Foi depois de uma enorme viagem de regresso do Extremo Oriente, que eu experienciei pela primeira vez o fenómeno estranho e absolutamente aborrecido que é o raio do Jet Lag. Eu antes disso, já tinha tido oportunidade de viajar bastante, contudo daquele fenómeno eu havia até ali, escapado impávida.
Reza a tradição, que quando o Jet Lag não ocorre quando viajamos para Ocidente, será por nós vivido quando viajarmos para Oriente. Pelo que eu, e ao que parece, tenho problemas é em ir para a Ásia, mas... e se os nossos "santificados subsídios" ressuscitarem, até pode ser que eu consiga lá ir novamente. E ficar assim com a certeza. Seria tão bom!!!
Regressada então da viagem, eu insisti em conduzir o meu carro e ir ficar à minha casa. De nada valeram os simpáticos convites de familiares, para que pelo menos naquela noite, eu ficasse a dormir lá na casa deles, que fica muito mais próxima do aeroporto. Eu moro nos arredores de Lisboa, pelo que já dentro da viatura, eu liguei o piloto automático e... confesso que nem reconheci as terras por onde estava a passar. Terras essas onde eu costumo passar todos os dias. Trata-se do percurso que eu efectuo para chegar ao meu local de trabalho. Só que ali eu não consegui ter a capacidade de reconhecer se aquela terra era a X ou a Y. Mas pelo menos eu lembrava-me vagamente da condução, assim como das regras de trânsito.
Chegada a casa e absolutamente agastada, eu reconheço levemente o gato, como alguém que já por ali habita vai para cinco anos, mas ignoro-o com desfaçatez... e corro para a cama onde fico a dormir.
No dia seguinte, pelas sete horas da madrugada, sinto que batem energicamente à minha porta. Desoladíssima e de andar arrastado, com umas olheiras que me chegavam até à cintura, eu vou abrir a porta. E quem seria àquela hora? Seriam Testemunhas de Jeová? Seria o funcionário da EDP, que insiste em não acreditar, nas leituras que eu lhe transmito por telefone, do meu consumo de electricidade? Não. Eram os meus queridos e únicos vizinhos (os tais que juntos completam a bonita idade de 180 anos, como eu aqui já falei, tempos atrás).
Os velhinhos, estavam visivelmente alegres por me verem, só que a inversa não foi verdadeira. Mas as regras da boa vizinhança obrigaram-me a disfarçar. E ali estavam os dois. Depois, com uma voz estridente mas em coro, fizeram questão de me saudar. Foi mais ou menos assim: "Viva a nossa querida vizinha! Ainda bem que já regressou". Eu agradeci-lhes a atenção, mas fiquei a pensar que a mesma podia ter esperado melhor oportunidade. Podia ter sido realizada por volta das dez horas da noite. Mas não! Tinha que ser tão cedo, quase de madrugada. Existe um mito urbano que refere que os velhinhos dormem pouco. E como eles gostam de madrugar, Santo Deus!
Ora eu, de olhos semi-fechados devido ao inchado provocado pelas poucas horas de sono, agradeci-lhes a generosidade daquelas boas-vindas. E ia a fechar a porta, quando... me apercebo de que os velhinhos tinham ainda mais alguma coisa para me dizer, pois estavam os dois muito inquietos e agitados. Deixei-os falar. E foi assim que eu descobri que havia deixado no lado de fora da minha casa, a minha mala de viagem, assim como a minha mochila com os documentos. Não deixei lá foi dinheiro nenhum, porque felizmente (atendendo às circunstâncias, claro está), já o tinha gasto todo. E sem demora, eu recolhi envergonhada os meus pertences negligenciados, propondo-me em seguida a ir dormir por mais umas horas.
Só que passada nem uma hora, sinto que me abrem a porta de casa. "E agora quem será?", penso eu. "Será algum familiar que se possa ter esquecido de alguma coisa aqui? Ou será algum senhor ladrão? Se fosse, tratava-se de uma hora muito imprópria para me assaltar. Logo naquela altura em que eu precisava tanto de dormir". Além do mais, o meliante vinha um bocado atrasado. É que se tivesse vindo mais cedo, poderia ter levado as minhas malas, sem ter necessidade de entrar para dentro da minha modesta residência.
Mas resolvo esperar, só já não me dou, é ao trabalho de me levantar da cama. Espero um segundo e quem é que me assoma à porta do quarto? Pois, é a sorridente da Alcina, que é a senhora que para além de me tratar das limpezas de casa (uma vez por semana), ficou com a incumbência de me tratar do gato nas minhas ausências. E eu que lhe havia falado tanto do dia do meu regresso! Foi com desolação que eu lhe vi a cabecinha empertigada, esticada à porta do meu quarto e a dizer: "Olha, a senhora já cá está. E eu que pensava que só regressava amanhã!" Ao que eu respondi, que lhe havia dito que o meu regresso seria na Quarta-Feira. E já estávamos na Quinta-Feira. A simpática senhora então concluiu. "Pois, hoje já é Quinta-Feira, é verdade."
"Pois é", ainda pensei eu. Foi com uma rapidez impressionante, que aquela senhora fez ali uma brilhante constatação. Constatação essa que está somente ao nível de algumas das cabeças mais iluminadas a nível mundial. Só semelhante à daqueles que descobriram o tal do Busão de Higgs. Mas eu confesso, já nada lhe respondi. Virei-me foi para o outro lado e já não ouvi mais nada. Não a senti sair dali. E nem sequer ouvi o bater da porta.
Sugestão de Leitura para esta semana: "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso.
Mas a história de hoje, não acaba aqui.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

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