Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O melhor médico, é o que se procura e não se encontra.



Parte integrante da minha maravilhosa profissão é assiduamente, poder ouvir os mais diversos escritores, falar sobre os seus queridíssimos “filhos”, que por inerência são os seus livros. E se há uns que são muito simpáticos e comunicativos, com quem estabelecemos uma certa afinidade, (diria mesmo uma certa simpatia), com outros nem é tanto assim. Mas em todos os casos, acrescentamos sempre mais alguma coisa, (por mais mínima que seja), à nossa condição de pessoas curiosas e sempre alerta (preferencialmente), com tudo aquilo que nos rodeia.
E no caso que eu aqui hoje trago à consideração, o orador era algo tímido, como aliás acontece com grande parte dos escritores. Mas mesmo assim era simpático, o que ajudou a promover um agradável serão, onde (desempoeiradamente) se falou de livros. Mas falou-se não só dos seus livros, como também da sua experiência enquanto clinico. O escritor convidado pertencia à nobre e muito presente família dos Lobo Antunes. Era exactamente o seu elemento neurocirurgião.
Assim, e com muito rigor, ele fez-nos uma boa exposição, sobre a sua experiência pessoal enquanto médico (que é um dos mais reconhecidos, desta nossa diminuta praça). E ali ele também falou de questões, que sendo absolutamente previsíveis, atendendo às circunstâncias, aos nossos olhos de leigos da matéria, e pouco clientes dos seus serviços (preferencialmente), acabamos por achar algo desconcertantes. Falou por exemplo nos cuidados a ter com o doente, ante a comunicação absolutamente necessária do seu quadro clinico. Especialmente quando o mesmo é tudo mesmo confiante. Essa situação extrema, devido à sua complexidade, e com tudo o que isso implica, deverá incomodar sobremaneira qualquer médico. Se bem que com a prática, eles lá acabem por realizar um conjunto de procedimentos, capazes de “aligeirar” um pouco, a tomada de conhecimento de uma realidade tão trágica. Mas eu acredito que, e se o médico não tiver “sangue de barata”, essa situação deverá ser sempre incomoda e difícil de transmitir.
Depois e na sua explanação, ele referenciou o facto bem real, (naturalmente intuído por todos), de que um médico é um ser humano. Não é pois nenhum Deus, ou um ser posicionado num posto superior ao do comum dos mortais. Mas é bem triste sentir que alguns dos mesmos se projectem a eles próprios in loco. Enquanto outros (necessariamente bem intencionados) se deixam projectar, por outros que tais. É que temos que ver a “coisa” como ela é. O serviço do médico é absolutamente necessário? Pois é claro que sim! Mas também o é, a acção do Homem que pesca o peixinho que comemos. A acção do Homem que amassa o paõzinho que comemos. E a acção do Homem que traça e estabelece as vias rodoviários, por onde nós nos passeamos. Entre muitas outras acções. Fazemos todos, parte integrante da mesma realidade. E somos todos, parte importante no processo. Ah pois somos! Mas… serão uns mais do que os outros? Pois, naturalmente isso é capaz! Mas isso é assim mesmo, como em tudo na vida.
Mas não foram só desgraças, as que ali nos foram referenciadas. Já que aquele doutor também nos transmitiu, (alguns episódios passados com ele), bastante picarescos. Que nos proporcionaram bons momentos e nos fizeram sorrir, deliciados. Acredito que nunca se perde tempo, em ir ouvir alguém falar daquilo que escreve. E que necessariamente projecta alguma da sua experiências, nas páginas dos livros que edita.
Mas a dada altura ele lá referenciou, que sendo seres humanos, eles também detém neles valores, e considerações capazes de vir a fazer a diferença consoante a situação vivida. E para exemplificar aquilo que estava a dizer, ele referiu, que será espectável (e até entendível) reconhecer, que um médico possa passar mais tempo numa consulta com uma mulher bonita, que o tempo que dispensará com uma outra menos dotada. Ou com alguém pertencente por exemplo ao sexo viril. Isto, no caso de o clinico ter tendências heterossexuais, como é evidente.
“Sim, só pode”, pensei. Será verdade. Eles também têm olhinhos na cara. E nós também não somos tolos. Nunca o fomos. Talvez só um bocadinho, quando alguns (em demasia), foram votar no Passos Coelho. Quando acreditaram piamente nas suas promessas. E mesmo nesse caso, foi apenas um momento menos bom, o que ocorreu nas suas vidas. E… vá lá! Ainda estarão a tempo de se reabilitarem. Peregrinarem pois a Fátima a pé. E prometam lá, não ir votar mais nos mesmos. Nem nos seus primos.
Agora e em relação aos médicos e às mulheres atraentes? Pois se calhar todos nós, já havíamos pensado que as coisas poderiam funcionar dessa maneira. Mas eu acho que para mim, teria sido preferível ficar no desconhecimento efectivo, em relação a essa realidade. É que eu “cultivo” alguns problemas declarados com médicos. E passo a explicar:
Eu sou a pessoa que mais detesta ir ao médico. Sim, sou eu. Vou lá, só mesmo quando não o posso evitar. Penso inclusivamente ter desenvolvido uma qualquer reacção alérgica, a tudo o que são batas brancas e estetoscópios. E acho que no inferno, o cheiro predominante não deve ser o do enxofre. Não amigos. Lá deve é cheirar a éter com fartura, ou o que raio é aquilo. O hospital, para mim é só a antecâmara...
E toda esta minha antipatia em relação aos médicos começou há muito, muito tempo… Há já muitas Primaveras atrás. Revelou-se na minha mais tenra infância. Com a minha mãe a lutar valentemente, para que me pudessem administrar, uma simples vacina.
Era eu pois bebé e moça, e mal o meu radar infantil (e ainda em formação) detectava a presença de um médico (ou de uma enfermeira), punha-me ali literalmente, aos urros e aos pontapés. Depois e com o crescimento, essa situação não melhorou substancialmente. Muito antes pelo contrário.
Com o passar dos anos e a meio do meu percurso escolar eu acabei por entabular uma teoria muito estranha. Acreditava piamente que os médicos eram imbuídos (mais ou menos pela altura da sua formatura), de uma qualquer visão de Raio X. Se calhar era justamente no momento em que eles estavam para ali, (e muito solenemente), a efectuar o Juramento de Hipócrates. Achava assim, que os futuros médicos passavam por uma transmutação radical. Só conseguida através da ocorrência de uns quaisquer fenómenos sobrenaturais. E depois dessa tal metamorfose, a coisa deveria de funcionar mais ou menos assim:
Eles, com a descida “da pomba visionária”, nas suas muito sapientes cabeças, ficavam muitíssimo diferentes de todos nós. Não superiores a nós, mas diferentes. Como que dotados de uma visão “de longo alcance”. E também de um faro muito apurado. E a partir dali, mal eles nos pusessem as vistas em cima, eram capazes de saberem logo ali, a totalidade do nosso historial clinico: Todas as doenças que havíamos tido e todas as doenças que haveríamos de ter. E para ajudar nesse seu tão inquestionável diagnóstico, eles, não precisavam de mais nada, de que um simples estetoscópio. Mas o meu raciocínio era muito mais intrincado. É que depois eles, (mas para disfarçar), acabam por nos mandar por a língua cá para fora. O mais que pudéssemos. Obter-se-ia desta maneira, um gesto da mais pura má educação. Mas o médico continuava ali, sempre “na sua”. Sempre com um ar muito altaneiro e demonstrativo de grande auto-estima. Quase como que a dizer: “Ai estás-me a pôr a língua de fora, pois já vais ver como é que elas te doem!”
E após isso (sempre para disfarçarem e justificarem o dinheirinho que iam pedir), eles começavam a escrever muitas coisas, lá para uns papéis. Mas isso também era só para disfarçar. Porque eles já haviam percepcionado e decorado tudo aquilo que eles quiseram saber. E após aquela brevíssima análise, toda a nossa vida ficava a ser do seu total conhecimento. Mas eu não me ficava por aqui. Eu acreditava que eles também ficavam a conhecer, qual seria a hora exacta da ocorrência da nossa morte.
Pelo exposto, e como facilmente compreendem, ter a simples visão de um médico era tramado para mim. E eu vivia assim no mais profundo sofrimento. Isto é, só mesmo quando eu tinha o azar de ver algum deles, nem que fosse bem lá ao longe. E quando eu avistava algum, a minha tendência natural e imediata, era fugir dali a sete pés. E esconder-me bem escondidinha.
Paralelamente a tudo isso, eu achava que para eles, devia de ser motivo de muita alegria, poderem dar-nos as más notícias. Dizerem-nos por exemplo, que a nossa saúde estava um pandemónio. Que a velha da foice e do fato comprido, já estava quase a apanhar-nos. É que era a partir dessa altura (e desse reconhecimento), que nós iriamos ser seus assíduos clientes. E íamos ajudar a fazer com que eles ganhassem ainda mais dinheirinho. Fazer com que eles avolumassem o seu pé-de-meia. É que se formos a ver, a verdade é que as “nossas doenças” são o seu verdadeiro ganha-pão. E o que é que eles fariam se toda a sociedade fosse saudável? Emigravam, não era? Além do mais, eles agora só emigram, porque os clientes de outrora já não lhes conseguem pagar. E sem tusto, meus amigos “não há palhaços”. Com todo o respeito que a classe me deve merecer.
Felizmente para mim, não tem sido muito necessário recorrer aos seus cuidados. Com a graça de Deus Nosso Senhor, a quem eu agradeço diligentemente todos os dias. Contudo, e por todos os motivos, ainda bem que assim é. É que convenhamos, eu não me posso considerar uma pessoa lá muito bela. Eu nunca fui pessoa para parar o trânsito. Nem mesmo em dia de desfile. Só consegui mesmo parar, foi uma procissão. E isso aconteceu somente uma vez. Quando o padre forçou uma paragem não prevista a todos aqueles caminhantes. E ficou ali um bocadinho à conversa comigo. Enquanto eu estava muito regaladamente a tirar fotografias ao meu pai. Que ia também naquela passeata. E como ele ia garboso, senhores! Essa é que é essa! Já que carregava com ele um imenso pálio, enquanto desfilava diligentemente (e com muita elegância) numa belíssima bata encarnada.
Mas aquilo só aconteceu, porque o padre já não me via há muito tempo. Ele nunca me vê lá sentada a assistir às suas sagradas homilias. Suspeito que deve de ser pois, um verdadeiro gosto para o padre, poder falar comigo. Mas pelo exposto não me parece que o padre tivesse parado a procissão, devido a toda esta minha beleza exuberante. Se calhar foi mais pelo meu apurado sentido de humor. E pela minha grande e muito sentida modéstia. Ou então devido a este meu jeito natural, para me fugir sempre o “pé para a chinela”. E trazer-lhe à baila (assim como aos seus outros colegas) idiossincrasias pseudo sagradas que me fazem mesmo muita confusão. Agora, em relação à minha beleza? Humf, pois não creio. Além do mais, os padres devem de ser um pouco distraídos em relação a essas coisas, não é verdade?
Agora, quando se fala numa ida ao médico, a “coisa deve de piar muito mais fino”. A cliente é supostamente uma mulher muito atraente. Pois ainda bem. Mas será simpática? E não será mais agradável, entabular conversa com quem é simpático, ao invés de com quem é simplesmente bonito. Ser bonito por si só, (e na minha modesta opinião) é manifestamente insuficiente. É necessário ser mais qualquer coisa, ou não? E ainda mais, só por se ser belo, perder-se assim mais tempo do que o tempo que é devido… Mas não liguem. Este é somente o meu parecer. A minha forma de estar na vida. Eu que sou apenas uma simples mulher do campo. Pouco habituada a soirées e a modas efémeras.
Agora se eles perdem mais tempo com as mulheres bonitas? Pois que o façam, se isso os torna felizes. Quem sabe se isso, não poderá ser para eles, algo muito terapêutico. Contudo eu questiono: E quem é que defende as mulheres feias? E, todas aquelas que têm peso a mais? E aquelas que se apresentam muito orgulhosamente, com um muito farfalhudo bigode? E depois (atendendo sempre a similares critérios acima postados) quais é que serão os médicos que gostarão de gastar o seu tempo, com as velhinhas que têm gosma? E que para além de uma taxa elevada de glicose no sangue, têm como patologia, a de mostrar a sua “patareca” a quem quer que passa?
Para terminar, ele acabou por referenciar que naquela carreira de médico tudo pode acontecer. Há inclusivamente médicos, que se apaixonam pelas suas clientes. Mas será sempre pelas mais bonitas, é claro. Mas isto, já sou só eu a concluir.
Mas amigos… isso não será mesmo assim? Não estaremos nós sempre a apaixonarmo-nos uns pelos outros? Isso deve de ser uma realidade transversal a toda a sociedade. Apaixonamo-nos, por exemplo, pelos coveiros, pasteleiros, guias turísticos, professores, futebolistas, e… necessariamente também pelos médicos. Contudo (e neste último caso) acho horrível que tal aconteça a uma pessoa. Credo! Uma pessoa vir a apaixonar-se por um médico? Santo Deus! Cruzes canhoto! Eles que até são muitíssimo mais bonitos… é pelas costas!
Sugestão de leitura para esta semana: “Um Modo de Ser”de João Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

 

Nota: Fez esta semana vinte e cinco anos, que este malogrado cantor (também médico), nos deixou. Paz à sua alma. Contudo há uma coisa que é verdade. E que deve de merecer toda a nossa atenção. É que se tomarmos em consideração a mensagem desta cantiga, podemos concluir que, (e já naquela época), os médicos eram MUITO importunados pela positiva, pelas maganas jeitosas, que abusavam do pó. Ah pois era!
DIVIRTAMSEMAZÉ!
 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Fazendo buracos.



António havia nascido no ano da graça de 1926. Foi assim nado e criado numa aldeia bem perto da capital portuguesa. Contudo à época, e avaliando a inexistência de uma rede de transportes efectiva, viver perto da capital seria quase a mesma coisa que viver numa terra localizada no interior do país.
Sem profissão definida, António fazia o que havia para fazer. Era senhor e dono de dois ou três terrenos e ocupava grande parte do seu tempo na labuta dos mesmos. Praticava desta maneira uma agricultura de subsistência.
António casou, teve filhos e foi feliz. Podia até ter protagonizado um vídeo, com a música “Casa Portuguesa”, brilhantemente cantada pela saudosa Amália Rodrigues.
António gostava ainda e também de uma bela pinga, que lhe aquecia não só o coração como a alma. E António tinha aquilo que muitos consideram, de bom vinho. Já que bem etilizado, o “nosso” António nunca ficava violento. Muito antes pelo contrário. Já que falava amiúde, se bem que revelando uma certa e natural atrapalhação no seu discurso… falava da sua vida, assim como também dos, seus muitos afectos.
António era muito amigo de Celestino, que exercia a profissão de coveiro com muita dignidade e espírito solidário. E Celestino, jamais se recusara a enterrar alguém. Fosse velho ou novo, rico ou pobre, homem ou mulher…
Mas certo dia, Celestino foi acometido de uma grave e incapacitante moléstia, que determinou a sua “baixa” forçada e não remunerada, ao serviço. “E agora o que fazer?” Pensou Celestino aflito. Quem é que iria proceder ao necessário e bom enterramento? É que mesmo durante um ou dois dias, a morte não daria tréguas. E continuaria sempre a fazer as suas aquisições. Pelo que (e antes que fosse tarde), Celestino resolveu pedir ajuda António, que era o seu amigo de todas as horas. Pediu-lhe assim que o substituísse. E seria por muito pouco tempo. Era o que ele previa. Pois logo, seria capaz de exercer novamente as suas funções. Com muita propriedade e desvelo.
António considerou a proposta. Ainda pensou recusar. Pois que os corpos esperassem pelas melhoras do Celestino. Mortos já estavam, não era? E dois ou três dias sem enterramentos, não haveria de fazer grande mal à vida da comunidade. Contudo depois pensou melhor. Celestino era o seu grande amigo. O amigo de todas as ocasiões. Dos bons e dos maus momentos. Celestino era também uma excelente companhia para a pinga. E nos dias de grande confraternização não era raro ver os dois a cantar, as melodias locais, acompanhados pelo som fanhoso de uma rudimentar concertina. Pelo que António aceitou ser coveiro por um tempo. E não havia de ser nada.
E logo antes do primeiro sepultamento, o António decidiu beber dois ou três copitos. Para lhe dar mais coragem. E também algum suplementar poder de encaixe para a execução daquela profissão. E à hora aprazada, para o início da cerimónia, o António só estava levemente “quentito”. Mas só muito levemente.
No cemitério ele já havia providenciado à execução da cova. Com as medidas aconselhadas e que o Celestino lhe solicitara que fizesse. As ferramentas necessárias também estão logo ali à mão. E muito bem arrumadas. Agora é esperar.
Passados alguns minutos, o António avista ao longe o cortejo composto pelos familiares e amigos daquele que falecera. Brilhante vinha ainda o caixão, ocupado pelo seu legítimo dono. À frente vinha o padre com um sacristão. E aquela aproximação deu-se rapidamente, apesar dos passos serem demorados. Era António que não tinha pressa nenhuma em começar com aquilo.
Já perto da cova, António aproveita e faz o sinal da cruz. Também havia conhecido o morto. Por momentos dera também em recordar, os tempos em que o mesmo estava vivo e bem vivo. E de bem com a vida. Agora estava ali tão esticadinho. Com tantas rendas à volta do pescoço. E pedaços de algodão enfiados nas narinas. António dá assim em pensar na vida e no sentido para a mesma. E fica com um nó muito apertado no peito.
António dá depois de caras com aquela recente viúva, que muito chorosa ainda não se habituara àquela sua nova condição. A mulher havia perdido o seu homem. A companhia de uma vida. Aquilo tocava-lhe de forma profunda, o seu tão amolecido coração. António ficou assim, como sem saber o que fazer ou o que dizer. Mas decidiu ir consolar a viúva, usando as palavras de circunstância: “Pois que tenha paciência. Que a vida é ingrata. E a morte que só leva quem é bom e que faz falta…” E em simultâneo, dá um abracinho leve à desolada viúva.
Depois, e quando a sente mais calma, António vai para o pé do caixão e da cova. E depois com algum esforço, ele consegue colocar o esquife, lá no fundo. A cal e os procedimentos da praxe já haviam sido realizados também. E António dá depois uma generosa pazada na terra, e atira-a para cima da cova aberta e já ocupada. Aí a viúva dá em chorar abertamente mais uma vez. António fica com pena. Fica mesmo com muita pena. Pousa a pá e vai mais uma vez para perto da viúva. E fala-lhe mais uma vez. Com as palavras de conforto daquele santo homem, a chorosa fica mais calma. De novo António solta-se da desolada mulher e pega mais uma vez na pá, conseguindo colocar mais duas pazadas de terra.
Toda aquela cena foi composta, pela intenção profunda do António fechar a cova e depois de ir consolar a viúva. Num movimento perpétuo que ia da abertura da cova com o caixão la no fundo, até ao pé da viúva, tentando consolar a inconsolável. No fim, e já estando o caixão rudimentarmente coberto, António abraça mesmo com muita força a viúva. E os dois juntos desatam ali a chorar num pranto muito audível. Naquela que foi uma execução em uníssono, de grandes lamurias e demonstração de sentimentos profundos.
António viu-se forçado a executar todos os serviços que lhe haviam solicitado. E ocupou por dois dias, o lugar que era muito legitimamente ocupado pelo seu grande amigo Celestino. Contudo fê-lo não desprovido de emoção. Celestino ficou bom ao fim de um par de dias. E retomou o serviço funerário lá da terra.
E foi a partir daquela altura, que António (e nas suas rezas diárias) jamais se esqueceria de pedir saúde, muita saúde para o seu amigo. Pois era seu grande desejo jamais vir a substitui-lo. Por uma única vez que fosse. António definitivamente, não tinha vocação para exercer aquela tão útil, porém tão funesta profissão.


Sugestão de leitura para esta semana: “Doces Recordações” de Ellen Greene.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Livros fechados, não fazem letrados.



Ia eu formosa e segura, mas calçada pela Biblioteca Mais Linda do Mundo e Arredores, quando resolvo deter-me um pouco no “estaminé” da poesia. Da da poesia Lusitana, claro está. Tenho a confessar que lamentavelmente não paro por lá muitas vezes. Deveria de permanecer um pouco mais de tempo por aqueles lados. É que é ponto assente que a poesia é a língua natural dos deuses... 
Ora como estava a dizer, ia eu, ora  pegando um livro aqui, ora pegando noutro livro ali… quando no meio da estante, eu verifico que um dos livros estava mesmo a precisar de cuidados especiais. Teria que ser sujeito a restauro, para lhe prolongar um pouco mais a sua existência. Pego então no livro danificado, só que com ele vem um outro atrás. Que me acabaria por cair em cima de um pé. Nada de danoso há a lamentar. O livro era leve e leve ficou. Contudo no processo da queda, o livro abriu-se a meio e mostrou-me esta bela poesia, que eu aqui passo a transcrever:

"Dizem que o rei cruel do Averno imundo
Tem entre as pernas c@ralhaz lanceta,
Para meter do c” na aberta greta
A quem não f*der bem cá neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
F*da-se a salvo, coma-se a p*nheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus p#rras leiteiras,
Senão para f*der com liberdade?

F*dam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!"*

Como é sabido, deve-se ler sempre as páginas que se abrem à nossa frente. Quando um livro, livremente se nos oferece. Se abre assim como que ao calhar. Há inclusive aquele que abre um qualquer livro (preferencialmente de salmos ou mesmo a Bíblia), e aquilo que lhe sai, é aquilo que é lido. E depois disso, a pessoa fica absolutamente convencida que aquela mensagem fora destinada para si e só para si. Precisamente naquele momento que fora o mais adequado.
Tenho a dizer que se o caso for esse, a mim calhou-me como mensageiro o desconcertante e inigualável Bocage. O de boa memória e de múltiplos interesses. E veio justamente com uma tal conversa, tão proverbial e eloquente, que faria corar tudo o que é pedra da calçada. Mas se é essa a minha convicção, porque raio é que acabei por postar esta "pérola poética", neste meu cantinho tão iluminado e decente? Porque aquilo deu-me muito que pensar.
Tenho a dizer em minha defesa que não conhecia tão ímpar soneto. Conhecia outros igualmente intrigantes e plangentes. Mas este especificamente, não. E o que ali se diz, deve fazer-nos reflectir um pouco.
O perigo, segundo o poeta, deve de estar no momento em que passarmos deste para o outro mundo. Na altura em que tivermos que apresentar contas. Adivinha-se que à entrada do mesmo (do outro mundo), haja um porteiro. É expectável e até recomendável para a organização do espaço. Pela conversa, fica-se a saber, que a palavra passe para ingresso futuro, deverá corresponder à tomada de conhecimento daquilo que se andou a fazer cá por este mundo. Existem muitas pessoas que afirmam que, na hora da passagem derradeira, nos é perguntado, sobre o que fizemos de positivo nesta vida que nos coube em sorte. Se praticámos o bem. Se fizemos felizes os nossos semelhantes… Se amámos os animais e a Natureza. Se fomos sempre generosos com os pobrezinhos...
Pois, sim… Mas ao que parece, o poeta Bocage tinha outro tipo de informação. Pelo que o tal porteiro, a quem podemos chamar pomposamente de Antunes para facilitar, perguntar-nos-á:
“Ouça cá, oh companheiro! Você diga-me cá uma coisa? Lá em baixo como é que passou os seus tempos livres? Você fo*** bem?" (Eu peço desculpa pelo palavreado, mas foi o Bocage quem começou).
Só que a pessoa recentemente falecida, ainda deverá estar bastante confusa. Não deverá conhecer ali ninguém. Muito menos o Antunes. E com toda aquela conversa funesta, deverá ficar verdadeiramente estarrecida. E pensará: “Mas em que é que pode interessar a este aqui, sobre aquilo que eu fo** lá em baixo? Fonix?” Mas estas suas palavras, serão produzidas unicamente em pensamento. É que pela boca morre o peixe. E o incauto ali presente, já morrera uma vez.
Devido ao mau estar provocado, adivinha-se que a resposta tarde. E o Antunes é capaz de ficar um bocado exasperado. É que deve haver por ali... sempre muito trabalho. E a fila é capaz de se começar a avolumar… Pelo que perdendo um pouco da sua já secular paciência, ele lá acabará por explicar:
“É que é ponto de referência, e medida sujeita à aprovação por parte dos nossos superiores, saber como é que foi todo o seu desempenho sexual lá em baixo. Saber sobre a quantidade, mas também sobre a qualidade daquilo que vivenciou. Apurar por exemplo, se viveu intensamente a sua vida… Mas sempre e só na perspectiva da libido. Outros assuntos, já não são do nosso interesse. Não são pois para aqui chamados”.
Ante aquela informação inesperada, o recém-falecido torcerá nervosamente as mãos. Ficará mesmo muito apavorado. É que por aquela é que ele não esperava. E de nada lhe valerá confessar, que passou a vida à espera de uma qualquer princesa adormecida. Que era sua intenção fazer com que, mal a avistasse, a despertaria com um encontrão. De nada valerá às senhoras, dizerem que procuraram por todo o lado, (mas que infelizmente nunca encontraram), o tal “bom partido” perfeito que as fizesse felizes e folgazãs para todo o sempre. De nada valerá, testemunhar um conjunto de boas intenções, onde se aponte no fim, que a culpa do insucesso não fora sua, mas sim do pai, da mãe da prima, do cão... Ou então mais prosaicamente afirmar, que a culpa é inteiramente toda... do homem do talho. E esqueçam lá também, as desculpas das dores de cabeça. Que eram crónicas.
É que se se atender ao conteúdo deste “belíssimo” e informativo soneto, se não se apresentarem resultados efectivos e incontestáveis de "galderice", o Antunes não terá outro remédio, senão abrir as suas potentes goelas e gritar lá para dentro:
“Oh Senhor Rei do Averno! Faça o obséquio de se aproximar. Há aqui mais trabalho para si. E por favor não se esqueça: traga também a sua grande ferramenta. É que se não a trouxer, eu ver-me-ei obrigado, a passar-lhe uma multa. Por falta de material. Depois ser-lhe-á descontado um tanto, na sua folha de vencimento. É que lá por ser rei…”
E virando-se depois para o faltoso, o Antunes concluirá: “Quanto ao senhor, por gentileza, passe já aí para essa saleta do lado. Pode, é também já se ir descalçando.” E no fim, retomando rapidamente a sua posição inicial, aclarando a voz, o Antunes prosseguirá:
“E que venha o próximo!”
Peço imensa desculpa pela brejeirice apresentada, mas não fui só eu que tive a culpa. Foi aquele livro que se abriu. Ali mesmo e em cima do meu pé. Só que olhem bem… o alerta ficou dado. Há com cada uma!…
Sugestão de leitura para esta semana: “Antologia Poética” de Manuel Maria Barbosa du Bocage.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: E não é que já se passaram dois anos sobre a inauguração deste Estaminé? Deus do Céu! Até parece que foi ontem. E ainda há tanta coisa para contar…
*Titulo da poesia postada: Soneto do Amor Efémero.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Com boas e reconfortantes leituras.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A talho de foice.



«Mohammed el-Magrebi morava no Cairo, numa casinha que tinha um jardim com uma figueira e um fontanário. Era pobre. Adormeceu e sonhou com um homem todo encharcado que tirava uma moeda de ouro da boca e lhe dizia: “A tua sorte está na Pérsia, em Isfahan… encontrarás um tesouro… vai!”
Mohammed acordou e apressou-se a partir. Através de mil perigos, chegou a Isfahan. Enquanto procurava comida, morto de cansaço, confundiram-no com um ladrão.
Bateram-lhe com canas de bambu e quase o mataram. Até que o capitão lhe perguntou: “Quem és, donde vens, porque é que estás aqui?” Ele disse-lhe a verdade: “Sonhei com um homem encharcado que me ordenou que viesse para cá, porque encontraria um tesouro. Que grande tesouro, pauladas!”
O capitão desatou a rir e disse-lhe: “Seu parvo, tu acreditas em sonhos? Olha… eu sonhei três vezes com uma pobre casa do Cairo, que tinha um jardim e, além do jardim, uma figueira e, além da figueira, um fontanário e debaixo do fontanário um tesouro enorme! Mas nunca saí daqui, seu parvo! Vai-te embora, palerma!”
O homem regressou a casa e, cavando por debaixo do fontanário do seu jardim, desenterrou o tesouro!»

Porque é que as coisas mais belas do mundo são também as mais simples? E porque é que aquilo que nos é mais precioso, regra geral está logo ali, mesmo por baixo do nosso nariz? E nós, quase sempre tão acometidos, por uma cegueira formal?
Sugestão de leitura para esta semana: “Branca Como a Neve, Vermelha Como o Sangue” de Alessandro D’Avenia. Que foi justamente o livro de onde eu retirei, a singela porém extraordinária narrativa acima postada.
DIVIRTAMSEMAZÉ! 


E boas férias se for caso disso. As leituras… essas é que não podem faltar. Seja qual for a condição.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Quem me mente, não me engana.



Gertrudes é uma mulher de trinta e picos. Jovial e divertida, ela vai levando a vida conforme pode. E se bem que a crise também a vai atormentando, como aliás a todos nós, ela não se deixa cair na amargura e na desgraça. E tem para esses males, mesmo muita resistência.
Um dia destes, Gertrudes deixou inadvertidamente as chaves na porta, mas do lado de dentro da sua casa. E estando ela cá fora. Como não tinha mais nenhuma chave de reserva, nem outra entregue a alguém da sua confiança, Gertrudes teve que chamar os bombeiros. E chamou também a polícia.
Foram os polícias que a acudiram primeiro. Depois vieram os bombeiros. E, pedindo-lhe o favor de descer um lanço de escadas, (pois eles têm técnicas de intrusão que não podem difundir), abriram-lhe a porta em três tempos. Gertrudes ficou muito mais aliviada. Já podia ir esparramar-se no seu lar sagrado. E divertir-se com aquilo que ela mais gostava de fazer: ou seja, ver séries em catadupa. Televisivas e policiais. Pelo que agradecendo encarecidamente aos guardas e aos bombeiros, ela preparava-se graciosamente para entrar em sua casa.
“Mas o processo ainda não está concluído”, referiu o policial mais velho. Que munido de uma caneta e mais de um bloco de notas, lhe comunicou, que agora sim, vinham as perguntas da praxe. Ou seja, todas aquelas perguntas que são feitas em idênticas circunstâncias. Gertrudes anuiu. Mas também ela não podia fazer outra coisa.
Perguntaram-lhe assim a identidade, o somatório das Primaveras, assim como o seu estado civil. E a tudo ela respondeu. Foi-lhe ainda inquirido se ela vivia ali sozinha. “Sim”, foi a reposta breve e inequívoca da Gertrudes. Ela vivia sozinha naquela casa. E com a graça de Deus.
E com movimentos bastante lentos, aquele polícia, lá ia escrevendo todas as respostas. Mas como a demora já era mais do que evidente, o barulho ali à porta também já era algum. E o cão acordou. Depois começou a ladrar bastante, mas no lado de dentro da casa. Então o polícia ouviu. Ficou aliás muito afectado. Depois, e colocando no ar mão direita, com o dedo apontador em riste, ele exigiu silêncio absoluto à Gertrudes. De seguida, o policial fez cara de caso, cofiando (e em simultâneo), com a mão esquerda o seu valente bigode. E mesmo de rompante, ele alegou:
“Mau, mau, mau! A senhora está-me para aqui a dizer que vive sozinha, heim? Mas isso não é verdade. E o cão que ali está a ladrar? É de quem?”
“É meu”, reponde a Gertrudes. “Só que isso em nada modifica a minha condição. Já que eu continuo aqui a viver sozinha. É que quando eu referi que estou aqui a viver sozinha, estou a querer dizer que não vivo aqui com mais nenhum ser humano. Certo? O cão é meu. É um facto irrevogável. Mas o mesmo não deixa de ser um animal. Gosto muito dele. Isso é mais do que evidente. Tenho inclusivamente todo o cuidado com ele. Não faço aliás mais do que a minha obrigação. Contudo parece-me que o meu ‘mui estimado cão’ não deverá merecer por si só, o estatuto de um ser humano. Se é que me faço entender…”
O polícia ouviu em silêncio toda aquela argumentação. Depois ficou a olhar para Gertrudes, muito circunspecto. E a seguir ele continuou: “Não, minha senhora! Isto aqui é tudo muito estranho. Se a senhora tem na sua casa um cão, tem que ter também um homem. Ah pois tem! Não quer é assumir!”
E depois só restou ao senhor guarda sair dali… vencido, mas não convencido.
Sim senhor! Brilhantíssima conclusão foi aquela a que chegou o senhor polícia. Corroborada por outros tantos senhores polícias: é que se uma mulher tiver um cão, tem que ter também (e forçosamente), um homem. Isso deve de ser mesmo uma condição sine quo non. Editada inclusivamente num qualquer Decreto-Lei. E como é que funcionará? Será que é o cão que trás o homem como anexo? Ou será o homem, que trás o cão como material acompanhante?
Por isso meus amigos desconfiem sempre daquela vossa amiga, ou vizinha que vive sozinha. E que se passeia alegremente com o seu "canito" pela rua. Ela, que é uma desavergonhada que se diz solteira?… Pois tal é mentira. Não acreditem nela. Não pode ser. É que se ela tem um cão, terá que ter, e obrigatoriamente um homem qualquer lá em casa. Dê lá isso por onde der.
Mas meus amigos/as, não fiquem só por aí. Desconfiem muito dela, assim como dos seus reais intuitos. E não a deixem inclusivamente, aproximar-se dos vossos maridos. Nem dos vossos pais ou filhos.
E disso depois reajam. E sem que ela se aperceba disso, entrem-lhe à bruta lá em casa. E procurem exaustivamente por todo o lado. Por debaixo da cama, dentro do roupeiro. No armário da cozinha. Ou escondido na banheira. E não se esqueçam de espreitar para a arca frigorífica. É que há registo de maganas, que esconderam os seus ricos homens no frio. E se é assim, vamos lá ver uma coisa: se ela é sozinha, como ela diz ser, para que quererá ela, uma arca frigorífica?
Não deixa de ser enigmática, a teoria que pelos vistos, os polícias da nossa praça insistem em conservar. A ideia fixa de que as mulheres que têm um cão têm que ter também um homem. Se a realidade da mulher é a de viver sozinha, ela poderá ter um gato, sim senhor. Uma tartaruga, ou um peixe-dourado… Mas, e se ela tiver passarinhos? Bem, isso já é de desconfiar. Mas agora se ela quiser ter um cão? Pois não pode. É-lhe mesmo interdito. 
As nossas forças policiais insistem assim numa versão, diria no mínimo… machista. E até bastante desconcertante. Alegam assim e desta maneira, que só os homens é que poderão ser, os fiéis depositários da guarda canina. Mas e porquê? E de onde é que lhes saiu esta ideia?
Bem, do mal o menos. É que o polícia, referido no post anterior, e apesar de alinhar pelo mesmo diapasão, parecia ter outras intenções. Muitíssimo mais filantrópicas.
Sugestão de leitura para esta semana: “Madrugada Suja” de Miguel Sousa Tavares.
DIVIRTAMSEMAZÉ!