Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Bacallao.


Os nossos vizinhos aqui do lado (espanhóis), têm a fama de cozinhar muito mal. Bem, muita gente diz que depende da zona para onde se vá. Diz-se que na Galiza por exemplo, a gastronomia é muito razoável, já na Extremadura... aí a coisa piora totalmente.
Um ano destes, visitei com alguma calma e contemplação a Espanha e, comecei a pensar que é efectivamente um país muitíssimo interessante a todos os níveis, (menos na Tauromaquia). Por essa ordem de valores... a Catalunha é mesmo perfeita. Acabem pois de vez com as torturas de todos os animais!!!
Quando estava em Madrid, fui jantar com um extenso grupo de amigos lá num restaurante, onde fomos brindados com uma muito sofrível ementa. O início das hostilidades, começou com uma sopinha que me pareceu ser de lentilhas. A sopinha, que foi servida em pratos medianos, tinha no meio aquilo que me pareceu ser uma batata inteira porém descascada e necessariamente cozida. Como sou uma pessoa que conclui coisas com alguma facilidade, logo achei que a presença inusitada daquela batata ali, serviria mais como um elemento de decoração. Mas formava contudo, mais um alimento sugeito à degustação, porém... muito pouco apetecível. Ao que me pareceu, os meus queridos amigos pensaram o mesmo que eu, ou seja, comer lá comemos todos as lentilhas, porém a batata... regressou à procedência. Afirmo que poucas foram as pessoas que comeram aquela estranha e desoladora semelha. Mas eu comi-a! É que tenho algo que me acompanha e quanto a isso não há nada a fazer. Quando vejo comer desperdiçado, começo logo a pensar em todos aqueles que passam fome, pelo que... fazendo algum esforço, lá trinchei e comi a batatinha!
O segundo e principal prato que veio para a mesa era o "Bacallao". Pela segunda vez da minha vida, me apareceu à frente, uma posta de peixe (que me asseguram ser bacalhau fresco), absurdamente mergulhado num composto de molho de tomate. Mais nada. Com graça, mas também a fazer-me de grande entendida na coisa, lá fui dizendo aos meus amigos, que aquele prato era composto unicamente por aquilo. Não haveria mais nada para comer, só o "Bacallao".
Mas ao meu lado, estava a Ernestina, que é uma grande amiga, mas que tem um grande defeito: duvida muitas vezes das minhas versões. Pelo que olhou para mim, com os olhos mais arregalados do mundo  e respondeu-me... que: "aquilo não podia ser!!!". Depois, e de forma muito energica, começou a gritar e a agitar os braços para o empregado de mesa. O mesmo veio, passado alguns instantes. Foi então e usando-se de um formidável "espanholês",  que a minha querida amiga, começou por pedir ao homem, mais comida, na forma de um alimento que pudesse servir de acompanhamento àquele estranho "Bacallao". E mais fez a danada: começou por dar ideias ao homem: "poderia vir para a mesa: uma massinha, um arrozinho, mais uma saladinha e em ultima análise até poderiam vir... umas batatinhas". O senhor que era pouco simpático, mas apesar disso tentava ser solicito, começou por olhar para toda aquela conversa com cara de caso. Primeiro dizia não entender (eles nunca entendem nada, até dá raiva!!!). Depois e fazendo mais um esforço, lá foi dizendo que não tinha mais nada. Mas e lá no fim e já em pleno desespero de causa, ele assegurou que batatas... ele tinha. A minha amiga Ernestina ficou rejubilante. Olhou para mim com a cara mais trinfante do mundo e disse-me: "Vês! Tu da outra vez só comeste o "Bacallao", porque não tens o meu domínio perfeito nas linguas estrangeiras. Soubesses tu falar o "espanholês" como eu, e tudo poderia ter funcionado melhor. Afinal este "Bacallao" não é servido somente assim. Não vês que o homem prometeu trazer... batatas". E mais fez a inconveniente Ernestina, passou a mão pela frente da cara e disse: "Daaahhh". Eu fiquei literalmente, sem pinga de sangue. Há que dar a mão à palmatória. E reconhecer uma derrota.
Passados alguns minutos, chega o empregado de mesa acompanhado com as suas ricas batatas. E, como é que elas vinham servidas, perguntam-me vocês? Pois, descascadas elas estavam, mas inteiras. Estavam também cozidas. E... vinham ainda polvilhadas, com algumas lentilhas. Eu dei uma das mais gloriosas gargalhadas da minha vida, ali naquele restaurante madrileno. Ah pois era!!! As batatas apareceram de facto, mas eram muito provavelmente todas aquelas que haviam sido recusadas por aquele grupo de alegres comensais. Tudo indicava que fora essa a solução encontrada. Eu própria reconheci algumas. A minha é que não estava lá, pois eu havia-a comido a pensar nos carenciados.
Sugestão de leitura para esta semana: "Um Almoço Nunca é de Graça" de David Lodge.
DIVIRTAMSEMAZÉ e não desperdicem nada. É que não estamos em tempo disso. Nem nunca estivemos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Por ser quem sou.


Após alguns meses de ter este blogue, vejo-me hoje na necessidade de fazer algumas explicações sobre o mesmo. Em toda a minha vida adorei contar histórias, usando-me da experiência de vida que na altura tinha ou não. Elaborava a todos aqueles que me ouviam, discursos mais ou menos longos sobre certo e determinado assunto. Já adulta e com maiores possibilidades de alargar um pouco o leque das minhas experiências, comecei a contar as historietas de vida, do que me acontecia a mim e que eu via acontecer a outros. Serei cuscuvilheira? Se calhar sou. Mas preocupo-me fundamentalmente com o bem estar daquele que me rodeia e se a ideia é fazer algo pelo próximo, no que eu poder, eu chego-me à frente.
Ora um dia, uma colega de faculdade sugeriu-me que escrevesse as minhas histórias (que ela considerava particularmente hilariantes), coisa que eu nunca fiz, pois não tinha muita paciência para estar ali a escrever para a "gaveta".
Já no desempenho da minha actividade profissional, que adoro (sou bibliotecária), eu sou apresentada ao mundo dos bloggers por um prestável colaborador meu. E não é que eu gostei da experiência!
Urge dizer que jamais pensei que pudesse vir a ter tantos leitores. Se calhar comparado à grande maioria dos blogues, os meus números não são nada. Mas fico muito contente com a meia centena de pessoas que durante a semana passa por cá. E das mais variadas proveniências.
É importante ainda dizer que nem tudo o que aqui é dito é absolutamente verdade. Estão por cá uns pós de perlimpimpim. E é também importante para mim dizer que esta não é a minha forma de fugir à consulta de psiquiatria. Não amigos! Ainda não tive a necessidade de recorrer ao psiquiatra, mas disso não estou livre, não é? Quem é que está? Pois que atire a primeira pedra. Boa! O meu computador ainda está inteiro.
Pois... sou uma rapariga ligada aos sentimentos, às emoções, à gargalhada fácil e descomprometida, mas ás vezes também sei verter uma lágrima (conheço-lhe o sabor). Quanto aos sentimentos? É que não tenho medo mesmo nenhum de os demonstrar. Sou latina graças a Deus. Todos os dias digo ao meu gato que o amo! (lol)
Mas fundamentalmente o que eu pretendo com este blogue é DIVERTIR quem me lê. Se o conseguir, óptimo. Se não, recomendo outras leituras de outros blogues com características diferenciadas deste meu. Com muito mais "elan", muito mais "glamour". Eu faço o que posso. E se por uns breves minutos eu conseguir afastar o pensamento (o meu e o daquele que me lê), sobre a situação catastrófica por que actualmente o mundo vive (com particular incidência na Europa) Acreditem, já me dou por muito satisfeita.
Sugestão de leitura para hoje: "Metade do Céu" de Nicholas D. Kristof e Sheryl Wudunn.
Beijinhos e DIVIRTAMSEMAZÉ.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Turismo religioso.


Quem gosta de viajar, gosta e ponto final. As condições da mesma viagem é que podem variar. Mas eu cá digo: o proibido mesmo é recusar uma saída, seja para fora, seja para o interior deste belo país lusitano.
Como sou oriunda de uma família de fortes tradições religiosas (especialmente da parte paterna), eu acompanho com muito gosto (diga-se) o meu pai a destinos religiosos de excepção. Uma vez fomos a Lourdes. E fomos utilizando como via de transporte o autocarro e não o avião. Pode parecer enfadonho e cansativo? É-o de facto. Contudo e a par de algum desconforto fica-se a conhecer algumas das mais belas paisagens espanholas, não é? Para mim Espanha foi a verdadeira revelação. E não propriamente o santuário mariano francês.
No turismo religioso, vai principalmente quem é por definição muito religioso. E vão os crentes e vou eu. Naquela situação especifica, o grupo viajou com três párocos: um mais idoso e dois mais jovens. Tenho a dizer que simpatizei especialmente com um que era dos mais jovens: Não, mentes viperinas. Eu jamais ousei tentar desviar o pároco do seu bom caminho. Contudo o mesmo era e é, muito divertido e muito cooperante com pensamentos mais liberais, como o meu. E muitas gargalhadas nós demos os dois.
Nessas viagens há sempre tempo para a realização da missa. Eu como membro não "arregimentado", aproveito esse tempo para conhecer um bocadito mais da terra onde a igreja está implementada. Creio que grande parte das pessoas aceita esse meu comportamento, mas há sempre um/a ou outro/a que me olha um bocadinho de lado. Mas isso é como em tudo e têm bom remédio: comecem a olhar de frente. Mas são poucos os incomodados.
Mas no meio daquilo, o que eu aprecio mais são as chamadas visitas guiadas. Há sempre alguém muito documentado no local, que faz uma explicação exaustiva sobre determinada temática. Neste caso concreto (turismo religioso) vai-se e em abundância a igrejas e catedrais. Mas eu gosto.
Nessa viagem, fomos a uma catedral espanhola de grande nomeada e absolutamente deslumbrante. Ao lado da mesma havia um Museu que tinha e em grande número, originais livros de horas, de mais orações, transcrições da Biblia feitas pelos copistas medievais... Aqueles documentos eram profusamente ilustrados por magnificas iluminuras. Eram mesmo de tirar o folego. Ora eu ali estava no meu mundo. Não na parte religiosa em si, mas na dos documentos antigos. Sendo a minha formação em História eu sempre adorei a disciplina de Paleografia, que nada mais é do que a transcrição para a língua actual, das mensagens escritas no português de outrora (bem anterior a qualquer AO (acordo ortográfico pernicioso e decapante). Eu adoreiiiiii estar no meio daquilo tudo!!!!!!!!!!!!!
Mas antes daquela visita o padre mais velho, havia-nos informou-nos sobre a beleza e a importância daquilo que iríamos ver. Falou-nos também da grandiosidade (em termos numéricos) do que ali estava exposto. Pelo que sugeriu que, e só naquele dia, se sacrificasse a missa a fim de se ver com toda a atenção o material exposto. Eu rejubilei e abençoei intimamente tão dedicado e atencioso sacerdote. Mas a minha alegria durou muito pouco. Ao meu lado estava a D. Alzira. Esta senhora ao ouvir a sugestão do padre não foi de modas. E colocando vigorosamente as duas mãos no ar, disse que não estava nada de acordo com aquilo. Que ela não dispensava a missa. Esse seu desejo foi apoiado por mais cinco ou seis senhoras. 
Assisti depois ao ar desconcertado do pároco. Está bem que o mesmo deveria de ver com bons olhos todo aquele "seguidismo". Contava assim um grupo de apoio muito vigoroso e barulhento, mas... Ali isso não dava jeito nenhum, nem a ele nem a mim, que sou manifestamente uma ovelha desgarrada, mas pouco preocupada com isso. Até pode ser que eu encontre um dia um Pastor jeitoso (lol).
O padre e de uma forma inteligente a meu ver, tentou e conseguiu "alegrar" um pouco a todos. Pelo que se sacrificou um pouco do tempo que era para ser dedicado à visita ao Museu, e fez-se uma Missa mais curta. Eu diria, fez-se um género de trailler da missa. A D. Alzira rejubilante respirou de prazer. Ia assim ter direito a mais uma missinha. Mas eu pensei: "Caramba, o que não faltam em Portugal são missas. Ela querendo podia começar de manhã e acabar à noite. Podia ainda fazer um periplo por todas as igrejas nacionais. Mas ali em Espanha!!! E só por um dia ela não poderia sacrificar-se um pouco em prole do bem comum? Pelo menos em prole do meu próprio bem e do do padre?" Pois que não! Gostei muito da exposição, vi aquilo que foi possível no pouco tempo que tive disponível. E depois foi a vez da ocorrência de uma missa a que mais uma vez não assisti. 
Mas ao caminhar por uma das ruas daquela encantadora cidade espanhola, deparo-me com o Sr. Alfredo que era também ele, um dos participantes daquela peregrinação. O mesmo e a rir,  informou-me que e mais uma vez a ala dos religiosos profundos havia ganho a sua batalha. Especialmente a D. Alzira que era uma senhora... muito importante na vida do padre. Foi o senhor Alfredo quem assim me "apresentara" a D. Alzira. E eu fiquei a entender tanta coisa!
Alzira tinha setenta e tal anos. Havia ficado viúva do seu marido há cerca de 15. Alzira sempre fora uma pessoa muito religiosa, contudo apegou-se mais à devoção quando enviuvara. Alzira viveu na igreja a fuga de uma solidão a que jámais estivera acostumada. E também simpatizava muito com o senhor padre.
Alzira para além de algumas tarefas de monta, realizadas na igreja e na casa paroquial, prontificara-se em lavar a roupa intima do padre, em especial as suas cuecas. Intimamente a D. Alzira tinha muito orgulho nessa sua tarefa que cumpria com muita responsabilidade. E era também com muito desvelo e devoção que ela cumpria religiosamente toda uma série de rituais. 
O padre entregava-lhe semanalmente as cuecas sujas, que havia usado durante a semana. Alzira colocava-as todas num saco de pano, escondendo as ditas de olhares mais preversos. Em casa, ela lavava as cuecas em água fervida. Usava inicialmente sabão azul e branco (a fim de evitar qualquer tipo de alergia). Depois lavava-as com um amaciador, que não era mais do que uma solução incolor mas a cheirar a alfazema. Já muito branquinhas e a brilhar, era a vez de as colocar no estendal. Mas Alzira conhecia muito bem as suas vizinhas. Sabia do que as mesmas eram capazes. Sabia que quando se tratava de falar mal da vida alheia, as suas vizinhas não eram "nada coxas". E, o que diriam elas se vissem cuecas de homem no seu estendal, alegremente a ondularem ao vento? Ainda mais cuecas tão avantajadas e consequentemente tão visiveis ao longe? Bem, a Alzira tinha que se proteger, não é? Pelo que ocultava as ditas cuecas sacerdotais com um enorme lençol de linho, que há muitos anos lhe havia sido ofertado pela sogra. A ocultação das cuecas, para além de não dar azo a maiores e perniciosos falatórios, também evitava que os raios solares queimassem a fibra e retirassem do tecido alguma da sua coloração. Além do mais evitava que o elástico perdesse a sua forma e vigor. Alzira nem queria pensar, na tragédia que seria se ao padre da sua preferência, um dia lhe caissem as cuecas aos pés devido a um qualquer elástico deslaçado.
Depois de secas, e já ao luar, Alzira apanhava as cuecas. Já no interior da sua casa ela recatadamente, verificava se as mesmas precisavam de algum remendo. Depois eram remendadas se houvesse necessidade disso. Após essa verificação, Alzira passava-as a ferro. Não lhes punha goma, pois a rigidez excessiva das mesmas poderia ser muito irritante à parte sensível do sacerdote. No fim, as cuecas eram exaustivamente dobradas e acondicionadas dentro de uma pequena malinha, própria para aquele efeito. A entrega das mesmas dar-se-ía imediatamente no dia a seguir à sua lavagem e secagem. A demora só poderia ser devida às más condições climatéricas. Mas o padre tinha muita roupa interior.
Agora e ali em Espanha, Alzira estava longe de executar essa tão importante tarefa. O padre havia trazido com ele as cuecas necessárias para todos os dias da excursão. E como Alzira estava radiante! Para ela era um gosto ver o "seu" padre discursar de forma tão activa para o rebanho bem comportado. Logo aquelas palavras que eram na sua maioria dirigidas àqueles que não andavam nos trilhos da boa e eficaz religiosidade. Membros pérfidos e desenvergonhados, pertencentes ao "rebanho das ovelhas ranhosas". Essas não quiseram assistir à missa. Malvadas! Mas também essas já estavam condenadas de todo. Para elas já não havia nada a fazer. Que fossem todas ter com o Belzebú.
E Alzira olhava mais uma vez para o Senhor Padre. Admirava-lhe o vigor, as suas boas cores, a sua boa disposição, a barriguinha crescente. E estava de crer que aquele bem estar do sacerdote se devia a inúmeros factores. Mas de entre os principais, estaria necessariamente o facto do padre poder contar sempre, com cuecas lavadas e a cheirar a alfazema. Pelo menos era assim que cheiravam quando ele as vestira.
Sugestão de leitura para esta semana apresento o livro: "Aprender a Rezar na Era da Técnica" de Gonçalo M. Tavares.
Divirtamsemazé e olhem pelo próximo e pelo seu bem estar.

 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Turista versus Viajante.


O grande Gonçalo Cadilhe (que é praticamente o meu guru espiritual), afirma que se deve começar por viajar em grupo. Depois devemos de nos ir libertando e começar a viajar em grupos mais restritos, em termos numéricos, ou mesmo sozinhos. Tenho a afirmar que sozinha mesmo eu ainda não viajei, mas quem sabe um dia. Viajar como é sabido é uma filosofia de vida. Vai-se liberto de amarras e com um pouquinho de conhecimento da língua inglesa, a pessoa até se safa. Eu regra geral, viajo em grupos de pessoas que eu não conheço, ou conheço mal, quando a saída é para fora da Europa. E com amigos, quando se visitam os países deste velho continente. A propósito disso, tenho a afirmar que por vezes sou mais turista, quando vou em grupos de amigos, e mais viajante quando viajo com os tais semi-desconhecidos. Esse é um facto absolutamente inquestionável.
Com amigos e sem grandes planos definidos, tudo poderá correr pelo melhor, contudo deveremos de nos dar relativamente bem com quem viaja connosco, assim como ter idênticos objectivos. Tudo depende da filosofia da coisa. A propósito, lembro-me de uma visita que fiz à cidade de Bruxelas. Viajei com um grupo de amigos. Tudo muito boa gente é certo. Contudo com formas de ver a vida (e de viajar), muito diferenciadas da minha. Recordo com um sorriso nos lábios, a Cátia. Esta, durante o tempo em que lá permanecemos, insistiu sempre numa coisa: todos os santos dias ela tinha que ir ao pé da estátua do Mannaken Piss, formalizando assim uma autêntica Via Sacra. E quem é esta figura? Esse Mannaken Piss? Pois, é a estátua daquele menino enegrecido e pigmeu que está ali ao relento. Como contrato laboral do rapaz, existe somente uma clausula onde consta uma simples palavra. E qual é a palavra? Pois, é urinar. E será a minha amiga pedófila? Não cruzes! Nada disso. O que a minha amiga tinha que apurar, era se a estátua do tal menino estava vestida. E se estivesse, ela tinha a obrigação de lhe tirar fotografias para depois mostrar cá na terra.
Durante aqueles dias, nós rumamos todos àquele muito concorrido local. Levávamos connosco uma enorme dúvida existencial. Ignorávamos assim se a estátua estaria vestida ou de minhoto ou de campino. Para grande desgosto da minha amiga Cátia, enquanto ela ali esteve, o Menino esteve sempre nu. Cátia ficou assim...  absolutamente desolada. É que não poderia mostrar aos amigos as suas fotografias de turista, mostrando um estafermo anão de pedra, porém vestido. Vestido mas sempre a segurar o seu minúsculo pirilau e a mijar. Abençoados rins e com poucas dores nas pernas.
Toda aquela ralação começara no dia, em que um amigo de Cátia, (que estivera também ele em Bruxelas),  apanhara, o "Rapaz Mijão", vestidinho de proxeneta. E o sucesso que aquilo havia sido!!! A apresentação de uma panóplia de fotografias quer aos amigos, quer à família. Depois a mostragem e a partilha das mesmas fotos nas chamadas Redes Sociais. As mesmas que serviram depois  para muitas discussões em tempo real, no Twitter e no Facebook. Pois...
Depois foi a vez de se ir a um magnifico Museu, que tinha uma série de obras dos melhores pintores e escultores de toda a humanidade. Mas a determinada Cátia logo ali postulou: "pois que não podíamos ali estar mais de vinte minutos". É que ainda faltava ver: a "Pequena Europa". E o que é a Pequena Europa? Bem são miniaturas dos monumentos mais emblemáticos da Europa. E aqui eu naturalmente questionei-me e continuo ainda a questionar-me: Se eu quero ver um determinado monumento, não será melhor ir vê-lo onde o mesmo está localizado, ao vivo e a cores? Não sei. Mas estou em crer que sim.
O que eu sei é que fiquei muito mais tempo naquele Museu, que o tempo que ela previamente havia determinado. Ela acompanhou-me e no fim até deu razão à minha insistência. Estivemos somente uns cinco minutos, na tal da "Pequena Europa". Onde tivemos oportunidade de visualizar "verdadeiros bibelôs de monumentos", espalhados por uma relva, formando assim um triste e deprimente "presépio" europeu, ilustrativo de uma Europa já em plena pré falência.
No fim, ainda consegui que os tais amigos se sentassem comigo numa explanada. Comemos gostosamente... Mexilhões com Batatas Fritas. Bebi também e muito repimpada, uma cerveja gigante e bem gelada. Sentados ali, nós parámos um pouco  e observámos agradavelmente a vida de todos aqueles que por nós passavam. Viajar também é isso: é ver para além do visível, é parar, é reflectir. É conhecer outras pessoas, outras formas de estar na vida. E perante isto o que é que interessa o "Menino Incontinente"? Bem, mas o meu desejo é que ele continue a urinar por muitos e muitos anos, não é? E que jamais sinta necessidade de... recorrer à hemodiálise.
Quanto a mim, depois disso continuei a viajar, de outras formas e para outros países. Recordo com nostalgia um casal inglês que eu conheci num país da América Latina. Ora o casal que abeirava os setenta anos, andava ali sozinho e sem pressas. Procuravam conhecer novos cenários, novas pessoas. E isto com toda a calma do mundo e sem maiores preocupações monetárias. Eram os dois reformados. Com a conversa eles estranharam a minha proveniência, assim com a minha juventude (já vos disse que pareço mais nova!), e o facto de estar tão longe de casa. Ao olharem para mim, concluíram que eu ainda não deveria de estar reformada. "Pois não", respondi eu, estava ali mas tinha os meus dias (assim como o meu dinheirinho) muito contadinhos. Mas eu não viajava sozinha claro está. Os meus companheiros de viagem, os tais semi-desconhecidos estavam ali nas imediações.
Aquele casal britânico, já se encontrava a viajar havia dois meses. Começaram a sua viagem no extremo mais a sul daquele belo continente. E só iriam acabar a sua/deles incursão, quando chegassem à parte situada mais a norte do Canadá. Ai meus amigos, aqui eu tenho que vos confessar uma coisa: Senti uma tão profunda pontada de inveja, pelos rins acima!... Mas, e a que se deveria tal dor? Questionei-me mentalmente. Seria devida a alguma praga do Mannaken Piss? Em virtude de eu não professar a "sua religião"? Bem, eu estou convencida que não!
Sugestão de Leitura para hoje: "Turista por Acidente" de Anne Tyler.
Divirtamsemazé e votos de boas viagens (Nem que as mesmas e com a crise, sejam meramente ficcionadas).

 Agora sou uma turista... 

... mas hei-de chegar a viajante! 
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! 
 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Problemas de expressão.


A língua. Ah a língua que serve tantas vezes como barreira intransponível e susceptível de desencorajar os menos afoitos (mas que viajam!). Tem-se como conhecimento um pouco de inglês e... vamos-nos safando. O pior surge quando do outro lado nem um pouco de inglês se sabe. Isso aconteceu-me no Japão. Japão, esse país tão desconhecido. Eu pensava que já tinha alguns conhecimento sobre tal país, antes de lá ter ido. Havia lido Mishima, Murakami... E também já tinha visualizado alguma animação nipónica, assim como alguns documentários. Mas a verdade é só uma: chega-se lá e aquilo é mesmo um outro mundo. E ficamos a entender tão bem o filme da Sofia Copolla...
Em primeiro lugar, as pessoas fazem vénias, fazem mesmo muitas vénias. Eu a dada altura pensei que deveria de fazer o mesmo, como moeda de troca. Achei que deveria ser o comportamento que eles esperavam de mim. Pelo que também eu comecei a fazer vénias, muitas vénias. Fiz tantas que acabei por dar um jeito nas costas que me limitou os movimentos e me fez falar "mais fininho".
Depois foi a vez de se ir a um Pagode. Fomos assistir a um cerimonial que envolvia uma degustação de chá. (Eu só havia ido a uma degustação de vinhos. Meu Deus, como eu sou saloia!). A tal da cerimónia durou para aí hora e meia.  Mas houve muita coisa antes da degustação do chá propriamente dita.
Havia por lá um monge budista já velho mas dotado de muita energia. O cerimonial começou com uma predica do tal senhor que demorou para aí uns 10 minutos. O homem falou, falou, falou mas nós... não entendemos nada. Depois de toda aquela conversa, e muito revoltado o monge avistou um sujeito, já velho que também ali estava e que tinha muito excesso de peso. O monge tinha um grande pau na mão. Muito rapidamente, o monge dirigiu-se para o local onde estava o velho e obeso homem. E ralhou-lhe tanto... (claro que continuamos a não entender nada, mas ele estava com cara de poucos amigos). Por uns momentos, nós tememos o pior. Toda a gente pensou que o monge ia começar ali a bater no homem. Mas não, o que o monge fez, foi encostar o pau no sentido das costas do gordinho e continuar para ali a falar. Depois veio o momento da meditação, meditação essa que durou para aí uns 30 minutos. Ficou toda a gente ali muito sossegada e caladinha. (Eu estava muito temerosa). Já aqui tenho falado. Para mim é muito difícil estar muito sossegada e proibida de falar, mas... O monge tinha nas mãos um pau, um grande pau. (Bem, se calhar até tinha dois, não é?)
Depois fomos todos passear para um "Jardim Seco", que era composto unicamente por areia, terra  e por pedras colocadas ali em profusão e estrategicamente. Tudo aquilo era muito Zen! Que gratificante foi para todos, deambular por ali, no meio daquela natureza tão acinzentada!
E eis que finalmente  veio a degustação do chá. E que belo chá nos seria servido. Ficámos todos ali, sentados "à chinês", numa grande roda. Sem pressas foi-nos servido um muito delicioso chá!!! E eu ali concluí: "Está certo. Fora com a relva que eles não usaram no jardim que eles haviam feito o cházinho". A relva assim toda migada muito miudinha, tal como se faz com o Caldo Verde.
Mas o cumulo surgiria num outro momento em que eu e um respeitável senhor perguntámos a uma guia local, como é que se dizia: "amo-te" em japonês. A guia um bocado temerosa, citou-nos a tal palavra. Muito contentes, eu e o tal senhor ficámos. E para que memorizássemos bem tal sentimento, fomos repetindo a palavra. E aquilo foi emocionante. Nós os dois, a olharmos-nos nos olhos muito emocionados. Quase que já ouvíamos no ar o "Stranger's In The Night". Só com a expressão de olhar e a nossa pronúncia brilhante, quase que nos apaixonámos ali, um pelo outro. Mas eis senão quando, a tal guia com ar de muito poucos amigos, começa a ralhar ferozmente connosco. Afirmando que nós não tínhamos vergonha nenhuma. Que também não mostrávamos nenhum respeito pelos outros. E mais fez a danada: Obrigou-nos ali a calar o sentimento. É que segundo ela, estávamos a escandalizar toda a gente. Foi o que fizemos imediatamente. Tivemos medo, muito medo. É que a mulher já tinha uns sessenta anos e ainda corria a maratona.
Depois olhamos para as pessoas que estavam ao nosso lado, as tais passiveis de estarem escandalizadas com a nossa actuação. E quem eram? Bem, grupos e grupos de estudantes adolescentes que passavam por nós, sem nos ligarem importância absolutamente nenhuma.
Sugestão de leitura para hoje: "A Instrução dos Amantes" de Inês Pedrosa.
Divirtamsemazé e votos de um Bom Ano.