Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As intermitências do amor.


 Maria Alice nasceu bem no início da década de 30 do século transacto. Teve uma infância difícil igual a tantas outras. Nasceu e cresceu na capital lusitana, mas seus pais haviam vindo da Beira Interior. Sempre bem-disposta, ela aproveitava a vida da melhor forma possível. Seus pais, que eram somente de condição remediada, proporcionaram aquilo que lhes foi possível aos seus quatro filhos. Pelo que promoveram aos quatro somente a instrução primária. Situação aliás, em nada diferenciada da vivida pela maioria dos outros núcleos familiares.
Maria Alice contudo era feliz. Cresceu, divertiu-se e procurou o amor. E foram as canções de Francisco José que a conseguiram tirar mais do sério e sonhar em vir a ser protagonista de uma “bela história de encantar”. Como ela sonhou com uns olhos castanhos, de encantos tamanhos que fossem motivo para que ela pecasse, mas de que se não viesse nunca a arrepender. E era tal a adoração pelo cantor, que tanto ela como as amigas da sua idade, perseguiam o artista mal sabiam do percurso que ele iria percorrer num determinado dia. Maria Alice chegou mesmo a romper três meias solas e uma peúga por baixo. Elas corriam assim e desarvoradas atrás do carro onde o artista de boa figura e voz se fazia transportar. Bem correr, correr é como quem diz… andavam em passo muito acelerado, pois não era considerado de bom-tom à altura, que moças novas andassem a correr atrás dos homens. A Pide podia achar isso suspeito. Podia tomá-las como umas comunistas desfragmentadas.
E ao que parece, para Alice, os esperados “olhos castanho”, apareceram-lhe rapidamente, pois ela casou relativamente cedo. Tinha 18 anos. E teve três filhos. Mas tal como a precedente, a sua inaugurada família não conheceu também substancial riqueza. Foram também eles remediados, seguindo a mais pura tradição lusitano-salazarista. E nem mesmo depois, com a Revolução dos Cravos, a coisa melhorou significativamente.
Maria Alice contudo foi muito feliz, atendendo às circunstâncias. Tanto ela como o marido Augusto viveram em grande harmonia. Quem os queria ver era sempre em dupla e de braço dado. Depois já com os filhos. Muito aquela família se gostava de passear pelas ruas. E gostavam de demonstrar a sua felicidade a toda a hora. Contudo usando sempre do maior recato. Aliás, era impossível à época ser de outra maneira.
O marido trabalhou toda a vida como “mangas de alpaca”, enquanto que Alice se ocupou sempre da lida da casa, como doméstica e educadora principal dos filhos. Mas sabemos que a roda-do-tempo é imparável e irreversível. E toda aquela felicidade familiar durou até ao momento em que Augusto com sessenta e poucos anos, morreu fulminado por um ataque cardíaco. Nessa altura, os filhos já estavam criados e independentizados. E a Maria Alice ficou inconsolável. Morrera assim aquele que lhe dera uma vida feliz e remediada. Devido a tal agonia, ela vestiu-se de preto, dos pés à cabeça e chorou muito a morte do seu querido falecido. Haviam estado juntos por quarenta e nove anos: três de namoro e quarenta e seis de casamento.
Mas passado algum tempo Maria Alice apercebeu-se que tinha que sobreviver ao desgosto sofrido. Tal era imperioso e absolutamente espectável. Ela sabia que a vida era mesmo assim. Quando Maria Alice era muito nova, era hábito naquela altura, pensar-se (e ainda na altura da celebração do casamento), que um dos noivos já se encontrava viúvo. Mas será que nessa altura ninguém congeminava, a possibilidade de que o casal que se estava a formar poder vir a morrer, e ao mesmo tempo, vitimado por um acidente de viação qualquer? E que raio de coisa para se pensar num momento tão festivo? Bom, é que há sempre aquele que insiste em ver o “raio” do copo, meio vazio.
Para poder sobreviver melhor ao luto, Maria Alice procurou a companhia das suas amigas do passado. Senhora de boa aparência, mesmo já em época tardia, ela também foi para um ginásio exercitar-se. Ficou ainda em melhor forma e com os glúteos mais ensaiados. Depois tirou definitivamente a cor preta da sua vestimenta, coloriu as faces, abrilhantou as unhas e… continuou a viver.
Mas o destino provocou-a num dia e num momento em que ela tropeçou na rua, perto de casa. Com o desequilíbrio, ela estatelou-se no chão e ao comprido. Depois de todo aquele aparato, foi prontamente ajudada a erguer-se pelo seu vizinho do lado. Contudo no processo, operou-se ali algo que a Maria Alice não compreendeu. É que no acto, o vizinho inexplicavelmente e naquele dia ficou, aos olhos de Alice com muito melhor aspecto. Já eram vizinhos um do outro, há mais de trinta anos. E sempre estiveram ali, porta com porta. Conheciam-se assim, e mais a algumas das respectivas idiossincrasias dos lares. Mas ali e naquela hora, àquela agora semi-levantada do chão, o vizinho parecera-lhe muito com o Brad Pitt no filme Tróia? E o vizinho que nem estava a envergar nenhuma mini-saia composta por chapas de metal! Mas a Alice rapidamente se compôs. E achou que tal modificação só se deveria de estar a operar na sua cabeça. Provocada quem sabe se por algum traumatismo craniano que ela arranjara com a queda. É que uma queda no lancil e o respectivo esparramar, é coisa para doer e deixar marca.
Erguida e sacudida, a Maria Alice agradeceu a atenção do vizinho e procurou regressar rapidamente ao seu domicílio. Mas não é que o diacho do vizinho não lhe largava a mão? E sempre a perguntar-lhe se ela estava bem. A fazer-lhe festinhas no cabelo!… Logo o raio daquele ser… recém-jeitoso! “Mas estaria tudo doido”, pensou ela? Seria devido a algum alucinogénio que estivesse naquele momento a pairar no ar?
O tempo prosseguiu sem grandes altercações de alma. Mas a Maria Alice contudo, deu para sonhar com o Silva, e achá-lo sexy mesmo na hora em que o mesmo ia despejar o lixo. E Maria Alice começou também ela a regular-se pelos tempos do vizinho. Pôs na cabeça, a ideia de que o “seu” lixo seria muito melhor reciclado e aproveitado, se os dois se encontrassem na referida tarefa. E as saudações habituais começaram a ser dadas com muito maior entusiasmo. Depressa os “Bons-Dias” deixaram de ser suficientes. E à conversa habitual, começaram a acontecer, outras muito oportunas conversas de ocasião. E a desculpa variava entre: o estado calamitoso do país. A incerteza da vida profissional da descendência. A procura exaustiva dos locais onde os produtos eram mais baratos. As dores nas articulações. E o tempo que se fazia sentir e que já não era o de antigamente…
Passado algum tempo, procuraram também coincidir, nos horários em que os dois iam comprar o pão. E as conversas dos dois iam prosseguindo, aparentemente sem maiores cuidados ou culpas. Contudo aquele seu vizinho Silva, era ainda… um homem casado. E Ana, a sua mulher começou a desconfiar um bocado daquela enigmática amizade que ali ia crescendo. Procurou contudo compreender, fazendo para isso um esforço hercúleo, para não levar nada daquilo a mal. Nem mesmo quando o marido insistia em ser ele a ir regar as flores que estavam… na varanda. Nem mesmo quando ele comprou três regadores novos. Nem mesmo quando ele procurou trinta e nove tipos de fertilizante, diferentes. Nem mesmo quando ele afirmava que a hortelã da vizinha estava muito mais… repolhuda e viçosa… que a dela…
E na hora da rega, o Silva aproveitava (e na varanda), para falar mais um bocadinho com a vizinha. Que também ela estava na varanda, a regar com muito empenho… as suas miosótis. Ana só não perdoou quando viu que toda a sua numerosa colecção de manjericos morreu, devido ao excesso de água. Mas e lentamente, a coisa estava-se a compor. E pouco a pouco ia adquirindo contornos catastrofistas. Tipo “panela de pressão”.
E foi numa ocasião em que a Maria Alice e o Silva se encontraram nas escadas do prédio, e aproveitando o facto da luz do edifício se ter apagado, que eles finalmente trocaram o seu primeiro e muito apaixonado beijo. E mais uns certeiros apalpões. E foi mesmo por muito pouco, que eles não foram mais longe naquela actividade libidinosa. Não fora o carteiro a fazer-se anunciar! Que tocou duas vezes como aliás é o seu costume. Os dois vizinhos, depois de afilados e muito ofegantes ficaram com uma certeza. Afinal já não restava a menor dúvida. O amor nascera inevitavelmente entre aqueles dois. E o sentimento não fora produto da imaginação de ninguém, como desgraçadamente acontece tantas vezes. Só que o caldo estava assim e irremediavelmente… entornado. E a Ana passava assim para as “calendas gregas”, mesmo com a crise instalada nas duas nações.
O casal apaixonado decidiu depois (e não sem a ocorrência de algumas lutas e trocas de palavras, pouco amistosas), ir viver um com o outro. E para onde é que eles foram morar? Justamente para a casa de Maria Alice. O Silva ficou assim com a incumbência de regar (e em exclusivo), a gerbera principal e favorita de Alice. Só tinha era que evitar a hora em que a Ana, a sua ex-esposa, estava lá no outro lado a regar, os seus cardos roxos. É que a situação era delicada e incontornável. Viverem assim todos na maior das desarmonias. Num género de “paz podre”. Numa autêntica Guerra Fria. Calcule-se só a agitação presente por exemplo, nas Reuniões do Condomínio? Por outro lado, Maria Alice procurou também não descer as escadas às mesmas horas em que Ana passava por lá a fungar. É que a separação, para além de umas vigorosas e desconfortáveis hastes, trouxe também a Ana uma séria sinusite. Mas a coisa lá prosseguiu, apesar de Alice ter agora muito medo da ocorrência, de acidentes com quedas em escadas. É que fora justamente numa queda que começara todo aquele reboliço.
Aquela troca motivou muita conversa, particularmente por parte das vizinhas invejosas. Muitas delas sendo casadas vai para tanto tempo, já não conseguiam obter, os carinhos e os amassos de outras eras. É que a Lei da Gravidade é tramada! E sem os subsídios, o comprimido azul, tornara-se assim, num produto de luxo. Que se embrulhava como uma preda e se oferecia no Natal. E as vizinhas mal-comidas, falavam cada vez menos com os seus esposos. É que para piorar tudo, havia o facto de não haver pior solidão, do que aquela que é vivida a dois.
Agora resta desejar a Ana, a ocorrência de bons encontros. E ela que olhe mais para o lado. Quem sabe se não encontra (e também ela), um George Clooney lá na Praceta. Sentado num banco de jardim, e com um saco de plástico na mão. Ou então, dar-se o milagre, quando por exemplo, ela for levar a vacina da gripe, que este ano é gratuita. É presente para os velhinhos por parte do nosso querido governo, que entretanto também lhes ficou com os subsídios. Foi mais ou menos… troca por troca. Pode até ser, que a Ana encontre o “seu bem”, lá no posto médico. É que está comprovado que os enfermeiros gostam muito de picar. São assertivos. Mas ganham é cada vez pior. Como grande parte da população portuguesa.
E quanto ao Silva, recomenda-se também a ele, atenção redobrada. Não vá ele alguma vez… enganar-se na porta.
Sugestão de leitura para esta semana: “O teu rosto será o último” de João Ricardo Pedro.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
  

PS: A última imagem deste vídeo é algo despropositada. Mas deu-me tanta vontade de rir!!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

As sogras que encontrei na vida.


 

Tenho a felicidade de achar que tenho tido uma vida cheia de acontecimentos fantásticos e inusitados para contar. Se calhar e para muita gente, estarei enganada, mas são precisamente esses momentos, que me têm preenchido a vida de uma forma muito positiva. É que, como já ficou expresso através de alguns posts que eu aqui coloquei, aconteceram na minha vida episódios, que ainda hoje me conseguem facilmente levar às lágrimas de tanto rir.
E saibam que… na minha vida, eu tive muitas “sogras”. E olhem só, não me casei uma única vez. Amo a liberdade, e os livres movimentos. A teoria de que ninguém é de ninguém, faz para mim todo o sentido. Para além disso gosto de actividades lúdicas e de aventuras variadas, nas quais destaco as viagens. Gastando para isso e prazerosamente parte substancial do meu rendimento financeiro. Pelo que dificilmente me veria acomodada num qualquer casamento convencional. Como dizia com graça o meu progenitor: “teria que ser "alguém"... feito a regra e esquadro.” Contudo… hoje vamos falar de algumas das minhas “sogras”.
Quando eu tinha pouco mais de vinte anos, conheci e fiquei muito amiga de uma senhora já septuagenária. Gosto muito de falar com pessoas mais velhas, que por definição têm muita coisa para contar. Aquela também tinha. Era simpática, cordial e amiga. E não demorou muito tempo, até me apresentar o seu único filho, cinquentenário e solteirão empedernido e muito íntimo e adorador da sua querida mamã. E foi com muita alegria (e já sem ser na presença do filho), que a senhora me comunicou do prazer que sentiria, se eu lhe entrasse para a família. Era como se me estivesse a dar o seu bem mais precioso. E convenhamos, para ela o filho era efectivamente a sua maior riqueza. Eu fiquei sem palavras, mas com uma vontade muito grande de me rir. Depois e para não magoar muito a idosa, lá lhe disse que: “o futuro a Deus pertencia”, tralali, tralalá, mas eu acho que ela ficou, como que diria… algo esperançada.
Passado pouco tempo, fez-me uma verdadeira doação. Doou-me toda a sua parafernália (dentro de duas ou três enormes latas de biscoitos, das antigas), de linhas de coser, lãs de muitas cores, agulhas para as mais variadas funções, amostras de tecidos e amostras de peças de tricot e de crochet. E eu fiquei com aquilo tudo, é que não ia magoar a senhora, não é? Mas ainda hoje, parece que ouço as gargalhadas da minha mãe, quando eu lhe comuniquei a proveniências de tais oferendas e qual fora a sua real motivação. É evidente que jamais me passaria pela cabeça consorciar-me com aquele “menino (de outras eras), de sua mãe”.
O episódio termina no momento em que eu me sento na sala da minha casa, com o objectivo de pregar um botão numa peça de roupa e ouso usar as linhas que haviam sido, da minha “sogra”. Enfiar a agulha, eu ainda consegui, mas não dei um único ponto, por mais que me esforçasse. É que a linha quebrava-se com a maior das facilidades, e porquê? Ah pois era! É que quando eu olhei para o retró, eu vejo que o prazo de validade das linhas havia terminado no último dia útil, à tarde da Primavera de 1917.
Ainda hoje quando falo com a senhora, actualmente nonagenária, ela ainda me diz: “Mas que bom que seria se se casasse com o meu filho. Estarmos os três ao serão. Nós as duas a fazer crochet e ele connosco e a ver um qualquer programa de televisão.” Seria lindo, não concordam? Bonita e muito inspiradora imagem. É que o meu “sogro” entretanto já faleceu. E já não vamos a tempo… para jogar à sueca.
Tive outra “sogra” que ainda fez pior. Despudoradamente, ela foi ao meu local de trabalho com a sua “cria”. E eu chefio uma equipa de dez pessoas. Ora num belo dia e já lá vão alguns anos, a dita senhora entra-me no meu espaço de trabalho, que é também um lugar público. Sem perder tempo, ela decidiu proceder ali, às devidas apresentações. E os meus colaboradores ali tão à mão de semear e a ouvirem aquilo tudo, estão a ver a cena, não estão?
A senhora ao apresentar-me o filho, não foi de modas, e ali disse (também ela), do gosto que seria para ela, eu entrar-lhe para a sua prole. Eu fiquei algo envergonhada! E olhem que não é fácil apanharem-me assim desprevenida. É mesmo muitíssimo difícil… verem-me corar. Mas uma coisa era eu estar mais liberta de encargos e num outro espaço, num espaço neutro. Poder dissuadir a senhora com calma e com algum sentido de humor, daquela sua tão inconveniente pretensão… Outra bem diferente era estarmos ali, no lugar onde eu ganho o meu pãozinho. Como calculam (e atendendo às circunstâncias), eu tive de usar de alguns cuidados redobrados. Não podia zangar-me como é óbvio, pois também não me parecia que fosse motivo para tal… Pelo, que lá lhe disse, num tom muito baixinho, que o filho dela tinha a sua vida, eu tinha a minha, e pelo que me constava, dificilmente seriamos compatíveis um com o outro… Enfim, lá atalhei o problema da melhor maneira que pude.
A parte melhor veio a seguir, quando ela me disse que o seu dileto descendente, até já vivia com alguém. Bonito, não é? Uma cena digna de um estimulante “Conto do Imprevisto”. Soube, porque ela me contou naquele bela e muito disparatada conversa, que o rapaz vivia com uma moça brasileira. Davam-se era mal. Mas, e o que é que eu tinha a ver com isso? Pensava eu para os meus botões, também eles já muito envergonhados e a querem desabotoar-se.
E a narração lá continuava: Pois o moço brigava muito com a sua compagnon de route. Eram inclusivamente a vergonha lá do prédio. Às vezes (e no acalorado da discussão), punham-se a lançar os mais variados objectos pela janela fora. Até quase que já haviam acertado com uma pesada jarra de loiça, na cabeça do vizinho do rés-do-chão. E eu ali a ouvir. O rapaz também ele já muito envergonhado. Chegou a piscar-me o olho roborizando, como quem pede desculpa, ou julga compreender muito bem a minha muito difícil posição. Afinal, eu nada tinha a ver com o caso, nem quisera alguma vez vir a ter. Aquela conversa só terminou, quando o rapaz, usando a sua imponente voz (e num tom mais alto do que o habitual), disse: “Acabemos já com isto. É que isto é ridículo”. E olhando para a mãe ele rematou: “Quer queiras quer não, eu gosto é dela!” Da brasileira, como é evidente. E foi com um grande alívio, que eu lhes vi as costas.
Sim senhor! Bonita e muito sentida declaração. E acabou assim e ali a “minha saia justa”. O amor só é bem compreendido… por quem o sente. E acontece, pronto! Eu ali quase que fiquei com a certeza, de que são aquelas lutas, constantes ou não, que acabam por dar um certo frissom à coisa. Aqueles dois vivem ao seu ritmo e como mais gostam. É certo que de vez em quando espalhafatam com um telemóvel no lancil. Acho que com a fúria, já conseguiram arrancar um bidé do seu respectivo lugar. E foi puro acaso, não o terem também mandado pela janela abaixo. Mas depois dos ânimos devidamente serenados, eu acredito que virá uma calorosa e muito escaldante reconciliação.
Quanto às senhoras mamãs, que procuram sempre encontrar o melhor para os filhos e que por isso se tentam infiltrar nas suas decisões, procurando arranjar-lhe… uma esposa, aqui fica o meu conselho: “Não se metam em tais assuntos, amiguinhas! Os vossos filhos saberão o que é melhor para eles. E se errarem, azar. Eles, tal qual como as senhoras e eu, estamos aqui num processo de aprendizagem. É que se formos a ver, todos nós erramos. É legítimo e compreensível. E aprendemos também (e muito) com os erros. Quantas vezes é que achamos que as nossas escolhas foram as mais acertadas, quando afinal não o foram? Mas só damos pelo erro à posteriori, quando finalmente nos conseguimos aperceber da verdadeira dimensão da coisa.
E agora aqui fica um último aviso para esta minha última candidata a“sogra”: “Pois tenha muito cuidado consigo, senhora! E não vá a casa do seu rebento quando ele estiver a brigar com a sua muito amada nora. Essa sim é que é a sua verdadeira nora. É que corre um sério risco, de também a senhora ser lançada fora… de uma janela qualquer… ”.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Lei do Amor” de Laura Esquível. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Carta aberta de uma gordinha, à “Guiduxa “qu’é munta gira”!!!


Reza a decência, de que quem tem uns quilitos a mais como eu, não se devia de meter nestes assuntos. Afinal o que sei eu sobre o que se passa na cabeça da Guiduxa? Na célebre cabeça de tão esforçada escrevinhadora de livros? Mas vou, pois como eu sou “gordinha”, eu não tenho mesmo… vergonha nenhuma.
A Guiduxa escreveu, vai para dois anos uma crónica sobre mim e sobre as que pertencem à minha espécie: espécie essa, que a Guiduxa nem se deu ao trabalho de definir. Nós as “gordinhas”, ficamos pois numa espécie de limbo, ou seja, mais ou menos entre a inexistência… e entre coisa nenhuma. Mas sendo assim, como é que a Senhora Escritora deu por nós? Como é que nos viu? E depois, porque é que esta celeuma toda, só veio a lume e gerou controvérsia passados dois anos sobre esse seu verdadeiro momento de inspiração? A que se deveu todo este atraso? Se calhar, foi porque, com o passar do tempo nós “gordinhas”, tornámo-nos ainda maiores e mais visíveis, pois engordámos alarvemente... Ai que horror!…
A crónica chamava-se: “As gordinhas e as outras”, e nela se elaboraram profundas teses de forte pendor científico. Com verdades absolutamente inquestionáveis, pois provieram da cabeça enxameada de ideias de tão celebre escritora da nossa diminuta praça. E se ainda não leram tal crónica, pois leiam porque aquilo dá muito que pensar! E assistam também a esta sua prestimosa explicação:


Eu sou pois uma das gordinhas. Segundo a opinião de alguns homens mais tolerantes (e se calhar já bem bebidos), eu terei mais espaço para amar. Contudo a Guiduxa é que nos avisa, a nós “gorduchas” de que não devemos nunca acreditar em tais opiniões. Pois essa é a maneira mais fácil que os homens têm, de nos ludibriarem para conseguirem fazer “coisas feias” connosco, ou seja, com as da nossa híbrida e lamentável espécie. Segundo a opinião da Escritora a que hoje humildemente me dirijo, nós servimos unicamente, para quando os homens estão bêbados e não têm as mais giraças à mão. Conformemo-nos pois, amigas e colegas de peso. E cantemos todas e a plenos pulmões o fado sofrido da saudosa Amália: “Que destino, ou maldição!”
Como verifica, Guiduxa (e eu estou aqui a falar para o vento, pois tenho a certeza de que nunca irá ler estas minhas tão sentidas palavras, mas se o fizesse…) inexplicavelmente eu não sofro de nenhum drama por ter quilos a mais. Se calhar e se sofresse, era capaz de fazer dietas permanentes, fazer muitos pillings ou lá o que é, viver num ginásio e só sair da lá à noite (como os vampiros), e mais outros funestos quejandos. E depois ficava à espera de me tornar mais parecida com a Guiduxa, “qu’é munta gira”. Mas para longe vá o agouro. Eu era lá capaz disso? Fazer-lhe tal, logo “a si e às outras” que também são tão giras? E tirar-vos assim todo o vosso protagonismo?!
Pois, diz a Senhora, que nós que pertencemos à espécie adiposa, somos as grandes amigas dos homens. Pois no meu caso, eu posso dizer que sou tão amiga de homens como de mulheres. É que há gente boa em todas as espécies, credos, religiões, etnias, situações académicas e (imagine lá) preferências sexuais. Os homens que fazem o favor de serem meus amigos, só esperam de mim aquilo que eu sou. Ou seja, eles gostam de mim porque eu sei estar à minha maneira, tenho o meu próprio sentido de humor, sei ter as minhas próprias conversas e sei rir e como, Deus do Céu. É que nada me condiciona, nem sequer o medo de rebentar um qualquer botox ou uma prótese labial. Agora eu confesso, só não me lembro é de que alguma vez, me tenha mijado pelas pernas abaixo. Para ser engraçada?! Nunca tal me passou pela cabeça. E nem mesmo se a Senhora se mijasse, eu achava graça...
Falar de sexo à mesa? Pois qual é o problema se tal assunto vier à baila. Deve-se é ser suficientemente discreto se se estiver na presença de crianças. Ou então de idosos, que são pessoas de outros tempos e de outras educações. Ou de pessoas mais sensíveis, como é o caso presente da Guiduxa (que também já não vai para nova, não é)? Mas escusa de temer. Eu não creio que alguma vez, tenha o prazer de tomar uma refeição, na sua ilustríssima companhia!
E depois para quê todos esses seus cuidados? De não se poder falar de sexo? Saberá a Senhora pouco sobre o assunto? Quererá obter algum esclarecimento de uma qualquer “gordinha”, mas tem vergonha de pedir? Se é isso, não tema. Acredite, nós estamos cá para a ajudar. Disponha sempre.
Pois, como compreenderá (com muita dificuldade, eu acredito), nós as “gordinhas”, gostamos dos prazeres da vida. Alimentação da melhor e rir até perder o folego. Como já referi podemos rir, sem medo. Já o mesmo não se pode dizer de algumas das suas colegas giras, que ao sorrirem fazem somente um esgar silencioso e medonho. Algumas delas chegam mesmo a levantar um pé, visto que a pele já se encontra muito esticada. Outras giras existem, que devem de colecionar “rodos de pelancas”, por detrás das orelhas. Nós não. Temos é quilos a mais, que são visíveis. Não temos nada a esconder.
Depois é muito difícil arranjarmos namorados? Isso é! Ainda mais nos dias de hoje. Parece que o “raio” dos homens até fogem de nós. Às vezes até penso que lhes metemos medo. Sim… de facto, eu tenho ouvido muitas queixas sobre esse assunto. É algo recorrente. Mas, as queixas vêm invariavelmente… de gordas, mas também de… magras, calcule!
Diz a Guiduxa que os homens se pelam por estar na vossa companhia, das “munta giras”. Pois eu acredito. Acredito em tudo o que sai da sua proverbial boquinha. Eles convosco até devem de ficar, como diria? Anestesiados, não é? Contudo, há uma coisa que me faz alguma confusão. É que muitas vezes, algumas das minhas amigas “gordinhas”, aparecem a namorar com cada homem mais lindo, interessante e tão apetecível ao toque…! Porque será? A que se deverá tal ocorrência aparentemente inexplicável? Bem, se calhar elas conseguiram a tal “fêvera” na altura em que tanto a Guiduxa como todas as suas amigas giras, estavam indisponíveis? Se calhar estavam com dores de cabeça? Ou andavam com o período? Com o TPM? Ou então com os estertores de uma menopausa anunciada e a abanarem-se muito com um leque? Pois, poderá acontecer. É que a menopausa acontece a todas, mais cedo ou mais tarde, sejam elas giras e boas, sejam elas “gordinhas” e disformes, segundo a sua “sábia” e muito avalisada classificação.
Agora e desculpe-me o atrevimento, mas deixo-lhe aqui um reparo de uma coisa que me parece óbvia: A Guiduxa escusa de se ralar muito com as “gordinhas”. Nós não lhe podemos fazer sombra, e veja lá, até somos maiores que a Senhora. Porque vendo bem as coisas, a Senhora até deveria era ficar muito contente com o facto de sermos… “gordinhas”. Quanto mais “gordinhas” e em maior número, melhor. É que assim, sobram muitos mais homens para si e para as suas amigas boazonas. Isto segundo a sua proverbial sapiência. Que sai, ou da sua carismática boca ou então da sua pena de ganso.
Já imaginou Guiduxa, reunir um número incrível de homens, no Estádio da Luz por exemplo, que é o Estádio que em Portugal abarca mais gente? Devido à sua beleza e perfeita forma, os homens segui-la-iam mais ou menos como os ratos em Hamelin. No centro do Estádio do Benfica (que deve de ser o seu clube, eu tenho cá uma certa desconfiança), a Guiduxa poderia falar-lhes assim ao coração. Explicar-lhes através do recurso a um simples Power Point, sobre aquilo que é o mais conveniente para eles. Com uma apresentação das regras elementares de etiqueta. Dizer-lhes por exemplo, sobre aquilo que eles podem falar à mesa. Quais os talheres que são mais indicados? Dizer-lhes que eles não deverão de maneira nenhuma urinar para uma parede, por mais aflitinhos e amarelos que estejam. Mostrar-lhe num mapa da cidade, quais os locais onde lhes é permitido e aconselhado… coçar os tomates. E sobretudo, proibi-los de olhar para as “gordinhas” que são seres miseráveis e pouco estéticos…
Acredito que eles iriam adorar todas as suas explicações e tornavam-se irremediavelmente, seus fãs. Depois e de rajada falava-lhes dos seus livros: de um Pássaro que tinha uma Alma. Ou que Não Há Coincidências, só nós apertadinhos e esquematizados. Não lhes fale muito é em “Sei Lá”, porque isso pode confundi-los. E isso poderia pô-la a perder. É que tendo a Senhora, tanta ciência e uma filosofia de vida tão elaborada, os homens poderiam achá-la parecida com uma “Maria Vai Com as Outras”. Com uma mulher indecisa e sem certezas. O que convenhamos, não é verdade. A Senhora sabe muito. Só não sei é de onde é que lhe terá vindo… tanta sabedoria.
Disse também a Senhora, e numa outra sua inspiradíssima croniqueta, de que uma vez e numa praia, estava rodeada de mulheres obesas. E eram muitas, a Senhora não sabe (lá está), mas dá um número que poderia variar entra as 300 e as 80. E esta sua incerteza, diga lá? Ela não será devida ao Sol que apanhou na cabeça? É que o Sol quando é muito… faz muito mal.
Depois fala que as mesmas obesas estavam felicíssimas. Isso é bom, não é? Em que é que isso a poderia incomodar? Mas seguindo a sua inquestionável teoria e a sua linha de raciocínio, na prática só lá estava a Guiduxa mais os maridos das gordas. É que como a Senhora (e de mote próprio) se diz tão gira e boazona, consequentemente conseguiu ofuscar todas as indistintas adiposas.
E depois, falou que as “gordinhas” tinham todas umas geleiras, e estavam sempre a comer e a falar sobre comida. E que envergavam uns biquínis reduzidíssimos. Pois, Guiduxa sabe o que é que eu acho? E vai-me perdoar este meu atrevimento. Mas eu acho que foi muito difícil para a Senhora, não lhes pedir uma bucha, ou um “coche”, como se dizia no meu tempo de Escola Secundária. É porque a Senhora para ser como é (muito bela e boazona), deve de ter muitos dias em que não come nada, por mais que diga que não. Naquele dia, se calhar até sentiu o apelo de pedir-lhes algum mantimento, mas teve vergonha, não foi? Confesse lá. Nós as “gordinhas” somos pessoas generosas e não lhe levamos a mal essa sua fraqueza. Mas se eu lá estivesse, era pessoa para partilhar consigo, uma sandes de torresmos e mais um copo de vinho tinto generoso. No fim acabaríamos a degustar uma talhada de melão. Só que, também não seria fácil esse nosso encontro. É que eu não gosto de praia, localize-se o areal no Algarve ou nas Caraíbas. Pelo que a poupo assim, ao desgosto de poder olhar para mim, a envergar um qualquer biquíni, muito revelador. Eu, “gordinha” me confesso, olho muito pelo seu bem-estar assim como pelo bem-estar “das outras munta giras”. Já viu se essa minha funesta exposição lhe provocasse, um ataque cardíaco. Como é que o mundo ia sobreviver sem os seus tão valiosos ensinamentos? Que nos devem de servir como um verdadeiro… manual de instruções.
Agora e para concluir, penso que os Bibliotecários é que lhe devem de estar muito agradecidos. E sabe porquê? Sei que algumas Bibliotecas têm o conjunto, de toda a sua importante “obra literária”. Contudo, as mesmas instituições não gastaram um único “chavo” com tal aquisição. E sabe qual é a razão? É que as suas leitoras vão lá oferecer os seus livros. Acredite, em algumas bibliotecas até já existem livros seus para a troca. Muitos deles são mesmo autografados por Si e dedicados às suas admiradoras, que regra geral são mulheres. Parece que no que toca a apreciações literárias, não há assim tanta unanimidade. Os homens serão mais arredios à leitura? Pelo menos serão no que toca à Sua admirável obra? Não sei, mas se calhar e por isso mesmo, os homens que menos leem em geral, são os que a preferem em exclusivo, a si e às suas amigas boazonas.
E depois é uma verdadeira comoção, ver escrito na página de rosto dos livros, com a sua belíssima caligrafia palavras tais, como: P’ra Xareca, p’rá Pachacha, p’ra Xarifa, p’ra Rateca, p’ra Buceta… e para mais outras tantas, giras e “levezinhas de ideias” que por aí abundam. Mas... e as suas admiradoras? Elas livraram-se assim de algumas das suas mais emblemáticas obras? Mesmo marcadas com o seu cunho tão pessoal? Mas isso será, devido a quê?
Eu gosto de acreditar que ainda há esperança num mundo melhor. E na Teoria da Evolução da Espécie.
Sugestão de Leitura para esta semana: “Uma Aventura Inquietante” de José Rodrigues Miguéis.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!


PS 1: Mas soube esta semana, que se acabaram as suas crónicas no semanário solar. OOH!!! E como é que nós vamos conseguir sobreviver? Bem, considere que devido a tal desgosto, nós já estamos todas a empanturrarmo-nos em “Bolas de Berlim com Creme”.

PS 2: Meus amigos, eu sei perfeitamente que a situação deste país é catastrófica. As medidas previstas e a realizar, só vão acelerar o “funeral” já há muito anunciado. Mas há que reagir, é um facto. E no fim, nós vamos sobreviver acreditem. Nem que seja através do processo da “terra queimada”, que é muito pouco recomendável atendendo às circunstâncias. É que já lá dizia (muito sabiamente alguém, e não era  a Guiduxa) que: “atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”!!!
Mas aqui e agora, eu achei (e no meio de toda esta tragédia), que a Guiduxa também deveria ter o seu lugar cativo e de destaque. Ela merece.
DIVIRTAMSEMAZÉ, nem que seja a protestar.