Nessa noite tive um sono algo perturbado devido à insegurança sentida. Afinal eu tinha plena noção de que tinha a porta semi-fechada. Ou semi-aberta. Tudo depende do ponto de vista, e do lado aonde se está. Eu, acreditei que não iria ser importunada. E não o fui efectivamente. Mas tenho a dizer que aquela noite foi interminável. Parecia que nunca mais acabava.
Chegado o dia, eu penso em pedir o apoio paternal. Sendo o meu prestimoso papá, reformado há vários anos, achei que ele iria ajudar a sua dilecta e única filha (também não tem muito por onde escolher, que faça com que seja possível, entrar em conflito com essa sua preferência).
Telefono-lhe assim, e logo de manhãzinha. E, um pouco mais tranquila, eu narrei-lhe todo aquele meu triste fadário. Depois... eu esperei ansiosamente a sua resposta. Tudo indicava que eu não iria levar, com mais nenhuma nega. Para isso já havia bastado a do perverso bombeiro e a do senhor Eduardo (ainda no início da sua apresentação). Sim, e depois porque acreditamos que a família deve de estar presente, nos momentos mais difíceis. Negas em geral, nós recebemos de quem pouco nos considera. Pelo que esperançada eu... aguardei, aguardei... mas comecei a estranhar muito, a demora da resposta. Mas afinal, o que é que se estava a passar?
Finalmente do outro lado da linha (sim eu estava a telefonar de um telefone fixo, daqueles bem antigos) eu acusei uma reacção. E comecei a ouvir um suspeito pingarrear, como quem tem necessidade de limpar a garganta, para iniciar um longo, profundo e inquestionável discurso. E comecei por ouvir: "Pois filha... eu não posso. Não contes comigo!"
Mas como era possível? É que, em todo este processo nem se escapava o meu próprio pai. Fiquei momentaneamente sem reacção, muito pálida e quase a cair para o chão. Depois... e com o sangue regressado ao rosto, eu fiquei algo apalermada. Seria possível? Mas continuei a ouvi-lo: "Pois... é que hoje eu tenho coisas combinadas. Tenho que ir rezar aos fiéis defuntos. Lamento muito, sim?"
"Boa", pensei eu. Bem está o mundo, onde um senhor digno de confiança, de comportamento irrepreensível e dedicado, (pelo menos até àquele data), dá preferência aos defuntos, em detrimento da sua adorável, e quase-sempre presente filha. Além disso, eu estou muito mais desprotegida que os desencarnados. Estou viva mas a tentar sobreviver (com alguma classe), neste Vale de Lágrimas. Mas confesso, perante tal argumentação e dado o seu teor, eu nem sequer me atrevi a tentar demovê-lo daquele seu compromisso. Porém também me parece, que se o tentasse, eu não iria ter qualquer sucesso. E pude chegar a uma tristíssima conclusão: fora muito mais fácil convencer o senhor Eduardo. Alguém que eu não conhecia de lado nenhum.
Depois, eu fiquei p´rá ali a perguntar-me a mim mesma: "Mas será que os defuntos já não estão bem encaminhados?" "Terão eles também problemas com as suas fechaduras?" "Será que a reza, para a sua/deles intenção, não poderia esperar só mais um bocadinho?" Afinal e vendo bem as coisas, habitualmente, o dia até tem vinte e quatro horas. E aquele dia não me pareceu que fosse diferente dos outros. E numa hora somente (e combinando bem a coisa), a fechadura da minha porta seria arranjada. Depois, ele poderia rezar aos defuntos, nas vinte e três horas que sobrassem. Será que não chegava?
E depois, continuei a congeminar sobre o assunto: Será que existe alguma hora mais propícia à reza? Haverá alguma altura (do dia ou da noite), em que os defuntos estão mais livres de encargos e consequentemente mais capacitados para ouvir as súplicas e as mensagens daqueles que ainda por cá estão? Eu tenho todo o respeito por tais temáticas. É que mais tarde ou mais cedo, eu também para lá vou. Vamos todos. Nisso, lamento dizer, não há lugar a finais felizes. Mas convenhamos, o que me custou um bocado a aceitar, foi a necessidade de toda aquela urgência.
E depois, continuei a congeminar sobre o assunto: Será que existe alguma hora mais propícia à reza? Haverá alguma altura (do dia ou da noite), em que os defuntos estão mais livres de encargos e consequentemente mais capacitados para ouvir as súplicas e as mensagens daqueles que ainda por cá estão? Eu tenho todo o respeito por tais temáticas. É que mais tarde ou mais cedo, eu também para lá vou. Vamos todos. Nisso, lamento dizer, não há lugar a finais felizes. Mas convenhamos, o que me custou um bocado a aceitar, foi a necessidade de toda aquela urgência.
Bem, mas de facto eu não cheguei a conclusão nenhuma. Não obtive qualquer resposta, pois nada lhe questionei. Mas também, se eu lhe fizesse tais perguntas, o mais certo seria ele deserdar-me. Ou então, dar-lhe uma coisinha má. Se resistisse ao abalo, o mais previsível era ir pedir ao senhor prior, a minha expulsão da grande família católico/vaticanesca. Quem sabe se (e num esforço concertado), eles não me conseguissem desbaptizar, por exemplo?...
Fui assim para o meu emprego, um bocadinho menos confusa. O fuso horário de cá, começava-me a fazer todo o sentido. Mas não pude evitar, ir para o trabalho com o coração apertadinho. Durante todo o dia, eu estive a pensar (e a antever), a possibilidade de ter a minha casa visitada por gente, que eu jamais desejara recepcionar. Mas, não. Nada de funesto aconteceu com a graça de Deus. É que nós conseguimos entender-nos muito bem e... sem intermediários.
Contudo não fora também a ajuda, de um justo, muito competente e bem intencionado chefe (que permitiu que eu naquele dia saísse umas horas mais cedo do emprego), e eu continuaria a ter problemas com o raio da fechadura e consequentemente com a segurança da minha casa e quejandos. Mas... pensando bem, é sempre conveniente, falar bem do chefe. É que nunca se sabe, se o mesmo não vem aqui ler os meus posts, de tempos a tempos. E depois consiga identificar esta, que aqui se assina. E que aproveita a deixa e... se despede com amizade.
Sugestão de leitura para esta semana: "Os Pecados dos Nossos Pais" de Paul Bailey.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E... boas leituras.Sugestão de leitura para esta semana: "Os Pecados dos Nossos Pais" de Paul Bailey.
Uma ressalva é devida: eu despeço-me de Vossas
Excelências, meus queridos leitores, e só por esta semana. Não me
despeço do meu trabalho, cruz, credo, canhoto (três vezes)!!!
Quanto aos jet lags, quem me dera ter mais, muitos mais. Era sinal que eu tinha condições para viajar mais do que aquilo que eu consigo. E dos países do oriente, não me escaparia nenhum.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! :-)
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! :-)

2 comentários:
AHAHAHAH Adorei esta tua saga!!! Diverti-me muito a lê-la. Sabes como é: acabamos sempre a rir das pequenas desgraças dos outros. É o que seria de nós sem estes caricatos episódios da vida...
O objectivo é mesmo esse Sílvia: Rir. E mais, muito antes de vocês rirem, já eu para aqui gargalhei sozinha (E COMO!!!)
E que bom que é ver-te por cá, Sílvia. Volta sempre.
DIVERTETEMAZÉ!!!
Enviar um comentário