Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Quem me mente, não me engana.



Gertrudes é uma mulher de trinta e picos. Jovial e divertida, ela vai levando a vida conforme pode. E se bem que a crise também a vai atormentando, como aliás a todos nós, ela não se deixa cair na amargura e na desgraça. E tem para esses males, mesmo muita resistência.
Um dia destes, Gertrudes deixou inadvertidamente as chaves na porta, mas do lado de dentro da sua casa. E estando ela cá fora. Como não tinha mais nenhuma chave de reserva, nem outra entregue a alguém da sua confiança, Gertrudes teve que chamar os bombeiros. E chamou também a polícia.
Foram os polícias que a acudiram primeiro. Depois vieram os bombeiros. E, pedindo-lhe o favor de descer um lanço de escadas, (pois eles têm técnicas de intrusão que não podem difundir), abriram-lhe a porta em três tempos. Gertrudes ficou muito mais aliviada. Já podia ir esparramar-se no seu lar sagrado. E divertir-se com aquilo que ela mais gostava de fazer: ou seja, ver séries em catadupa. Televisivas e policiais. Pelo que agradecendo encarecidamente aos guardas e aos bombeiros, ela preparava-se graciosamente para entrar em sua casa.
“Mas o processo ainda não está concluído”, referiu o policial mais velho. Que munido de uma caneta e mais de um bloco de notas, lhe comunicou, que agora sim, vinham as perguntas da praxe. Ou seja, todas aquelas perguntas que são feitas em idênticas circunstâncias. Gertrudes anuiu. Mas também ela não podia fazer outra coisa.
Perguntaram-lhe assim a identidade, o somatório das Primaveras, assim como o seu estado civil. E a tudo ela respondeu. Foi-lhe ainda inquirido se ela vivia ali sozinha. “Sim”, foi a reposta breve e inequívoca da Gertrudes. Ela vivia sozinha naquela casa. E com a graça de Deus.
E com movimentos bastante lentos, aquele polícia, lá ia escrevendo todas as respostas. Mas como a demora já era mais do que evidente, o barulho ali à porta também já era algum. E o cão acordou. Depois começou a ladrar bastante, mas no lado de dentro da casa. Então o polícia ouviu. Ficou aliás muito afectado. Depois, e colocando no ar mão direita, com o dedo apontador em riste, ele exigiu silêncio absoluto à Gertrudes. De seguida, o policial fez cara de caso, cofiando (e em simultâneo), com a mão esquerda o seu valente bigode. E mesmo de rompante, ele alegou:
“Mau, mau, mau! A senhora está-me para aqui a dizer que vive sozinha, heim? Mas isso não é verdade. E o cão que ali está a ladrar? É de quem?”
“É meu”, reponde a Gertrudes. “Só que isso em nada modifica a minha condição. Já que eu continuo aqui a viver sozinha. É que quando eu referi que estou aqui a viver sozinha, estou a querer dizer que não vivo aqui com mais nenhum ser humano. Certo? O cão é meu. É um facto irrevogável. Mas o mesmo não deixa de ser um animal. Gosto muito dele. Isso é mais do que evidente. Tenho inclusivamente todo o cuidado com ele. Não faço aliás mais do que a minha obrigação. Contudo parece-me que o meu ‘mui estimado cão’ não deverá merecer por si só, o estatuto de um ser humano. Se é que me faço entender…”
O polícia ouviu em silêncio toda aquela argumentação. Depois ficou a olhar para Gertrudes, muito circunspecto. E a seguir ele continuou: “Não, minha senhora! Isto aqui é tudo muito estranho. Se a senhora tem na sua casa um cão, tem que ter também um homem. Ah pois tem! Não quer é assumir!”
E depois só restou ao senhor guarda sair dali… vencido, mas não convencido.
Sim senhor! Brilhantíssima conclusão foi aquela a que chegou o senhor polícia. Corroborada por outros tantos senhores polícias: é que se uma mulher tiver um cão, tem que ter também (e forçosamente), um homem. Isso deve de ser mesmo uma condição sine quo non. Editada inclusivamente num qualquer Decreto-Lei. E como é que funcionará? Será que é o cão que trás o homem como anexo? Ou será o homem, que trás o cão como material acompanhante?
Por isso meus amigos desconfiem sempre daquela vossa amiga, ou vizinha que vive sozinha. E que se passeia alegremente com o seu "canito" pela rua. Ela, que é uma desavergonhada que se diz solteira?… Pois tal é mentira. Não acreditem nela. Não pode ser. É que se ela tem um cão, terá que ter, e obrigatoriamente um homem qualquer lá em casa. Dê lá isso por onde der.
Mas meus amigos/as, não fiquem só por aí. Desconfiem muito dela, assim como dos seus reais intuitos. E não a deixem inclusivamente, aproximar-se dos vossos maridos. Nem dos vossos pais ou filhos.
E disso depois reajam. E sem que ela se aperceba disso, entrem-lhe à bruta lá em casa. E procurem exaustivamente por todo o lado. Por debaixo da cama, dentro do roupeiro. No armário da cozinha. Ou escondido na banheira. E não se esqueçam de espreitar para a arca frigorífica. É que há registo de maganas, que esconderam os seus ricos homens no frio. E se é assim, vamos lá ver uma coisa: se ela é sozinha, como ela diz ser, para que quererá ela, uma arca frigorífica?
Não deixa de ser enigmática, a teoria que pelos vistos, os polícias da nossa praça insistem em conservar. A ideia fixa de que as mulheres que têm um cão têm que ter também um homem. Se a realidade da mulher é a de viver sozinha, ela poderá ter um gato, sim senhor. Uma tartaruga, ou um peixe-dourado… Mas, e se ela tiver passarinhos? Bem, isso já é de desconfiar. Mas agora se ela quiser ter um cão? Pois não pode. É-lhe mesmo interdito. 
As nossas forças policiais insistem assim numa versão, diria no mínimo… machista. E até bastante desconcertante. Alegam assim e desta maneira, que só os homens é que poderão ser, os fiéis depositários da guarda canina. Mas e porquê? E de onde é que lhes saiu esta ideia?
Bem, do mal o menos. É que o polícia, referido no post anterior, e apesar de alinhar pelo mesmo diapasão, parecia ter outras intenções. Muitíssimo mais filantrópicas.
Sugestão de leitura para esta semana: “Madrugada Suja” de Miguel Sousa Tavares.
DIVIRTAMSEMAZÉ!



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