Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O meu primeiro jet lag (parte II).


Por volta das 15h e 30m, alguém resolveu ligar-me de forma insistente para o meu telefone fixo. Eu, feita crédula, lá fui atender, julgando que do lado de lá, estaria alguém, que se queria efectivamente comunicar comigo. Mas, ao chegar lá, e ao pegar no aparelho o que é que eu escutei? Pois... consigo aperceber-me de uma respiração muito audível, mais nada. E desligo. Mas o telefone insiste em tocar, uma vez mais, duas vezes mais, três vezes mais... e o resultado é sempre o mesmo. Do lado de lá, parecia estar alguém que sofria de uma espécie grave de gosma, mas que nada dizia. E as horas foram-se assim sucedendo. E foi ao quadragésimo sétimo toque, que eu decidi desligar o telefone e dar-me ao luxo de tentar ter mais meia dúzia, de horas de descanso. 
Nestas andanças de cá para lá e de lá para cá, eu andava de forma periclitante, ainda às voltas com um fuso horário que não me pertencia. Quando muito era pertença da terra de onde eu havia regressado, fazia ainda muito poucas horas. Mas o meu gato, que é alguém muito pouco informado e egoísta (e com um estranhíssimo sentido de humor) ao olhar para mim, pareceu julgar-me embriagada. E olhou para mim, com cara de caso, como que a dizer: "Fizeste-a bonita!" Tenho a dizer a meu favor, e a este propósito que: "uns comem os figos, e aos outros... rebentam-lhe os beiços". Mas sei que o meu gato já frequenta os AAF, ou seja, Alcoólicos Anónimos Felinos. Poderá assim haver lugar para a... esperança num futuro melhor.
Mas foi por volta das 23h 30m, e às voltas com um sono incerto e pouco profundo, que eu verifico que o autoclismo da minha casa de banho estava avariado. A água estava sempre, sempre, a correr. Sabemos que as guerras futuras, vão dar-se por causa da falta de água. A água que é só, esse bem tão único de imprescindível à vida humana. Sem ela, não haja ilusões, morremos todos. Temos que respeitar a água, é imperioso. E, eu que tenho sempre essa consciência. Quase que tenho uma síncope quando vejo água desperdiçada, a correr livremente pelo chão, sem que ninguém faça nada, para a condicionar. Agora fora a vez do meu autoclismo deixar de funcionar. E fora justamente na melhor altura, não havia dúvida.
Mas, e com é forte, o meu sentido de dever cívico, eu levantei-me do meu leito e fui fechar a torneira do fornecimento da água à minha residência. E assim acabava com o desperdício. Contudo e para que essa minha muito nobre intenção fosse efectiva, eu tinha que sair da minha casa e descer as escadas até ao Rés-do-chão. É que a minha casa é de construção muito antiga. Pelo que saí porta fora, exactamente como estava, ou seja, envergando somente o meu reduzido e apertado pijama cor-de-rosa. Achei que, uma vez que já era de noite, naturalmente que ninguém me iria ver naqueles propósitos.
Saí então de casa, segurando as chaves firmemente na mão. Fechei a porta para que o meu gato não saísse. Desci as escadas com muito cuidado, fechei a torneira da água, subi as escadas... E a minha mais firme intenção, era entrar novamente em casa. Mas o que é que eu verifiquei, mal pus a chaves na fechadura da porta? Pois, o impensável aconteceu, e eu já não consegui entrar em casa, porque o raio da fechadura descaiu do seu lugar. Bonito... E agora, o que fazer? 
Foi com desespero, que eu verifiquei, que estava fechada... do lado de fora da porta, mas em pijama e à noite. Que martírio!... e eu que ainda estava um bocado tonta com o desgramado do Jet Lag. Mas determinada como sou, decidi que não podia desistir facilmente. Tentei uma e outra vez abrir a porta, contudo o resultado foi sempre o mesmo. E não consegui mesmo, entrar em casa. Tento, mais uma, dez, vinte vezes e... nada! E o que é que eu poderia ali fazer? Era razoável pôr-me ali aos pontapés? Aos gritos? Não. De todo.
Pois, e foi em absoluto desespero de causa, que eu decidi subir mais dois lanços de escadas e recorrer aos meus querídíssimos e mui prestáveis (e um pouco abelhudos), vizinhos. Justamente aquele casal que juntos, comemoram 180 primaveras. Acreditei que naquela triste situação, e num primeiro momento, só eles me poderiam desenrascar. 
E foi quando abriram a porta (muito funcional), do seu lar, que eles olharam para uma desarvorada e única vizinha, envergando... trajes menores. E não resistiram a saber mais detalhes. Depois de devidamente informados, eles,  muito simpaticamente permitiram que eu fizesse uso do telefone deles. E qual era o primeiro telefonema a fazer? Pensei, e naturalmente decidi telefonar para o quartel dos bombeiros da minha cidade. Achei que os mesmos (e por definição) seriam quem melhor me poderia auxiliar. E foi o que fiz. De rajada, eu falei ao bombeiro telefonista, daquela minha mui lamentável situação, não lhe escondendo o mínimo detalhe. Demonstrei-lhe desta maneira, a minha aflição mais genuína e a minha necessidade imperiosa de ajuda. Eu que nunca, mas nunca os havia chateado, com outros pedidos. 
O bombeiro ouviu-me pacata e silenciosamente. E quando me ouviu abrandar o discurso da minha desdita, decidiu intervir, dizendo-me: "Mas pelo que me conta, a senhora não tem ninguém a necessitar de auxilio dentro da sua casa, pois não?" Ao que eu respondo que, a necessitar de ajuda urgente, propriamente, eu não tinha. O que eu tinha dentro de casa, era um gato, necessariamente confuso com a minha actuação e a questionar-se mental e continuadamente sobre o que é que havia levado, uma mulher adulta, a sair de casa àquela hora da noite e de pijama. E depois, continuar a estar do lado de fora da casa, a falar com os vizinhos e a não querer entrar no conforto do lar. 
Mas a minha argumentação, não tocou minimamente a sensibilidade (ou a falta dela), daquele frio e calculista soldado da paz, já que ao ouvir-me concluir e pormenorizadamente toda a minha situação, ele me dirigiu a seguinte "pérola": "Pois lamento muito, mas verifico que não estão reunidas as condições necessárias, que possibilitem a nossa intervenção para a solução do seu problema." Ora toma e embrulha, pensei eu, de estômago deslaçado. E em simultâneo verifiquei que o meu idoso vizinho, apreciava sem qualquer decoro e fingimento, a linda renda de bilros incrustada na parte da frente, do meu pijama às bolinhas cor-de-rosa. Ah magano! 
Mas eu fiquei foi muito possessa com o desregulado bombeiro. E ainda tive tempo para lhe desabafar, sobre o mal que seria, se não pudéssemos contar com a  ajuda dos bombeiros. Que ao que parecia, era tão prestimosa e repentina. E foi com esta minha tirada, que tudo pareceu mudar. Pareceu-me que o referido bombeiro conseguiu demonstrar um laivo muito ténue de lucidez e espírito de entreajuda. E eu confesso, descansei um pouco mais, pois até aquele momento eu julguei estar a falar com um ser diabólico, já que estava muito pouco preocupado com a minha dramática (mas risível situação), convenhamos. Pelo que, aclarando a sua potente voz, de soprador de tuba ele disparou: "Bem, atendendo às circunstâncias daquilo que me está a comunicar, o máximo que lhe posso fazer, é dar-lhe o número de contacto de um senhor que arranja fechaduras." Ao que eu prontamente lhe respondi que lhe ficava muito agradecida. E por breves instantes e naquela aflição, eu acreditei aliviada, que aquela minha triste situação poderia conhecer... um final feliz. 
É importante que continuemos a acreditar, que os bombeiros são seres muito necessários à comunidade. Mas eu confesso, cheguei a acreditar, que aquele que ali me estava a escutar, não se ralava minimamente que eu ficasse na rua, a dormir ao relento e ao pé dos vasos das flores. E depois, a servir empenhadamente de alimentação, a exércitos e exércitos de melgas esfomeadas.
Sugestão de Leitura para esta semana: "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" de António Lobo Antunes. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!!

Nota: Tenho a dizer que esta canção não é nada divertida. Mas convenhamos, Elis é Elis. E como ela era brilhante! Tinha que ter lugar aqui, nesta minha muito modesta assoalhada bloguista. 
Contudo, eu ainda me atrevo a dizer que, a fúria e a tristeza dela, presente nesta sua muito dramática actuação era um pouco semelhante à raiva que naquela noite eu senti pelo enigmático e perverso bombeiro. Eu, que naturalmente, não consegui desenvolver por ele, qualquer afecto, como é evidente. Mais. Desejei que o mesmo por seculo seculorum, permanecesse muito longe da minha porta. E que eu nunca o chegasse a conhecer.
Mas esta história ainda não acabou aqui. Bem... esta, está a ser difícil de concluir, mas, como é um episódio tão complexo!!!  :-)
DIVIRTAMSEMAZÉ! E boas e reconfortantes leituras.

sábado, 21 de julho de 2012

O meu primeiro jet lag (parte I).


Foi depois de uma enorme viagem de regresso do Extremo Oriente, que eu experienciei pela primeira vez o fenómeno estranho e absolutamente aborrecido que é o raio do Jet Lag. Eu antes disso, já tinha tido oportunidade de viajar bastante, contudo daquele fenómeno eu havia até ali, escapado impávida.
Reza a tradição, que quando o Jet Lag não ocorre quando viajamos para Ocidente, será por nós vivido quando viajarmos para Oriente. Pelo que eu, e ao que parece, tenho problemas é em ir para a Ásia, mas... e se os nossos "santificados subsídios" ressuscitarem, até pode ser que eu consiga lá ir novamente. E ficar assim com a certeza. Seria tão bom!!!
Regressada então da viagem, eu insisti em conduzir o meu carro e ir ficar à minha casa. De nada valeram os simpáticos convites de familiares, para que pelo menos naquela noite, eu ficasse a dormir lá na casa deles, que fica muito mais próxima do aeroporto. Eu moro nos arredores de Lisboa, pelo que já dentro da viatura, eu liguei o piloto automático e... confesso que nem reconheci as terras por onde estava a passar. Terras essas onde eu costumo passar todos os dias. Trata-se do percurso que eu efectuo para chegar ao meu local de trabalho. Só que ali eu não consegui ter a capacidade de reconhecer se aquela terra era a X ou a Y. Mas pelo menos eu lembrava-me vagamente da condução, assim como das regras de trânsito.
Chegada a casa e absolutamente agastada, eu reconheço levemente o gato, como alguém que já por ali habita vai para cinco anos, mas ignoro-o com desfaçatez... e corro para a cama onde fico a dormir.
No dia seguinte, pelas sete horas da madrugada, sinto que batem energicamente à minha porta. Desoladíssima e de andar arrastado, com umas olheiras que me chegavam até à cintura, eu vou abrir a porta. E quem seria àquela hora? Seriam Testemunhas de Jeová? Seria o funcionário da EDP, que insiste em não acreditar, nas leituras que eu lhe transmito por telefone, do meu consumo de electricidade? Não. Eram os meus queridos e únicos vizinhos (os tais que juntos completam a bonita idade de 180 anos, como eu aqui já falei, tempos atrás).
Os velhinhos, estavam visivelmente alegres por me verem, só que a inversa não foi verdadeira. Mas as regras da boa vizinhança obrigaram-me a disfarçar. E ali estavam os dois. Depois, com uma voz estridente mas em coro, fizeram questão de me saudar. Foi mais ou menos assim: "Viva a nossa querida vizinha! Ainda bem que já regressou". Eu agradeci-lhes a atenção, mas fiquei a pensar que a mesma podia ter esperado melhor oportunidade. Podia ter sido realizada por volta das dez horas da noite. Mas não! Tinha que ser tão cedo, quase de madrugada. Existe um mito urbano que refere que os velhinhos dormem pouco. E como eles gostam de madrugar, Santo Deus!
Ora eu, de olhos semi-fechados devido ao inchado provocado pelas poucas horas de sono, agradeci-lhes a generosidade daquelas boas-vindas. E ia a fechar a porta, quando... me apercebo de que os velhinhos tinham ainda mais alguma coisa para me dizer, pois estavam os dois muito inquietos e agitados. Deixei-os falar. E foi assim que eu descobri que havia deixado no lado de fora da minha casa, a minha mala de viagem, assim como a minha mochila com os documentos. Não deixei lá foi dinheiro nenhum, porque felizmente (atendendo às circunstâncias, claro está), já o tinha gasto todo. E sem demora, eu recolhi envergonhada os meus pertences negligenciados,  propondo-me em seguida a ir dormir por mais umas horas.
Só que passada nem uma hora, sinto que me abrem a porta de casa. "E agora quem será?", penso eu. "Será algum familiar que se possa ter esquecido de alguma coisa aqui? Ou será algum senhor ladrão? Se fosse, tratava-se de uma hora muito imprópria para me assaltar. Logo naquela altura em que eu precisava tanto de dormir". Além do mais, o meliante vinha um bocado atrasado. É que se tivesse vindo mais cedo, poderia ter levado as minhas malas, sem ter necessidade de entrar para dentro da minha modesta residência.
Mas resolvo esperar, só já não me dou, é ao trabalho de me levantar da cama. Espero um segundo e quem é que me assoma à porta do quarto? Pois, é a sorridente da Alcina, que é a senhora que para além de me tratar das limpezas de casa (uma vez por semana), ficou com a incumbência de me tratar do gato nas minhas ausências. E eu que lhe havia falado tanto do dia do meu regresso! Foi com desolação que eu lhe vi a cabecinha empertigada, esticada à porta do meu quarto e a dizer: "Olha, a senhora já cá está. E eu que pensava que só regressava amanhã!" Ao que eu respondi, que lhe havia dito que o meu regresso seria na Quarta-Feira. E já estávamos na Quinta-Feira. A simpática senhora então concluiu. "Pois, hoje já é Quinta-Feira, é verdade." 
"Pois é", ainda pensei eu. Foi com uma rapidez impressionante, que aquela senhora fez ali uma brilhante constatação. Constatação essa que está somente ao nível de algumas das cabeças mais iluminadas a nível mundial. Só semelhante à daqueles que descobriram o tal do Busão de Higgs. Mas eu confesso, já nada lhe respondi. Virei-me foi para o outro lado e já não ouvi mais nada. Não a senti sair dali. E nem sequer ouvi o bater da porta.
Sugestão de Leitura para esta semana: "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso.



Mas a história de hoje, não acaba aqui.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

sábado, 14 de julho de 2012

Algumas das vicissitudes da vida.


A técnica está muito avançada, é um facto. Mas há assuntos que são tratados de diferentes formas e com diversos graus de importância. E quantos de nós, ainda não se confrontaram com o facto da ocorrência de uma inusitada necessidade fisiológica, que nos deixa literalmente de "calças na mão"?
Eu, assim como grande parte da população (estou em crer), detesto os sanitários públicos. Contudo não posso deixar de avaliar, que os mesmos são absolutamente necessários. Mas não posso é reconhecer-lhes nem o grau de limpeza, nem o grau de confiança que eu detenho na minha própria casa-de-banho. Sendo ela pequena e modesta, é a minha "casinha". Tenho dito!
Quando estamos fora de portas, e quando tal é possível, adiasse a coisa o mais que se puder (se bem que é penosos e pouco saudável andar para ali "apertadinha"). O pior é quando não dá para adiar e tem que se recorrer a esses espaços. Espaços esses onde todas as bactérias, costumam fazer as suas melhores raves. Falo muito especialmente de quando se anda a viajar. E quanto a experiências nesse assunto, eu quase que me sinto capaz de elaborar todo um tratado.
Em tais situações e como toda a gente sabe, as senhoras, demoram "infinidades" nas casa-de-banho. A causa de tal ocorrência, será primeiramente devida à própria fisiologia feminina. Mas também não é de descartar outro pequeno detalhe. É que a roupa feminina é naturalmente sexy mas complexa. As nossas "roupas de gaja", são muito mais difíceis de despir, que as usadas pelos nossos colegas. E depois insistimos em ir para lá, sempre duas a duas. Nós já deveríamos de ter chegado à conclusão, que são as companhias que levamos, que complicam ainda mais toda aquela penosa espera. E desgostosamente ficamos ali, a olhar-mos umas para as outras, credo!...Quanto aos homens é tudo muito mais simples. Eles vão muitas vezes para ali sozinhos e  em muitas alturas, só têm que por o "seu querido irmão" a arejar, num processo muito rápido e pouco trabalhoso.
No fim temos uma evidência. As mulheres passam mesmo muito tempo, em filas para irem à casa-de-banho. E como tudo aquilo é bastante desencorajador para quem se quer despachar!  Eu tenho a dizer que sou uma pessoa que rapidamente perde a paciência, pelo que, às vezes e quando posso, eu utilizo-me dos sanitários que estão ao serviço dos machos, quando os sanitários estão vagos,  como é óbvio. Pelo que verificadas as condições necessárias de segurança, eu muitas vezes arrisco e lá vou, mas...
Uma vez na Suécia, isso aconteceu-me. No lado das mulheres, estava uma fila, que dava literalmente a volta ao quarteirão. Ao passo que no lado dos homens, a coisa fluía alegremente, com os poucos que por ali circulavam a fazer lindas piadas, a todo aquele nosso padecimento. Eu ali, pus-me logo a ver das possibilidades... E nessas circunstâncias alguns homens tomam muita atenção em mim, pelo que escolho um ao acaso e lanço-lhe um "olhar fatal". Às vezes tenho sorte.
Naquela situação, houve um simpático e solicito senhor sueco, que se pôs literalmente à minha disposição. E por favor, não se ponham a conjecturar apressada e incorrectamente as coisas. Ora nem ele falava português, nem eu sueco. E quanto ao inglês, nós nem sequer tentámos. É que chegamos ao entendimento com a forma mais romântica, cabal e universal que eu conheço, ou seja, através do gesto. Pelo que naquele dia, eu fui aos sanitários masculinos, com toda a calma e descontracção, ficando como guardião à porta, um simpático senhor que não deixou que mais nenhum outro ali entrasse. Quando saí, e mais uma vez recorrendo ao gesto, desejei-lhe as maiores felicidades. É que convenhamos eu tinha que lhe estar muito agradecida. E também estava muito mais aliviada. As "enfileiradas", é que ficaram ali a olhar para mim, cheias de inveja.
Em contraste com esta situação, e na cidade de Mérida, em Espanha, aconteceu-me precisamente o contrário. Ou seja, a casa de banho masculina, também estava vaga, e eu dou em pedir a UMA GRANDE AMIGA MINHA que me guarde "o pedaço". Ela acedeu e depois eu lá fui descansada para os sanitários masculinos. Só que há coisas em que as mulheres são muito piores que os homens. E só eu sei o quanto me custa admitir isto!  Mas há um facto que é absolutamente inquestionável: nós somos muito pouco solidárias umas com as outras.
Ora estava eu, já muito descansadinha e a começar a desapertar as calças, quando me entra abruptamente pela a casa-de-banho adentro, um certo senhor. Um senhor que por sinal é, desde há já muito tempo, da adoração da minha amiga, Ah pois foi!!!
Aquele homem a ver-me ali e naquelas condições, ficou para além de incomodado, também um bocado envergonhado. E saiu dali muito cabisbaixo. E o que é que a magana da minha amiga esteve  a fazer, que a distraiu da vigilância, perguntam-me vocês? Pois... esteve a verificar a qualidade da sua maquilhagem ao espelho. E depois de tudo aquilo, vocês nem calculam. O que aquela "desgraçada" se riu. De nada valeram os meus pedidos. Ela pura e simplesmente, marimbou-se para os meus cuidados. Assim como na necessidade imperiosa que eu tenho, de recato e de contemplação. E eu fiquei assim com uma linda história para contar. Resta ainda dizer, que (e apesar de tudo), ela continua a ser minha amiga, mas, convenhamos, a ... "vingança é um prato que se come frio", não é?


Mas houve ainda outro acontecimento, que foi de tal forma inusitado e que me provocou tanto riso, que com isso, eu acabaria por derramar numerosas lágrimas. E ainda hoje me farto de rir ao pensar nisso. Quando eu era um pouco mais nova, eu trabalhei como recepcionista num Museu. Ora sendo uma Casa Museu, era no dia em que o Patrono da casa fazia anos (ou de nascimento, ou de falecimento), que aquele espaço era mais frequentado. As pessoas nesses dois dias, aproveitavam e faziam-lhe assim as suas homenagens. E acreditem, naqueles dias o Museu era mesmo muito concorrido.
Ora num certo ano, eu quis ir à casa-de-banho. Aproveito para dizer que, aquele espaço não tinha casa-de-banho, reservada somente para o uso dos funcionários. Pelo que eu, dirigi-me ao respectivo local e, verifico que para além de uma imensa fila de mulheres, já por lá cheirava muitíssimo mal. O que me fez crer que as condições de higiene ali, e àquela altura do dia, já deixavam muito a desejar. Depois, eu olhei para o lado e, a casa-de-banho dos homens estava logo ali, e tão à mão de semear. Mas confesso, eu não tive coragem de pedir a ninguém que me guardasse a porta. É que eu estava ali a trabalhar, não é? E com aquela minha atitude, eu estava a inverter todas as regras de funcionamento do local. Além do mais, eu estava convencida que me ia despachar tão rapidamente que nenhum homem ia ter tempo de lá entrar. E, entro para a casa de banho e fecho-me naquele exíguo espaço. Só que a casa-de-banho, para além daquele exíguo espaço, tem na parte de fora um... horroroso urinol... Ah pois tem! E eu que não ouvi nada!!!
Pelo que logo que eu saí da casa-de-banho, eu senti que tinha companhia. E, quem é que lá estava? Pois estava lá um senhor de idade, a segurar firmemente o seu membro reprodutor. Ele... que estava pacatamente a urinar. Bem, pacatamente é como quem diz. Ele esteve...  Ele que ficou muito espantado por me ver ali a passar. Mas continuou a fazer o que se esperava dele em idênticas circunstâncias, só que mais encostadinho ao urinol. Apesar de muito ocupado, ele ainda me perguntou em alta voz: "Mas afinal, isto é uma casa-de-banho para homens ou para mulheres?"
Meus amigos, eu nada lhe respondi. Saí dali, o mais rapidamente que pude e fui-me esconder. E só saí do meu esconderijo, quando aquele senhor e toda a sua família, abandonaram de vez aquelas instalações. Depois de terem visitado todo o Museu. É que creiam, eu tive muito receio de ser apontada, como sendo uma pessoa perturbada e "olharapa". E vocês já me conhecem um pouco, sabem que eu não sou nada assim.
Sugestão de leitura para esta semana: "Breviário das Más Inclinações" de José Riço Direitinho.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

 

sábado, 7 de julho de 2012

A magia do ovo.


Quando eu fui ao Japão eu já era uma balzaquiana, ou seja, eu já tinha uma certa idade. Contudo dizem as pessoas, que eu tenho uma aparência muito jovem. Regra geral nunca me dão a idade que está comprovadamente atestada, na consulta ao meu Cartão de Cidadão. E convenhamos, ainda bem que é assim. 
Contudo tal temática não é para mim muito preocupante. Considero que devemos de manter o espírito jovem. E o corpo, minimamente funcional. As rugas para além do facto, de comprovarem que já por cá andamos há algum tempo, significam que devemos de ter muitas estórias para relembrar e contar. E voltamos a rir novamente, com uma série de coisas, que no passado, nos tiraram do sério. Ou então que de tão divertidas que foram, nos fizeram rir tanto, que nos chegaram a provocar, o derrame de algumas lágrimas. Eu confesso, eu adoro as minhas rugas de expressão. São como que troféus para mim.
Mas nem sempre foi assim. E eu nem sempre tive uma aparência jovem. Quando eu tinha quinze ou dezasseis anos, eu fui pela primeira vez (e única, se calhar fiquei com algum trauma), ao Teatro de Revista. A peça chamava-se: "Lisboa; Tejo e Tudo". E a figura de topo que ali actuava era o actor Carlos Miguel, mais conhecido pelo Fininho, entretanto já falecido. Ora aquele senhor fazia lá uma rábula dedicada à temática do beijo. O homem actuava, falava sobre o assunto e no fim da sua actuação, vinha para junto do público. Depois ele dava (e a meu ver indiscriminadamente), beijinhos a grande parte da assistência, que também na altura já não abundava. A mim também me coube o simpático cumprimento. Até aqui tudo bem. O pior veio depois, quando após uma breve troca de palavras, o actor me solicita que eu depois dê um beijinho ao meu marido, referindo-se ao senhor que estava sentado ao meu lado. Ora o senhor que estava sentado ao meu lado, era o meu pai. O meu PAI. Pessoa que tem (e Deus queira que por muitos anos ainda), mais vinte e oito anos que eu. 
Eu sabia que era muito comum a ocorrência de enlaces matrimoniais em que os seus elementos tinham uma grande diferença de idades um do outro. Mas convenhamos. Eu tinha quinze anos. E para piorar aquilo tudo, o meu "pressuposto marido" era nem mais nem menos, que o meu próprio pai. Aquilo na altura chateou-me um bocado. E deixou-me muito mal humorada. Pensei: "Será que já tenho ar de ser... uma mulher casada?" E confesso, eu na altura não fiquei, com nenhuma vontade de me divertir.
Mas com o passar dos anos, ocorreria precisamente o contrário. E como tudo isso agora me diverte! 
Ora no Japão e nas proximidades do Monte Fuji, mais concretamente na cidade de Hakone, são lá vendidos uns ovos cozidos, de aspecto muito duvidoso, pelo menos para mim. Bem cozidos será uma metáfora. A cor dos mesmos é preta (como aliás atesta a fotografia aqui postada), são cozidos no vapor de um vulcão. Sujeitos a todo aquele enxofre. Ora são cozidos... mas cozidos é como quem diz. É que quando se abrem, eles estão praticamente crus. Eu nunca entendi o porquê da paranóia dos japoneses para tudo aquilo que é cru. Será muito saudável, certo. Mas a comida deles... não sabe a nada! Sim, poderei não ser a pessoa mais requintada do mundo. Mas definitivamente... aquilo não me convence. E estou convencida que depois de passar toda esta moda, se voltará em massa, ao Bacalhau à Gomes Sá e também ao arrozinho de grelos.
Ora naquela cidade eu decidi comprar seis. Seis ovos pretos. É que ali os ovos, não se vendem à unidade! Reza a lenda, que aqueles ovos são mágicos. Diz-se que quem comer um daqueles ovos, prolonga a sua vida em sete anos. Os ovinhos ao serem  cozidos (bem serão mais... aquecidos) na fuga do próprio vulcão, estão sujeitos a toda uma série de químicos que ali abundam e que lhe conferem aquela tonalidade tão escura. Assim como lhe atribuem, todas as suas propriedades mágicas.
Eu comi um, confesso. Mas aquela experiência não foi assim muito memorável. Foi até bastante penosa. Eu só consegui comer um. É que não é nada agradável para mim, colocar na minha boca um ovo... cru. Eu que até nem gosto nada de gemadas. Mas ali eu não poderia perder a oportunidade, não é? Agora sempre posso contar com um acréscimo de mais sete aninhos. E viverei assim e gloriosamente até aos 157. Pelo que foi no sossego do meu quarto de hotel que a muito custo, eu lá emborquei um ovo cru, mágico e japonês. Tal qual como se o fizesse, com um muito pouco confiável shot.
No dia imediatamente a seguir, eu estava pacatamente a tomar o meu pequeno almoço. E um casal português que estava, tal qual eu, em pleno gozo de férias em terras nipónicas, decidiu perguntar-me a idade. Eu sem rodeios, respondi que tinha quarenta anos. Nem mais nem menos. O homem põe-se a olhar para mim, depois para a sua patroa. A mulher olha para o seu compagnon de route, depois fez uma cara de grande incredulidade. E no fim disse-me: "Pois bem... eu não lhe dava mais que vinte e oito.
E foi assim meus amigos, que com um simples ovo japonês, eu perdi, e numa penada... doze anos. Não tive que recorrer a cirurgias, nem tive que fazer nenhuma dieta estapafúrdia. Também não tive que colocar nenhum botox. Nada! Foi somente necessário... engolir um ovo cru japonês.
Mas agora, eu estou aqui a pensar. Terá que ser mesmo um ovo japonês? Não poderá dar-se o milagre com um ovo de uma outra qualquer nacionalidade? Se calhar...? E vendo bem, também não foi assim tão custoso comer aquele  ovo cru, que diabos. Também não foi assim nenhuma tragédia. E na volta o ovo por si só é que nos faz parecer bem mais novas. E se calhar até nem são assim tão necessários... os gazes vulcânicos. E eu que até ali tenho dois ovos no frigorifico. Um momento porque eu agora, vou comer uma gemada (...)
Pronto! Já regressei, sinto-me outra. Muito mais leve. Muito mais positiva. Muito mais bonita. Mais... tudo.
Mas o que é isto, Meu Deus? Eu estou cheia de borbulhagem na testa. Será alguma reacção alérgica? Ou será o inicio da minha puberdade?
Sugestão de leitura para esta semana: "O Estranho Caso de Benjamim Button" de F. Scott Fitzgerald.
DIVIRTAMSEMAZÉ e vivam boas e inesquecíveis experiências.