Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O meu primeiro jet lag (parte III).


Ao terminar a conversa com o perverso, e agora aparentemente apaziguado bombeiro, eu decidi seguir-lhe as recomendações. E foi com o telemóvel dos vizinhos, que eu liguei para o Sr. Eduardo, que era o tal sujeito que arranjava fechaduras. 
Depois de saudar efusiva (mas esperançosamente), o referido artífice, eu lá lhe faço todo o choradinho da minha desventura. E de voz quase em pranto, eu comunico-lhe toda a minha desgraça com os pormenores mais tocantes. Como era o facto lamentável de estar na rua, em pijama... enfim vocês já estão devidamente informados de toda a situação. O senhor Eduardo ouviu-me muito atentamente. E quase que consegui visualizar, que pela sua face generosa e terna (assim eu calculava), já lhe desciam duas lágrimas vibrantes e muito caudalosas. E também já devia de estar a fungar um bocadinho, tal já era a emoção por si vivenciada.
Mas por fim lá me respondeu: "Pois eu lamento muito, minha senhora. Estou com muita pena daquilo que lhe sucedeu. Só que eu não posso ir aí. É que eu já estou de pijama. Estava agora mesmo a fazer as minhas orações da noite, para depois poder ir para a cama. E depois, espero sonhar com os anjos." 
"Era só o que me faltava", pensei eu. Ali estava eu, a falar com um ser muito bem intencionado e bondoso. Muito respeitável e religioso, mas... sem qualquer vontade de ajudar quem dele tanto precisava. E a sua ajuda abnegada e efectiva à resolução do meu problema, bem poderia ser a prova que  demonstrava inequivocamente, todo o seu amor pelo próximo. A prova evidente de que ele sempre auxiliava quem dele mais necessitasse. Que tinha um bom coração, sempre a palpitar. Mas...
E eu que continuava com um problema. E, em desespero de causa, lá lhe disse: "Pois senhor Eduardo. Por aquilo que eu estou a ver, posso constatar que nós os dois, devemos de ter várias coisas em comum. Por exemplo, ressalta-me agora o facto de que neste momento preciso, nós estamos ambos de pijama, não é verdade? Só que o senhor está no calorzinho de seu lar e quase que no vale dos seus lençóis, enquanto que eu... estou na rua, a sofrer as agruras de uma invernia antecipada. Estou p'rá aqui cheia de frio. Quase que já sinto um cubo de gelo pendurado no nariz! Acredito plenamente, que os seus lençóis floridos, já estejam a chamar por si. Assim como o seu edredão de penas... Mas eu... estou aqui, sem poder entrar em casa, tão amargurada!... E com saudades do meu gato que sem envergar qualquer pijama, também ele já deve de estar esparramado na sua caminha. Se calhar (e a esta altura), ele até já foi comer um bocadinho da sua ração..."
Foi com estas tiradas calculadas e oportunas, que eu senti logo ali, que havia conseguido comover o senhor Eduardo até à medula. Pelo que ele me respondeu: "Pronto, está bem, eu vou aí ter consigo. Mas onde é que você mora, afinal?" Yupi!!! Eu conseguira! E efusivamente, eu dei um beijinho repenicado no Nokia da vizinhança.
Depois e sem perder tempo, eu resolvi descer os dois lanços de escada e ir para o pé da minha porta... E o meu vizinho velhinho acompanhou-me também (e em solidariedade), envergando com orgulho, um bonito robe bordeaux. E que bem que ficámos os dois ali ao relento!... E como eu ainda estava tão confundida com os fusos horários, Santo Deus! Passado muito pouco tempo, o meu vizinho teve a lembrança de me pedir a chave, pois também ele queria tentar abrir a porta. 
Num primeiro momento, eu fiquei muito tentada em lha recusar, mas que desculpa é que eu podia ali arranjar? Afinal o homem parecia que estava muito bem intencionado. Só me queria ajudar a ultrapassar com sucesso aquela minha desdita noctívaga. Bem, além do mais, o mais certo é que ele não iria conseguir abrir a porta. Ele que é tão velhinho, tão frágil e tão tremente... E, passo-lhe a chave para as mãos. Num ápice, eu verifico que o velhinho, tem dificuldade em acertar no buraco da fechadura, tenta uma vez, tenta duas, mas como é determinado (e teimosinho), lá vai tentando. Bate com a chave à direita da fechadura, depois à esquerda, depois deixa-a cair... Não restam dúvidas. E eu adivinho-lhe ali a sua inoperância total, em ultrapassar com êxito aquele seu objectivo. Mas como estávamos ali ao relento e sós, aquele sempre podia ser um momento de diversão. Quase um jogo. Ou uma prova desportiva. Algo que fizesse com que o tempo de espera pudesse passar mais depressa. E ao fim de onze tentativas, o vizinho conseguiu finalmente acertar no buraco. Sorriu-me triunfante e com a dentadura a brilhar. Depois, ele virou a chave levemente para a direita e... operou-se ali o milagre. É que a porta abriu-se às mãos do frágil velhote. E eu que havia tentado tanto...
E agora? Verifiquei rapidamente que tinha ali outro problema. Como é que eu agora ia explicar ao abridor, profissional de portas (o senhor Eduardo), toda aquela renovada situação? É que o referido profissional, naquela noite, já havia estado de pijama e a fazer as suas orações. E a prepara-se para ir para os Braços de Morfeu. Como é que ele iria reagir ao facto, de que a minha problemática e casmurra porta afinal, já estava aberta? É que fora justamente para a abrir... que havia saído de casa. O que é que ele iria dizer? O homem até podia pensar que eu lhe mentira. Que eu estava a ser perversa e com vontade de enervar quem estava e em paz, recolhido na sua casa. E com a família. Por fim o senhor Eduardo lá chegou, e eu consegui explicar-lhe com alguma reconhecida credibilidade, o que efectivamente havia acontecido. E o meu muito idoso vizinho, foi assim o herói da noite.
Mas a fechadura estava efectivamente avariada. Era necessário arranjá-la. Só que o arranjo só poderia ser executado no dia seguinte, já contando com a luz do dia, e com as lojas de ferragens abertas. Mas o dia seguinte, era também o meu primeiro dia de trabalho a seguir a umas merecidas férias. Pois, adivinharam, a aventura iria assim prosseguir.
Sugestão de leitura para esta semana: "Uma casa em Portugal" de Richard Hewitt.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E boas leituras.


 Esta história terá a sua conclusão para a semana.

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