Gertrudes é uma mulher de trinta
e picos. Jovial e divertida, ela vai levando a vida conforme pode. E se bem que
a crise também a vai atormentando, como aliás a todos nós, ela não se deixa
cair na amargura e na desgraça. E tem para esses males, mesmo muita resistência.
Um dia destes, Gertrudes deixou
inadvertidamente as chaves na porta, mas do lado de dentro da sua casa. E estando ela
cá fora. Como não tinha mais nenhuma chave de reserva, nem outra entregue a
alguém da sua confiança, Gertrudes teve que chamar os bombeiros. E chamou
também a polícia.
Foram os polícias que a acudiram
primeiro. Depois vieram os bombeiros. E, pedindo-lhe o favor de descer um lanço
de escadas, (pois eles têm técnicas de intrusão que não podem difundir),
abriram-lhe a porta em três tempos. Gertrudes ficou muito mais aliviada. Já
podia ir esparramar-se no seu lar sagrado. E divertir-se com aquilo que ela mais
gostava de fazer: ou seja, ver séries em catadupa. Televisivas e policiais. Pelo que
agradecendo encarecidamente aos guardas e aos bombeiros, ela preparava-se
graciosamente para entrar em sua casa.
“Mas o processo ainda não está
concluído”, referiu o policial mais velho. Que munido de uma caneta e mais de
um bloco de notas, lhe comunicou, que agora sim, vinham as perguntas da praxe.
Ou seja, todas aquelas perguntas que são feitas em idênticas circunstâncias.
Gertrudes anuiu. Mas também ela não podia fazer outra coisa.
Perguntaram-lhe assim a
identidade, o somatório das Primaveras, assim como o seu estado civil. E a tudo
ela respondeu. Foi-lhe ainda inquirido se ela vivia ali sozinha. “Sim”, foi a
reposta breve e inequívoca da Gertrudes. Ela vivia sozinha naquela casa. E com
a graça de Deus.
E com movimentos bastante lentos,
aquele polícia, lá ia escrevendo todas as respostas. Mas como a demora já era mais
do que evidente, o barulho ali à porta também já era algum. E o cão acordou.
Depois começou a ladrar bastante, mas no lado de dentro da casa. Então o
polícia ouviu. Ficou aliás muito afectado. Depois, e colocando no ar mão
direita, com o dedo apontador em riste, ele exigiu silêncio absoluto à
Gertrudes. De seguida, o policial fez cara de caso, cofiando (e em simultâneo), com
a mão esquerda o seu valente bigode. E mesmo de rompante, ele alegou:
“Mau, mau, mau! A senhora está-me
para aqui a dizer que vive sozinha, heim? Mas isso não é verdade. E o cão que ali
está a ladrar? É de quem?”
“É meu”, reponde a Gertrudes. “Só
que isso em nada modifica a minha condição. Já que eu continuo aqui a viver sozinha. É
que quando eu referi que estou aqui a viver sozinha, estou a querer dizer que
não vivo aqui com mais nenhum ser humano. Certo? O cão é meu. É um facto irrevogável. Mas o mesmo não deixa de
ser um animal. Gosto muito dele. Isso é mais do que evidente. Tenho
inclusivamente todo o cuidado com ele. Não faço aliás mais do que a minha
obrigação. Contudo parece-me que o meu ‘mui estimado cão’ não deverá merecer
por si só, o estatuto de um ser humano. Se é que me faço entender…”
O polícia ouviu em silêncio toda
aquela argumentação. Depois ficou a olhar para Gertrudes, muito circunspecto. E
a seguir ele continuou: “Não, minha senhora! Isto aqui é tudo muito estranho. Se a senhora tem na
sua casa um cão, tem que ter também um homem. Ah pois tem! Não quer é assumir!”
E depois só restou ao senhor guarda sair
dali… vencido, mas não convencido.
Sim senhor! Brilhantíssima
conclusão foi aquela a que chegou o senhor polícia. Corroborada por outros
tantos senhores polícias: é que se uma mulher tiver um cão, tem que ter também (e
forçosamente), um homem. Isso deve de ser mesmo uma condição sine quo non. Editada inclusivamente num
qualquer Decreto-Lei. E como é que funcionará? Será que é o cão que trás o homem como
anexo? Ou será o homem, que trás o cão como material acompanhante?
Por isso meus amigos desconfiem
sempre daquela vossa amiga, ou vizinha que vive sozinha. E que se passeia
alegremente com o seu "canito" pela rua. Ela, que é uma desavergonhada que se diz
solteira?… Pois tal é mentira. Não acreditem nela. Não pode ser. É que se ela tem um
cão, terá que ter, e obrigatoriamente um homem qualquer lá em casa. Dê lá isso por
onde der.
Mas meus amigos/as, não fiquem só por aí. Desconfiem
muito dela, assim como dos seus reais intuitos. E não a deixem inclusivamente,
aproximar-se dos vossos maridos. Nem dos vossos pais ou filhos.
E disso depois reajam. E sem que ela se
aperceba disso, entrem-lhe à bruta lá em casa. E procurem exaustivamente por
todo o lado. Por debaixo da cama, dentro do roupeiro. No armário da cozinha. Ou
escondido na banheira. E não se esqueçam de espreitar para a arca frigorífica.
É que há registo de maganas, que esconderam os seus ricos homens no frio. E se é assim,
vamos lá ver uma coisa: se ela é sozinha, como ela diz ser, para que quererá
ela, uma arca frigorífica?
Não deixa de ser enigmática, a teoria
que pelos vistos, os polícias da nossa praça insistem em conservar. A ideia
fixa de que as mulheres que têm um cão têm que ter também um homem. Se a
realidade da mulher é a de viver sozinha, ela poderá ter um gato, sim senhor. Uma tartaruga, ou um
peixe-dourado… Mas, e se ela tiver passarinhos? Bem, isso já é de desconfiar. Mas agora
se ela quiser ter um cão? Pois não pode. É-lhe mesmo interdito.
As nossas
forças policiais insistem assim numa versão, diria no mínimo… machista. E até
bastante desconcertante. Alegam assim e desta maneira, que só os homens é que
poderão ser, os fiéis depositários da guarda canina. Mas e porquê? E de onde é
que lhes saiu esta ideia?
Bem, do mal o menos. É que o
polícia, referido no post anterior, e
apesar de alinhar pelo mesmo diapasão, parecia ter outras intenções. Muitíssimo
mais filantrópicas.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Madrugada Suja” de Miguel Sousa Tavares.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários:
Enviar um comentário