Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 30 de março de 2012

O fascínio do "Lopez".



Acácio Lopes nasceu bem disposto. E para cumprir tal destino o melhor mesmo é, soltar alegres e sonoras gargalhadas. E é melhor não contrariar a vontade e até morrer. Se formos contra os nossos princípios pode dar-se o caso de termos que cá vir outra vez, mas na condição de... sorumbaticos!... Ai credo!
Por tudo isso, Acácio fez rir toda uma panóplia de amigos e conhecidos. E agora tudo indica que as suas gargalhadas continuam, mas agora num plano superior e de acesso dificultado.
Lopes veio ao mundo numa pequena aldeia situada bem no centro do país. De famílias pobres, o nosso herói de hoje nunca aprendeu a ler. Contudo tinha a experiência da vida o que já não é nada pouco. Ainda em solteiro, o Lopes fez uma linda aposta com os seus numerosos amigos. Apostou uma grande almoçarada em como conseguia vir todo nu e de bicicleta, de uma pequena cidade até à sua aldeia natal. Faria desta feita e desnudado o total de vinte e sete quilómetros. No dia aprazado para tão distinta prova, o Acácio Lopes apresentou-se com a sua melhor fatiota, contudo e ao aproximar-se o toque da partida, o jovem despiu-se todo e pôs-se a pedalar furiosamente na sua pasteleira de  duas rodas. De inicio, ele estranhou um bocado a aragem que teimava em subir por ele acima. Depois veio mesmo algum vento que teimava em chocar com ele e lhe arrepiar a totalidade da sua pilosidade. Pilosidade essa agora totalmente exposta às condições atmosféricas. Mas depois e com a continuação da função, o Lopes até achou graça àquilo tudo e pôs-se alegremente a cantar em alta voz (e sem microfone), a sua cantiga preferida. Começou assim a cantar a "Pestotira". 
Mas quando estava já quase a terminar aquela invulgar prova, apercebe-se que o seu grande amigo António vem ao seu encontro. Vem também de bicicleta e a grande velocidade. Lopes estranhou ali aquela presença, pois tudo indicava que António e os outros amigos conhecedores daquela aposta estariam todos reunidos no local da chegada. Com o aproximar do outro, Lopes fica algo preocupado com a facies do amigo. Ao que parecia a coisa era séria. António quase sem forças, diz ao Lopes que este tinha que arrepiar caminho. É que se continuasse por aquele trilho combinado iria encontrar-se com um grupo de policiais que (e atendendo às circunstâncias), lhe iriam fazer a vida negra. Esta situação decorreu em plenos anos 30, o que significa dizer que decorreu... em pleno "reinado" do senhor de Santa Comba. 
Ao ouvir a advertência do amigo, o Acácio Lopes pensou e achou que a situação era séria, claro está. Porém também não era dramática. Nem poderia ser motivo suficiente para ele desistir e perder assim uma "almoçarada" que ele tanto desejava ganhar. Desistir logo agora, quando estava quase, quase a cumprir o combinado. Pelo que pensou, e resolveu continuar. Mas agora por um trilho alternativo. Não era a estrada principal, mas ia ter ao mesmo sítio que a outra. Ao local da meta. Por aquele caminho, Acácio teria hipótese de se aperceber com alguma distância se os policias ali o esperavam ou não. E depois se eles lá estivessem, sempre poderia fazer um compasso de espera. Ficaria recolhidinho no meio de densa folhagem. Pelo que, e muito corajosamente ele continuou a prova, só que agora por um caminho estreito, muito cheio de pedras e de buracos.
À chegada, o Acácio, foi recebido em ombros, porém com alguma descrição, não fosse dar-se o caso dos polícias estarem por ali perto e aperceberem-se de tal folgazedo. E era urgente o Acácio vestir-se. É que vestidinho, ninguém teria nada a apontar-lhe não é? Ficar assim muito decente e com um olhar terno e inocente. O olhar típico daquelas pessoas que não fazem mal a ninguém. Que nunca partem um prato.
Depois foi rumar à festarola e gargalhar até se perder o fôlego. O Acácio ficou contente. Superou mais um objectivo. Ganhou naturalmente a aposta. É certo que não havia vindo pelo caminho combinado, mas... desta maneira os policias não o haviam apanhado. É que seria muito dificil (mesmo para o Acácio Lopes), explicar às autoridades o porquê de estar nu e em cima de uma bicicleta. E depois ter que explicar e mostrar a vermelhidão (quase em carne viva), das sua formosas nádegas. Vermelhidão essa conseguida à custa de tanto pedalar. De tanto se roçar no selim. E de  saltar em cima de tanto buraco, de tanta pedra...
É que vendo bem as coisas, tudo indicava que os policias não o poderiam ajudar de forma alguma. Não se perspectivava que os mesmos andassem munidos de um qualquer creme hidratante. Ou mesmo de um vulgar pó de talco. Não!!!
O certo é que Acácio Lopes ficou para sempre com uma linda história para contar. E foi com um "andar novo" que ele acabou por ir ao almoço que se deu em sua honra. E aí naturalmente não faltaram muitos motivos para rir. De alguma maneira eu tenho em Acácio Lopes a figuração de um meu mentor espiritual. Um entre tantos.
Com o passar do tempo, Acácio conheceu o amor, casou e teve uma numerosa prole. Cedo contudo descobriu que o seu país natal não lhe garantia as condições necessárias para sobreviver com dignidade, nem a ele nem à sua numerosa família. Pelo que decidiu ir a salto para França. Não sei se levou uma mala de cartão ou se levou uma vulgar saca de serapilheira. Já na terra dos gauleses, ele trabalhou com muito afinco e dedicação. Contudo passado pouco tempo, quis a sorte e o destino que ele viesse a sofrer de um acidente laboral que lhe partiu uma perna. Teve por isso que ser hospitalizado. Muitas pessoas nas suas condições desesperavam e amaldiçoavam a sua sorte. Mas Acácio não procedeu assim. Em vez disso aproveitou (e muito bem), toda aquela situação. É certo que no início, ele estava imobilizado numa cama. Mas por lá não faltavam mulheres (médicas, enfermeiras, doentes e visitas de doentes). Pelo que, e sem ter grande conhecimento da língua  francesa o Acácio comunicou como sabia com toda a gente que lhe podia (ou queria) dar atenção, especialmente se a pessoa pertencesse ao sexo feminino. 
Acácio Lopes era um homem muito alto. Era forte. Tinha um riso permanente e contagiante. Tinha também uma palavra amiga e cativante. Com o decorrer do tempo e da permanência naquele hospital o Acácio começou a locomover-se com mais facilidade. E investiu ainda mais no conhecimento de outras mulheres que estavam ali a curar-se das suas mazelas. E foi tão bem sucedido enquanto engatatão, que arrasou por completo o coração de uma francesa vistosa. Uma mulher que também por ali estava e tal como ele também se encontrava a recuperar do seu estado de saúde. Acácio Lopes fazia gala em contar esta passagem que literalmente me deliciava. Eu achava que aquele era efectivamente o momento alto. O momento do clímax daquela narrativa.
O facto é que o Acácio Lopes recuperou mais cedo que a sua "amada francesa". E quando foi à hora da despedida... ele contava a sorrir: "Bem, fizemos aquilo que era esperado em tais situações, ou seja, abraçámo-nos, beijámo-nos e jurámos amor eterno." Lindo não é? "Depois" e continuava Lopes, "Soltámo-nos e seguiu cada um o seu caminho", ou seja, a francesa ficou no hospital, enquanto que o Acácio cambaleante lá saiu dali para fora. Já na rua, Acácio olha uma vez mais para a janela onde pressupostamente ainda estaria a sua recém apaixonada. E não é que ela estava lá mesmo? Pois estava. E muito emocionada. Agitava vigorosamente, não um lencinho, como aqueles que se usam em Fátima na Procissão do Adeus, mas... sim uma grande fronha de almofada, enquanto gritava: "Lopez, mon Lopez! Mon cher Lopez!".
O momento ali vivido, deve de ter sido muito emocionante. Acredito que algumas pessoas (mesmo as que lá trabalhavam), ao ouvirem aquela agonia, tivessem parado o que estavam a fazer, e discretamente tivessem a necessidade de enxugar uma lágrima mais persistente. Ou então uma lágrima mais caudalosa. Por outro lado, o tamanho grande da peça da roupa de cama, seria proporcional ao tamanho do afecto que ali nasceu. Sentimento assim com alguma volúpia à mistura, não é?  É que essas coisas fazem parte da vida. E depois haviam-se conhecido quando envergavam sexy's e muito reveladoras camisas de dormir. É um bocado como quem junta um molho de palha a um objecto incandescente. E depois o Acácio Lopes bem podia ter sido cognominado de... O Irresistível.
Já velhote ele foi a uma Festa dos Tabuleiros, que como se sabe, se realiza de quatro em quatro anos. Acácio estava regaladamente sentado naquele jardim da Roda de Madeira. Apreciava a vida e perguntava a outra senhora de idade que passava por ele se ela... era coxa há muito tempo. Mas de repente e sem que nada o fizesse prever, aproximou-se dele um grupo de senhoras de oitenta anos (raparigas do tempo dele). Todas aquelas moças de outrora, frequentavam um Lar de Dia. Vinham da capital da República. Naquele grupo vinha a Maria Clementina que era uma recém e muito jeitosa viúva. Para alegrar à festa vinham todas elas a manear as ancas e os ombros e a cantar a "Pestotira". A tal canção que o Acácio tanto cantara no seu tempo de juventude. Acácio olha para Clementina, esta olha para Acácio. Reconhece nele o seu amigo de infância. Estava muito mais velho é certo, mas os traços faciais ainda estavam lá todos. Assim como o seu olhar matreiro. Clementina fica algo ruborizada, afinal fora apanhada a cantar e a manear as ancas (e os ombros). E a cantar... a "Pestotira". É que o seu marido havia desencarnado havia tão pouco tempo. E... tal situação (o facto de ela ir ali a cantar a e manear as ancas e os ombros), ainda era muito mal vista no meio rural. O que é que os outros não iriam dizer? Bem, mas agora não havia jeito a dar. A melhor forma de proceder era... assumir-se. E foi assim que aqueles dois amigos do passado, se aproximaram, se beijaram (na cara obviamente), e deram um abracinho casto. E... muito felizes, eles trocaram doces palavras de reconhecimento, fazendo em simultâneo festinhas na cara um do outro. Como é bela a amizade!
Mas no fim o Acácio Lopes lá acabou por "rematar e fazer golo" com mais uma "preciosa pérola" da sua autoria. Já que em jeito de conclusão ele comunica à amiga que: "Ai Clementina, Clementina, ainda és mal empregada em dormir sozinha!"
Sugestão de leitura para hoje: "Os Homens Bronzeados são Bonitos" de Frank Ronan.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
 
 

sexta-feira, 23 de março de 2012

É Borda d'Água ou Borda Vinho?


Eu sou uma grande admiradora da publicação do Borda d'Água. Em menina e num simpático meio rural, via todos aqueles que eram idosos na altura (hoje infelizmente a grande parte deles já faleceu), comprarem todos os anos aquele "Verdadeiro Almanaque". Recordo com um sorriso no rosto, a minha vontade e curiosidade em ler as características de todos aqueles que tinham nascido no mesmo mês que eu. Invariavelmente lá estava escrito que: éramos pessoas decididas e líderes. Como amigos éramos do melhor, amigos fiéis e verdadeiros. Éramos ainda pessoas muito dedicadas à luta. Quantos de nós não enveredamos por uma carreira de eficientes praticantes de Sumo? Não desistimos facilmente das nossas ideias (tradução livre, somos teimosos com'o raio!). Somos também pessoas muito atentas. E é mesmo bom que o sejamos, especialmente nos dias de hoje, quando vamos nos transportes públicos. Temos que ter muito cuidado e atenção com os nossos cada vez mais parcos bens.
Fiquei também a saber que as pessoas que nasceram sobre o signo de Balança são diferenciadas das restantes. As mulheres são muito diferentes dos homens (muito para além das diferenças evidentes, dotados ou não de penduricalhos). De uma forma geral todos eles são honrados e venturosos. Só que as mulheres preferem viajar em vez de ficarem em casa. Chamem-lhes parvas! Assim é que é suas espertalhonas! DIVIRTAMSEMAZÉ!!! Contudo os homens são empreendedores e cuidados (tradução livre: preferem ficar em casa a fazer obras de melhoramentos vários. E preferem não viajar, para não correrem o risco de virem a sofrer algum acidente. Ou ainda para não gastarem as suas poupanças desalmadamente). Muito bem. Viva a diferença. Contudo será prudente, não se casarem entre si. Parece-me que tal ligação a fazer-se  iria criar muita confusão.
Bem, durante muitos anos eu li aquilo. Acreditava que as informações ali contidas, para além de absolutamente inquestionáveis provinham de mentes que tinham muito poder de alcance. Quem é que poderia adivinhar com tanto tempo de antecedência, o tempo que iria fazer no ano inteiro? Somente as pessoas que trabalhavam naquele "Reportório". Essas pessoas só poderiam ser mesmo muito dotadas. 
Naquele tempo, eu assistia na televisão (com algum enfado, há que confessar), às explicações intermináveis do Anthímio de Azevedo. E como aquele senhor era sábio. Tinha ali tudo na ponta da língua. Durante muito tempo acreditei que aquele tão célebre meteorologista com um sotaque esquisito (eu era pequena e inocente. Não fazia ligações à forma de se falar do Portugal Insular), era muito bem capaz de já tratar por "tu", o Anticiclone dos Açores. E se o tempo que se viesse a registar fosse mau, o culpado era sempre o desgraçado do Anticiclone. E depois falava muito em "Cristas" e em "Altas e Baixas Pressões" de "Frentes Frias"... No Boletim Meteorológico da altura, tudo era muito minucioso e muito explicado. E havia tempo para tudo, o tempo que agora é cada vez mais escasso.
Só que o próprio Anthímio de Azevedo que era tão sábio, só se atrevia a prever o tempo para os quatro ou cinco dias seguintes. Não mais do que isso. Mas os senhores do Borda d'Água não. Esses eram ainda muito mais sábios e conhecedores. Só podiam mesmo. Eu pelo menos acreditava piamente nisso. Como é que eles sabiam do início do ano (ou mesmo no ano transacto, pois tudo tinha que ser feito com a necessária antecedência para se ter o Borda d'Água nos primeiros dias do ano), que no dia 28 de Novembro iria haver muita neve e humidade? E no dia 20 de Dezembro? Como é que eles adivinhavam que ia haver chuva e vento? É que na ficha técnica desta quase centenária publicação, nunca constou (eu pelo menos nunca vi), o nome do Prof. Zandinga, do Prof. Caramba ou mesmo da Taróloga e Cartomante  Maia. Ah pois não!!!
Não fora a leitura atenta do Borda d'Água e eu ficaria para sempre sem  saber, que a altura do ano, mais indicada para se capar o gado é entre o mês de Maio e o mês de Junho. Coitado do gado. Ninguém merece. E como é que alguém conseguiria sobreviver, se desconhecesse que a época mais benéfica para se plantarem as gipsofilas é durante o mês de Setembro?Ah pois...
Foi também através da leitura do Borda d'Água que eu fiquei a saber que no dia dos meus anos se comemoram duas efemérides. A saber: comemora-se o Dia do Estudante e o Dia da Tuberculose. E eu confesso, gosto muito mais da ideia de se comemorar a condição de estudante (e como eu fui feliz no meu tempo de estudante!!!), do que comemorar a condição de tuberculoso. Obviamente que tenho todo o respeito e consideração por todo aquele que infelizmente se encontre doente. Desejo-lhes inclusivamente rápidas e efectivas melhoras, contudo... percebem não é? No meu dia de anos!... E depois é muito melhor comemorar o Estudo e o Conhecimento, que uma terrível doença, que infelizmente está em crescendo, quando em tempos quase que esteve erradicada da vida da "nossa" comunidade. 
Eu na altura ao ler a existência das efemérides tinha sérias dúvidas. Em primeiro lugar não estava lá a razão pela qual a comemoração tinha que ter lugar naquele dia específico. Achava que aquela situação poderia muito bem ser aleatória. Um bocadinho ao calhas. E depois reparava que em muitos dias, não se comemorava nada. Hoje acredito que se na altura as comunicações estivessem tão liberadas e democratizadas como actualmente, eu era muito bem capaz de "mandar um email" à antecessora da D. Célia Cadete. E sugeria-lhe a mudança da comemoração do Dia da Tuberculose para outro dia qualquer. Podia ser no dia 29 de Dezembro, que é um dia sem efemérides, pelo menos por enquanto. No "meu dia" ficava somente a Comemoração da "Estudantada".
Mais tarde entendi mais ou menos como é que estas coisas funcionam. Está bom de ver. Não era por se comemorar o Dia da Tuberculose no meu dia de aniversário, que eu ia ficar mais ou menos prejudicada. Não era através da sua simples menção, nem das necessárias chamadas de atenção sobre tão terrível mal, que eu ia ficar "contagiada". E dei também conta de que o mundo não girava à minha volta. Eu é que girava à volta do mundo. Ás vezes penso que nascemos grandes e morremos bem pequeninos.
Mas e apesar de tudo houve algo que nunca mudou. A minha imperiosa necessidade de ter um Borda d'Água em casa. Infelizmente não vivo no campo. Vivo numa pequena cidade. Contudo, é ainda muito importante para mim saber o dia e a hora exacta em que ocorre um eclipse total da Lua.E fico contente também de saber, que o dia 24 de Novembro é justamente o dia do Feriado Municipal do Entroncamento. Ele há cada fenómeno. 
Pelo exposto eu refiro que no início deste ano, eu rejubilei quando avistei o primeiro vendedor da referida publicação. Custou-me a mesma,  a módica (já não tão módica assim, convenhamos) quantia de 1,80 €. 
Como é costume da minha personalidade, saudei efusivamente o homem e contei-lhe da minha verdadeira adoração pelo Borda d'Água. Sou uma verdadeira viciada. Uma assumida adita. Resposta pronta do senhor; "Pois eu quando consulto o Borda d'Água, eu já não vejo um, mas sim dois". 
A verdade é que eu fiquei com pena daquele sujeito. Por breves instantes pensei naquele filme em que o Chaplin trabalhava todo o dia numa fábrica, exercendo continuadamente os mesmos rituais. E ele estava de tal maneira treinado naquilo, que quando saia da fábrica e ia para casa, continuava a repetir toda uma série de movimentos. Os mesmos movimentos que executara  no trabalho. Pensei também naqueles senhores e senhoras que fazem e decoram os gigantescos falos das Caldas da Rainha. Conta-se que quando chega ao fim a jornada diária, dizem todos uns para os outros: "Hoje não vamos fazer... nem mais um caralh..." 
Este homem que ali se encontrava à minha frente vendia Bordas d'Água. Se calhar fazia-o desde pequeno. Por causa disso, ele já via aquelas publicações a dobrar e até mesmo a triplicar. Coitado, pensei. Mas o homem ao reparar na minha expressão de comiseração deu em explicar que: "quando consultava aquilo que ali e tão laboriosamente vendia era porque... já se encontrava com os copos".
Eu sorri e nada mais disse. Mas fiquei a questionar-me. O que é que levaria alguém fortemente etilizado a consultar o Borda d'Água? Seria para saber o quê? Seria para saber qual o melhor mês para se proceder à poda das vinhas? Ou quando é que se deve de começar a vindimar? Essas serão necessariamente as suas preocupações mais legitimas. Não se vá dar o caso da comunidade se esquecer dessas tarefas e o homem ficar assim desprovido do verdadeiro prazer que para ele deve de ser... beber vinho. É que para aquele senhor, o vinho poderá muito bem ser um bem de primeiríssima necessidade. O mais importante de todos.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Vinho Mágico" de Joanne Harris.


É incrível que por mais que o tempo passe, continua-se a gostar tanto de assistir a estes hilários momentos!!! Grande Vasco Santana.



É imperioso fazer aqui um breve reparo. Observe-se como este senhor (que estava tuberculoso), canta. E de forma tão plangente. Pede, ou melhor suplica para não ser beijado, pois não quer correr o risco de contagiar alguém. Alguém menos avisado. Menos prudente. O mesmo senhor afirma ainda que está muito doente. Já se encontra inclusivamente hospitalizado. A dada altura implora mesmo que lhe tapem a cara. Ao que parece ele já se encontra com muito mau aspecto. 
Mas depois há aqui uma outra dúvida que legitimamente me assiste: É que estando o senhor tão mal, como é que ele ainda tem tanta força para cantar?
Sem ironias. Desejo rápidas melhoras para todos aqueles que se encontram doentes. E depois de totalmente restabelecidos... DIVIRTAMSEMAZÉ!
Beijinhos e abraços e... até para a semana.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sonhos.


É lugar comum afirmar que o sonho comanda a vida. Mas é que comanda mesmo. É no exercício de se dormir cerca de sete horas por noite (uns um pouco mais, outros bem menos), que encontramos algum do equilíbrio que perdemos durante o dia. Mas há sonhos terríveis. Tenho um sonho recorrente que me tira do sério. Muitas vezes eu sonho que perco dentes, perco a totalidade dos meus dentes. Dizem que a ocorrência de tal sonho é prenúncio de morte de parentes próximos. Mas até hoje tal situação (e felizmente) tem-se verificado falsa. E ainda bem. No sonho, os dentes são perdidos sem nenhum motivo aparente. Nem é preciso trincar nenhuma broa muito dura fabricada em Góis. Parte de um dos meus dentes ficou sepultado numa urna desse pão produzido naquela cidade localizada no centro do país. Foi  já há alguns meses atrás. Paz à sua (ínfima) alma!
Quando me acontece sonhar com a perca de dentes, eu durante alguns dias ando muito receosa. A disfarçar, eu lá vou perguntando aos meus entes queridos se se sentem bem. Se não têm sintomas de nenhum resfriado. De nenhuma pneumonia. Fazendo-me de sonsa, eu lá lhes vou sugerindo a necessidade de eles irem medindo a febre... Depois e passados alguns dias, eu verifico que os meus parentes ainda se mexem e falam. E continuam a comer uma sopinha. Então e com mais calma eu começo a respirar melhor. E começo a andar um bocado mais aliviada. Era o que faltava eles lembrarem-se assim de morrer (só por causa do sonho dos dentes). Deixarem-me aqui só e numa grande agonia. A ter que ir alguém, que vá eu primeiro.
Depois há os sonhos absolutamente dementes e estapafúrdios. Aqueles em que por exemplo se sonha com o vizinho do andar cima. No sonho o homem aparece muito novo e musculado. Aparece também todo cheio de atenções e de diplomacias. Ora, o que se passa é que o meu vizinho, para além de já ter cento e tal anos, já conheceu melhores dias. E não é mesmo nada diplomata, muito antes pelo contrário. Vendo bem as coisas e durante o dia eu não lhe dedico um minuto que seja da minha atenção. Contudo e a dormir... ele pode facilmente virar o meu herói. Nos meus sonhos, o meu vizinho surge trajado como o Brad Pitt, no filme "Tróia". Todo ele é músculos e sensualidade. Acordada e ao olhar para o homem, eu verifico que o mesmo pode muito bem ter sido colega de carteira do próprio Sidónio Pais. E mais, no meu sonho, o meu vizinho também não é casado com a D. Glória, que para além de ser muito idosa também, dedica grande parte da sua atenção, ao apuramento das características da vida secreta dos seus/nossos outros vizinhos. E depois durante a noite, ela insiste em ir à casa de banho, calçando umas daquelas socas de madeira, que como muito bem sabemos, são oriundas da Holanda. E como ela vai à casa de banho, senhores!


Quando a minha vizinha vai à casa de banho (seja de noite ou de dia), ela vai sempre a dançar. Vai tal qual a senhora que aqui aparece neste vídeo. Tenho a certeza que a minha vizinha quer ganhar este festival. É muito legitimo ser ambiciosa. Mas quem se "estrepa" sou eu que vivo no andar debaixo. Mas temos que convir, é invejável a sua forma física. É que a minha vizinha já tem 84 anos.
 Por causa do barulho e no Natal passado, eu tive vontade de lhes oferecer... um penico. Um daqueles grandes que nos chegam aos joelhos. Ela que treine a dança de dia e, preferencialmente na rua. Até pode ser que haja gente que ao passar por ela, contribua com umas moedinhas. Sempre era uma ajuda para a sua viagem à Holanda...
Mas um dia destes, tive um sonho inesquecível: sonhei que andava a dar uma viagem maravilhosa aos Estados Unidos da América. Não, meus amigos, eu não me encontrava numa imensa lista de espera de doze pessoas. Não!!! Eu andava a viajar com um grupo restrito de pessoas. Todas elas muito simpáticas e divertidas. Lá não havia lugar para aquelas pessoas que coitadas, não têm bem a noção das coisas. Aquelas pessoas que não sabem que são chatas e que se "colam" ao parceiro, falando sempre, sempre da mesma coisa. Nem daquelas pessoas muito paternalistas. Nem das outras todas cheias de moral. Ou das que são muito religiosas e efusivas. As que são muito prestáveis e catequistas. Nem daquelas pessoas que estão sempre a fotografar e a pedir ao mais desprevenido, uma pose. Só mais uma pose. Credo!
Naquele meu grupo também não ia  nenhuma  daquelas velhinhas que têm um ar muito amoroso e muito frágil. Num primeiro momento até dá vontade de as acarinhar e de lhes dirigir uma palavrinha amiga. Só que passado algum tempo, vem-se a descobrir que as tais velhinhas, têm como hobbie, coleccionar daquelas vassouras que voam. Detêm também elas uma completa e vasta biblioteca, composta por muitos livros de poções mágicas. E profusamente ilustrados. Na minha biblioteca eu colocaria esses livrinhos, na secção do OCULTISMO (CDU 133). Muitas destas velhinhas também se dedicam (e com desvelo) à... criação de corvos.
Se se fizesse a "Árvore Genealógica" de tais velhinhas, verificava-se que as mesmas são as irmãs mais velhas da madrasta da Branca de Neve. E meus amigos, aqui fica um conselho: recusem-se sempre a dar dentadas em todas as maças que vos são (muito) calorosamente oferecidas. Por segurança, comprem sempre a vossa própria fruta. Se bem que as maçãs  que as tais velhotas vos possam oferecem  e por definição, já devem de ser muito engelhadas. Devem de ter... muito bicho. Têm bicho porque regra geral,  são produto de agricultura biológica.
No meu sonho eu e mais as tais pessoas simpáticas, participávamos depois num casamento de dois homens (um com o outro, claro está). O mais novinho era belíssimo. Tinha uns muito expressivos olhos azuis e era muito delicado, delicado mesmo. Ele falava muito pausadamente (por momentos fazia-me lembrar o Vítor Gaspar. Mas só no vagar com que falava, como é óbvio). E também não nos aumentava os impostos, nem nos tirava nenhum subsídio. Não. O tal noivo do meu sonho, tinha uma voz muito fina e delicodoce. Este sujeito estava a casar com uma figura muito conhecida da nossa praça (que eu aqui não irei revelar). É certo que o blogue não é tão lido assim, mas... nunca confiando).
E eu ali a sonhar. E como eu lamentava o facto daquele belo homem, ter preferido uma figura pública (muito feia e do seu próprio sexo),  ao invés de me ter escolhido a mim. Mas, e quem é que disse que o mundo é justo? Nem mesmo a sonhar, rais'parta!
Depois todos os participantes daquele casório, foram dançar, aquela dança em que todos andam em fila a imitar um comboio. Mas eu não fui, pois nem mesmo nos meus sonhos mais recônditos, eu sei dançar.
Mas os melhores sonhos mesmo, são aqueles que se têm em plena vigília. Esses são comandados inteiramente por nós. São o reflexo puro da nossa vontade. Têm a tonalidade dourada ou azulada, consoante aquilo que mais queremos vivenciar. As coisas assim sonhadas, têm o toque da magia da nossa capacidade criativa. São determinados por aquilo que estando condicionado à partida (e pelas mais variadas razões) nos parecem ser o que mais queremos viver. Aquilo que a cumprir-se nos faria inteiramente felizes. E acreditamos piamente que é o que nos falta para atingirmos o grau máximo de felicidade. Esses sonhos valem milhões.
Mas, esses sonhos cumprem-se efectivamente? Não. Quase nunca. Todos nós sabemos disso. Mas para todos os efeitos, foi muito importante tê-los tido.
Sugestão de leitura para esta semana: "Tão veloz como o desejo" de Laura Esquível.
DIVIRTAMSEMAZÉ e sonhem com dias melhores.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Será também esta a minha forma de viajar.


O casal composto pelo João e Maria Simões tem 86 anos na totalidade, ou seja cada um tem 43 anos. Ainda não têm filhos e como as coisas vão, se calhar o melhor é ficarem mesmo assim.
E são funcionários públicos. Anteriormente eles eram respeitados e tidos como úteis servidores do povo. Actualmente e quase de forma unânime eles são vistos como os párias e os responsáveis máximos pelo actual estado de coisas. Pela situação catastrófica deste belo país "à beira-mar plantado". 
São casados um com o outro e de papel passado. E um ano destes até foram viajar para fora do país, onde descobriram o bom que é, viver num Resort (de uma ilha das Caraíbas), durante oito dias em regime de tudo pago. Obviamente que eles pagaram a viagem na sua totalidade, embora o tenham feito a prestações que duraram um ano. Foi aos 30 anos, que eles andaram pela primeira vez de avião. E como foram felizes, ao observarem as nuvens ali tão pertinho. E a terra lá em baixo, tão distante.
Hoje até receiam falar nisso. Têm medo de que, ao serem ouvidos, possam ser consideradas pessoas despesistas e pouco patriotas. É que eles viveram muito além das suas próprias posses, não é? E não pouparam nada, aqueles maganos!!!
Agora este casal já não tem direito nem ao subsidio de Férias nem ao do Natal. Na televisão eles ouviram muito emocionados o apelo do senhor Presidente da República. Com muita emoção e sentido de dever, o nosso Presidente pediu aos portugueses, que fizessem férias em Portugal. E o abençoado do nosso Primeiro Ministro a dizer que ele próprio ia dar o exemplo e continuar a passar as suas férias na Manta Rota. Bem... e por todo o exposto, o João e a Maria, tinham assim que cair em si. E ganharem finalmente...vergonha na cara.
Foi num dia de calor e sem pinga de chuva (no mês de Fevereiro), que o João abriu a caixa do correio e viu uma maneira de passar um Domingo diferente. E ficava-lhe muito baratinho. A sugestão foi-lhe dada através da leitura de um daqueles panfletos que falam nas maravilhosas "Excursões Propagandísticas". Mas aquela excursão não seria feita no dia de Carnaval, ah pois não! É que aquele casal trabalhou naquele dia (e como trabalhou), em prole do bem comum. Naquele dia eles usaram inclusivamente as suas máscaras do costume. Não! A excursãozinha teria lugar no Domingo a seguir ao Carnaval, já em plena Quaresma.
No dia aprazado, o casal saiu de casa por volta das três da manhã de Domingo. Foram esperar o autocarro no adro da Igreja da Nossa Senhora das Consolações Várias. É que, e conforme combinado, o autocarro passaria por aquele local por volta das 3:30 h.  Ao longe, os Simões observaram alguns vultos. Com a aproximação, eles verificaram que também já lá estava a D. Odete que era a irmã do senhor prior e a D. Alice (que trabalhava na Florista Encantada). Também já lá estava a D. Irene, que era a empregada da Lavandaria, que era uma loja que ficava no Centro Comercial. Ao se avistarem e se reconhecerem, toda aquela gente se saudou entusiasticamente. Foram dadas ainda as Boas-Vindas ao casal, com a certeza de que que eles jamais se iriam arrepender de terem vindo. Aquele casal nunca havia sido visto naquelas aventuras. 
Passado pouco tempo vêm mais três senhoras reformadas e o senhor Vítor, solteiro e bom rapaz (apesar de já ter muita idade). Vítor era  tido como o ser mais excêntrico da comunidade e muito assíduo daquelas aventuras. E passados alguns momentos  a D. Odete logo avisou que naquele dia, o casal iria conhecer muito mais gente.
À hora aprazada, chega o autocarro. O motorista era o Ricardo, já sobejamente conhecido pelos habitues do costume. Ricardo é sempre muito efusivo, apesar da hora. Ricardo por um instante imagina o sono regalado da sua esposa em casa e no vale branco dos lençóis, mas a vida é mesmo assim. Há que ganhá-la com esforço. E com um sorriso no rosto a coisa é bem mais fácil de aguentar.
Sem perder tempo Ricardo cumprimenta quem conhece e dá umas Boas-Vindas especiais a quem chega ali pela primeira vez. Depois, todos cumprimentam a Soraia, que era a guia de serviço e a representante da Empresa de Vendas. Esta faz o mesmo que o Ricardo, ou seja cumprimenta toda a gente com uma voz onde entram guinchos e ternuras várias. O casal Simões, ficou ali e quase imediatamente muito "enturmado".
Depois param noutros sítios (em cerca de quarenta paragens pré-determinadas). Entra assim muito mais gente e a "coisa" compõem-se. E tudo parecia indicar que aquele passeio ficaria para os "Anais das Memórias" de todos os participantes.
Já com toda a gente recolhida e saudada, são dadas informações diversas de utilidade duvidosa. Por exemplo: "É no Cartaxo que se comercializa muito vinho" e "O Cartaxo pode ser entendido como a Las Vegas de Portugal". Dá-se depois a primeira paragem, sem ser para recolher pessoas. O lugar escolhido é uma Estação de Serviço. Os habitues  descem do autocarro carregando alguns sacos de plástico. Vão depois para o pé de uns bancos de madeira. Lá retiram os conteúdos dos sacos e desembrulham algumas sandes de queijo e de paio. Abrem depois alguns pacotes de leite achocolatado. É que aquela refeição ainda não estava consagrada no total dos benefícios da excursão. Mas o João e a Maria não eram sabedores disso. Como é que podiam adivinhar? Pois, e não haviam trazido qualquer mantimento com eles. Para disfarçar e afirmar que ainda não estavam assim tanto na miséria, vão ao café da Estação de Serviço e orgulhosamente... bebem um cafézinho, ou melhor, dois cafézinhos (um para cada um). Viva a abundância!!! É que por vezes há que fazer estragos e perder a cabeça.
Regressados ao autocarro, a viagem prossegue. Todos vão muito contentes, cantam muito e algumas senhoras (das mais atrevidas), até dão uns passos de dança no corredor da viatura. 
A próxima paragem dá-se num ermo. À volta de uma casa (a única em quilómetros) não há quase nada, só umas árvores despidas.  Entram depois na casa onde são recebidos por um entusiasta senhor com pronúncia de terras de Vera Cruz. Ali e naquele local não será fácil, nem proveitosa a deserção. E o João e a Maria também não querem ser muito notados. Era o que faltava, logo no seu primeiro dia. Resolvem assim entrar (como a grande maioria dos participantes). A única excepção é mesmo o Senhor Vítor. Esse nunca entra. Fica cá fora a fumar e a pensar no delicioso almocinho que se aproxima. E nunca  ninguém se opõe a que Vítor fique do lado de fora (ele também nunca compra nada). O Vítor que por ser quem é, até conta com uma série de privilégios. 
Dentro de uma grande sala, o brasileiro (pelo menos é o que a sua pronúncia parece indicar), espera calmamente e de sorriso seráfico no rosto. Deixa que toda aquela massa humana se acalme. E passados largos momentos, chega a vez da sua actuação. E é a hora de ele brilhar e de ser o profissional que dele se espera (aquele é o seu ganha pão). Pelo que e durante três a quatro horas ele falará dos benefícios ilimitados de sete ou oito panelas. O brasileiro que até tem um elevadíssimo sentido de humor. Pelo menos é o que aparenta, já que faz gargalhar a maioria de toda aquela gente. Mas nem o João nem a Maria acham muita graça àquilo. Se calhar é porque não estão ainda habituados. E como é a primeira vez... Aquilo tudo parece um código. Passado um certo tempo, algumas pessoas lá acabam por comprar os utensílios de cozinha. O João até comprou um fervedor de leite, um fervedor mágico que nunca deixa queimar nada. Mais. Até dá um gosto muito especial à comida que cozinha.
Passadas as quatro horas da praxe, saem daquele espaço e entram todos e mais uma vez no autocarro. A próxima paragem é no Restaurante. Ao senhor Vítor agora é que lhe dá a vontade de rir. É que se aproximou o momento da refeição, a sua tão esperada refeição, e com os braços erguidos ele dá passos de dança, junto à última fila de bancos no autocarro. Já no Restaurante, aquele curioso e numeroso grupo senta-se nas cadeiras colocadas ao pé de mesas muito compridas. Com eficácia a comida é-lhes servida. Não há tempo a perder. Depois todos elogiam a qualidade da refeição e de como a mesma lhes havia ficado tão barata. E o senhor Vítor que até se lambuzou todo com o Leite-Creme.
Depois vem a vez do baile. Serve para remoer a faustosa comida e também para cimentar novas relações. No baile, senhores ensebados e muito vincados, dançam ou com as suas respectivas ou então com roliças e apetecíveis viúvas. A grande maioria das senhoras excursionistas já têm uma certa idade, mas apresentam-se ali muito enfeitadas e também muito sensuais. Os pares abraçados, enlevam-se em êxtase. Por vezes até parecem ter dois metros de altura. Com muita volúpia eles rodopiam ao sabor de uma música conhecida. Com toda aquela emoção, os óculos ficam muito embaciados e as senhoras perdem os anéis e as pulseiras. A propósito: ainda é motivo de muita risota aos mais assíduos daqueles passeios, o dia em que um casal septuagenário veio àquelas lides, na companhia da sua filha invicta e quarentona. Naquele dia andavam todos a dançar e muito satisfeitos. Sem que nada o fizesse prever, a filha sofre um forte puxão que quase lhe tira o ar. Muito aflita corre para perto do pai e conta-lhe o sucedido. O pai fica muito preocupado e sem pinga de sangue. Sem saber muito bem como reagir àquela contrariedade ele gritou: "Pára o baile, pára o baile, porque roubaram o cordão da minha filha!" Com aquele alarme, toda a gente pára e fica assim muito expectante. Mas a  filha e em tom de voz moderado lá explica ao pai, que o cordão ela ainda tinha, como o próprio pai podia verificar. Contudo ainda tinha as marcas avermelhadas, tipo vergões bem marcadas no pescoço. Perante isso, o pai ficou muito mais descansado, pelo que gritou (e pela segunda vez naquele dia): "Siga o baile, siga o baile, porque foi só um "arrepanhãozinho".
Também era repetida a história daquela vez em que a D. Alzira perdera o seu cachucho, enquanto andava a dançar com o António Padeiro. Esse anel havia-lhe sido ofertado pelo seu falecido (que havia sido um homem muito bom, mas que já estava a residir na companhia de Deus Nosso Senhor havia doze anos). Dado o alarme, toda a gente se colocou ou de cócoras, ou com o traseiro espetado no ar. Procuraram assim aquela jóia em manifesta acção de solidariedade para com a pobre e inconsolável senhora. E não é que passado algum tempo, alguém foi dar com o anel perdido,  debaixo do pé do Sr. Henrique que era o sacristão. E pessoa mais séria que o Sr. Henrique, era difícil de encontrar.
Neste dia de festa e de folguedo, o João e a Maria, obtiveram muita informação. Souberam de muitas histórias divertidas. E também eles ali dançaram e a compasso um com o outro. É que em "Roma é conveniente ser... romano."
A D. Odete, que era a irmã do senhor padre, chegou mesmo a dançar com o brasileiro. Mas teve o cuidado e a decência de manter a distância de cerca de um palmo de entremeio, entre o seu corpo e o corpo daquele seu partner eventual É que, vamos lá ter calma. A D. Odete era uma mulher muito séria. Uma mulher que não se podia dar a desfrutes. Isso estava reservado às "mulheres da vida", essas desenvergonhadas que eram o desgosto de toda a comunidade. Com ela não. Nem pensar! Nem mesmo com aquele  simpático senhor que parecia entender tanto de... panelas.
Passadas duas horas acaba o baile. É hora de se visitar a Sé local. Mas já ninguém presta muita atenção às explicações da guia. E num ápice é chegada enfim a hora do regresso a casa. Mais uma vez, entram todos e ordeiramente no autocarro. Vão sorridentes e bem dispostos. Falam de forma inequívoca, do bom que foi a ocorrência de mais aquele passeiozinho. Um passeio abençoado por Deus (é que pelo menos estava lá a irmã do padre). Bendizem depois todos os conhecimentos que fizeram naquele dia, se bem que vendo bem as coisas, a grande maioria das pessoas até já se conhecia. O tempo foge, e num repente eles chegam ao adro da igreja, onde toda aquela aventura havia começado. A simpática guia despede-se de todos com dois beijinhos. Oferta-lhes depois... a lembrança do dia. E foi assim que o João e a Maria foram naquele Domingo para casa, na companhia de dois presuntos espanhóis e de dois garrafões de vinho. 
E, já em casa os dois concluem que aquele dia havia valido a pena, oh se havia. Mas já era tarde. É que no dia seguinte eles tinham que estar bem frescos e airosos na Repartição de Finanças, onde eles ainda têm a santificada sorte de trabalhar.
Sugestão de leitura para esta semana: "Esta é a Minha Terra" de Frank McCourt.
E hoje informo da existência de um novo ditado popular (adaptado à nossa "nova" (?) realidade). O ditado diz que: "A galinha do chinês é mais rica do que qualquer português".
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E bons passeios, sejam eles de que natureza forem. 
E Desopilemmazé!!! Que eu vou tentar fazer o mesmo. E... até p'ra semana!!!


sexta-feira, 2 de março de 2012

Forças policiais lusitanas.


Há muita gente a dizer mal das forças policiais, mas eu pessoalmente não tenho qualquer razão de queixa das suas actuações para comigo. Para que conste, eu sou uma rapariga bem comportada. Cumpro as regras da boa vizinhança, não conduzo alcoolizada, também não estaciono a minha viatura em locais proibidos. E nem mesmo atendo o telemóvel quando conduzo, mesmo que seja o Santo Padre a ligar-me. Protagonizei dois incidentes, felizmente pouco graves e tive sempre a meu lado, polícias que teceram comentários simpáticos  de compreensão pela minha situação, afirmando mesmo que: "acidentes acontecem. Só não acontece àquele que não conduz". Pois é.
Mas de uma vez, encontrei parte de um distintivo (de um agente policial) na calçada da rua. Como pessoa responsável que sou, fui à esquadra mais próxima entregar aquele achado. Responde-me o senhor polícia que lá estava de serviço (pareceu-me ser aquele que mandava nos outros): "Muito obrigado, minha senhora pelos seus cuidados. Mas eu sempre quero ver quem foi o artista que perdeu isto!" O artista? pensei. Mas então os senhores agentes da autoridade chama-se uns aos outros de "artistas"? Não se nomeiam de cabos e de senhores agentes? E serão "artistas" de quê? Pus-me a pensar. Mas pensar é perigoso. É que eu às vezes tenho muito medo daquilo que penso.
Tenho a dizer que das minhas relações mais próximas, tenho uma muito  prestável e competente colaboradora que adora fardas. Eu já lhe perguntei o porquê daquilo, mas a resposta que dela consegui, eu considerei muito omissa. Um dia destes, fui dar com ela, muito afogueada e com falta de ar. Eu perante aquilo fiquei muito preocupada e perguntei-lhe se ela era asmática. Ela muito aflita, abanou vigorosamente a cabeça, dizendo-me que não. Depois pensei que ela era capaz de estar com os sintomas da menopausa. Aqueles que aparecem assim de repente e em que as pessoas ficam assim muito congestionadas... Mas, ela ainda é um bocadito nova demais para isso, convenhamos.
Quando finalmente ela recuperou e começou a respirar melhor e com mais tranquilidade, comunicou-me que aquele seu comportamento, se devera ao facto de ter avistado lá ao longe, dois polícias distintos e garbosos. Vira-os à distância de uns duzentos metros, porém fora o que bastara. Os políciais vinham fazer a sua ronda habitual. Garantir assim a segurança da comunidade. 
A minha amiga não tem culpa nenhuma de ter "aqueles arrepios". Aquilo é-lhe involuntário. Ela gosta tanto de fardas, que nem os bombeiros voluntários lhe escapam. E adora ver o príncipe herdeiro espanhol, com aqueles trajes de gala. Credo! Eu tenho a dizer que aquele fascínio por fardas é-me algo incompreensível. Porque é que se há-de gostar de fardas por si só? Se se avaliar a conduta, a simpatia e a carinha laroca de um fardado é uma coisa. Agora gostar de alguém só porque o mesmo enverga uma farda? Será que para a minha amiga e colaboradora Pulquéria, os homens ficam mais bonitos, quando mais hirtos e mais apertados? Será que a farda lhes dá um ar mais respeitável e irresistível? Não sei e ela também não me explica. Mas se formos a ver, verificamos que muitas vezes os bombeiros costumam andar com a  mangueira na mão. E pela mesma ordem de valores, todos os senhores polícias possuem o seu cacetete. Esta bem poderá ser a explicação. Ela é que é bem capaz de não ter coragem para assumir.
Há uns anos e por alturas do Natal eu vi-me na obrigação de ir buscar uma encomenda aos arrabaldes da cidade de Coimbra. Ia toda contente e a uma velocidade aconselhável no meu pequeno Rover 111 (entretanto falecido). De repente e sem que nada o faça prever, rebenta-se um pneu. Felizmente, foi um pneu detrás, porque e segundo me disseram, se fosse um pneu da frente o acidente poderia ter tomado outras proporções. Ou não. Perante aquela situação e um bocado enervada, eu visto aquele magnífico colete de cor-de-laranja e ligo para a companhia de seguros. Na altura em que eu tirei a carta, aprendi que na auto-estrada e quando se tem um incidente, como foi o caso, o condutor deve de permanecer dentro da viatura e esperar pela ajuda. Contudo e em idênticas circunstâncias àquela minha eu já vi carradas de gente fora do carro, pelo que, resolvi sair também. 
E não havia maneira de ninguém vir. Bem, era chegada a altura de tirar para fora os apetrechos que permitem a mudança do pneu e fazer-me à vida. Mas eu que não encontrava uma chave... A coisa estava a complicar-se. Passados alguns momentos, aparece um carro da polícia e eu pensei: "Mas o que é que estes querem agora? Será que vêm ralhar comigo por eu estar fora do carro"? Não senhora. Conheci naquele dia dois polícias muito solícitos e algo divertidos. Um com cerca de trinta e poucos anos e um outro um pouco mais velho (teria 55 anos). Os dois ainda me tentaram ajudar a mudar o pneu (foram ver as suas próprias ferramentas), mas eu achei que os mesmos ainda tinham menos jeito do que eu para aquela tarefa. Além do mais, não deveria de ser muito aconselhável ver dois polícias fardados a mudar o pneu de um acidentado. Eu  não sei, mas acho que não. Concluí assim que tinha mesmo era que esperar pela ajuda especializada. O que aconteceu. E os senhores polícias decidiram ficar ali a fazer-me companhia.
Foi muito engraçado. Os dois encostados ao carro da patrulha, e eu encostada ao meu carro agora coxo da pata detrás. O mais novo, começou por falar-me dos perigos de se andar sozinha e à noite, numa cidade como aquela em que eu habito. Perguntou-me se era prática corrente... eu sair à noite. Sim, disse eu. Eu saio quando calha. Mas nem sempre consigo companhia para chegar aos sítios onde estão os meus amigos, pois a crise é profunda e está presente em variadíssimos sectores da vida da comunidade. O polícia sorriu.
Mas o mais velho ainda era mais castiço. Ele que se assumiu como um grande critico da sociedade actual. Achava que no passado é que se vivia bem, com muito mais respeito e com muito mais segurança. Agora os tempos estavam completamente de "pernas para o ar". Falou-me de uma série de coisas que ele achava, absolutamente condenáveis e entre elas estava o facto de ver muitas mulheres em bares e discotecas de perna traçada e a fumar. Eu não tenho nada contra as mulheres que vão a bares e discotecas e que fumam. Eu mesma faço isso tudo. Só que ali achei conveniente não contrariar o senhor polícia. 
Depois falou-me do que achava sobre a entrada das mulheres para as forças policiais... Bem, com tudo aquilo eu fiquei algo confundida. É que ele estava-me a dizer mal de pessoas que pertencem ao meu género, com muita convicção. Mas ele não me estava a criticar a mim, pelo menos foi o que me pareceu. Ele criticava as mulheres, todas as mulheres que gostam de se divertir, mas será que ele e por alguns momentos pensou que eu fosse... um homem? Acho estranho pois eu tenho um ar muito feminino. Temos que ver que ele era um polícia um tanto ou quanto retrógrado, porém... muito comunicativo. 
Por fim lá veio a ajuda especializada. O pneu foi mudado com sucesso por alguém que sabia muito da matéria. Era altura de me despedir daqueles meus agora três amigos (dois polícias e um mecânico) e seguir marcha para a Cidade dos Doutores. E foi já em pleno andamento, que passou por mim um carro da polícia ocupado pelos meus agora conhecidos senhores polícias. O mais novo ia a conduzir enquanto que o mais velho de megafone na boca, desejou-me aos gritos uma boa viagem. Aconselhou-me a proceder com rigor, as boas práticas da condução, ajudando desta forma à manutenção da desejável prevenção rodoviária. Só faltou mesmo dizer-me... para nunca me pendurar num daqueles bancos muito altos dos bares. E jamais usar roupa preta justa e consequentemente... muito reveladora. Própria das pecadoras. Mas e, eu concluo: "As boas raparigas vão para o céu, enquanto que as más vão para todo o lado".
Sugestão de leitura para esta semana: "Até onde se pode ir" de David Lodge.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

E digam lá que a minha "encomenda" de Coimbra não é linda? Chama-se Lucrécia Bórgia.