Aquelas amigas resolveram
criar uma tradição. Se pensarmos bem, todas as tradições devem de ter tido um
início. Um dia em que se criou uma necessidade para repetir. Sempre! Um momento
situado in secolum seculorum, ou até
nem tanto assim. Existem contudo tradições que até já nem deviam existir. Não
fazem sentido, tomates! Maltratar animais, por exemplo, é uma das piores
infâmias.
Mas esse não é definitivamente
o sentido que hoje deverá levar esta historieta sem maiores implicações. Pelo
menos é o que se espera. Acontece que aquelas três amigas resolveram que a
partir daquele dia, iriam, mais ou menos uma vez por mês, cozinhar umas para as
outras. E levavam depois o pitéu… para o seu/delas local de trabalho. Desta
maneira, para além de comerem melhor e mais baratinho, tinham também a
oportunidade de pôr a conversa em dia. E reforçar imensamente os seus laços de
amizade.
E aquele dia preciso, caberia
a Josefina cozinhar. E pretendia cozinhar um pitéu que muito havia gostado num
passado bem recente, mas que ainda não lhe havia decorado devidamente as
características.
No dia anterior Josefina quase
que tinha uma certeza: tudo o que ela necessitava ela tinha em casa. OS
ingredientes, devidamente resguardados e acondicionados, haviam sobrado lá da
outra vez. Não sabia era exactamente quais as quantidades e ainda qual os timings necessários. Não sabia porque estava
tudo documentado naquele excelente blogue da grande casa que é a Internet. E
estava por isso descansada. Tinha a receita… à distância de um clique.
À noite que antecederia o
“combíbio”, Josefina dirigiu-se à casa paterna. Era lá que ela iria cozinhar.
Mas lá de dentro saiu-lhe um preocupadíssimo pai que lhe comunicou: “Que não
havia Internet!”, dissera-lhe ele aflito. “Nem telefone”, continuara o mesmo quase
em lágrimas. Ele que quisera tanto avisar a descendente de tão grave
problemática. A mesma que o havia impedido de ler os jornais online. De consultar a cotação da bolsa.
De calcorrear pela página da Bíblia Sagrada, no seu dia-a-dia. Nem sequer havia
visualizado aquele vídeo mais maroto, que ele julgava que a filha não tomara
conhecimento. Já que ela, de vez em quando, tanto se divertir a consultar-lhe secretamente
o seu histórico.
“Pois”, reafirmava o idoso. “Ele
estava para ali desligado do mundo”. Não havia tido qualquer divertimento. Só
lhe restava a televisão que já tanto o entediava. “E se calhar”, devia de estar
ele a pensar, “era a altura mais que certa de ter finalmente um telemóvel. De
acabar com aquela birra pessoal”. É que já toda a gente o tinha. E para cima da
décima quinta geração. Até mesmo a trineta da vizinha da cave!…
E a filha tranquilizou-o. “Que
tivesse calma”, “que se iria já telefonar para a PT”. Mas como, se o telefone também
não funcionava. E o telemóvel da filha? Pois estava com pouco saldo, vitimado por
esta imensa e eterna crise lusitana. Com tanta austeridade! “No dia seguinte
logo se veria”, tentava tranquiliza-lo a descendente.
Só que a Josefina verificou
que tinha um problema, um imenso problema até. Onde raio é que ela ia consultar
a receita gastronómica e requintada que levaria para as amigas no dia de
amanhã? É que ela não poderia falhar. Já as amigas nunca haviam falhado. E utilizar
o recurso de ir comprar um frango assado à churrasqueira da esquina, não era
definitivamente… a mesma coisa.
Josefina pensou, e tornou a
pensar. E achou que os seus vizinhos do terceiro andar, eram bem capazes de ter
Internet. Pelo menos eram aqueles que ela mais havia saudado. Não lhes sabia
era o nome. E o Wireless deles bem poderia
funcionar no seu famélico telelé. E se assim bem o pensou, melhor o fez. Pediu um
papel e uma caneta ao pai, subiu, um lanço, dois lanços, quatro lanços de
escadas e bateu na bendita da porta. E esperou por ali, petrificando um tímido sorriso
no rosto. Passado um momento que lhe pareceu uma eternidade ela ouviu do lado
de lá:
“Mas quem é?”
“Sou eu, a vizinha do Rés-do-chão.”,
respondeu Josefina, com toda a sua muito estudada simplicidade
“Um momento vizinha, é eu
estou em cuecas!”
“Oh raios!”, pensou Josefina,
“Como se não bastasse o facto de não ter a Internet, ainda vinha perturbar a
vizinhança, quando a mesma estava… em trajes menores”. E a fazer o quê?
Josefina pensou ali seriamente
em descer as escadas, e esquecer definitivamente aquele sucedido. Só que não
podia, não é? Incomodado, ela já havia conseguido. E depois o vizinho ainda
ficaria a pensar, aquilo que já era bem capaz de suspeitar. Que aquela vizinha
dos andares baixios, era bem capaz de ter um nível reduzido de entendimento.
Afinal viera bater à porta, viera incomodar, para depois (e sem dizer ao que
vinha), ir toda gaiteira, escada abaixo. Era ou não era maluca?
Pelo exposto, e reservando
para si alguma serenidade, Josefina resolveu esperar. E que acontecesse o que
tivesse que acontecer.
Passado pouco tempo, abre-se aquela
porta. O vizinho com ar ensonado, mas composto, pergunta-lhe o que é que ela
pretendia? Resposta pronta da Josefina. “Preciso de aceder à Internet, e tenho a certeza que o senhor
a tem. Não se importava de me ceder o seu username
que eu mesmo aqui nas escadas acedo, e vejo uma receitinha que me faz tanta falta?”
“Mas afinal o que é que quer
mesmo?” Pareceu-lhe gritar aquela sua vizinhança.
Josefina não sabia como evitar
tanto transtorno. Afinal fora ela que começara. Se calhar o melhor mesmo, era
pedir desculpas pelo sucedido, descer as escadas e…”
“Oh vizinha”, continuou o
homem. “Eu tenho de facto Internet, mas ligo-me a ela através de um cabo. Nunca
me pus para aí nas escadas a ligar-me. Nunca disso tive necessidade. Além do
mais, trabalho de turnos e por isso estava a descansar, mas… a vizinha entre aí
para a sala e veja lá tudo aquilo que quiser!”
Se Josefina estava mal, ficou
ainda pior. O vizinho que “continuasse a por mais coisas na carta”. Não que o
vizinho fosse má pessoa, antes pelo contrário, não havia nunca, era ter-se conectado
à grande rede mundial de informação, sem os ricos fios. E depois? Se disso não
precisava… E agora, o que fazer? É que ali, já ele estava. O vizinho. Devidamente
acordado e já vestidinho. E além do mais a sala era logo ali ao lado. Pelo que,
de papel em punho, e de caneta na boca, Josefina segreda um “com licença” e
muito temerosamente ela entra por ali a dentro. É que a urgência era grande. E
a muita permanência ali, atendendo às circunstâncias, era de todo pouco
recomendada.
No percurso Josefina
vislumbrou que numa pequena cozinha, trabalhava uma sogra muito expedita e naturalmente
com o seu receituário todo bem memorizado. “Boa Noite, senhora. E desculpe esta
invasão”, foi o que se ofereceu dizer aquela quarentona bastante desmemoriada e
intrometida. A idosa simpaticamente correspondeu à saudação e voltou-se
placidamente para o lado da sua sopa borbulhante. No chão saltava também um
saudável e muito brincalhão canito que também muito se queria fazer notar.
Josefina entrou. O vizinho
ligou-lhe o computador. Josefina acedeu ao que queria. Começou a escrever, e…
milagre negativo, a caneta paterna acabava ali de falecer. Josefina ficou sem
pinga de sangue, mas também sem qualquer coragem de ali fazer mais pedidos. Só
esperava é que ninguém ali entrasse e lhe olhasse para o papel. É que ela
estava a escrever, mas nada se via. Quem sabe se colocando a folha perto de uma
chama de calor… Como fazia a espionagem, conseguisse recuperar algum tipo de
informação? Josefina queria ainda acreditar, no seu poder de (fraquíssima)
memorização. E também no poder da possibilidade de uma leitura futura aos frágeis
e muito enganadores sulcos feitos no papel. Ela só queria, era mesmo que
ninguém a estivesse a observar. É que de maluca… ela já não passava.
Acabada a mesma e achando, que
estava já safa, Josefina dirige-se à porta. A sogra estava na cozinha. O genro
também estaria em parte incerta, mas necessariamente próximo. Só que havia que
identificar a sua saída, ou não era? Ditam as leis da boa educação, que a
pessoa intrometida e chata, que acabou com a cálida paz de um lar que não é o
seu, quando dele sai, pelo menos se despeça, ou não é assim?
Só que a pancada da Josefina é
muitíssimo mais profunda. E também com laivos de superstição. Ela que jamais
fechava uma porta que não era a sua. Dissera-lhe a avó que, se assim o fizesse,
nunca mais ali voltava. Pelo que esboçando mais um sorriso ténue, ela lá pediu
à velhota o obséquio de… e lá lhe explicou toda aquela sua teoria.
A velha veio, a velha abriu a
porta. E surpreendentemente… a velha sorriu. A intrometida saiu. As boas-noites
foram dadas. E correspondidas. O genro também assinalou sua existência. Lá bem
ao fundo. E a Josefina quase que apostava que o pensamento da anciã foi mais ou
menos: “Mas o que é que te leva a pensar, que a tua vinda a esta casa seja mais
alguma vez desejada? Devias era mesmo abrir a porta, para ficarmos todos muito mais
descansados”.
Descidos os lanços da escada,
Josefina amargava um mau estar bem distinto. O que é que aquela gente haveria
de pensar?
Entrou em casa, foi lavar as
mãos, pôr o avental, reconhecer o canhenho e tentar exercitar a memória, quando
se lembrou: “E se eu desligasse o routter,
e depois o voltasse a ligar?”. Pois, fora exactamente esse pensamento que ela
deveria ter tido, um segundo antes de ter começado a subir aquelas escadas.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Bifes Mal Passados” de João Mangueijo.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


