Quando eu era mais nova, ouvia contar, que uma idosa oriunda e moradora de um meio rural, afirmava a todos a sua concordância relativamente à frequência do baile. Dizia-o particularmente às raparigas mais novas. E dizia ela: "Vão lá vão, minhas filhas, pois não é no baile que se emprenha, mas e lá que se entranha!" Quem sou eu para duvidar sobre o que aquela velha senhora dizia, pois avaliando a sua numerosa prole... Ela certamente que também começou a "entranhar" no baile...
Mas o fenómeno do baile é algo muito actual e presente na sociedade...
Um dia destes, ia eu a passear em Lisboa na companhia de uma grande amiga. E numa rua bem central da capital, ouvimos música de baile num som muito alto... Virei-me para a A. e perguntei-lhe: "Mas o que é isto?" Ela encolheu os ombros. Mas como eu sou uma "piquena" muito curiosa, abeirei-me da entrada do edifício de onde provinha aquele som... À porta estava um simpático senhor, que ao ver-me tão interessada me deu autorização para lá entrar... Fiquei tão contente! Lá em cima decorria um frequentadíssimo baile, composto maioritariamente por gente sénior... Fiquei ali a observar... Havia cadeiras e eu sentei-me numa delas.
Aquilo é que era, gente muito bem vestida, perfumada, os cavalheiros de fato completo, bem penteados, ou então de careca bem luzidia. Era um encanto... E eu ali.
Ao meu lado estava uma senhora muito elegante, já com os seus setenta e tal anos. Essa senhora estava também ela, muito bem vestida e era bonita e muito alta. Eu confesso não sei dançar, mas fora autorizada a entrar pelo que ali fiquei... E observei toda a cena:
Aquela senhora negava a dança a quase todos aqueles que a abordavam com o intuito de dançar. Eu fiquei a pensar: "Porque é que será? Se eu para aqui viesse com vontade de dançar (e se soubesse), naturalmente desejava que me convidassem"... Aquela senhora era efectivamente a mais requisitada e... recusava-se a todos e olhem que até havia lá senhores bem garbosos, mas ela... continuava e fazia-se difícil. Pensei: "Deve de haver uma lógica nisto tudo, eu é que ainda não me dei conta da mesma.
Depois e passado algum tempo de tentativas, lá foi dançar com um elegante senhor, eu concluí: "Ah! Este deve de ser aquele que ela gosta mais, e quem sabe é ele o causador de tanta elegância e tanto cuidado na sua/dela "vestimenta de baile". E lá continuaram eles a rodopiar, naquela belíssima sala...
Acabada a dança, a senhora veio para o lugar que ocupava perto de mim e ante o meu olhar e o meu sorriso incrédulo, "a disfarçar" (se é possível!!!), "entabelou" conversa comigo... Eu "totó assumida", sempre lhe perguntei, porque é que ela recusava dançar com tantos cavalheiros: Então ela respondeu-me com um doce sotaque brasileiro: "Sabe, eu não posso dançar com grande parte destes homens, é que se o fizesse, eles ficariam com as suas cabeças "enfiadas"... nos meus seios". Ah pois era!!! Era essa a razão, pois eles eram na sua grande maioria mais pequenos do que ela. Fez-se luz na minha cabecinha já com algumas falhas...
Mas depois pensei, esse era um problema mais da senhora que dos seus "pretendentes à dança", pois os cavalheiros avaliaram também eles essa situação e naturalmente acharam, que a dança seria para eles muito proveitosa, que compensaria em larga escala os seus desejos masculinos.
Este assunto faz-me lembrar e recomendar a leitura do livro: "Senhora Dona do Baile", de Zélia Gattai. Divirtam-se muito e... BOAS LEITURAS!


