De todas as possibilidades do
mundo, existirão coisas que achamos que hão-de estar para sempre, na categoria
de ‘não acontecimentos’. Isto porque a nossa imaginação sendo veloz e
abrangente, tem capacidades ilimitadas. Contudo uma coisa é pensar, outra bem
diferente é levar à prática. Podemos pensar nas coisas mais estapafúrdias do
mundo, mas como temos essa noção, consciencializamo-nos de que tal permanecerá
para todo o sempre no mundo das “ideias parvas”. Situações que achamos nós,
jamais poderão ver a luz do Sol, ou perderem-se na negritude da noite.
Só que em outras tantas vezes, acontecem as coisas mais inusitadas do mundo. A vida consegue sempre surpreender-nos. Tal é francamente positivo, é que pouca gente deve de apreciar o marasmo. Porém a vida só deveria de surpreender-nos pelos melhores motivos. Não pelos piores. Repisamos muitas vezes no erro de acreditar que, como já andamos por aqui, faz algum tempo, as coisas poderão ser um pouco mais previsíveis, contudo não é assim que a coisa funciona. E temos que, em muitas vezes, vir dar a mão à palmatória. Vem este meu pensamento a propósito de algo que eu soube há relativamente pouco tempo.
Regra geral acontece que, ao lermos um livro do nosso escritor de eleição, ou mesmo daquele outro escritor que acabámos de conhecer, gostamos (eu pelo menos gosto muito), de imaginar o que estaria na cabeça do autor, quando lhe deu para escrever sobre determinado acontecimento. O que é que pôde ter dado azo, a que o mesmo escrevesse sobre aquele pormenor específico. E depois, é com efectivo deleite, que muitas vezes, se consegue voar um pouco acima da nossa diminuta escala, e visualizar quase todos os contornos e cenários descritos na obra. Temos assim, capacidades intrinsecamente contidas na nossa pessoa, que nos permitem vivenciar uma "fantasia" na verdadeira acepção do termo. Voamos assim sem asas, a um mundo até aqui desconhecido, mas que se quis muito conhecer. O autor começou a história, mas a nossa imaginação fez o resto.
A obra literária está aí, para todos aqueles que a quiserem ler. No seu todo. Exactamente da forma como o seu autor a concebeu. E com o exercício da leitura, rumamos a um mundo que também será o nosso. Um mundo que se pretende que venha a fazer parte de nós. Só que os tempos estão a mudar, e como estão, Santo Deus!…
Vem a minha reflexão hoje a propósito de algo que já se faz na actualidade, especialmente no Reino Unido: Os editores ao verificarem que não estão a conseguir vender os livros como desejariam, tiveram uma ideia a meu ver absolutamente peregrina. A fim de que se chame à atenção para os livros, especialmente para os clássicos, a ideia é apimentar um pouco a versão do autor. Eu explico, para aquele que ainda não ouviu falar sobre este assunto. O livro existe e foi terminado há muito tempo pelo seu autor. Tornou-se inclusivamente um clássico. Contudo e uma vez que não está a ser muito vendido, os editores da actualidade vão-lhe incrementar partes picantes e explicitas sobre os momentos de luxuria praticados pelos personagens contidos na obra literária. Ou seja, o que antigamente ficava subentendido ou em entre-linhas, agora vai ser divulgado (e permitam-me, inventado), pelas cabeças iluminadas dos nossos contemporâneos. Digo inventado com toda a legitimidade. É que o autor não escreveu essas partes jocosas, pois não? Se alguém agora o vai fazer, e não é o autor, esse alguém vai inventar, não é?
Desculpem-me, mas a minha cabeça ficou em delírio com tal ideia. Quase que já subiu ao etéreo com tal ousadia. Procedi um bocado da mesma forma, como costumo fazer através da leitura dos “meus queridos amigos livros”. E pus-me a imaginar o que é que passará pelas cabeças dos atrevidos e picarescos adaptadores das partes libidinosas. Fiz então uma reflexão, onde apenas pensei na literatura portuguesa. Que é excelente, como todos nós sabemos. E o meu exercício foi: o que é que esses “capitalistas adaptadores” poderiam pensar para os nossos clássicos? Para conseguirem vender mais os seus títulos? Sim o vil capital ao que parece, aqui e em toda a parte, fala mais alto e com uma voz muito grossa. Mas que esta moda nunca passe por cá, assim eu desejo…
Pensemos assim e primeiramente no livro: “Viagens na Minha Terra” do Almeida Garrett. Ali está, na versão criada pelo seu autor, a presença de uma jovem, a quem chamavam carinhosamente de Joaninha. Esta jovem que era muito casta e sonhadora e colocava-se bucolicamente à janela da casa onde vivia com a sua avó. Era inclusivamente chamada com ternura, pel’a Menina dos Rouxinóis. Ora na versão actualizada e acrescentada, e que poderia figurar em todos os tops (segundo o critério duvidoso e pouco fundamentado dos adaptadores non sense), a tal menina poderia muito bem deixar de ser, assim tão tranquila e moderada. A Joaninha poderia continuar a estar à janela, só que agora… a mandar piropos para os homens que passassem e que lhe chamassem mais à atenção. Os que lhe agradassem mais. E abrindo bem os seus pulmões de catraia, ela diria: “Anda cá! Ó bom!” “Se eu cair daqui da minha janela, já sei onde me agarrar.” Ou então as pérolas: “Oh gato, tu não largas pêlo, pois não?” e “Tu andas na tropa? É que já marchavas que era uma maravilha!” E como a ideia é apimentar, ela bem poderia masturbar-se de seguida, usando uns apetrechos que havia comprado na Feira do Parque das Nações. A tal onde o Goucha foi na companhia de umas velhinhas. Ah, mas essa feira não existia ainda no século XIX e tal…? Pois não. Mas a coerência não tem aqui lugar. Pois aqui o que importa… é vender livros…
Assim e à primeira vista, não conseguimos muito bem explicar, porque é que o Almeida Garrett não se lembrou destas lindas coisas. Se calhar foi porque ainda não podia contar com o Grande Dicionário Trolho-Português das edições: Martelo Pneumático (edição revista e actualizada), de onde estas preciosidades foram retiradas.
Passemos depois a outro clássico. Passemos por exemplo “As Pupilas do Senhor Reitor” de Júlio Dinis. Nessas novas versões, não me custa nada a imaginar que coloquem a Guida, que como sabemos era a pupila mais velha e a mais ajuizada, como a reencarnação da própria Messalina. Colocavam por exemplo essa “joia do Norte”, como aquela que “já tinha a escola toda”. Nesse contexto, punham-na (e nas suas horas vagas), a ler Marquês de Sade e a bordar um cinto de ligas para o Reitor, (que passará também a constar como alguém muito pouco recomendável). O Reitor usaria as ditas ligas bordadas, na missa de Domingo. E a sua batina poderia tapá-las, ou não.
Colocariam o reitor como alguém perverso e simultaneamente místico, seguidor da doutrina Místico-Encefálica. E depois dos afazeres profissionais, ele envolver-se-ia em esquemas de sexo em grupo… com os outros reitores seus colegas e mais algumas… manas. Mas todas estas enigmáticas cenas… seriam muito bem documentadas.
Quem se poderia safar um pouco melhor de tudo isto, seria a pupila mais nova, a Clara. Mas mesmo assim, os novos adaptadores poderiam continuar a inventar. E a falar através da inclusão de complexos comentários, sobre o tempo em que Clara ficava muito afogueada e a precisar de um “aperto gostoso e sentimental”, mal ela via passar… o João Semana.
E por fim tomemos como exemplo a grande obra de Eça de Queirós, “Os Maias”. Não custa nada a acreditar, que se esta moda viesse para Portugal, (e Deus queira que nunca venha!!!), poderia dar-se o seguinte: Sabemos porque lemos a obra, que a Maria Eduarda era uma rapariga muito bela. Porém algo inocente. Teve a desdita de se ter apaixonado pelo próprio irmão, apesar de ser desconhecedora daquele seu parentesco. Ora os adaptadores da “pimentinha lucrativa”, poderiam muito bem falar, num dos primeiros encontros sexuais dos dois. E podem mesmo vir a dizer que o mesmo se havia dado dentro de uma caleche, quando os dois iam p’ra Feira da Malveira. Haviam ido lá, porque foram comprar uma cabrinha que iria viver regaladamente na Quinta do Avô. Ora, iam ali os dois jovens e muito pacatamente a falar de figos, quando… a dada altura, lhes dá “a maluca”. E fazem naquele exíguo espaço a técnica perfeita do “Canguru Perneta” Isto e sem se esquecerem de nenhum detalhe (nem eles, nem o adaptador). É que o adaptador vai contar tudo, como se também lá tivesse estado. Podem mesmo falar, que um homem do campo, ainda conseguiu ver uma perna desnudada da “piquena”, a sair pela janela. Sim, porque aquela é que era a perna. E a que estava lá dentro, estava disfarçada de… perneta.
Mais tarde e já devidamente escolarizada nas técnicas da reprodução humana, Maria Eduarda teria uma surpresa. Como se sabe, Carlos Eduardo sabia que amava desesperadamente a sua própria irmã, mas escondera-lhe de propósito esse facto. A pobre foi assim mantida na total ignorância. Ora num qualquer acrescento que desgraçadamente se fizesse, era possível pôr o moinante do Carlos no Natal, a dar uma prenda a Maria Eduarda. Não aquela que já estão a pensar. Essa, ele já lha havia dado na caleche e em muitos outros sítios. Perguntassem depois ao adaptador!
E na Consoada, chegou-se ao pé da sua muito amada e entregou-lhe um embrulho, feito em papel de seda e atado com um muito robusto laçarote. Maria Eduarda, que não era diferente das outras mulheres, rejubila alegremente, mal vê a oferenda. Pega nela com prudência, abanou-a pertinho do ouvido, verificando assim, que não se tratava de nenhuma bomba. Já sossegada, depois abriu-a com muita rapidez. E dá de caras com uma edição de luxo, profusamente ilustrada do… Kamasutra. E agora o que fazer, para apimentar e vender a obra, aos fregueses leitores que estão tão sedentos de malandrice?
Pois, ia-se descrever o facto dos dois, aproveitarem a deixa e irem exercitar-se naqueles ensinamentos… até à exaustão. Eles que até estavam sempre em forma, pois não perdiam por nada, nenhuma ida ao ginásio. Do Kamasutra e de uma assentada só, eles chegariam à septuagésima sétima posição (com tudo, mas mesmo tudo bem documentado, atenção). Fariam depois um pequeno intervalo para irem comer, Papas de Serrabulho e uma Gemada com Vinho do Porto.
Já nem vamos falar d’Os Lusíadas e do famoso canto IX. Se esta técnica chegasse a vir para cá (coisa que eu não quero acreditar), a rebaldaria que não seria, naquela Ilha dos Amores! Com descrições e descrições detalhadas da luxuria. Onde estaria tudo ao molho e fé em Deus. O próprio Vasco da Gama seria ali e também, protagonista de muita coisa. Ou por outro lado, poderiam colocá-lo como um adito do sexo tântrico.
E concluindo: o que eu aqui disse é ridículo e exagerado? Não há ninguém que esteja mais de acordo com isso, que eu. Apesar de ter sido eu a ter o atrevimento e ter dado uso a essa liberdade criativa, de gosto muito duvidoso. Mas não fui eu que comecei, pois não? No fundo só tentei pôr-me no papel de outros, que em outros países já estão a fazer estes acrescentos nos seus clássicos. Não sei, mas parece-me que se a ideia for começar a acrescentar coisas, a partir daí tudo será legítimo. E quando o processo é iniciado, quem é que de viva voz poderá por rédeas àquilo? Determinar até onde se pode ir? É que para todos os efeitos já se abriram precedentes. Acrescentos só poderiam ser feitos pelos seus autores, e estes já faleceram faz muito tempo. Esta ideia parece-me tão comezinha, como a ideia de vender livros a todo o custo, desrespeitando tudo o que está para trás. No fundo desrespeitando aquela obra, que já é um clássico, desde a sua matriz.
Mas eu nem deveria de estar para aqui a escrever sobre isto. E quem sou eu…? Ninguém! Como se dizia no Frei Luís de Sousa. Bem, esta obra também poderia sofrer de uns acrescentos. O Romeiro… o Telmo… a Ma… NÃO! Para longe vá o agouro!!! Isso seria um pesadelo. Até parece que eu já estou a incorporar… um acrescentador demente, mas já falecido. É que eu no fundo, ainda estou para aqui a dar ideias, não é? Sei que este blogue, nem é tão lido assim. Vale o que vale. Mas eu gosto muito dele. Terá muitas lacunas e continuará a tê-las por mais que eu me esforce e realize algumas melhorias.
Contudo imagine-se alguém imbuído da tarefa de acrescentar marotices ao que já foi escrito, vai para tanto tempo. Essa pessoa faz uma vasta pesquisa, e como que por um acaso, vem ter aqui a este meu muito modesto cantinho. Imagine-se. Inspirar alguém com as presepadas que p’rá aqui estão expostas. E a minha consciência depois disso? Como ficaria? Estas ideias são parvas eu concordo. Mas serão tão parvas como todas aquelas que se incluírem nos referidos acrescentos.
Toda a gente poderá e deverá escrever um livro. E aí os seus autores poderão colocar lá tudo aquilo que quiserem. Agora por favor, não se desvirtue aquilo que foi pensado e escrito faz tanto tempo. Por um escritor que usou para o efeito, a sua exímia arte, assim como fez uso dos seus próprios critérios. E que agora até já nem está cá para se defender.
E agora, dirijo-me aos senhores acrescentadores, onde quer que vocês estejam: Vocês querem maroteiras, não é? Um conselho, brinquem com as vossas próprias pilinhas, e deixem as pilinhas dos personagens dos clássicos em paz. As personagens que vivem tão regaladamente nos livros, que são a sua casa. E alguns também vivem na nossa imaginação. Têm na nossa mente, como que uma segunda residência. É que as pilinhas deles, já trabalharam o que tinham que trabalhar. Agora até já nem devem de ter existência física. E não creio que alguma vez se tenha conseguido embalsamar alguma, para se poder mostrar na Grande Exposição Internacional de Barcelona, que se realizou no ano da graça de 1929.
DIVIRTAMSEMAZÉ. E respeitemos os clássicos. Eles merecem… Já por aqui andam há mais tempo que nós.
Sugestão de leitura para esta semana (ou releitura); “Os Maias” de Eça de Queirós. É magnifico, como a grande parte da sua obra.
Só que em outras tantas vezes, acontecem as coisas mais inusitadas do mundo. A vida consegue sempre surpreender-nos. Tal é francamente positivo, é que pouca gente deve de apreciar o marasmo. Porém a vida só deveria de surpreender-nos pelos melhores motivos. Não pelos piores. Repisamos muitas vezes no erro de acreditar que, como já andamos por aqui, faz algum tempo, as coisas poderão ser um pouco mais previsíveis, contudo não é assim que a coisa funciona. E temos que, em muitas vezes, vir dar a mão à palmatória. Vem este meu pensamento a propósito de algo que eu soube há relativamente pouco tempo.
Regra geral acontece que, ao lermos um livro do nosso escritor de eleição, ou mesmo daquele outro escritor que acabámos de conhecer, gostamos (eu pelo menos gosto muito), de imaginar o que estaria na cabeça do autor, quando lhe deu para escrever sobre determinado acontecimento. O que é que pôde ter dado azo, a que o mesmo escrevesse sobre aquele pormenor específico. E depois, é com efectivo deleite, que muitas vezes, se consegue voar um pouco acima da nossa diminuta escala, e visualizar quase todos os contornos e cenários descritos na obra. Temos assim, capacidades intrinsecamente contidas na nossa pessoa, que nos permitem vivenciar uma "fantasia" na verdadeira acepção do termo. Voamos assim sem asas, a um mundo até aqui desconhecido, mas que se quis muito conhecer. O autor começou a história, mas a nossa imaginação fez o resto.
A obra literária está aí, para todos aqueles que a quiserem ler. No seu todo. Exactamente da forma como o seu autor a concebeu. E com o exercício da leitura, rumamos a um mundo que também será o nosso. Um mundo que se pretende que venha a fazer parte de nós. Só que os tempos estão a mudar, e como estão, Santo Deus!…
Vem a minha reflexão hoje a propósito de algo que já se faz na actualidade, especialmente no Reino Unido: Os editores ao verificarem que não estão a conseguir vender os livros como desejariam, tiveram uma ideia a meu ver absolutamente peregrina. A fim de que se chame à atenção para os livros, especialmente para os clássicos, a ideia é apimentar um pouco a versão do autor. Eu explico, para aquele que ainda não ouviu falar sobre este assunto. O livro existe e foi terminado há muito tempo pelo seu autor. Tornou-se inclusivamente um clássico. Contudo e uma vez que não está a ser muito vendido, os editores da actualidade vão-lhe incrementar partes picantes e explicitas sobre os momentos de luxuria praticados pelos personagens contidos na obra literária. Ou seja, o que antigamente ficava subentendido ou em entre-linhas, agora vai ser divulgado (e permitam-me, inventado), pelas cabeças iluminadas dos nossos contemporâneos. Digo inventado com toda a legitimidade. É que o autor não escreveu essas partes jocosas, pois não? Se alguém agora o vai fazer, e não é o autor, esse alguém vai inventar, não é?
Desculpem-me, mas a minha cabeça ficou em delírio com tal ideia. Quase que já subiu ao etéreo com tal ousadia. Procedi um bocado da mesma forma, como costumo fazer através da leitura dos “meus queridos amigos livros”. E pus-me a imaginar o que é que passará pelas cabeças dos atrevidos e picarescos adaptadores das partes libidinosas. Fiz então uma reflexão, onde apenas pensei na literatura portuguesa. Que é excelente, como todos nós sabemos. E o meu exercício foi: o que é que esses “capitalistas adaptadores” poderiam pensar para os nossos clássicos? Para conseguirem vender mais os seus títulos? Sim o vil capital ao que parece, aqui e em toda a parte, fala mais alto e com uma voz muito grossa. Mas que esta moda nunca passe por cá, assim eu desejo…
Pensemos assim e primeiramente no livro: “Viagens na Minha Terra” do Almeida Garrett. Ali está, na versão criada pelo seu autor, a presença de uma jovem, a quem chamavam carinhosamente de Joaninha. Esta jovem que era muito casta e sonhadora e colocava-se bucolicamente à janela da casa onde vivia com a sua avó. Era inclusivamente chamada com ternura, pel’a Menina dos Rouxinóis. Ora na versão actualizada e acrescentada, e que poderia figurar em todos os tops (segundo o critério duvidoso e pouco fundamentado dos adaptadores non sense), a tal menina poderia muito bem deixar de ser, assim tão tranquila e moderada. A Joaninha poderia continuar a estar à janela, só que agora… a mandar piropos para os homens que passassem e que lhe chamassem mais à atenção. Os que lhe agradassem mais. E abrindo bem os seus pulmões de catraia, ela diria: “Anda cá! Ó bom!” “Se eu cair daqui da minha janela, já sei onde me agarrar.” Ou então as pérolas: “Oh gato, tu não largas pêlo, pois não?” e “Tu andas na tropa? É que já marchavas que era uma maravilha!” E como a ideia é apimentar, ela bem poderia masturbar-se de seguida, usando uns apetrechos que havia comprado na Feira do Parque das Nações. A tal onde o Goucha foi na companhia de umas velhinhas. Ah, mas essa feira não existia ainda no século XIX e tal…? Pois não. Mas a coerência não tem aqui lugar. Pois aqui o que importa… é vender livros…
Assim e à primeira vista, não conseguimos muito bem explicar, porque é que o Almeida Garrett não se lembrou destas lindas coisas. Se calhar foi porque ainda não podia contar com o Grande Dicionário Trolho-Português das edições: Martelo Pneumático (edição revista e actualizada), de onde estas preciosidades foram retiradas.
Passemos depois a outro clássico. Passemos por exemplo “As Pupilas do Senhor Reitor” de Júlio Dinis. Nessas novas versões, não me custa nada a imaginar que coloquem a Guida, que como sabemos era a pupila mais velha e a mais ajuizada, como a reencarnação da própria Messalina. Colocavam por exemplo essa “joia do Norte”, como aquela que “já tinha a escola toda”. Nesse contexto, punham-na (e nas suas horas vagas), a ler Marquês de Sade e a bordar um cinto de ligas para o Reitor, (que passará também a constar como alguém muito pouco recomendável). O Reitor usaria as ditas ligas bordadas, na missa de Domingo. E a sua batina poderia tapá-las, ou não.
Colocariam o reitor como alguém perverso e simultaneamente místico, seguidor da doutrina Místico-Encefálica. E depois dos afazeres profissionais, ele envolver-se-ia em esquemas de sexo em grupo… com os outros reitores seus colegas e mais algumas… manas. Mas todas estas enigmáticas cenas… seriam muito bem documentadas.
Quem se poderia safar um pouco melhor de tudo isto, seria a pupila mais nova, a Clara. Mas mesmo assim, os novos adaptadores poderiam continuar a inventar. E a falar através da inclusão de complexos comentários, sobre o tempo em que Clara ficava muito afogueada e a precisar de um “aperto gostoso e sentimental”, mal ela via passar… o João Semana.
E por fim tomemos como exemplo a grande obra de Eça de Queirós, “Os Maias”. Não custa nada a acreditar, que se esta moda viesse para Portugal, (e Deus queira que nunca venha!!!), poderia dar-se o seguinte: Sabemos porque lemos a obra, que a Maria Eduarda era uma rapariga muito bela. Porém algo inocente. Teve a desdita de se ter apaixonado pelo próprio irmão, apesar de ser desconhecedora daquele seu parentesco. Ora os adaptadores da “pimentinha lucrativa”, poderiam muito bem falar, num dos primeiros encontros sexuais dos dois. E podem mesmo vir a dizer que o mesmo se havia dado dentro de uma caleche, quando os dois iam p’ra Feira da Malveira. Haviam ido lá, porque foram comprar uma cabrinha que iria viver regaladamente na Quinta do Avô. Ora, iam ali os dois jovens e muito pacatamente a falar de figos, quando… a dada altura, lhes dá “a maluca”. E fazem naquele exíguo espaço a técnica perfeita do “Canguru Perneta” Isto e sem se esquecerem de nenhum detalhe (nem eles, nem o adaptador). É que o adaptador vai contar tudo, como se também lá tivesse estado. Podem mesmo falar, que um homem do campo, ainda conseguiu ver uma perna desnudada da “piquena”, a sair pela janela. Sim, porque aquela é que era a perna. E a que estava lá dentro, estava disfarçada de… perneta.
Mais tarde e já devidamente escolarizada nas técnicas da reprodução humana, Maria Eduarda teria uma surpresa. Como se sabe, Carlos Eduardo sabia que amava desesperadamente a sua própria irmã, mas escondera-lhe de propósito esse facto. A pobre foi assim mantida na total ignorância. Ora num qualquer acrescento que desgraçadamente se fizesse, era possível pôr o moinante do Carlos no Natal, a dar uma prenda a Maria Eduarda. Não aquela que já estão a pensar. Essa, ele já lha havia dado na caleche e em muitos outros sítios. Perguntassem depois ao adaptador!
E na Consoada, chegou-se ao pé da sua muito amada e entregou-lhe um embrulho, feito em papel de seda e atado com um muito robusto laçarote. Maria Eduarda, que não era diferente das outras mulheres, rejubila alegremente, mal vê a oferenda. Pega nela com prudência, abanou-a pertinho do ouvido, verificando assim, que não se tratava de nenhuma bomba. Já sossegada, depois abriu-a com muita rapidez. E dá de caras com uma edição de luxo, profusamente ilustrada do… Kamasutra. E agora o que fazer, para apimentar e vender a obra, aos fregueses leitores que estão tão sedentos de malandrice?
Pois, ia-se descrever o facto dos dois, aproveitarem a deixa e irem exercitar-se naqueles ensinamentos… até à exaustão. Eles que até estavam sempre em forma, pois não perdiam por nada, nenhuma ida ao ginásio. Do Kamasutra e de uma assentada só, eles chegariam à septuagésima sétima posição (com tudo, mas mesmo tudo bem documentado, atenção). Fariam depois um pequeno intervalo para irem comer, Papas de Serrabulho e uma Gemada com Vinho do Porto.
Já nem vamos falar d’Os Lusíadas e do famoso canto IX. Se esta técnica chegasse a vir para cá (coisa que eu não quero acreditar), a rebaldaria que não seria, naquela Ilha dos Amores! Com descrições e descrições detalhadas da luxuria. Onde estaria tudo ao molho e fé em Deus. O próprio Vasco da Gama seria ali e também, protagonista de muita coisa. Ou por outro lado, poderiam colocá-lo como um adito do sexo tântrico.
E concluindo: o que eu aqui disse é ridículo e exagerado? Não há ninguém que esteja mais de acordo com isso, que eu. Apesar de ter sido eu a ter o atrevimento e ter dado uso a essa liberdade criativa, de gosto muito duvidoso. Mas não fui eu que comecei, pois não? No fundo só tentei pôr-me no papel de outros, que em outros países já estão a fazer estes acrescentos nos seus clássicos. Não sei, mas parece-me que se a ideia for começar a acrescentar coisas, a partir daí tudo será legítimo. E quando o processo é iniciado, quem é que de viva voz poderá por rédeas àquilo? Determinar até onde se pode ir? É que para todos os efeitos já se abriram precedentes. Acrescentos só poderiam ser feitos pelos seus autores, e estes já faleceram faz muito tempo. Esta ideia parece-me tão comezinha, como a ideia de vender livros a todo o custo, desrespeitando tudo o que está para trás. No fundo desrespeitando aquela obra, que já é um clássico, desde a sua matriz.
Mas eu nem deveria de estar para aqui a escrever sobre isto. E quem sou eu…? Ninguém! Como se dizia no Frei Luís de Sousa. Bem, esta obra também poderia sofrer de uns acrescentos. O Romeiro… o Telmo… a Ma… NÃO! Para longe vá o agouro!!! Isso seria um pesadelo. Até parece que eu já estou a incorporar… um acrescentador demente, mas já falecido. É que eu no fundo, ainda estou para aqui a dar ideias, não é? Sei que este blogue, nem é tão lido assim. Vale o que vale. Mas eu gosto muito dele. Terá muitas lacunas e continuará a tê-las por mais que eu me esforce e realize algumas melhorias.
Contudo imagine-se alguém imbuído da tarefa de acrescentar marotices ao que já foi escrito, vai para tanto tempo. Essa pessoa faz uma vasta pesquisa, e como que por um acaso, vem ter aqui a este meu muito modesto cantinho. Imagine-se. Inspirar alguém com as presepadas que p’rá aqui estão expostas. E a minha consciência depois disso? Como ficaria? Estas ideias são parvas eu concordo. Mas serão tão parvas como todas aquelas que se incluírem nos referidos acrescentos.
Toda a gente poderá e deverá escrever um livro. E aí os seus autores poderão colocar lá tudo aquilo que quiserem. Agora por favor, não se desvirtue aquilo que foi pensado e escrito faz tanto tempo. Por um escritor que usou para o efeito, a sua exímia arte, assim como fez uso dos seus próprios critérios. E que agora até já nem está cá para se defender.
E agora, dirijo-me aos senhores acrescentadores, onde quer que vocês estejam: Vocês querem maroteiras, não é? Um conselho, brinquem com as vossas próprias pilinhas, e deixem as pilinhas dos personagens dos clássicos em paz. As personagens que vivem tão regaladamente nos livros, que são a sua casa. E alguns também vivem na nossa imaginação. Têm na nossa mente, como que uma segunda residência. É que as pilinhas deles, já trabalharam o que tinham que trabalhar. Agora até já nem devem de ter existência física. E não creio que alguma vez se tenha conseguido embalsamar alguma, para se poder mostrar na Grande Exposição Internacional de Barcelona, que se realizou no ano da graça de 1929.
DIVIRTAMSEMAZÉ. E respeitemos os clássicos. Eles merecem… Já por aqui andam há mais tempo que nós.
Sugestão de leitura para esta semana (ou releitura); “Os Maias” de Eça de Queirós. É magnifico, como a grande parte da sua obra.

2 comentários:
Há uma embalsamada sim senhora, a Perpétua Esteves Batista, irmã da Tieta, embalsamou a dita do seu defunto esponso.
Enfim quando toca a fazer dinheiro infelizmente já não se olham a meios.
Agora é que pegam mesmo, as ideias já estão dadas já têm meio trabalho feito. Olha a Joaninha hã quem diria?!
Está bem! Mas aí quem embalsamou o dito foi uma personagem saída da genial criatividade do mui saudoso e de "boa memória" escritor, Jorge Amado. Não houve ali intervenção de qualquer adaptador (cruzes, credo e canhoto). Além do mais, li na altura, que o próprio Jorge Amado nem tinha gostado muito da adaptação feita pela TV Globo. Eu confesso: adorei a novela (e que belas interpretações e banda sonora original ali havia) assim como a leitura do romance.
Quanto ao facto de eu poder ter dado ideias, não creio. Ninguém no seu juízo perfeito apostaria nas ideias delirantes que eu aqui postei. Só se eventualmente quisesse deitar "dinheiro à rua"!!!
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
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