Parte integrante da minha
maravilhosa profissão é assiduamente, poder ouvir os mais diversos escritores, falar
sobre os seus queridíssimos “filhos”, que por inerência são os seus livros. E
se há uns que são muito simpáticos e comunicativos, com quem estabelecemos uma
certa afinidade, (diria mesmo uma certa simpatia), com outros nem é tanto
assim. Mas em todos os casos, acrescentamos sempre mais alguma coisa, (por mais
mínima que seja), à nossa condição de pessoas curiosas e sempre alerta
(preferencialmente), com tudo aquilo que nos rodeia.
E no caso que eu aqui hoje trago
à consideração, o orador era algo tímido, como aliás acontece com grande parte
dos escritores. Mas mesmo assim era simpático, o que ajudou a promover um
agradável serão, onde (desempoeiradamente) se falou de livros. Mas falou-se não
só dos seus livros, como também da sua experiência enquanto clinico. O escritor
convidado pertencia à nobre e muito presente família dos Lobo Antunes. Era
exactamente o seu elemento neurocirurgião.
Assim, e com muito rigor, ele
fez-nos uma boa exposição, sobre a sua experiência pessoal enquanto médico (que
é um dos mais reconhecidos, desta nossa diminuta praça). E ali ele também falou
de questões, que sendo absolutamente previsíveis, atendendo às circunstâncias,
aos nossos olhos de leigos da matéria, e pouco clientes dos seus serviços
(preferencialmente), acabamos por achar algo desconcertantes. Falou por exemplo
nos cuidados a ter com o doente, ante a comunicação absolutamente necessária do
seu quadro clinico. Especialmente quando o mesmo é tudo mesmo confiante. Essa
situação extrema, devido à sua complexidade, e com tudo o que isso implica,
deverá incomodar sobremaneira qualquer médico. Se bem que com a prática, eles
lá acabem por realizar um conjunto de procedimentos, capazes de “aligeirar” um
pouco, a tomada de conhecimento de uma realidade tão trágica. Mas eu acredito
que, e se o médico não tiver “sangue de barata”, essa situação deverá ser
sempre incomoda e difícil de transmitir.
Depois e na sua explanação, ele
referenciou o facto bem real, (naturalmente intuído por todos), de que um
médico é um ser humano. Não é pois nenhum Deus, ou um ser posicionado num posto
superior ao do comum dos mortais. Mas é bem triste sentir que alguns dos mesmos
se projectem a eles próprios in loco.
Enquanto outros (necessariamente bem intencionados) se deixam projectar, por
outros que tais. É que temos que ver a “coisa” como ela é. O serviço do médico é
absolutamente necessário? Pois é claro que sim! Mas também o é, a acção do
Homem que pesca o peixinho que comemos. A acção do Homem que amassa o paõzinho
que comemos. E a acção do Homem que traça e estabelece as vias rodoviários, por
onde nós nos passeamos. Entre muitas outras acções. Fazemos todos, parte
integrante da mesma realidade. E somos todos, parte importante no processo. Ah
pois somos! Mas… serão uns mais do que os outros? Pois, naturalmente isso é
capaz! Mas isso é assim mesmo, como em tudo na vida.
Mas não foram só desgraças, as
que ali nos foram referenciadas. Já que aquele doutor também nos transmitiu, (alguns
episódios passados com ele), bastante picarescos. Que nos proporcionaram bons
momentos e nos fizeram sorrir, deliciados. Acredito que nunca se perde tempo,
em ir ouvir alguém falar daquilo que escreve. E que necessariamente projecta
alguma da sua experiências, nas páginas dos livros que edita.
Mas a dada altura ele lá referenciou,
que sendo seres humanos, eles também detém neles valores, e considerações
capazes de vir a fazer a diferença consoante a situação vivida. E para
exemplificar aquilo que estava a dizer, ele referiu, que será espectável (e até
entendível) reconhecer, que um médico possa passar mais tempo numa consulta com
uma mulher bonita, que o tempo que dispensará com uma outra menos dotada. Ou com
alguém pertencente por exemplo ao sexo viril. Isto, no caso de o clinico ter
tendências heterossexuais, como é evidente.
“Sim, só pode”, pensei. Será
verdade. Eles também têm olhinhos na cara. E nós também não somos tolos. Nunca
o fomos. Talvez só um bocadinho, quando alguns (em demasia), foram votar no
Passos Coelho. Quando acreditaram piamente nas suas promessas. E mesmo nesse
caso, foi apenas um momento menos bom, o que ocorreu nas suas vidas. E… vá lá!
Ainda estarão a tempo de se reabilitarem. Peregrinarem pois a Fátima a pé. E
prometam lá, não ir votar mais nos mesmos. Nem nos seus primos.
Agora e em relação aos médicos e
às mulheres atraentes? Pois se calhar todos nós, já havíamos pensado que as
coisas poderiam funcionar dessa maneira. Mas eu acho que para mim, teria sido
preferível ficar no desconhecimento efectivo, em relação a essa realidade. É
que eu “cultivo” alguns problemas declarados com médicos. E passo a explicar:
Eu sou a pessoa que mais detesta
ir ao médico. Sim, sou eu. Vou lá, só mesmo quando não o posso evitar. Penso inclusivamente
ter desenvolvido uma qualquer reacção alérgica, a tudo o que são batas brancas
e estetoscópios. E acho que no inferno, o cheiro predominante não deve ser o do
enxofre. Não amigos. Lá deve é cheirar a éter com fartura, ou o que raio é
aquilo. O hospital, para mim é só a antecâmara...
E toda esta minha antipatia em
relação aos médicos começou há muito, muito tempo… Há já muitas Primaveras
atrás. Revelou-se na minha mais tenra infância. Com a minha mãe a lutar
valentemente, para que me pudessem administrar, uma simples vacina.
Era eu pois bebé e moça, e mal o
meu radar infantil (e ainda em formação) detectava a presença de um médico (ou
de uma enfermeira), punha-me ali literalmente, aos urros e aos pontapés. Depois
e com o crescimento, essa situação não melhorou substancialmente. Muito antes
pelo contrário.
Com o passar dos anos e a meio do
meu percurso escolar eu acabei por entabular uma teoria muito estranha. Acreditava
piamente que os médicos eram imbuídos (mais ou menos pela altura da sua
formatura), de uma qualquer visão de Raio X. Se calhar era justamente no
momento em que eles estavam para ali, (e muito solenemente), a efectuar o Juramento
de Hipócrates. Achava assim, que os futuros médicos passavam por uma
transmutação radical. Só conseguida através da ocorrência de uns quaisquer fenómenos
sobrenaturais. E depois dessa tal metamorfose, a coisa deveria de funcionar mais
ou menos assim:
Eles, com a descida “da pomba
visionária”, nas suas muito sapientes cabeças, ficavam muitíssimo diferentes de
todos nós. Não superiores a nós, mas diferentes. Como que dotados de uma visão
“de longo alcance”. E também de um faro muito apurado. E a partir dali, mal
eles nos pusessem as vistas em cima, eram capazes de saberem logo ali, a
totalidade do nosso historial clinico: Todas as doenças que havíamos tido e
todas as doenças que haveríamos de ter. E para ajudar nesse seu tão
inquestionável diagnóstico, eles, não precisavam de mais nada, de que um
simples estetoscópio. Mas o meu raciocínio era muito mais intrincado. É que
depois eles, (mas para disfarçar), acabam por nos mandar por a língua cá para
fora. O mais que pudéssemos. Obter-se-ia desta maneira, um gesto da mais pura
má educação. Mas o médico continuava ali, sempre “na sua”. Sempre com um ar
muito altaneiro e demonstrativo de grande auto-estima. Quase como que a dizer:
“Ai estás-me a pôr a língua de fora, pois já vais ver como é que elas te doem!”
E após isso (sempre para
disfarçarem e justificarem o dinheirinho que iam pedir), eles começavam a
escrever muitas coisas, lá para uns papéis. Mas isso também era só para
disfarçar. Porque eles já haviam percepcionado e decorado tudo aquilo que eles
quiseram saber. E após aquela brevíssima análise, toda a nossa vida ficava a
ser do seu total conhecimento. Mas eu não me ficava por aqui. Eu acreditava que
eles também ficavam a conhecer, qual seria a hora exacta da ocorrência da nossa
morte.
Pelo exposto, e como facilmente
compreendem, ter a simples visão de um médico era tramado para mim. E eu vivia
assim no mais profundo sofrimento. Isto é, só mesmo quando eu tinha o azar de
ver algum deles, nem que fosse bem lá ao longe. E quando eu avistava algum, a
minha tendência natural e imediata, era fugir dali a sete pés. E esconder-me
bem escondidinha.
Paralelamente a tudo isso, eu
achava que para eles, devia de ser motivo de muita alegria, poderem dar-nos as
más notícias. Dizerem-nos por exemplo, que a nossa saúde estava um pandemónio. Que
a velha da foice e do fato comprido, já estava quase a apanhar-nos. É que era a
partir dessa altura (e desse reconhecimento), que nós iriamos ser seus assíduos
clientes. E íamos ajudar a fazer com que eles ganhassem ainda mais dinheirinho.
Fazer com que eles avolumassem o seu pé-de-meia. É que se formos a ver, a
verdade é que as “nossas doenças” são o seu verdadeiro ganha-pão. E o que é que
eles fariam se toda a sociedade fosse saudável? Emigravam, não era? Além do
mais, eles agora só emigram, porque os clientes de outrora já não lhes conseguem
pagar. E sem tusto, meus amigos “não há palhaços”. Com todo o respeito que a
classe me deve merecer.
Felizmente para mim, não tem sido
muito necessário recorrer aos seus cuidados. Com a graça de Deus Nosso Senhor,
a quem eu agradeço diligentemente todos os dias. Contudo, e por todos os
motivos, ainda bem que assim é. É que convenhamos, eu não me posso considerar
uma pessoa lá muito bela. Eu nunca fui pessoa para parar o trânsito. Nem mesmo em
dia de desfile. Só consegui mesmo parar, foi uma procissão. E isso aconteceu
somente uma vez. Quando o padre forçou uma paragem não prevista a todos aqueles
caminhantes. E ficou ali um bocadinho à conversa comigo. Enquanto eu estava
muito regaladamente a tirar fotografias ao meu pai. Que ia também naquela
passeata. E como ele ia garboso, senhores! Essa é que é essa! Já que carregava
com ele um imenso pálio, enquanto desfilava diligentemente (e com muita
elegância) numa belíssima bata encarnada.
Mas aquilo só aconteceu, porque o
padre já não me via há muito tempo. Ele nunca me vê lá sentada a assistir às
suas sagradas homilias. Suspeito que deve de ser pois, um verdadeiro gosto para
o padre, poder falar comigo. Mas pelo exposto não me parece que o padre tivesse
parado a procissão, devido a toda esta minha beleza exuberante. Se calhar foi
mais pelo meu apurado sentido de humor. E pela minha grande e muito sentida
modéstia. Ou então devido a este meu jeito natural, para me fugir sempre o “pé
para a chinela”. E trazer-lhe à baila (assim como aos seus outros colegas)
idiossincrasias pseudo sagradas que me fazem mesmo muita confusão. Agora, em
relação à minha beleza? Humf, pois não creio. Além do mais, os padres devem de
ser um pouco distraídos em relação a essas coisas, não é verdade?
Agora, quando se fala numa ida ao
médico, a “coisa deve de piar muito mais fino”. A cliente é supostamente uma
mulher muito atraente. Pois ainda bem. Mas será simpática? E não será mais
agradável, entabular conversa com quem é simpático, ao invés de com quem é
simplesmente bonito. Ser bonito por si só, (e na minha modesta opinião) é manifestamente
insuficiente. É necessário ser mais qualquer coisa, ou não? E ainda mais, só
por se ser belo, perder-se assim mais tempo do que o tempo que é devido… Mas não
liguem. Este é somente o meu parecer. A minha forma de estar na vida. Eu que sou
apenas uma simples mulher do campo. Pouco habituada a soirées e a modas
efémeras.
Agora se eles perdem mais tempo
com as mulheres bonitas? Pois que o façam, se isso os torna felizes. Quem sabe
se isso, não poderá ser para eles, algo muito terapêutico. Contudo eu
questiono: E quem é que defende as mulheres feias? E, todas aquelas que têm peso
a mais? E aquelas que se apresentam muito orgulhosamente, com um muito
farfalhudo bigode? E depois (atendendo sempre a similares critérios acima
postados) quais é que serão os médicos que gostarão de gastar o seu tempo, com as
velhinhas que têm gosma? E que para além de uma taxa elevada de glicose no
sangue, têm como patologia, a de mostrar a sua “patareca” a quem quer que passa?
Para terminar, ele acabou por
referenciar que naquela carreira de médico tudo pode acontecer. Há
inclusivamente médicos, que se apaixonam pelas suas clientes. Mas será sempre pelas
mais bonitas, é claro. Mas isto, já sou só eu a concluir.
Mas amigos… isso não será mesmo
assim? Não estaremos nós sempre a apaixonarmo-nos uns pelos outros? Isso deve
de ser uma realidade transversal a toda a sociedade. Apaixonamo-nos, por
exemplo, pelos coveiros, pasteleiros, guias turísticos, professores,
futebolistas, e… necessariamente também pelos médicos. Contudo (e neste último
caso) acho horrível que tal aconteça a uma pessoa. Credo! Uma pessoa vir a apaixonar-se
por um médico? Santo Deus! Cruzes canhoto! Eles que até são muitíssimo mais
bonitos… é pelas costas!
Sugestão de leitura para esta
semana: “Um Modo de Ser”de João Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: Fez esta semana vinte e cinco anos, que este malogrado cantor (também médico), nos deixou. Paz à sua alma. Contudo há uma coisa que é verdade. E que deve de merecer toda a nossa atenção. É que se tomarmos em consideração a mensagem desta cantiga, podemos concluir que, (e já naquela época), os médicos eram MUITO importunados pela positiva, pelas maganas jeitosas, que abusavam do pó. Ah pois era!
DIVIRTAMSEMAZÉ!




