Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Das Terras de Viriato.


Marcelina é uma sessentona bem alegre e “muito enxuta”. É divorciada e possui um excelente grupo de amigos, com os quais sai radiosa em algumas das noites mais apetecíveis. E quase sempre a escolha envolve, ou bares com música ao vivo ou então animados bailes. E quando a senhora se disponibiliza a dançar? Pois precisa de controlar muito bem os constantes pedidos para que bailem com ela. É que são constantes, as solicitações, para que ela dance com a grande maioria dos respeitáveis e garbosos senhores, que também ali se deslocam. É que se não tiver algum cuidado, corre o risco de estar toda a noite a dançar, sem descansar uma única vez. E depois ficar com as suas elegantes pernas, transformadas em dois trambolhos. E com muitas bolhas nos pés, devido à falta de jeito por parte de alguns. E o seu sucesso é tal, que ela nunca precisou de participar naquele embuste, que consiste na triste situação de estarem para ali as mulheres a dançarem umas com as outras. E que me perdoem todas aquelas, que gostam de participar em bailaricos, nessas condições. 
A Marcelina tem três filhas já adultas. E adoptou um cão desde que mesmo era muito pequenino. Marcelina apiedou-se do bicho, porque o seu primeiro dono havia-lhe feito uma grande judiaria. Mas não fora um sofrimento premeditado. O que aconteceu é que o homem achou, que se pusesse creolina no pêlo do animal, ele ficaria imediatamente livre de pulgas, carraças e melgas. Ora este pérfido tratamento resultou em que o cãozinho ficasse com queimaduras profundas. E depois disso, o pobrezinho do cão, ficou com sinais daquele terrível sofrimento para toda a vida. Às vezes o ser humano tem com cada ideia mais triste…
Mas aquele cãozinho simpático, com o passar do tempo, e com os cuidados adequados (atendendo às particulares circunstâncias) tornou-se um cãozão. De ideias mesmo muito próprias e definidas, no que concerne a uma postura que exige muita atenção, não só por parte dos seus iguais caninos, como das pessoas em geral. E para que conste diga-se que ele detesta ficar em casa sozinho. E reclama, oh como reclama! É que quando ele fica sozinho, ele põe-se a ganir de tal forma, que perturba sobremaneira a paz de todo o seu prédio. O prédio onde naturalmente, ele reside com a sua dona. Para aquele cão, ficar sozinho, é tal qual como se o mundo fosse acabar.
Diga-se que a sua dona está sempre muito preocupada com o seu bem-estar. E até se passeia muito com ele. Ou melhor, é levada a passear, pois por vezes ela quase que voa como se fosse um balão da feira.
E quando a Marcelina vai às compras? Pois regra geral, leva o cão com ela. Só que depois (e no momento em que ela procede às aquisições) prende-o cá fora do estabelecimento. Como é evidente.
Marcelina não tem quaisquer motivos, para recear eventuais investidas por parte do bicho. O cão não morde em ninguém. Além disso, o seu enorme porte desencoraja completamente, qualquer eventual aproximação. Só que o mesmo, ao sentir-se ali preso sem a sua querida dona, julga-se abandonado. E fica mesmo muitíssimo nervoso. E a “cantar” muito alto. E enquanto a dona não vem, aquele funesto “concerto”, vai-se mantendo. E não há muito a fazer. A dona, claro está, tenta despachar-se o mais rapidamente possível. Só que por vezes tal pretensão não é nada fácil de atingir. É que, quem é que nunca teve à sua frente no supermercado, e na fila para pagamentos, uma velhota que cisma, que tem que contar toda a sua vida, a senhora que está à caixa? Quem é que nunca teve como colega de clientela do supermercado, um senhor que só no último momento é que se lembra que necessita de umas lâminas para a barba? E sai da fila muito rapidamente, (o mais rapidamente que consegue), na sua condição de coxo? E quem é que nunca viveu a situação, em que determinado género que se pretende comprar, não tem o preço incluso, pelo que se tem que chamar uma colaboradora à caixa, que terá como incumbência, a troca do produto?
Pois, existem dias em que todos estes elementos, se juntam e fazem a “festa” no supermercado. E naquele dia preciso, foi exactamente um desses dias. Marcelina esperava impacientemente na fila da caixa, só que a fila… não havia maneira de andar. À porta do estabelecimento estava Skipe (é esse o nome do cão), que literalmente se desunhava, e emitia gritos mais estridentes que a sirene dos bombeiros, quando dá em anunciar um incêndio. Os mais velhos, ao ouvirem tais lamurias, até se recordavam da sirene da CUF. Marcelina tentava abstrair-se como podia, mas tal não estava a ser nada fácil. E todos aqueles gritos caninos que não tinham fim? Até é muito natural que aquele cão (e numa outra existência) tenha sido uma muito bem-sucedida carpideira.
Só que de repente, entra no supermercado, um garboso elemento das forças policiais. De bigode farfalhudo, barriga em crescendo e também com uma pronunciazinha de Viseu. Teria uns cinquenta e tal anos. E aquele polícia olhou para a clientela, com muita altivez. Depois, (e pigarreando primeiro para aclarar a voz), ele perguntou para a geral:
“Ora muito bom dia. Max afinal de quem é que é, aquele cão? Aquele que extá ali fora a faxer todo aquele arraxoado?”
Oh Deus do céu! A Marcelina não sabia muito bem, onde é que se havia de enfiar, tal era a vergonha sentida. Mas o cão era dela. Ela jamais o negaria ou enjeitava. Pelo que (e com uma voz muito tímida e sumida), lá respondeu:
“É meu, senhor polícia. Eu deixei-o ali porque não posso entrar aqui com ele. E eu necessitava tanto, de comprar estas coisas aqui…”
O polícia olhou para Marcelina, de alto a baixo. Depois reflectiu um bocadinho. E só depois, ele lhe solicitou:
“Muito bem. E uma vez que o cão é xeu, acompanhe-me por favor, até ao local onde extá o animal.”
Chegados ao pé do Skipe, o bicho ficou todo contente. Estava finalmente a ver a sua dona. Mas a alegria não impediu que ele continuasse a fazer barulho. Muito barulho mesmo. Só que, agora era de alegria. E ficou de tal forma feliz, que abanava energicamente a sua peluda e imponente cauda. Batendo no policia e também na dona. É que estava ali a pessoa que ele mais gostava. A quem ele devia a sobrevivência. Por quem ele nutria mais carinho. Pelo que uma grande barulhada, lá prosseguia. Aí o polícia, e implacavelmente, gritou mesmo com muita autoridade para o animal:
“Ai! Cala-te majé, cão danado!”
E não é que o Skipe se calou? Foi remédio santo. O polícia, já muito mais recomposto, e com um olhar sobranceiro, mesmo muito triunfante, virou-se para a Marcelina e comunicou-lhe de uma forma, muito pedagógica e moralista”.
“É xerto que o xeu cão está vixivelmente bem tratado. Extá bem alimentado e limpo. Mas a xenhora proxedeu muito mal! Deixou-o para aqui prexo e à torreira do Xol. Para além do maix, o xeu cão, não lhe tem rexpeito nenhum. É que foi xó com a minha voz, que ele xe calou. Respeitou axim e muito, a minha autoridade. Axim, xó ao som da minha voz, tão varonil… Pelo que xó me resta concluir uma coixa: é maix do que xerto, que a xenhora não tem homem. Poix xe o tivexe, o comportamento do xêu cão xeria diferente. Xeria muitíximo melhor!...”
E sem perder nunca a posse, nem a sua voz confiante, ele concluiu, aquele seu tão intrincado e misterioso raciocínio:
“E uma vez que eu também xou, um xenhor divorxiado…”
Oh diabo! A Marcelina não podia acreditar no que estava a ouvir. E ficou mesmo para ali boquiaberta e sem força nenhuma nas pernas. É que claramente, ela estava a ser “galada” por aquele elemento das forças da autoridade? Concluiria assim ela, em pensamento. E logo por aquele senhor polícia? Que empunhava com tanta dignidade o seu cacetete! Afinal... o sucesso dela, não era só conseguido, quando ela ia dançar.
Mas, e quanto ao polícia? Pois o magano também ali tentou a sua sorte. É que ser ousado, afinal não custa assim tanto, não é? E depois é ou não é verdade, que só se perdem, as que se não dão? E ali, manifestamente… também não havia nada a perder.
Sugestão de leitura para esta semana : "O Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco.
Vá lá! Não custa assim tanto, ler dois livros por semana.


DIVIRTAMXEMAJÉ!

Pelos Caminhos de Portugal - 2.




Depois o passeio continuou. Fui visitar (pela enésima vez) o Museu José Malhoa. Este Museu está localizado na formosa, mui erecta e varonil cidade das Caldas da Rainha. E nomes como Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro foram naquele Museu, muito eficientemente difundidos. Já para não falar do patrono do Museu. De José Malhoa. Do pintor. E não daquele anafadito que canta. E que gastou p'ra cima de um dinheirão em rosas.


E naquele Museu, meus amigos, há tanta coisa para ver! As formas de arte, representadas em multiplas peças. São amplas e exemplificam muito bem, dois ou três séculos do que é, (ou melhor do que foi), uma parte muito considerável da arte lusitana. Com óbvias referencias a importações estéticas vindas de outras paragens.
Houve ainda referencias ao facto, das mesmas se terem difundido por cá, um pouco tardiamente. Atendendo à nossa própria localização geográfica. Existe mesmo muita gente que acha que nós vivemos no "cu de Judas". E estávamos aqui tão bem, senhores! Tão sossegados! Sem o raio da Troika. Nem da Merquelina!
E uma vez que tais referencias chegaram aqui tão tarde, consequentemente elas também por cá ficaram mais tempo. Enquanto isso, os outros países mais centralizados ao próprio do Continente Europeu, já se refastelavam com outras modas. aqui o nosso conservadorismo imperava. E o nosso fado assentava assim os arraiais , pelos caminhos de terra batida do nosso (malogrado) Portugal. Sempre tão empobrecido. É a vida, como já lá dizia o outro.
E é com assombro que visualizamos ali, algumas das projecções artísticas, de factos bem presentes e também ocorridos no passado. A ideia ali presente era a de se retratarem até à exaustão, todos os detalhes inclusos nos ambientes directamente correlacionados com o meio rural. Num regresso a temáticas naturalistas. Daquilo que é simples e não compromete.
E são muitas as cenas em que os velhos são efectivamente velhos, cheios de mazelas e com muitas rugas. velhos que trabalharam "no duro", e muitas vezes até à altura da sua própria "partida definitiva!. Mas onde é que o nosso senhor primeiro-ministro se foi inspirar? Pois quais pensões, quais carapuça! Nós até já estamos tão habituadinhos a sofrer!...
E os mais jovens que ali também foram retratados? Pois em muitas situações, eles também estavam a executar as mais básicas tarefas agrícolas. E desde a sua mais tenra idade. Num mundo em que a regra era não lhes ser possibilitado qualquer grau de escolarização. E digam lá que isto da moda, não é de facto circular? Não se revêm cada vez mais, amigos portugueses, nessas realidades e gostos, que eram considerados há tão pouco tempo atrás, como direi... demodé? É que ter uma horta e mais uma dúzia de galinhas é algo cada vez mais a considerar.
Estão também ali muito presentes, as chamadas naturezas mortas. E as cenas onde abundam os animais domésticos e/ou de tracção. Circunscritas em ambientes sempre directamente ligados ao mundo rural. E na sua mais antiga forma. Onde se usavam somente os arados e a força bruta. É de notar, que aquele que reside temporariamente em Belém, também acha muito positivo que regressemos novamente aos campos. Às nossas origens. Sim, isso para ele, deve de significar uma possível fuga para a frente, em relação às dificuldades. Mas terá o tal senhor memória curta? Ter-se-á esquecido do seu brilhantíssimo desempenho no passado? Onde ficámos sem vestígios da lavoura? Quase que já nem sabemos o que é pecuária? Nem sabemos da pesca? Mas o que é isso? Logo num Portugal, que até nem tem significativa faixa marítima, não é? Pois agora?... Ele tarde pia... Mas se foi assim mesmo e comprovadamente... para que é que ele foi agora ter tal lembrança?
Não se pode deixar de referenciar, o facto de que naqueles tempos, (mais ou menos até ao terceiro quartel do século XX), grande parte da população (uma imensa maioria), viver ou melhor, sobreviver da agricultura. que era por definição muito primitiva e pouco evoluída. Conforme aliás eu já referi. Mas para tal cenário, nós vamos todos outra vez caminhando. Quase todos. Pois sempre vai haver um ou outro que se safa, Que passa pelos intervalos da chuva.
Houve também naquela visita, oportunas referências a outros tempos de crise. Em que a dívida externa era também gigantesca e crescente. Se calhar ainda é a mesma! Tempos em que também se tiveram que procurar ajudas externas, para poder suprir essas mesmas dificuldades. Mas os resultados foram quase sempre os mesmos. Ou seja, foram quase nulos. Ponto assente foi o arrepio colectivo que começou exactamente pela muito eficiente guia. Arrepio que se passou depois para todos nós. Que foi exactamente sentido na altura em que nos comunicou, das imensas similaridades dos tempos de outrora (ali retratados), com os tempos da actualidade. Eu também fiquei muito arrepiada. E mesmo com um cubo de gelo no nariz. Todos os velhinhos também ficaram ali muito incomodados.
Arriscámo-nos assim (e todos) a contrair uma muito perigosa pneumonia . E eu juro. Reparei mesmo muito bem. Não estava nenhuma porta ou janela aberta.
E se formos a analisar bem, temos que concluir, que nós também nunca saímos da cepa torta. E foi com elevado gosto, que tornei a ver a pintura da D. Leonor. A rainha que foi a banhos e recomendou a todos, os benefícios daí decorrentes. Não é por acaso que aquela bela povoação se chama exactamente: Caldas da Rainha. Mas foi também a rainha D. Leonor que iniciou o processo da fundação das Misericórdias. Ao que parece, as necessidades e as carências de subsistência do imenso povaréu português, têm-se assim sucedendo ao 9longo do tempo. E naturalmente que, a acção da rainha, no que concerne à implementação da ajuda social a quem dela mais necessitasse, não deve de ter tido como base, a verificação do facto, de que as pessoas viveram muito acima das suas próprias possibilidades. Ah pois não! E a viverem à conta dos "facilitismos" promovidos pelo acesso aos cartões de crédito. Ou então de estarem p'rá ali todos à espera dos subsídios "oferecidos" pela "bondosa" da Comunidade Europeia. Não me parece. É que toda a gente sabe, ou deveria de saber, que não existem almoços grátis.
O problema da nossa pelintrice, deve de ter pois... outras origens. Infelizmente já seculares. E a tal necessidade de auxiliar o próximo, deu-se justamente num tempo de alguma riqueza. Durante a existência de uma rainha que vivenciou um dos momentos mais gloriosos da História de Portugal. Que infelizmente se revelaram ser, Sol de (muitíssimo) pouca dura.
E a D. Leonor? Como é que ela está ali representada? Pois... aparece com um ar muito confiante e quase galanteador. Glamourosa mesmo. Só que sendo ainda... praticamente uma menina. Foi representada assim e a envergar roupas coleantes, quase sexy's. O que deverá contrastar (e muito), com os usos e os costumes próprios do século XVI.
Mas não nos podemos esquecer de uma coisa: Aquela é efectivamente uma interpretação, feita por alguém que viveu alguns séculos após a existência da tão bem intencionada monarca. é que a tal prestimosa pintura, surgiu pelas mãos, engenho e arte do tal tão consagrado pintor, José Malhoa. E no ano da Graça de 1926*.
O que atendendo às circunstâncias históricas, não me parece ter sido, lá muito bom augúrio




*Nota: O ano de 1926, foi justamente o ano, em que o Professor de Santa Comba, (o tal que tinha a voz sibilante), ascendeu ao cargo de Ministro das Finanças. Nessa altura, só teve no poleiro treze dias. Pois findo esse tempo, ele regressou amuado para Coimbra. É que nessa altura, ainda não lhe haviam feito, todas as vontades. Ainda não lhe haviam vergado a mola. Regressaria já refeitinho, dois anos depois. Com a sua criada. E depois com o clérigo das cerejas. Viria para ficar. Tal qual os automóveis japoneses.
Sugestão de leitura para esta semana:"Viver e Resistir no Tempo de Salazar" de Raquel Henrique.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Só que esta semana, têm muito para ler. ;-D

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Pelos Caminhos de Portugal - 1.




Um dia destes, tive a oportunidade de visitar o Buddha Eden Garden. E foi então que tive a possibilidade de passear por um espaço de cerca de 35 hectares, onde a estatuária de imensos Budas, aparece ali em perfusão. O verde da vegetação também está ali muito presente. E existem também alguns lagos, o que confere uma beleza muito especial àquele espaço. Os lagos, que também são habitados por alguns cisnes e peixes. Que estão por ali, sempre muito contentes e a nadar.
Aquele jardim foi pensado pelo mais famoso comendador lusitano de há alguns anos a esta parte: Pelo Comendador Berardo. E a ideia surgiu-lhe como resposta à destruição que foi perpetrada aos Budas Gigantes de Bamyan. Naquela que foi uma acção pérfida e absolutamente inconsequente protagonizada por um Governo Talibã. 
Com aquela acção nociva, apagaram-se para todo o sempre da memória mundial, verdadeiras obras-primas datadas do período tardio da Arte de Gandhara.
Foi desta maneira, e contando com uma muito meritória e boa intenção, que surgiu a construção daquele extenso jardim oriental. O comendador pretendeu assim, homenagear os colossais Budas, esculpidos na rocha do vale de Bamyan, (localizado no centro do Afeganistão), que durante séculos, serviram como referências culturais e espirituais aos povos que por ali permaneciam. Ou àqueles que por ali aportavam.
Aquele espaço, está assim localizado junto às Caldas da Rainha e é mesmo muito agradável de ser visitado. Aquele poderá ser mesmo um lugar capacitado, a nos reconciliar com o mundo. E como nós estamos necessitados disso! A fazer-nos esquecer por momentos, de alguns daqueles factores que por vezes parecem ser passíveis de tornar a nossa existência muitíssimo desagradável. Os que nos infernizam a vida.
Aquele espaço contudo, não detém em si, qualquer tendência religiosa. Está assim aberto para todos, independentemente das suas crenças, ideologias e dogmas. E é propício também, a todo aquele que não consegue reunir em si, qualquer fé em algo etéreo, que lhe seja superior, e que o transcenda. Tenho a desconfiança que naquele jardim, qualquer pessoa se poderá sentir por alguns momentos "de bem com a vida". E aproveitar para fazer mesmo alguns exercícios. (daqueles sincronizados, que nos fazem parecer uns verdadeiros robots), enquanto se passeiam calmamente, por aquele espaço tão verdejante. 
Eu visitei aquele jardim, na companhia de um grupo de pessoas. Sim, e eram já (na sua grande maioria), bastante idosos. E acreditem, a companhia deles dá-me sempre um prazer especial. Dá-me até uma certa confiança. Se eles estão ali bem, e até já resistiram a tanto, quem sabe se não me poderá também acontecer o mesmo? Como os observo, sempre os poderei emitar.
E depois sempre dá para aproveitar as explicações de guias, que costumam acompanhar tais visitas, que por inerência deverão estar muitíssimo bem informados. E que nos chamam ali a atenção para todos os pormenores. É também por isso que eu vou. E tenho mesmo a dizer, que sou alvo de muita aceitação, por parte daquela comunidade de velhinhos e velhinhas. E como se aprende naqueles passeios! Não são só os pormenores daquilo que se visita, como se conhecem verdadeiras histórias de vida. Como é que vocês acham, que eu consigo sempre, ter tanta história para contar? Onde é que vocês acham, que eu vou buscar alguma da minha inspiração? É também ali. :-D
E aquela voltinha, foi de tal maneira compensadora, que na companhia de tais pessoas, a conversa rendeu muito e foi mesmo muito prazerosa. Pusemo-nos pois todos, ali em amena cavaqueira. Sem termos com isso referido, ou feito qualquer alusão, àquele que vive em Belém, Credo! Que na altura ainda estava de "casa e pucarinho" com o ministro primeiro. Não, a nossa conversa versou outras temáticas. Menos surreais. E tanto foi assim que a dada altura, acabámos mesmo por perder a guia.
E como é que era a guia, que nos coube em sorte? Pois era mesmo, mesmo uma guia muito sui generis. Como aquela eu nunca mais vi nenhuma. É que naquela sua condição de guia, a mesma não detinha em si qualquer tipo de auto-estima. E a todo o momento, ela repetia até à exaustão: "Tenho pena, mas eu percebo muito pouco sobre esta temática (Budas e Budismo). Sou é informada, do que para aqui estou a tentar dizer-vos, por todos aqueles que visitam este espaço."
Estaríamos nós a ouvir bem? Afinal... e se assim era, o que é que ela lá estava a fazer? Não é suposto as guias turísticas estarem sempre muitíssimo bem informadas? E quando por exemplo não sabem qualquer detalhe, prometerem ir pesquisar mais, para na próxima conseguirem ter mais informação? E informação fidedigna? Pois afinal não é essa a sua profissão? Referenciar informação oportuna, não fará parte integrante da mesma? Imagine-se por exemplo, uma bibliotecária a fazer uma visita guiada lá no lugar onde labora. No meio da visita, ela assume que não percebe nada, sobre a forma de como os livrinhos estão arrumados. E até poderá informar que os livros são arrumados, segundo os critérios dos leitores. Por todos aqueles que visitam e usufruem daquele espaço. Depois admite, o seu total desconhecimento sobre literatura. Demonstra não ter, qualquer conhecimento sobre a tipologia das diferentes literaturas ao longo dos séculos. De cor, ela não saberá falar de umas boas dezenas de autores. Já para não falar em centenas. Concordarão que aquela Biblioteca deva estar muitíssimo mal representada, ou não?
Mas ali, e junto aos Budas, aquela guia não estava nada preocupada, com a má figura que para ali estava a desempenhar. Só se lembrava é que tinha um grande vício. Que era o vício do fumo. Pelo que volta e meia, ela lá acendia mais um cigarro. Esfumaçando não só para cima dos Budas, como para cima de nós. Fossemos nós velhinhos ou não. Se calhar, era dos nervos. Depois lá ia repetindo, mais dois ou três lugares comuns, dos mais comuns de todos. Que qualquer um dos visitantes poderia reproduzir com a maior facilidade. Se para isso tivesse lido um qualquer Almanaque da Bertrand. Nos anos oitenta.
Se calhar aquela guia, só estava ali a substituir uma outra guia (essa muito mais documentada), que eventualmente tivesse ido tirar sangue para fazer análises. Ou então, a nossa visita, calhou mesmo na altura certa, em que a outra teve que ir fazer xixi. É que se assim não fosse, logicamente que aquela senhora, não teria ali lugar. E ainda mais naquele lugar tão específico. Tão zen!
E naquele meu grupo adorável, foi gente que viu um Buda daquele tamanho, pela primeiríssima vez da sua vida. Graças à presença e actuação daquela pseudo-guia, a visita ficou muito longe das expectativas criadas. Mas à parte disso, o ambiente que se viveu ali, foi muitíssimo tranquilizador. Se calhar perdemos a guia, porque algum velhote, farto de tanta imprecisão, a atou num qualquer tronco de árvore. E depois talvez lhe tenha colocado um lenço, fortemente amarrado à sua bocarra.
Mas a guia e apesar de (e continuadamente) se confessar tão pouco conhecedora do que ali constava, ainda teve a oportunidade de nos informar, que aquela presença ali (a do Jardim da Paz), não foi de todo pacifica. Já que existem pessoas, que consideram que a presença ali dos Budas, é uma grave intrusão às crenças e costumes do povo lusitano. Que é um povo mais tendencialmente ligado à fé Católica Apostólica Romana. Há quem afirme, (designadamente quem peregrine por um espaço considerado sacro, localizado ali nas imediações), que a presença dos Budas ali, perturba bastante as suas caminhadas rumo ao Divino. Pessoas a quem a palavra "ecumenismo", não deve de fazer lá muito sentido. Deve de ter que ser inclusivamente, banida do dicionário. Por falta de oportunidade. Ou então que seja uma palavra que no máximo, possa ser aludida, nas descrições das obras literárias de Ficção Cientifica.
Para mim, essa é a coisa mais condenável nas religiões. Ou seja, toda essa atitude firme por parte dos seus seguidores. Em que se consideram, que só mesmo eles, é que estão certos. É muito perverso pensar-se assim. É que tal nem concorre em benefício deles. Tais atitudes podem mesmo afastar qualquer intenção, por parte de alguém que eventualmente queira saber mais sobre a religião concreta. De tal forma que pode evitar mesmo, o aumento gradual de algum seguidismo. E conclui-se facilmente que nem para a sua causa, eles são bons. E quem é que no seu perfeito juízo, não tenta vislumbrar o todo, (na sua natural diversidade), como fazendo parte de uma só realidade? Que é a nossa? De todos nós? E quanto às diferenças? Essas terão que ser aceites e respeitadas por todos. E que viva a liberdade de pensamento! E também a variedade!
Quanto a mim, tenho a dizer, que não vi ali nenhum daqueles Budas a tratar mal ninguém, E até digo mais: estão ali todos muito quietinhos, roliços e pacificados com o meio que os envolve. Exibindo mesmo doces e graciosos sorrisos. Não há pois motivos para se temer, uma qualquer possível... concorrência. É que há lugar para todos. Eu acho que deve de haver gente, que encara esta coisa da religião como se fosse uma partida de futebol. E depois deve de adorar, pertencer à claque de um determinado Deus. E de apregoar aos "sete ventos": "O meu Deus é muito melhor que o teu". E depois, após tal declaração de interesse, eles devem também achar muito perigoso, juntar as suas representações do Divino, às representações do Divino dos outros. E num mesmo espaço físico. Como se a concorrência ali gerada, pudesse determinar uma hecatombe qualquer.
À saída do Jardim, tivemos a oportunidade de nos passearmos, por uma considerável loja de vinhos. Ah pois é! Sim, porque isto do espiritual, (e por si só), não dá de comer a ninguém. Nem mesmo de beber, claro está. E o tal do Comendador já anda nestas coisas, vai para muito tempo. Ele já há muito que perdeu a virgindade.
Então quem quis, teve oportunidade de levar para casa, o bom do vinho da Bacalhoa. E quanto aos velhinhos? Pois prometeram que naquele dia, não tomariam os seus remédios habituais. Alguns tiveram mesmo, a vida facilitada. Eles comprariam uma garrafinha, ao invés de comprarem os comprimidos. E esta escolha (nesta época), é facílima de fazer. Então eles puderam comprar, o belo do vinho fino, generoso e moscatel. Ou então o mais comum J. P. Entre muitos outros.
E como eles estavam ali tão contentes com a expectativa! Contudo também, e quando se olhou um bocadinho lá mais para cima, teve-se a oportunidade de observar algo no mínimo, bastante intrigante.É que por cima das prateleiras, das que contém as prestimosas garrafas da inspiradora bebida de Baco, tomou assento uma muito considerável colecção de penicos. Sim leram bem, são penicos, senhores. São penicos! Todos eles muitíssimo bem decorados. De feitios e de tamanhos bem diferenciados entre si. Respeitando, claro está, os gostos mas também os diferentes tamanhos, por parte dos seus eventuais utilizadores. E, cada penico tem mesmo... a sua própria tampa.
Mas... vejamos: qual será a ligação daquilo? Pôr vinhos e penicos no mesmo sítio? Se calhar, os penicos têm ali serventia, para quando o vinho estiver estragado. Ou então, para quando se apanhar aquela grande "piela". Poder depois, contar assim e rapidamente com um penico, para se poder ir "ao Gregório". É que só pode mesmo ser isso. Outra coisa eu não estou a ver. Mas eu cá digo: na minha simples e modesta opinião de leiga na matéria, não acho que seja um slogan propagandistico lá muito eficiente. Não concordam?
Em vez dos penicos, bem poderiam lá colocar algumas fotografias de portugueses. De desempregados e a desempregar. Assim com um ar bastante famélico. É que cagar, já há muito que nos estão a cagar em cima. Essa seria efectivamente a imagem mais real, daquilo que se está a conseguir, com esta idiotice da "austeridade". Depois e na parede, pintada a azul (mas em azulejos), constaria a celebérrima frase de outrora, mas adaptada: "Beber vinho pode dar de comer a... (e colocaria-se a referencia ao número total dos sofredores deste país), milhares de portugueses. E mais em baixo colocar-se-ia: "Mas não se ralem muito com eles, porque eles até já estão a desaprender, a comer e a beber". E assim, quando viessem os turistas alemães...
Poder-se-ia usar um daqueles painéis utilizados para quando o Rock in Rio, se realiza em Portugal. E o número dos dias que faltam... está para ali sempre a diminuir. Só que desgraçadamente, o número dos desempregados cá do burgo, estará sempre, sempre a aumentar. Desta forma, dar-se-ia mais uma referencia à miséria que por aqui vai grassando. E aquela sim, é uma frase altamente propagandistica. E deve de orgulhar muito, qualquer governo que se preze. Como pelos vistos, é este que temos. Que não tendo condições nenhumas, se acha sempre o maior.
E o triste painel, serviria até ao dia, em que toda a população acabe por sair de Portugal. É que como as coisas estão a ir, será mesmo de duvidar que por cá fique alguém. Passará isto depois, a ser uma reserva de caça. Para usufruto somente de ministros, assassinos e quejandos.
Sugestão de leitura para esta semana: "A Casa dos Budas Ditosos" de João Ubaldo Ribeiro.


DIVIRTAMSEMAZÉ e boas leituras. Estes conselhos a serem seguidos, bem poderão ser uma boa evasão, aos actuais cenários da desgraça. E beba-se também vinho em simultâneo.
Mas este passeiozinho ficou somente a meio.