
se tem que chamar uma colaboradora à caixa, que terá como incumbência, a troca do
produto?
Pois, existem dias em que todos
estes elementos, se juntam e fazem a “festa” no supermercado. E naquele dia
preciso, foi exactamente um desses dias. Marcelina esperava impacientemente na
fila da caixa, só que a fila… não havia maneira de andar. À porta do
estabelecimento estava Skipe (é esse o nome do cão), que literalmente se
desunhava, e emitia gritos mais estridentes que a sirene dos bombeiros, quando
dá em anunciar um incêndio. Os mais velhos, ao ouvirem tais lamurias, até se recordavam da sirene da CUF. Marcelina
tentava abstrair-se como podia, mas tal não estava a ser nada fácil. E todos aqueles
gritos caninos que não tinham fim? Até é muito natural que aquele cão (e numa
outra existência) tenha sido uma muito bem-sucedida carpideira.
Só que de repente, entra no
supermercado, um garboso elemento das forças policiais. De bigode farfalhudo,
barriga em crescendo e também com uma pronunciazinha de Viseu. Teria uns cinquenta
e tal anos. E aquele polícia olhou para a clientela, com muita altivez. Depois, (e
pigarreando primeiro para aclarar a voz), ele perguntou para a geral:
“Ora muito bom dia. Max afinal de
quem é que é, aquele cão? Aquele que extá ali fora a faxer todo aquele arraxoado?”
Oh Deus do céu! A Marcelina não
sabia muito bem, onde é que se havia de enfiar, tal era a vergonha sentida.
Mas o cão era dela. Ela jamais o negaria ou enjeitava. Pelo que (e com uma voz
muito tímida e sumida), lá respondeu:
“É meu, senhor polícia. Eu
deixei-o ali porque não posso entrar aqui com ele. E eu necessitava tanto, de
comprar estas coisas aqui…”
O polícia olhou para Marcelina,
de alto a baixo. Depois reflectiu um bocadinho. E só depois, ele lhe solicitou:
“Muito bem. E uma vez que o cão é
xeu, acompanhe-me por favor, até ao local onde extá o animal.”
Chegados ao pé do Skipe, o bicho
ficou todo contente. Estava finalmente a ver a sua dona. Mas a alegria não
impediu que ele continuasse a fazer barulho. Muito barulho mesmo. Só que, agora era de
alegria. E ficou de tal forma feliz, que abanava energicamente a sua peluda e
imponente cauda. Batendo no policia e também na dona. É que estava ali a pessoa que ele mais gostava. A quem ele devia a
sobrevivência. Por quem ele nutria mais carinho. Pelo que uma grande barulhada,
lá prosseguia. Aí o polícia, e implacavelmente, gritou mesmo com muita
autoridade para o animal:
“Ai! Cala-te majé, cão danado!”
E não é que o Skipe se calou? Foi
remédio santo. O polícia, já muito mais recomposto, e com um olhar sobranceiro,
mesmo muito triunfante, virou-se para a Marcelina e comunicou-lhe de uma forma,
muito pedagógica e moralista”.
“É xerto que o xeu cão está vixivelmente
bem tratado. Extá bem alimentado e limpo. Mas a xenhora proxedeu muito mal! Deixou-o
para aqui prexo e à torreira do Xol. Para além do maix, o xeu cão, não lhe tem
rexpeito nenhum. É que foi xó com a minha voz, que ele xe calou. Respeitou axim
e muito, a minha autoridade. Axim, xó ao som da minha voz, tão varonil… Pelo
que xó me resta concluir uma coixa: é maix do que xerto, que a xenhora não tem
homem. Poix xe o tivexe, o comportamento do xêu cão xeria diferente. Xeria
muitíximo melhor!...”
E sem perder nunca a posse, nem a
sua voz confiante, ele concluiu, aquele seu tão intrincado e misterioso
raciocínio:
“E uma vez que eu também xou, um
xenhor divorxiado…”
Oh diabo! A Marcelina não podia
acreditar no que estava a ouvir. E ficou mesmo para ali boquiaberta e sem força
nenhuma nas pernas. É que claramente, ela estava a ser “galada” por aquele elemento
das forças da autoridade? Concluiria assim ela, em pensamento. E logo por aquele senhor
polícia? Que empunhava com tanta dignidade o seu cacetete! Afinal... o sucesso
dela, não era só conseguido, quando ela ia dançar.
Mas, e quanto ao polícia? Pois o
magano também ali tentou a sua sorte. É que ser ousado, afinal
não custa assim tanto, não é? E depois é ou não é verdade, que só se perdem, as
que se não dão? E ali, manifestamente… também não havia nada a perder.
Sugestão de leitura para esta
semana : "O Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco.
Vá lá! Não custa assim tanto, ler dois livros por semana.
Vá lá! Não custa assim tanto, ler dois livros por semana.
DIVIRTAMXEMAJÉ!


