O casal composto pelo João e Maria Simões tem 86 anos na totalidade, ou seja cada um tem 43 anos. Ainda não têm filhos e como as coisas vão, se calhar o melhor é ficarem mesmo assim.
E são funcionários públicos. Anteriormente eles eram respeitados e tidos como úteis servidores do povo. Actualmente e quase de forma unânime eles são vistos como os párias e os responsáveis máximos pelo actual estado de coisas. Pela situação catastrófica deste belo país "à beira-mar plantado".
São casados um com o outro e de papel passado. E um ano destes até foram viajar para fora do país, onde descobriram o bom que é, viver num Resort (de uma ilha das Caraíbas), durante oito dias em regime de tudo pago. Obviamente que eles pagaram a viagem na sua totalidade, embora o tenham feito a prestações que duraram um ano. Foi aos 30 anos, que eles andaram pela primeira vez de avião. E como foram felizes, ao observarem as nuvens ali tão pertinho. E a terra lá em baixo, tão distante.
Hoje até receiam falar nisso. Têm medo de que, ao serem ouvidos, possam ser consideradas pessoas despesistas e pouco patriotas. É que eles viveram muito além das suas próprias posses, não é? E não pouparam nada, aqueles maganos!!!
Agora este casal já não tem direito nem ao subsidio de Férias nem ao do Natal. Na televisão eles ouviram muito emocionados o apelo do senhor Presidente da República. Com muita emoção e sentido de dever, o nosso Presidente pediu aos portugueses, que fizessem férias em Portugal. E o abençoado do nosso Primeiro Ministro a dizer que ele próprio ia dar o exemplo e continuar a passar as suas férias na Manta Rota. Bem... e por todo o exposto, o João e a Maria, tinham assim que cair em si. E ganharem finalmente...vergonha na cara.
Foi num dia de calor e sem pinga de chuva (no mês de Fevereiro), que o João abriu a caixa do correio e viu uma maneira de passar um Domingo diferente. E ficava-lhe muito baratinho. A sugestão foi-lhe dada através da leitura de um daqueles panfletos que falam nas maravilhosas "Excursões Propagandísticas". Mas aquela excursão não seria feita no dia de Carnaval, ah pois não! É que aquele casal trabalhou naquele dia (e como trabalhou), em prole do bem comum. Naquele dia eles usaram inclusivamente as suas máscaras do costume. Não! A excursãozinha teria lugar no Domingo a seguir ao Carnaval, já em plena Quaresma.
No dia aprazado, o casal saiu de casa por volta das três da manhã de Domingo. Foram esperar o autocarro no adro da Igreja da Nossa Senhora das Consolações Várias. É que, e conforme combinado, o autocarro passaria por aquele local por volta das 3:30 h. Ao longe, os Simões observaram alguns vultos. Com a aproximação, eles verificaram que também já lá estava a D. Odete que era a irmã do senhor prior e a D. Alice (que trabalhava na Florista Encantada). Também já lá estava a D. Irene, que era a empregada da Lavandaria, que era uma loja que ficava no Centro Comercial. Ao se avistarem e se reconhecerem, toda aquela gente se saudou entusiasticamente. Foram dadas ainda as Boas-Vindas ao casal, com a certeza de que que eles jamais se iriam arrepender de terem vindo. Aquele casal nunca havia sido visto naquelas aventuras.
Passado pouco tempo vêm mais três senhoras reformadas e o senhor Vítor, solteiro e bom rapaz (apesar de já ter muita idade). Vítor era tido como o ser mais excêntrico da comunidade e muito assíduo daquelas aventuras. E passados alguns momentos a D. Odete logo avisou que naquele dia, o casal iria conhecer muito mais gente.
À hora aprazada, chega o autocarro. O motorista era o Ricardo, já sobejamente conhecido pelos habitues do costume. Ricardo é sempre muito efusivo, apesar da hora. Ricardo por um instante imagina o sono regalado da sua esposa em casa e no vale branco dos lençóis, mas a vida é mesmo assim. Há que ganhá-la com esforço. E com um sorriso no rosto a coisa é bem mais fácil de aguentar.
Sem perder tempo Ricardo cumprimenta quem conhece e dá umas Boas-Vindas especiais a quem chega ali pela primeira vez. Depois, todos cumprimentam a Soraia, que era a guia de serviço e a representante da Empresa de Vendas. Esta faz o mesmo que o Ricardo, ou seja cumprimenta toda a gente com uma voz onde entram guinchos e ternuras várias. O casal Simões, ficou ali e quase imediatamente muito "enturmado".
Depois param noutros sítios (em cerca de quarenta paragens pré-determinadas). Entra assim muito mais gente e a "coisa" compõem-se. E tudo parecia indicar que aquele passeio ficaria para os "Anais das Memórias" de todos os participantes.
Já com toda a gente recolhida e saudada, são dadas informações diversas de utilidade duvidosa. Por exemplo: "É no Cartaxo que se comercializa muito vinho" e "O Cartaxo pode ser entendido como a Las Vegas de Portugal". Dá-se depois a primeira paragem, sem ser para recolher pessoas. O lugar escolhido é uma Estação de Serviço. Os habitues descem do autocarro carregando alguns sacos de plástico. Vão depois para o pé de uns bancos de madeira. Lá retiram os conteúdos dos sacos e desembrulham algumas sandes de queijo e de paio. Abrem depois alguns pacotes de leite achocolatado. É que aquela refeição ainda não estava consagrada no total dos benefícios da excursão. Mas o João e a Maria não eram sabedores disso. Como é que podiam adivinhar? Pois, e não haviam trazido qualquer mantimento com eles. Para disfarçar e afirmar que ainda não estavam assim tanto na miséria, vão ao café da Estação de Serviço e orgulhosamente... bebem um cafézinho, ou melhor, dois cafézinhos (um para cada um). Viva a abundância!!! É que por vezes há que fazer estragos e perder a cabeça.
Regressados ao autocarro, a viagem prossegue. Todos vão muito contentes, cantam muito e algumas senhoras (das mais atrevidas), até dão uns passos de dança no corredor da viatura.
A próxima paragem dá-se num ermo. À volta de uma casa (a única em quilómetros) não há quase nada, só umas árvores despidas. Entram depois na casa onde são recebidos por um entusiasta senhor com pronúncia de terras de Vera Cruz. Ali e naquele local não será fácil, nem proveitosa a deserção. E o João e a Maria também não querem ser muito notados. Era o que faltava, logo no seu primeiro dia. Resolvem assim entrar (como a grande maioria dos participantes). A única excepção é mesmo o Senhor Vítor. Esse nunca entra. Fica cá fora a fumar e a pensar no delicioso almocinho que se aproxima. E nunca ninguém se opõe a que Vítor fique do lado de fora (ele também nunca compra nada). O Vítor que por ser quem é, até conta com uma série de privilégios.
Dentro de uma grande sala, o brasileiro (pelo menos é o que a sua pronúncia parece indicar), espera calmamente e de sorriso seráfico no rosto. Deixa que toda aquela massa humana se acalme. E passados largos momentos, chega a vez da sua actuação. E é a hora de ele brilhar e de ser o profissional que dele se espera (aquele é o seu ganha pão). Pelo que e durante três a quatro horas ele falará dos benefícios ilimitados de sete ou oito panelas. O brasileiro que até tem um elevadíssimo sentido de humor. Pelo menos é o que aparenta, já que faz gargalhar a maioria de toda aquela gente. Mas nem o João nem a Maria acham muita graça àquilo. Se calhar é porque não estão ainda habituados. E como é a primeira vez... Aquilo tudo parece um código. Passado um certo tempo, algumas pessoas lá acabam por comprar os utensílios de cozinha. O João até comprou um fervedor de leite, um fervedor mágico que nunca deixa queimar nada. Mais. Até dá um gosto muito especial à comida que cozinha.
Passadas as quatro horas da praxe, saem daquele espaço e entram todos e mais uma vez no autocarro. A próxima paragem é no Restaurante. Ao senhor Vítor agora é que lhe dá a vontade de rir. É que se aproximou o momento da refeição, a sua tão esperada refeição, e com os braços erguidos ele dá passos de dança, junto à última fila de bancos no autocarro. Já no Restaurante, aquele curioso e numeroso grupo senta-se nas cadeiras colocadas ao pé de mesas muito compridas. Com eficácia a comida é-lhes servida. Não há tempo a perder. Depois todos elogiam a qualidade da refeição e de como a mesma lhes havia ficado tão barata. E o senhor Vítor que até se lambuzou todo com o Leite-Creme.
Depois vem a vez do baile. Serve para remoer a faustosa comida e também para cimentar novas relações. No baile, senhores ensebados e muito vincados, dançam ou com as suas respectivas ou então com roliças e apetecíveis viúvas. A grande maioria das senhoras excursionistas já têm uma certa idade, mas apresentam-se ali muito enfeitadas e também muito sensuais. Os pares abraçados, enlevam-se em êxtase. Por vezes até parecem ter dois metros de altura. Com muita volúpia eles rodopiam ao sabor de uma música conhecida. Com toda aquela emoção, os óculos ficam muito embaciados e as senhoras perdem os anéis e as pulseiras. A propósito: ainda é motivo de muita risota aos mais assíduos daqueles passeios, o dia em que um casal septuagenário veio àquelas lides, na companhia da sua filha invicta e quarentona. Naquele dia andavam todos a dançar e muito satisfeitos. Sem que nada o fizesse prever, a filha sofre um forte puxão que quase lhe tira o ar. Muito aflita corre para perto do pai e conta-lhe o sucedido. O pai fica muito preocupado e sem pinga de sangue. Sem saber muito bem como reagir àquela contrariedade ele gritou: "Pára o baile, pára o baile, porque roubaram o cordão da minha filha!" Com aquele alarme, toda a gente pára e fica assim muito expectante. Mas a filha e em tom de voz moderado lá explica ao pai, que o cordão ela ainda tinha, como o próprio pai podia verificar. Contudo ainda tinha as marcas avermelhadas, tipo vergões bem marcadas no pescoço. Perante isso, o pai ficou muito mais descansado, pelo que gritou (e pela segunda vez naquele dia): "Siga o baile, siga o baile, porque foi só um "arrepanhãozinho".
Também era repetida a história daquela vez em que a D. Alzira perdera o seu cachucho, enquanto andava a dançar com o António Padeiro. Esse anel havia-lhe sido ofertado pelo seu falecido (que havia sido um homem muito bom, mas que já estava a residir na companhia de Deus Nosso Senhor havia doze anos). Dado o alarme, toda a gente se colocou ou de cócoras, ou com o traseiro espetado no ar. Procuraram assim aquela jóia em manifesta acção de solidariedade para com a pobre e inconsolável senhora. E não é que passado algum tempo, alguém foi dar com o anel perdido, debaixo do pé do Sr. Henrique que era o sacristão. E pessoa mais séria que o Sr. Henrique, era difícil de encontrar.
Neste dia de festa e de folguedo, o João e a Maria, obtiveram muita informação. Souberam de muitas histórias divertidas. E também eles ali dançaram e a compasso um com o outro. É que em "Roma é conveniente ser... romano."
A D. Odete, que era a irmã do senhor padre, chegou mesmo a dançar com o brasileiro. Mas teve o cuidado e a decência de manter a distância de cerca de um palmo de entremeio, entre o seu corpo e o corpo daquele seu partner eventual. É que, vamos lá ter calma. A D. Odete era uma mulher muito séria. Uma mulher que não se podia dar a desfrutes. Isso estava reservado às "mulheres da vida", essas desenvergonhadas que eram o desgosto de toda a comunidade. Com ela não. Nem pensar! Nem mesmo com aquele simpático senhor que parecia entender tanto de... panelas.
Passadas duas horas acaba o baile. É hora de se visitar a Sé local. Mas já ninguém presta muita atenção às explicações da guia. E num ápice é chegada enfim a hora do regresso a casa. Mais uma vez, entram todos e ordeiramente no autocarro. Vão sorridentes e bem dispostos. Falam de forma inequívoca, do bom que foi a ocorrência de mais aquele passeiozinho. Um passeio abençoado por Deus (é que pelo menos estava lá a irmã do padre). Bendizem depois todos os conhecimentos que fizeram naquele dia, se bem que vendo bem as coisas, a grande maioria das pessoas até já se conhecia. O tempo foge, e num repente eles chegam ao adro da igreja, onde toda aquela aventura havia começado. A simpática guia despede-se de todos com dois beijinhos. Oferta-lhes depois... a lembrança do dia. E foi assim que o João e a Maria foram naquele Domingo para casa, na companhia de dois presuntos espanhóis e de dois garrafões de vinho.
E, já em casa os dois concluem que aquele dia havia valido a pena, oh se havia. Mas já era tarde. É que no dia seguinte eles tinham que estar bem frescos e airosos na Repartição de Finanças, onde eles ainda têm a santificada sorte de trabalhar.
Sugestão de leitura para esta semana: "Esta é a Minha Terra" de Frank McCourt.
E hoje informo da existência de um novo ditado popular (adaptado à nossa "nova" (?) realidade). O ditado diz que: "A galinha do chinês é mais rica do que qualquer português".
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E bons passeios, sejam eles de que natureza forem.
E Desopilemmazé!!! Que eu vou tentar fazer o mesmo. E... até p'ra semana!!!

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