O passeio prometia. A viagem dividir-se-ia entre a cidade de Sampertersburgo, durante mais tempo, e finalizar-se-ia em Moscovo. Isto tendo uma viagem de comboio de intermeio, que ligaria desta maneira aquelas duas cidades.
E de nada valeram os inúmeros apelos
dirigidos por muitos a que ali não fossemos. É que a Ucrânia fica longe e, se
tivermos assim tanto medo de viajar, por perspectivarmos todos os piores cenários,
o mais certo seria, permanecermos sempre em casa, dentro da nossa zona de conforto, que por
vezes é só uma máscara qualquer.
Mas a ligação não foi directa. Regra
geral nunca é. Tivemos então que pousar nos aeroportos da Merkl. E foram também
os seus aviões que nos levariam até à Rússia.
Mas já na pista do Aeroporto da
primeira cidade russa por nós visitada, quando o avião já se encontrava
totalmente imobilizado e as pessoas, (fartas de não se mexerem), se levantavam e
começavam a abrir as “bagageiras”, tentando recuperar os seus pertences de mão,
que a abertura das portas seria adiada até ao impossível. Mas o que é que se estava
a passar? Perguntávamos-mos todos já levemente preocupados. Será que os
ucranianos já aqui chegaram? Será que já adivinharam a nossa chegada?
No ar, ouvia-se por fim a voz do
comandante, já algo transtornado com a situação, que dizia não estar a entender
nada do que por ali se estava a passar. E se ele não percebia… Ele que dizia já
ter requerido as escadas para que a saída dos passageiros fosse possível. Só
que do lado dos russos... pois népias.
Depois de mais um tempo inglório,
que nos pareceu eterno, de espera, as malas pequenas eram convictamente esmagadas
por dedos nervosos. Sentar é que não, pois já haviam bastado as [poucas] horas
da viagem. E finalmente lá veio a explicação. Pois o que acontecera é que entre
nós, vinha também uma personalidade muito importante. Necessariamente na Executiva. Ninguém soube aliás quem era. Pois. E enquanto essa pessoa Vipesca não
saísse do avião, mais ninguém poderia sair dali. Há ou não há, diferenciação no
tratamento? Somos ou não somos importantes aos olhos de alguns? Aquele ser
iluminado, que repito, ninguém soube quem era, não se poderia misturar naquela
turba esmagadora de povaréu. Mas, e como é que ele concedeu em viajar connosco,
pobres mortais? Simples e lamentáveis traças humanas! Dividir o mesmo ar que nós, que mais nada somos que simples ralé.
Sim, porque apesar de tudo, aquela cortina de separação pareceu-me sempre muito
suspeita.
Depois e, finalmente lá saímos
dali. O Ser Importante já estaria a milhas, pois é claro! Restava-nos então sair e ir tentar recuperar as nossas bagagens de porão. Que geralmente se fazem
num tapete só, correspondente a um determinado voo. Pois ali, não foi nada assim.
Pelo que se juntaram os passageiros de três aviões à roda no mesmo tapete.
Confraternizando assim todos e à mistura. É bom de ver que as malas nunca mais chegavam,
por mais que os nossos corpos já cansaditos as desejassem. E os contornos dos
outros corpos, e o calor que dali decorreria, eram mais do que evidentes. Eu
que jamais me havia perdido por aqueles lados, entrei assim com o pé direito,
ou seja, conheci ali muita gente ao nível do odor corporal, assim com a real
textura das suas vestimentas. Mas não seria daquele tapete que a minha mui modesta malinha apareceria,
há pois não! Já que a mesma é notoriamente tão independente como a sua própria dona. Pelo
que andava noutro tapete, solitária mas muito orgulhosamente só. Mas que voluntariosa que é a minha malinha!
Depois foi a vez de finalmente vislumbrarmos
a cidade. A primeira cidade do "Programa de Festas". E que maravilha que é a cidade de São
Petersburgo! Toda ela é elegância. Toda ela é magnificência. Toda ela é glamour. E que belos casarios por ali se
construíram! A arquitectura tem a graciosidade típica do melhor, dos mais consagrados arquitectos italianos de outrora, que por ali tanto idealizaram. E a História
está sempre ali ao virar de todas as esquinas. Os canais são belíssimos. E o
que de lá dá para ver, também é fabuloso. E que maravilha foi, assistir ao pôr-do-sol às onze e meia da noite!
Destaco a catedral de Santo Isaac
e principalmente a Igreja do Sangue Derramado, também conhecida pela Igreja da
Ressurreição do Salvador. É belíssima. E ao pé. É que as fotografias, por mais
bem conseguidas que sejam, deixam sempre muito a desejar.
Depois veio o Hermitage. Que
maravilha também! Com tantas e tão importantes obras de arte… Só que aqui eu destaco
negativamente uma coisa. É certo que cada vez existem mais turistas. E ainda
bem que assim é. Eu adoro viajar e também gosto que os outros viajem mas… para
quê tirar tanto retrato? Deus do Céu! A palavra de ordem que mais se ouve em
viagem é: “por favor saia, que estou a tentar tirar um retrato”. A pessoa anda
ali toda contente e… lá se tem que desviar. Quando a situação se dá na rua a
coisa ainda escapa. Vai-se para o outro lado da rua e pronto. É muito desagradável,
mas… O pior é quando a coisa se passa mesmo dentro dos Museus. E no Hermitage… Com toda
a gente a disparar. “Os flashs é que fazem mal à peça e tal", mas… fotografa-se
sem flash e pronto… O pior mesmo é quando se quer ver descansadamente um quadro
e… só se conseguem ver cabeças e máquinas retrateiras. Existem por exemplo lá
duas telas exíguas, mas necessariamente de imenso valor, da autoria do Leonardo
Da Vinci. O tal do código. Pois eu não as consegui sequer vislumbrar. Nem
sequer as suas moldura. As mesmas estavam completamente cercadas por duzentos e
noventa e um chineses que envergavam duzentas e noventa e sete máquinas. Ao
lado estavam outros tantos japoneses. Mas para que é que é aquilo, senhores? Só
para dizerem mesmo que estiveram lá. Mas para quê tantos e tão inflamados egos?
A dada altura eu assisti a uma coisa que me arrepiou todos os cabelos do corpo.
Sem excepção. Então não era que para se conseguirem os melhores lugares em
tamanhas enchentes, havia até já um individuo que empurrava a sua parceira para
cima dos outros todos? É que assim sempre desmobilizava um pouco toda aquela
imensa multidão. E depois, no meio da confusão, a tal prevenida projéctil
humana, lá disparava a maquineta. E sorria posteriormente, envergando um ar de
vencedora. Isso passou-se mesmo, meus amigos. Eu assisti. Lamentavelmente.
O que eu questiono é o seguinte:
Será que alguém tem tempo para visualizar os milhões de fotografias que
consegue? Haverá paciência e Facebook
suficiente para ocupar tanta gente? E depois, será que alguém viu efectivamente
e com olhos de ver, os tais quadros? Teve a preocupação de se informar devidamente
sobre a vida e a obra de tais artistas? Da sua importância no seu contexto
vivêncial. E no panorama artístico global? Queira Deus que sim, mas eu
desconfio… que não. É que existem catálogos fabulosos, com reproduções
fotográficas de grande valor na Biblioteca Publica mais perto de si. E na Internet, senhores! Então para quê tanta
azafama?
E depois eu penso nos directores
de tão importantes Museus. O que é que eles pensarão a respeito? Será que não
seria bom proibir de vez tais sessões fotográficas? Proibir é mau, eu sei e é
atitude ditatorial e tal, mas vejamos… é que a liberdade deles, de se porem ali a
fotografar, vai contra a minha própria. É que eu só pretendia visualizar os
quadros que ali permanecem. Foi esse o meu objectivo. Foi também o que me levou
ali. E depois, será pedir muito querer ver um Museu em paz? Acho que não. É que
não tenho tempo, nem disponibilidade financeira, para me dirigir ali muitas mais
vezes. Todas aquelas vezes que eu gostaria.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Sangue Frio” de Truman Capote.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: Oh Filipe, a fotografia é sua! Desculpe-me o abuso.
Nota: Oh Filipe, a fotografia é sua! Desculpe-me o abuso.

2 comentários:
A foto foi publicada por mim, mas não foi tirada por mim. Ninguém me convidou a dar uma voltinha de helicóptero para poder tirar uma foto assim, mas como a ela tive acesso, publiquei-a e fez muito bem em usá-la. Será para mim uma honra e nunca um roubo sempre que utilize algo que eu tenha publicado.
Muito obrigada, Filipe.
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