Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Viajar com a terceira idade.


Sim, eu tenho tido oportunidade de viajar com os mais velhos, e tenho-me também divertido muito com eles. Ainda estou um bocadito longe de pertencer à chamada Terceira Idade, mas uma coisa é certa, a vida passa muito rápido, pelo que, e quase sem dar conta eu lá chegarei (ou melhor, se eu tiver a sorte de lá chegar um dia). 
Quando eu era muito nova, eu tive felicidade de passar muitas das minhas férias escolares, num meio rural, onde abundava a presença de gente sénior. Estávamos longe dos tempos em que os mais velhos e na sua grande maioria são encafuados em Lares de Terceira Idade. Lares impessoais e pouco recomendáveis, pois muitos deles são verdadeiros "depósitos de velhos". No meu tempo de criança, o convívio entre mais velhos e mais novos era diário e creio que muito gratificante para todos. Tenho para mim que foi um grande privilégio tê-los conhecido e ter tido a oportunidade de com eles privar.  E como eu aprendi com as suas deliciosas conversas... É que vendo bem as coisas, eles foram as testemunhas vivas de um tempo que eu não vivi.
Da mesma maneira e passados alguns anos, dei em viajar com pessoas bem mais velhas do que eu. Não me refiro às viagens que tenho feito pela Europa, onde regra geral viajo com amigos da minha idade. Mas e como estes não mostram qualquer interesse em sair deste Velho Continente... 
Com os mais velhos eu vou a passeios com destino a paragens mais exóticas. Vou com aquelas pessoas, que têm a sorte de usufruir de boas reformas. São pessoas que já têm os filhos criados e os netos na Universidade. E como têm reais possibilidades, eles aproveitam para conhecer um pouco melhor este Planeta, ainda algo Azul (mas a desbotar). E eu também vou. É certo que conto todos os cêntimos que consigo amealhar, como funcionária pública dedicada mas muito contente porque adora a sua profissão. Mas não é fácil (e ainda mais sem subsídios). Contudo e parafraseando o velho ditado popular: "Vale mais um gosto que três vinténs". Pelo que eu poupo todo meu dinheirinho e quando posso, lá vou eu nas ditas viagens. 
Numa ocasião eu fui ao Japão nessas condições. Lá aguardava-me uma grande amiga que sendo casada com um japonês (de quem tem uma linda filha), vive naquele país do Sol Nascente. Ora tanto a minha amiga, como a sua encantadora família, foram encontrar-se comigo e tiveram a amabilidade de jantar comigo durante todos os dias em que eu estive em Tóquio. E ali ela viu grande parte dos meus companheiros de viagem (os tais dos seniores) e com uma voz muito sumida e entre dentes ela perguntou-me: "Mas como é que tu te infiltraste aqui?"
Mas houve uma altura que marcou toda a diferença pelo inusitado da situação. Quando eu há uns anos fui ao Perú, eu viajei também e na companhia de gente idosa. Ficava algumas vezes a comer na mesa que era ocupada por dois casais de octogenários, porém bem enxutos. André que teria sensivelmente 88 anos viajara com Rosalina, que era sua esposa há sessenta Primaveras. André era um cavalheiro algo sorumbático, pois não se ria com muita facilidade. Porém, com o continuar da conversa, ele ia cedendo e ia rindo qualquer coisa. Depois, um bocadinho mais. Como ele era pessoa que não devia de estar nada habituada a rir, ele ria silenciosamente, ou seja, abria a boca e mostrava os dentes (creio que o que mostrava... era a dentadura), contudo ele "gargalhava" sem emitir qualquer som. O casal amigo que lá estava também, ao olhar para André e ao vê-lo naquela situação, dizia um para o outro: "Olha para o André? Ele está a rir-se!" Pela conversa percebi, que essa era uma situação de tal forma  rara de ser admirada, que era vista pelos assistentes da cena, com muita perplexidade. E diria mesmo, com alguma preocupação.
Mas quando chegámos às elevadas altitudes de 4000 metros, era conveniente adequarmo-nos às novas condições. Não é fácil aguentar tanta altitude de repente. É conveniente ir subindo gradual e progressivamente a fim de que o corpo de vá habituando à rarefacção do oxigénio. É muito conveniente sermos cuidadosos para não virmos a sofrer do "Mal da Montanha". E é também imperioso tomarmos mate de coca, que no fundo nada mais é que uma efusão de folhas de coca. E mais informo, ao beber-se aquilo ninguém fica delirante, mas consta que a sua toma é altamente recomendável, para todo aquele que se propõe a subir a elevadas altitudes. Ora estava eu e o meu amigo Renato (que tem sensivelmente a mesma idade que eu), a degustarmos o tal de mate de coca, quando o pimpão do André se abeira de mim, e sorrateiramente, (tal qual e da mesma forma como se riu) me diz: "Ah! Tivesse eu menos trinta anos e você não me escapava!" Eu sorri, mas o meu sorriso durou muito pouco tempo. É que mesmo ao meu lado e a "bufar fogo",  estava a desconfiada e ciumenta Rosalina que num rompante me disse: "Mas para que é que se está a meter com o meu André, que tem idade para ser... seu avô?" 
Eu confesso, não havia dirigido qualquer palavra ao senhor, e foi o que respondi à sua sacrossanta esposa. Mas ela não acreditou. E desde ali ela ficou a odiar-me. E acreditem: ela nem sequer quis ser minha amiga no Facebook.
Já em Machu Picchu conheci uma senhora encantadora. Ela era uma vigorosa e muito corajosa norte-americana. Teria oitenta e tal anos e era do Connecticut. A senhora almoçou na nossa mesa e como ela sorria para nós! Depois e num claríssimo inglês, muito superior ao meu sofrível entendimento, ela contou-nos um pouco da sua história recente. E ria muito enquanto discursava. Informou-nos a mim e a uma amiga (da minha idade que na altura me acompanhava), que viajava sempre sozinha. A sua família estava sempre muito preocupada com ela, mas ela não queria saber disso para nada. A vida era dela. Ela já era maior e vacinada havia já muitos anos, pelo que fazia aquilo que bem entendia. E se o gosto dela era viajar, a família não tinha outro remédio senão aceitar e dar graças a Deus pela genica daquela muito simpática "avozinha". Viajaria até ter recursos e condições. E bem poderia ser, até à última e decisiva viagem que a levaria deste mundo. A ela e a todos nós porque nisso... há democracia.
Por ser tão velhinha e andar sempre só, ela chamava obrigatoriamente à atenção. Por isso ela também não se preocupava demasiadamente com nada. É que toda a gente ao vê-la assim tão idosa e tão simpática, sentia-se impelida a ajudá-la de forma a  facilitar-lhe a vida. E mais nos disse, aquela doce anciã, ela nem sequer sabia onde é que ia dormir naquela noite. Mas também não estava muito preocupada, pois tudo se havia de arranjar. Como era costume, pois ela contava sempre com muito auxílio. E contou também com a minha eterna e infinita admiração. E digam lá que não existem vidas abençoadas?
Sugestão de leitura para esta semana (mais uma sugestão light): "A Matilha dos Herdeiros" de Gaby Hauptmann
DIVIRTAMSEMAZÉ! E votos de boas leituras. Light's ou não, o importante é ler.


E como eu gosto de ver neste vídeo a senhora mais baixinha? Faz-me tanto lembrar a minha avó materna!!!

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