Por volta das 15h e 30m, alguém resolveu ligar-me de forma insistente para o meu telefone fixo. Eu, feita crédula, lá fui atender, julgando que do lado de lá, estaria alguém, que se queria efectivamente comunicar comigo. Mas, ao chegar lá, e ao pegar no aparelho o que é que eu escutei? Pois... consigo aperceber-me de uma respiração muito audível, mais nada. E desligo. Mas o telefone insiste em tocar, uma vez mais, duas vezes mais, três vezes mais... e o resultado é sempre o mesmo. Do lado de lá, parecia estar alguém que sofria de uma espécie grave de gosma, mas que nada dizia. E as horas foram-se assim sucedendo. E foi ao quadragésimo sétimo toque, que eu decidi desligar o telefone e dar-me ao luxo de tentar ter mais meia dúzia, de horas de descanso.
Nestas andanças de cá para lá e de lá para cá, eu andava de forma periclitante, ainda às voltas com um fuso horário que não me pertencia. Quando muito era pertença da terra de onde eu havia regressado, fazia ainda muito poucas horas. Mas o meu gato, que é alguém muito pouco informado e egoísta (e com um estranhíssimo sentido de humor) ao olhar para mim, pareceu julgar-me embriagada. E olhou para mim, com cara de caso, como que a dizer: "Fizeste-a bonita!" Tenho a dizer a meu favor, e a este propósito que: "uns comem os figos, e aos outros... rebentam-lhe os beiços". Mas sei que o meu gato já frequenta os AAF, ou seja, Alcoólicos Anónimos Felinos. Poderá assim haver lugar para a... esperança num futuro melhor.
Mas foi por volta das 23h 30m, e às voltas com um sono incerto e pouco profundo, que eu verifico que o autoclismo da minha casa de banho estava avariado. A água estava sempre, sempre, a correr. Sabemos que as guerras futuras, vão dar-se por causa da falta de água. A água que é só, esse bem tão único de imprescindível à vida humana. Sem ela, não haja ilusões, morremos todos. Temos que respeitar a água, é imperioso. E, eu que tenho sempre essa consciência. Quase que tenho uma síncope quando vejo água desperdiçada, a correr livremente pelo chão, sem que ninguém faça nada, para a condicionar. Agora fora a vez do meu autoclismo deixar de funcionar. E fora justamente na melhor altura, não havia dúvida.
Mas, e com é forte, o meu sentido de dever cívico, eu levantei-me do meu leito e fui fechar a torneira do fornecimento da água à minha residência. E assim acabava com o desperdício. Contudo e para que essa minha muito nobre intenção fosse efectiva, eu tinha que sair da minha casa e descer as escadas até ao Rés-do-chão. É que a minha casa é de construção muito antiga. Pelo que saí porta fora, exactamente como estava, ou seja, envergando somente o meu reduzido e apertado pijama cor-de-rosa. Achei que, uma vez que já era de noite, naturalmente que ninguém me iria ver naqueles propósitos.
Saí então de casa, segurando as chaves firmemente na mão. Fechei a porta para que o meu gato não saísse. Desci as escadas com muito cuidado, fechei a torneira da água, subi as escadas... E a minha mais firme intenção, era entrar novamente em casa. Mas o que é que eu verifiquei, mal pus a chaves na fechadura da porta? Pois, o impensável aconteceu, e eu já não consegui entrar em casa, porque o raio da fechadura descaiu do seu lugar. Bonito... E agora, o que fazer?
Foi com desespero, que eu verifiquei, que estava fechada... do lado de fora da porta, mas em pijama e à noite. Que martírio!... e eu que ainda estava um bocado tonta com o desgramado do Jet Lag. Mas determinada como sou, decidi que não podia desistir facilmente. Tentei uma e outra vez abrir a porta, contudo o resultado foi sempre o mesmo. E não consegui mesmo, entrar em casa. Tento, mais uma, dez, vinte vezes e... nada! E o que é que eu poderia ali fazer? Era razoável pôr-me ali aos pontapés? Aos gritos? Não. De todo.
Pois, e foi em absoluto desespero de causa, que eu decidi subir mais dois lanços de escadas e recorrer aos meus querídíssimos e mui prestáveis (e um pouco abelhudos), vizinhos. Justamente aquele casal que juntos, comemoram 180 primaveras. Acreditei que naquela triste situação, e num primeiro momento, só eles me poderiam desenrascar.
E foi quando abriram a porta (muito funcional), do seu lar, que eles olharam para uma desarvorada e única vizinha, envergando... trajes menores. E não resistiram a saber mais detalhes. Depois de devidamente informados, eles, muito simpaticamente permitiram que eu fizesse uso do telefone deles. E qual era o primeiro telefonema a fazer? Pensei, e naturalmente decidi telefonar para o quartel dos bombeiros da minha cidade. Achei que os mesmos (e por definição) seriam quem melhor me poderia auxiliar. E foi o que fiz. De rajada, eu falei ao bombeiro telefonista, daquela minha mui lamentável situação, não lhe escondendo o mínimo detalhe. Demonstrei-lhe desta maneira, a minha aflição mais genuína e a minha necessidade imperiosa de ajuda. Eu que nunca, mas nunca os havia chateado, com outros pedidos.
O bombeiro ouviu-me pacata e silenciosamente. E quando me ouviu abrandar o discurso da minha desdita, decidiu intervir, dizendo-me: "Mas pelo que me conta, a senhora não tem ninguém a necessitar de auxilio dentro da sua casa, pois não?" Ao que eu respondo que, a necessitar de ajuda urgente, propriamente, eu não tinha. O que eu tinha dentro de casa, era um gato, necessariamente confuso com a minha actuação e a questionar-se mental e continuadamente sobre o que é que havia levado, uma mulher adulta, a sair de casa àquela hora da noite e de pijama. E depois, continuar a estar do lado de fora da casa, a falar com os vizinhos e a não querer entrar no conforto do lar.
Mas a minha argumentação, não tocou minimamente a sensibilidade (ou a falta dela), daquele frio e calculista soldado da paz, já que ao ouvir-me concluir e pormenorizadamente toda a minha situação, ele me dirigiu a seguinte "pérola": "Pois lamento muito, mas verifico que não estão reunidas as condições necessárias, que possibilitem a nossa intervenção para a solução do seu problema." Ora toma e embrulha, pensei eu, de estômago deslaçado. E em simultâneo verifiquei que o meu idoso vizinho, apreciava sem qualquer decoro e fingimento, a linda renda de bilros incrustada na parte da frente, do meu pijama às bolinhas cor-de-rosa. Ah magano!
Mas eu fiquei foi muito possessa com o desregulado bombeiro. E ainda tive tempo para lhe desabafar, sobre o mal que seria, se não pudéssemos contar com a ajuda dos bombeiros. Que ao que parecia, era tão prestimosa e repentina. E foi com esta minha tirada, que tudo pareceu mudar. Pareceu-me que o referido bombeiro conseguiu demonstrar um laivo muito ténue de lucidez e espírito de entreajuda. E eu confesso, descansei um pouco mais, pois até aquele momento eu julguei estar a falar com um ser diabólico, já que estava muito pouco preocupado com a minha dramática (mas risível situação), convenhamos. Pelo que, aclarando a sua potente voz, de soprador de tuba ele disparou: "Bem, atendendo às circunstâncias daquilo que me está a comunicar, o máximo que lhe posso fazer, é dar-lhe o número de contacto de um senhor que arranja fechaduras." Ao que eu prontamente lhe respondi que lhe ficava muito agradecida. E por breves instantes e naquela aflição, eu acreditei aliviada, que aquela minha triste situação poderia conhecer... um final feliz.
É importante que continuemos a acreditar, que os bombeiros são seres muito necessários à comunidade. Mas eu confesso, cheguei a acreditar, que aquele que ali me estava a escutar, não se ralava minimamente que eu ficasse na rua, a dormir ao relento e ao pé dos vasos das flores. E depois, a servir empenhadamente de alimentação, a exércitos e exércitos de melgas esfomeadas.
Sugestão de Leitura para esta semana: "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" de António Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!!
Nota: Tenho a dizer que esta canção não é nada divertida. Mas convenhamos, Elis é Elis. E como ela era brilhante! Tinha que ter lugar aqui, nesta minha muito modesta assoalhada bloguista.
Contudo, eu ainda me atrevo a dizer que, a fúria e a tristeza dela, presente nesta sua muito dramática actuação era um pouco semelhante à raiva que naquela noite eu senti pelo enigmático e perverso bombeiro. Eu, que naturalmente, não consegui desenvolver por ele, qualquer afecto, como é evidente. Mais. Desejei que o mesmo por seculo seculorum, permanecesse muito longe da minha porta. E que eu nunca o chegasse a conhecer.
Mas esta história ainda não acabou aqui. Bem... esta, está a ser difícil de concluir, mas, como é um episódio tão complexo!!! :-)
DIVIRTAMSEMAZÉ! E boas e reconfortantes leituras.

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