Quando eu fui pela primeira vez ouvir o fado ao vivo, não fui a uma daquelas casas cheias de predicados, de referências e de turistas. Conta-me quem sabe (e que já lá esteve), que muitas vezes não há grande respeito pela actuação do/a fadista. É mesmo muito comum, o cliente falar alto enquanto o ser cantante está ali, a tentar dar o seu melhor. Isto é necessariamente uma grande falta de respeito. Não. Eu fui a uma casa de fados bastante modesta, detentora de alguma e razoável iluminação. A comida era bastante aceitável, e os fadistas eram alguns. E claramente mostravam ter muito interesse em "ficar bem na fotografia". Mas nem sempre conseguiram alcançar esse objectivo no seu pleno.
Comigo estava um grupo razoável de comensais que gostavam de ouvir cantar o fado, contudo (e de uma maneira geral), não lhes agradou assim tanto o fado que eles ali ouviram. Mas como nós não tínhamos muito mais que fazer do que estar ali a assistir ao desempenho deles... Sejamos francos, não foram eles que ali nos chamaram. Nós é que quisemos ali ir. Era imperioso guardar assim algum respeito pelo trabalho ali realizado. Desta forma e quando os fadistas estavam a cantar, apagavam-se as luzes e nós ficávamos no mais absoluto silêncio a ouvi-los. Mas quando o fado acabava, ligavam-se novamente as luzes e nós aproveitávamos e punha-mos a conversa em dia. Aproveitávamos também, para petiscar mais alguma coisita, que nos permitisse "forrar o estômago".
Na conversa nós aproveitávamos e entre nós fazíamos o papel de júri. Avaliávamos assim (e com muita propriedade), o desempenho dos vários fadistas. Eles não eram propriamente maus no seu todo, convenhamos. Contudo para nós, o melhor desempenho pertencia a uma mulher, de ascendência africana que não só tinha uma boa projecção de voz como era ainda muito afinada. Mas a mesma cantou pouco. E rapidamente se foi embora. Restaram depois os cantores um pouco menos dotados.
Tive oportunidade de apreciar, que nestes ambientes, também existem muitos "cromos". Permanecem ali pessoas que fazem parte de um grupo especifico de gente com características muito curiosas. Por exemplo: estava lá um senhor, tipo "Zé da Viúva", de cabelo algo longo e muito escorrido, e das duas uma: ou tinha o cabelo muito oleoso, ou então abusava do uso da brilhantinha.
Havia lá uma senhora de idade tipo, senhora idosa que aprecia um belo copo de vinho. Era muito loira e também muito sorridente. Nas pálpebras tinha uma camada muito espessa de sombra azul escura. Quem a visse e de repente, acharia que a dita senhora havia sofrido de uma grave agressão. E levado com dois poderosos murros nos olhos. Essa senhora cantava com muita emoção e muito copiosamente. De xaile com grandes flores vermelhas, colocado pelas costas, ela por vezes trocava as silabas em algumas estrofes. Outras vezes ela arrastava muito as silabas. Mas ela também poderia muito bem sofrer... de dislexia.
Havia lá uma senhora de idade tipo, senhora idosa que aprecia um belo copo de vinho. Era muito loira e também muito sorridente. Nas pálpebras tinha uma camada muito espessa de sombra azul escura. Quem a visse e de repente, acharia que a dita senhora havia sofrido de uma grave agressão. E levado com dois poderosos murros nos olhos. Essa senhora cantava com muita emoção e muito copiosamente. De xaile com grandes flores vermelhas, colocado pelas costas, ela por vezes trocava as silabas em algumas estrofes. Outras vezes ela arrastava muito as silabas. Mas ela também poderia muito bem sofrer... de dislexia.
Depois cantava lá um rapaz mais novo, mas de voz algo estridente. Tinha maneiras muito delicodoces e torcia muito os pulsos. Outras vezes abanava-se com um leque. Este jovem cantava com um pronúncia muita acentuada e típica, dos bairros históricos de Lisboa.
Havia também lá um senhor tipo "Marialva", com umas grandes patilhas. Este gracioso ser não tinha qualquer problema em arrastar "a asa" para cima de todos e de todas. Chegou mesmo a dar um beijo na testa (e um abracinho), à senhora loira do xaile. O rapaz novo também lhe estendeu os braços, mas o tipo Marialva... fugiu.
E os fados e os fadistas sucediam-se uns aos outros. Eram cinco cantores, cantava (e por ordem), cada um o seu fado. E depois voltava tudo à estaca zero, ou seja cantava outra vez o primeiro, que se não me engano, era o senhor do cabelo escorregadio.
Havia também lá um senhor tipo "Marialva", com umas grandes patilhas. Este gracioso ser não tinha qualquer problema em arrastar "a asa" para cima de todos e de todas. Chegou mesmo a dar um beijo na testa (e um abracinho), à senhora loira do xaile. O rapaz novo também lhe estendeu os braços, mas o tipo Marialva... fugiu.
E os fados e os fadistas sucediam-se uns aos outros. Eram cinco cantores, cantava (e por ordem), cada um o seu fado. E depois voltava tudo à estaca zero, ou seja cantava outra vez o primeiro, que se não me engano, era o senhor do cabelo escorregadio.
No meio de tudo aquilo, vejo que o senhor que estava sentado à minha frente, parecia que me estava a tentar dizer alguma coisa, mas eu não conseguia perceber nada. Para me inteirar devidamente da sua mensagem, inclino-me um pouco para a frente e peço-lhe que por favor, repita aquilo que me estava a tentar dizer há pouco. O senhor então diz-me: "Ainda se chovesse!!!"
Eu fiquei algo apalermada. Perguntei-me no silêncio da minha inquietação interior, o que poderia levar alguém, num espaço daqueles a lembrar-se da chuva. Sei que os agricultores anseiam pela sua frequência e desejam-na muito nos meses mais indicados à produção. E quando não chove pedem ajuda à Senhora Ministra. Por breves instantes, acreditei que se calhar aquele senhor que estava à minha frente, tinha uma pequena horta, seca e a precisar de rega. Pensei também nele como alguém que pudesse ter gado, galinhas, patos ou perus. Sei que as nossas ideias por vezes seguem rumos, que nem mesmo nós entendemos.
Mas, eu não sou pessoa de ficar na dúvida. Aquele senhor quis-me transmitir uma mensagem. Achou-me capaz de dividir com ele alguma informação mais útil. Compartilhar comigo um qualquer desabafo. Quem sabe se com aquilo ele não tivesse a testar-me, pensando que eu tivesse conhecimentos acrescidos sobre as condições climatéricas, que iriam ocorrer nos tempos mais próximos. Achar-me-ia ele com cara de meteorologista? Estaria ele a confundir-me com alguém que fosse desse ramo? Alguém que ele tivesse visto na televisão, por exemplo. Mas as minhas dúvidas tinham que ser dissipadas, era urgente.
Pelo que me inclinei mais um pouco para a frente (e pela segunda vez e num tempo muito curto), e perguntei-lhe o porquê daquela sua afirmação. Até poderia ser, que eu o conseguisse ajudar de alguma maneira.
O homem ouviu-me, esboçou um solene sorriso e acrescentou: "É que se chovesse, pelo menos nós ouvíamos o seu barulho." Brilhante!
Recordo com alegria que o senhor que estava ao meu lado (e que tem a grande ventura de ser o meu progenitor), riu tanto, tanto com aquilo que quase que se urinou todo. Confessou-me ele, algum tempo mais tarde.
Sugestão de leitura para esta semana: "Fado Alexandrino" de António Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ, e votos de boas e muito proveitosas leituras.




