Eu sou uma grande admiradora da publicação do Borda d'Água. Em menina e num simpático meio rural, via todos aqueles que eram idosos na altura (hoje infelizmente a grande parte deles já faleceu), comprarem todos os anos aquele "Verdadeiro Almanaque". Recordo com um sorriso no rosto, a minha vontade e curiosidade em ler as características de todos aqueles que tinham nascido no mesmo mês que eu. Invariavelmente lá estava escrito que: éramos pessoas decididas e líderes. Como amigos éramos do melhor, amigos fiéis e verdadeiros. Éramos ainda pessoas muito dedicadas à luta. Quantos de nós não enveredamos por uma carreira de eficientes praticantes de Sumo? Não desistimos facilmente das nossas ideias (tradução livre, somos teimosos com'o raio!). Somos também pessoas muito atentas. E é mesmo bom que o sejamos, especialmente nos dias de hoje, quando vamos nos transportes públicos. Temos que ter muito cuidado e atenção com os nossos cada vez mais parcos bens.
Fiquei também a saber que as pessoas que nasceram sobre o signo de Balança são diferenciadas das restantes. As mulheres são muito diferentes dos homens (muito para além das diferenças evidentes, dotados ou não de penduricalhos). De uma forma geral todos eles são honrados e venturosos. Só que as mulheres preferem viajar em vez de ficarem em casa. Chamem-lhes parvas! Assim é que é suas espertalhonas! DIVIRTAMSEMAZÉ!!! Contudo os homens são empreendedores e cuidados (tradução livre: preferem ficar em casa a fazer obras de melhoramentos vários. E preferem não viajar, para não correrem o risco de virem a sofrer algum acidente. Ou ainda para não gastarem as suas poupanças desalmadamente). Muito bem. Viva a diferença. Contudo será prudente, não se casarem entre si. Parece-me que tal ligação a fazer-se iria criar muita confusão.
Bem, durante muitos anos eu li aquilo. Acreditava que as informações ali contidas, para além de absolutamente inquestionáveis provinham de mentes que tinham muito poder de alcance. Quem é que poderia adivinhar com tanto tempo de antecedência, o tempo que iria fazer no ano inteiro? Somente as pessoas que trabalhavam naquele "Reportório". Essas pessoas só poderiam ser mesmo muito dotadas.
Naquele tempo, eu assistia na televisão (com algum enfado, há que confessar), às explicações intermináveis do Anthímio de Azevedo. E como aquele senhor era sábio. Tinha ali tudo na ponta da língua. Durante muito tempo acreditei que aquele tão célebre meteorologista com um sotaque esquisito (eu era pequena e inocente. Não fazia ligações à forma de se falar do Portugal Insular), era muito bem capaz de já tratar por "tu", o Anticiclone dos Açores. E se o tempo que se viesse a registar fosse mau, o culpado era sempre o desgraçado do Anticiclone. E depois falava muito em "Cristas" e em "Altas e Baixas Pressões" de "Frentes Frias"... No Boletim Meteorológico da altura, tudo era muito minucioso e muito explicado. E havia tempo para tudo, o tempo que agora é cada vez mais escasso.
Só que o próprio Anthímio de Azevedo que era tão sábio, só se atrevia a prever o tempo para os quatro ou cinco dias seguintes. Não mais do que isso. Mas os senhores do Borda d'Água não. Esses eram ainda muito mais sábios e conhecedores. Só podiam mesmo. Eu pelo menos acreditava piamente nisso. Como é que eles sabiam do início do ano (ou mesmo no ano transacto, pois tudo tinha que ser feito com a necessária antecedência para se ter o Borda d'Água nos primeiros dias do ano), que no dia 28 de Novembro iria haver muita neve e humidade? E no dia 20 de Dezembro? Como é que eles adivinhavam que ia haver chuva e vento? É que na ficha técnica desta quase centenária publicação, nunca constou (eu pelo menos nunca vi), o nome do Prof. Zandinga, do Prof. Caramba ou mesmo da Taróloga e Cartomante Maia. Ah pois não!!!
Não fora a leitura atenta do Borda d'Água e eu ficaria para sempre sem saber, que a altura do ano, mais indicada para se capar o gado é entre o mês de Maio e o mês de Junho. Coitado do gado. Ninguém merece. E como é que alguém conseguiria sobreviver, se desconhecesse que a época mais benéfica para se plantarem as gipsofilas é durante o mês de Setembro?Ah pois...
Foi também através da leitura do Borda d'Água que eu fiquei a saber que no dia dos meus anos se comemoram duas efemérides. A saber: comemora-se o Dia do Estudante e o Dia da Tuberculose. E eu confesso, gosto muito mais da ideia de se comemorar a condição de estudante (e como eu fui feliz no meu tempo de estudante!!!), do que comemorar a condição de tuberculoso. Obviamente que tenho todo o respeito e consideração por todo aquele que infelizmente se encontre doente. Desejo-lhes inclusivamente rápidas e efectivas melhoras, contudo... percebem não é? No meu dia de anos!... E depois é muito melhor comemorar o Estudo e o Conhecimento, que uma terrível doença, que infelizmente está em crescendo, quando em tempos quase que esteve erradicada da vida da "nossa" comunidade.
Eu na altura ao ler a existência das efemérides tinha sérias dúvidas. Em primeiro lugar não estava lá a razão pela qual a comemoração tinha que ter lugar naquele dia específico. Achava que aquela situação poderia muito bem ser aleatória. Um bocadinho ao calhas. E depois reparava que em muitos dias, não se comemorava nada. Hoje acredito que se na altura as comunicações estivessem tão liberadas e democratizadas como actualmente, eu era muito bem capaz de "mandar um email" à antecessora da D. Célia Cadete. E sugeria-lhe a mudança da comemoração do Dia da Tuberculose para outro dia qualquer. Podia ser no dia 29 de Dezembro, que é um dia sem efemérides, pelo menos por enquanto. No "meu dia" ficava somente a Comemoração da "Estudantada".
Mais tarde entendi mais ou menos como é que estas coisas funcionam. Está bom de ver. Não era por se comemorar o Dia da Tuberculose no meu dia de aniversário, que eu ia ficar mais ou menos prejudicada. Não era através da sua simples menção, nem das necessárias chamadas de atenção sobre tão terrível mal, que eu ia ficar "contagiada". E dei também conta de que o mundo não girava à minha volta. Eu é que girava à volta do mundo. Ás vezes penso que nascemos grandes e morremos bem pequeninos.
Mas e apesar de tudo houve algo que nunca mudou. A minha imperiosa necessidade de ter um Borda d'Água em casa. Infelizmente não vivo no campo. Vivo numa pequena cidade. Contudo, é ainda muito importante para mim saber o dia e a hora exacta em que ocorre um eclipse total da Lua.E fico contente também de saber, que o dia 24 de Novembro é justamente o dia do Feriado Municipal do Entroncamento. Ele há cada fenómeno.
Pelo exposto eu refiro que no início deste ano, eu rejubilei quando avistei o primeiro vendedor da referida publicação. Custou-me a mesma, a módica (já não tão módica assim, convenhamos) quantia de 1,80 €.
Como é costume da minha personalidade, saudei efusivamente o homem e contei-lhe da minha verdadeira adoração pelo Borda d'Água. Sou uma verdadeira viciada. Uma assumida adita. Resposta pronta do senhor; "Pois eu quando consulto o Borda d'Água, eu já não vejo um, mas sim dois".
A verdade é que eu fiquei com pena daquele sujeito. Por breves instantes pensei naquele filme em que o Chaplin trabalhava todo o dia numa fábrica, exercendo continuadamente os mesmos rituais. E ele estava de tal maneira treinado naquilo, que quando saia da fábrica e ia para casa, continuava a repetir toda uma série de movimentos. Os mesmos movimentos que executara no trabalho. Pensei também naqueles senhores e senhoras que fazem e decoram os gigantescos falos das Caldas da Rainha. Conta-se que quando chega ao fim a jornada diária, dizem todos uns para os outros: "Hoje não vamos fazer... nem mais um caralh..."
Este homem que ali se encontrava à minha frente vendia Bordas d'Água. Se calhar fazia-o desde pequeno. Por causa disso, ele já via aquelas publicações a dobrar e até mesmo a triplicar. Coitado, pensei. Mas o homem ao reparar na minha expressão de comiseração deu em explicar que: "quando consultava aquilo que ali e tão laboriosamente vendia era porque... já se encontrava com os copos".
Eu sorri e nada mais disse. Mas fiquei a questionar-me. O que é que levaria alguém fortemente etilizado a consultar o Borda d'Água? Seria para saber o quê? Seria para saber qual o melhor mês para se proceder à poda das vinhas? Ou quando é que se deve de começar a vindimar? Essas serão necessariamente as suas preocupações mais legitimas. Não se vá dar o caso da comunidade se esquecer dessas tarefas e o homem ficar assim desprovido do verdadeiro prazer que para ele deve de ser... beber vinho. É que para aquele senhor, o vinho poderá muito bem ser um bem de primeiríssima necessidade. O mais importante de todos.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Vinho Mágico" de Joanne Harris.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Vinho Mágico" de Joanne Harris.
É incrível que por mais que o tempo passe, continua-se a gostar tanto de assistir a estes hilários momentos!!! Grande Vasco Santana.
É imperioso fazer aqui um breve reparo. Observe-se como este senhor (que estava tuberculoso), canta. E de forma tão plangente. Pede, ou melhor suplica para não ser beijado, pois não quer correr o risco de contagiar alguém. Alguém menos avisado. Menos prudente. O mesmo senhor afirma ainda que está muito doente. Já se encontra inclusivamente hospitalizado. A dada altura implora mesmo que lhe tapem a cara. Ao que parece ele já se encontra com muito mau aspecto.
Mas depois há aqui uma outra dúvida que legitimamente me assiste: É que estando o senhor tão mal, como é que ele ainda tem tanta força para cantar?
Sem ironias. Desejo rápidas melhoras para todos aqueles que se encontram doentes. E depois de totalmente restabelecidos... DIVIRTAMSEMAZÉ!
Beijinhos e abraços e... até para a semana.

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