Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vizinhos.



Aquelas amigas resolveram criar uma tradição. Se pensarmos bem, todas as tradições devem de ter tido um início. Um dia em que se criou uma necessidade para repetir. Sempre! Um momento situado in secolum seculorum, ou até nem tanto assim. Existem contudo tradições que até já nem deviam existir. Não fazem sentido, tomates! Maltratar animais, por exemplo, é uma das piores infâmias.
Mas esse não é definitivamente o sentido que hoje deverá levar esta historieta sem maiores implicações. Pelo menos é o que se espera. Acontece que aquelas três amigas resolveram que a partir daquele dia, iriam, mais ou menos uma vez por mês, cozinhar umas para as outras. E levavam depois o pitéu… para o seu/delas local de trabalho. Desta maneira, para além de comerem melhor e mais baratinho, tinham também a oportunidade de pôr a conversa em dia. E reforçar imensamente os seus laços de amizade.
E aquele dia preciso, caberia a Josefina cozinhar. E pretendia cozinhar um pitéu que muito havia gostado num passado bem recente, mas que ainda não lhe havia decorado devidamente as características.
No dia anterior Josefina quase que tinha uma certeza: tudo o que ela necessitava ela tinha em casa. OS ingredientes, devidamente resguardados e acondicionados, haviam sobrado lá da outra vez. Não sabia era exactamente quais as quantidades e ainda qual os timings necessários. Não sabia porque estava tudo documentado naquele excelente blogue da grande casa que é a Internet. E estava por isso descansada. Tinha a receita… à distância de um clique.
À noite que antecederia o “combíbio”, Josefina dirigiu-se à casa paterna. Era lá que ela iria cozinhar. Mas lá de dentro saiu-lhe um preocupadíssimo pai que lhe comunicou: “Que não havia Internet!”, dissera-lhe ele aflito. “Nem telefone”, continuara o mesmo quase em lágrimas. Ele que quisera tanto avisar a descendente de tão grave problemática. A mesma que o havia impedido de ler os jornais online. De consultar a cotação da bolsa. De calcorrear pela página da Bíblia Sagrada, no seu dia-a-dia. Nem sequer havia visualizado aquele vídeo mais maroto, que ele julgava que a filha não tomara conhecimento. Já que ela, de vez em quando, tanto se divertir a consultar-lhe secretamente o seu histórico.
“Pois”, reafirmava o idoso. “Ele estava para ali desligado do mundo”. Não havia tido qualquer divertimento. Só lhe restava a televisão que já tanto o entediava. “E se calhar”, devia de estar ele a pensar, “era a altura mais que certa de ter finalmente um telemóvel. De acabar com aquela birra pessoal”. É que já toda a gente o tinha. E para cima da décima quinta geração. Até mesmo a trineta da vizinha da cave!…
E a filha tranquilizou-o. “Que tivesse calma”, “que se iria já telefonar para a PT”. Mas como, se o telefone também não funcionava. E o telemóvel da filha? Pois estava com pouco saldo, vitimado por esta imensa e eterna crise lusitana. Com tanta austeridade! “No dia seguinte logo se veria”, tentava tranquiliza-lo a descendente.
Só que a Josefina verificou que tinha um problema, um imenso problema até. Onde raio é que ela ia consultar a receita gastronómica e requintada que levaria para as amigas no dia de amanhã? É que ela não poderia falhar. Já as amigas nunca haviam falhado. E utilizar o recurso de ir comprar um frango assado à churrasqueira da esquina, não era definitivamente… a mesma coisa.
Josefina pensou, e tornou a pensar. E achou que os seus vizinhos do terceiro andar, eram bem capazes de ter Internet. Pelo menos eram aqueles que ela mais havia saudado. Não lhes sabia era o nome. E o Wireless deles bem poderia funcionar no seu famélico telelé. E se assim bem o pensou, melhor o fez. Pediu um papel e uma caneta ao pai, subiu, um lanço, dois lanços, quatro lanços de escadas e bateu na bendita da porta. E esperou por ali, petrificando um tímido sorriso no rosto. Passado um momento que lhe pareceu uma eternidade ela ouviu do lado de lá:
“Mas quem é?”
“Sou eu, a vizinha do Rés-do-chão.”, respondeu Josefina, com toda a sua muito estudada simplicidade
“Um momento vizinha, é eu estou em cuecas!”
“Oh raios!”, pensou Josefina, “Como se não bastasse o facto de não ter a Internet, ainda vinha perturbar a vizinhança, quando a mesma estava… em trajes menores”. E a fazer o quê?
Josefina pensou ali seriamente em descer as escadas, e esquecer definitivamente aquele sucedido. Só que não podia, não é? Incomodado, ela já havia conseguido. E depois o vizinho ainda ficaria a pensar, aquilo que já era bem capaz de suspeitar. Que aquela vizinha dos andares baixios, era bem capaz de ter um nível reduzido de entendimento. Afinal viera bater à porta, viera incomodar, para depois (e sem dizer ao que vinha), ir toda gaiteira, escada abaixo. Era ou não era maluca?
Pelo exposto, e reservando para si alguma serenidade, Josefina resolveu esperar. E que acontecesse o que tivesse que acontecer.
Passado pouco tempo, abre-se aquela porta. O vizinho com ar ensonado, mas composto, pergunta-lhe o que é que ela pretendia? Resposta pronta da Josefina. “Preciso de aceder à Internet, e tenho a certeza que o senhor a tem. Não se importava de me ceder o seu username que eu mesmo aqui nas escadas acedo, e vejo uma receitinha que me faz tanta falta?”
“Mas afinal o que é que quer mesmo?” Pareceu-lhe gritar aquela sua vizinhança.
Josefina não sabia como evitar tanto transtorno. Afinal fora ela que começara. Se calhar o melhor mesmo, era pedir desculpas pelo sucedido, descer as escadas e…”
“Oh vizinha”, continuou o homem. “Eu tenho de facto Internet, mas ligo-me a ela através de um cabo. Nunca me pus para aí nas escadas a ligar-me. Nunca disso tive necessidade. Além do mais, trabalho de turnos e por isso estava a descansar, mas… a vizinha entre aí para a sala e veja lá tudo aquilo que quiser!”
Se Josefina estava mal, ficou ainda pior. O vizinho que “continuasse a por mais coisas na carta”. Não que o vizinho fosse má pessoa, antes pelo contrário, não havia nunca, era ter-se conectado à grande rede mundial de informação, sem os ricos fios. E depois? Se disso não precisava… E agora, o que fazer? É que ali, já ele estava. O vizinho. Devidamente acordado e já vestidinho. E além do mais a sala era logo ali ao lado. Pelo que, de papel em punho, e de caneta na boca, Josefina segreda um “com licença” e muito temerosamente ela entra por ali a dentro. É que a urgência era grande. E a muita permanência ali, atendendo às circunstâncias, era de todo pouco recomendada.
No percurso Josefina vislumbrou que numa pequena cozinha, trabalhava uma sogra muito expedita e naturalmente com o seu receituário todo bem memorizado. “Boa Noite, senhora. E desculpe esta invasão”, foi o que se ofereceu dizer aquela quarentona bastante desmemoriada e intrometida. A idosa simpaticamente correspondeu à saudação e voltou-se placidamente para o lado da sua sopa borbulhante. No chão saltava também um saudável e muito brincalhão canito que também muito se queria fazer notar.
Josefina entrou. O vizinho ligou-lhe o computador. Josefina acedeu ao que queria. Começou a escrever, e… milagre negativo, a caneta paterna acabava ali de falecer. Josefina ficou sem pinga de sangue, mas também sem qualquer coragem de ali fazer mais pedidos. Só esperava é que ninguém ali entrasse e lhe olhasse para o papel. É que ela estava a escrever, mas nada se via. Quem sabe se colocando a folha perto de uma chama de calor… Como fazia a espionagem, conseguisse recuperar algum tipo de informação? Josefina queria ainda acreditar, no seu poder de (fraquíssima) memorização. E também no poder da possibilidade de uma leitura futura aos frágeis e muito enganadores sulcos feitos no papel. Ela só queria, era mesmo que ninguém a estivesse a observar. É que de maluca… ela já não passava.
Acabada a mesma e achando, que estava já safa, Josefina dirige-se à porta. A sogra estava na cozinha. O genro também estaria em parte incerta, mas necessariamente próximo. Só que havia que identificar a sua saída, ou não era? Ditam as leis da boa educação, que a pessoa intrometida e chata, que acabou com a cálida paz de um lar que não é o seu, quando dele sai, pelo menos se despeça, ou não é assim?
Só que a pancada da Josefina é muitíssimo mais profunda. E também com laivos de superstição. Ela que jamais fechava uma porta que não era a sua. Dissera-lhe a avó que, se assim o fizesse, nunca mais ali voltava. Pelo que esboçando mais um sorriso ténue, ela lá pediu à velhota o obséquio de… e lá lhe explicou toda aquela sua teoria.
A velha veio, a velha abriu a porta. E surpreendentemente… a velha sorriu. A intrometida saiu. As boas-noites foram dadas. E correspondidas. O genro também assinalou sua existência. Lá bem ao fundo. E a Josefina quase que apostava que o pensamento da anciã foi mais ou menos: “Mas o que é que te leva a pensar, que a tua vinda a esta casa seja mais alguma vez desejada? Devias era mesmo abrir a porta, para ficarmos todos muito mais descansados”.
Descidos os lanços da escada, Josefina amargava um mau estar bem distinto. O que é que aquela gente haveria de pensar?
Entrou em casa, foi lavar as mãos, pôr o avental, reconhecer o canhenho e tentar exercitar a memória, quando se lembrou: “E se eu desligasse o routter, e depois o voltasse a ligar?”. Pois, fora exactamente esse pensamento que ela deveria ter tido, um segundo antes de ter começado a subir aquelas escadas.

Sugestão de leitura para esta semana: “Bifes Mal Passados” de João Mangueijo.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

À Grande Mãe Rússia.





O passeio prometia. A viagem dividir-se-ia entre a cidade de Sampertersburgo, durante mais tempo, e finalizar-se-ia em Moscovo. Isto tendo uma viagem de comboio de intermeio, que ligaria desta maneira aquelas duas cidades.
E de nada valeram os inúmeros apelos dirigidos por muitos a que ali não fossemos. É que a Ucrânia fica longe e, se tivermos assim tanto medo de viajar, por perspectivarmos todos os piores cenários, o mais certo seria, permanecermos sempre em casa, dentro da nossa zona de conforto, que por vezes é só uma máscara qualquer.
Mas a ligação não foi directa. Regra geral nunca é. Tivemos então que pousar nos aeroportos da Merkl. E foram também os seus aviões que nos levariam até à Rússia.
Mas já na pista do Aeroporto da primeira cidade russa por nós visitada, quando o avião já se encontrava totalmente imobilizado e as pessoas, (fartas de não se mexerem), se levantavam e começavam a abrir as “bagageiras”, tentando recuperar os seus pertences de mão, que a abertura das portas seria adiada até ao impossível. Mas o que é que se estava a passar? Perguntávamos-mos todos já levemente preocupados. Será que os ucranianos já aqui chegaram? Será que já adivinharam a nossa chegada?
No ar, ouvia-se por fim a voz do comandante, já algo transtornado com a situação, que dizia não estar a entender nada do que por ali se estava a passar. E se ele não percebia… Ele que dizia já ter requerido as escadas para que a saída dos passageiros fosse possível. Só que do lado dos russos... pois népias.
Depois de mais um tempo inglório, que nos pareceu eterno, de espera, as malas pequenas eram convictamente esmagadas por dedos nervosos. Sentar é que não, pois já haviam bastado as [poucas] horas da viagem. E finalmente lá veio a explicação. Pois o que acontecera é que entre nós, vinha também uma personalidade muito importante. Necessariamente na Executiva. Ninguém soube aliás quem era. Pois. E enquanto essa pessoa Vipesca não saísse do avião, mais ninguém poderia sair dali. Há ou não há, diferenciação no tratamento? Somos ou não somos importantes aos olhos de alguns? Aquele ser iluminado, que repito, ninguém soube quem era, não se poderia misturar naquela turba esmagadora de povaréu. Mas, e como é que ele concedeu em viajar connosco, pobres mortais?  Simples e lamentáveis traças humanas! Dividir o mesmo ar que nós, que mais nada somos que simples ralé. Sim, porque apesar de tudo, aquela cortina de separação pareceu-me sempre muito suspeita.
Depois e, finalmente lá saímos dali. O Ser Importante já estaria a milhas, pois é claro! Restava-nos então sair e ir tentar recuperar as nossas bagagens de porão. Que geralmente se fazem num tapete só, correspondente a um determinado voo. Pois ali, não foi nada assim. Pelo que se juntaram os passageiros de três aviões à roda no mesmo tapete. Confraternizando assim todos e à mistura. É bom de ver que as malas nunca mais chegavam, por mais que os nossos corpos já cansaditos as desejassem. E os contornos dos outros corpos, e o calor que dali decorreria, eram mais do que evidentes. Eu que jamais me havia perdido por aqueles lados, entrei assim com o pé direito, ou seja, conheci ali muita gente ao nível do odor corporal, assim com a real textura das suas vestimentas. Mas não seria daquele tapete que a minha mui modesta malinha apareceria, há pois não! Já que a mesma é notoriamente tão independente como a sua própria dona. Pelo que andava noutro tapete, solitária mas muito orgulhosamente só. Mas que voluntariosa que é a minha malinha!
Depois foi a vez de finalmente vislumbrarmos a cidade. A primeira cidade do "Programa de Festas". E que maravilha que é a cidade de São Petersburgo! Toda ela é elegância. Toda ela é magnificência. Toda ela é glamour. E que belos casarios por ali se construíram! A arquitectura tem a graciosidade típica do melhor, dos mais consagrados arquitectos italianos de outrora, que por ali tanto idealizaram. E a História está sempre ali ao virar de todas as esquinas. Os canais são belíssimos. E o que de lá dá para ver, também é fabuloso.  E que maravilha foi, assistir ao pôr-do-sol às onze e meia da noite!
Destaco a catedral de Santo Isaac e principalmente a Igreja do Sangue Derramado, também conhecida pela Igreja da Ressurreição do Salvador. É belíssima. E ao pé. É que as fotografias, por mais bem conseguidas que sejam, deixam sempre muito a desejar.
Depois veio o Hermitage. Que maravilha também! Com tantas e tão importantes obras de arte… Só que aqui eu destaco negativamente uma coisa. É certo que cada vez existem mais turistas. E ainda bem que assim é. Eu adoro viajar e também gosto que os outros viajem mas… para quê tirar tanto retrato? Deus do Céu! A palavra de ordem que mais se ouve em viagem é: “por favor saia, que estou a tentar tirar um retrato”. A pessoa anda ali toda contente e… lá se tem que desviar. Quando a situação se dá na rua a coisa ainda escapa. Vai-se para o outro lado da rua e pronto. É muito desagradável, mas… O pior é quando a coisa se passa mesmo dentro dos Museus. E no Hermitage… Com toda a gente a disparar. “Os flashs é que fazem mal à peça e tal", mas… fotografa-se sem flash e pronto… O pior mesmo é quando se quer ver descansadamente um quadro e… só se conseguem ver cabeças e máquinas retrateiras. Existem por exemplo lá duas telas exíguas, mas necessariamente de imenso valor, da autoria do Leonardo Da Vinci. O tal do código. Pois eu não as consegui sequer vislumbrar. Nem sequer as suas moldura. As mesmas estavam completamente cercadas por duzentos e noventa e um chineses que envergavam duzentas e noventa e sete máquinas. Ao lado estavam outros tantos japoneses. Mas para que é que é aquilo, senhores? Só para dizerem mesmo que estiveram lá. Mas para quê tantos e tão inflamados egos? A dada altura eu assisti a uma coisa que me arrepiou todos os cabelos do corpo. Sem excepção. Então não era que para se conseguirem os melhores lugares em tamanhas enchentes, havia até já um individuo que empurrava a sua parceira para cima dos outros todos? É que assim sempre desmobilizava um pouco toda aquela imensa multidão. E depois, no meio da confusão, a tal prevenida projéctil humana, lá disparava a maquineta. E sorria posteriormente, envergando um ar de vencedora. Isso passou-se mesmo, meus amigos. Eu assisti. Lamentavelmente.
O que eu questiono é o seguinte: Será que alguém tem tempo para visualizar os milhões de fotografias que consegue? Haverá paciência e Facebook suficiente para ocupar tanta gente? E depois, será que alguém viu efectivamente e com olhos de ver, os tais quadros? Teve a preocupação de se informar devidamente sobre a vida e a obra de tais artistas? Da sua importância no seu contexto vivêncial. E no panorama artístico global? Queira Deus que sim, mas eu desconfio… que não. É que existem catálogos fabulosos, com reproduções fotográficas de grande valor na Biblioteca Publica mais perto de si. E na Internet, senhores! Então para quê tanta azafama?
E depois eu penso nos directores de tão importantes Museus. O que é que eles pensarão a respeito? Será que não seria bom proibir de vez tais sessões fotográficas? Proibir é mau, eu sei e é atitude ditatorial e tal, mas vejamos… é que a liberdade deles, de se porem ali a fotografar, vai contra a minha própria. É que eu só pretendia visualizar os quadros que ali permanecem. Foi esse o meu objectivo. Foi também o que me levou ali. E depois, será pedir muito querer ver um Museu em paz? Acho que não. É que não tenho tempo, nem disponibilidade financeira, para me dirigir ali muitas mais vezes. Todas aquelas vezes que eu gostaria.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Sangue Frio” de Truman Capote.





DIVIRTAMSEMAZÉ!

Nota: Oh Filipe, a fotografia é sua! Desculpe-me o abuso.