Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Extraconjugalidades.


Como é do conhecimento comum, e fazendo valer o titulo de um filme celebre, "O Amor Acontece". Acontece mesmo nas situações mais inusitadas. Conheço uma pessoa que é uma grande recolectora de memórias futuras, vulgo fotografias. Ela fica com a espinha torta de carregar todo um manancial de equipamentos fotográficos, e depois fotografa tudo aquilo que mexe e também tudo o que não mexe. Fotografa também pessoas que são alentejanas, que como bem sabemos, são pessoas que se mexem assim assim. 
Teresa é uma mulher já feita e muito amante de fotografias. E quem tiver confiança com ela e se dispuser a ver todos os seus milhões de películas, observará que na sua grande maioria, o que as fotografias têm, são homens que para ela continuam a ser verdadeiros desconhecidos. (Terá ela esperança de os vir a conhecer um dia?) Eu que sou amiga dela pergunto-lhe o porquê. Ela invariavelmente responde-me que eu sou analfabeta visual, pois não consigo ver a grande arte que está patente nos seus trabalhos fotográficos. Mas existem lá homens, muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Eu tenho para mim, que o impulso que a leva a eternizar o momento, se prende com a ocorrência de uma atracção fulminante mas momentânea. Mas eu confesso, lá existem exemplares muito interessantes. Belíssimas caras em corpos bem torneados.
Recordo por exemplo a fotografia de um senhor que ia num Cruzeiro no Rio Nilo. O senhor ia numa embarcação no sentido contrário à embarcação onde seguia a Teresa. As embarcações passaram muito juntas uma da outra o que fez com que os olhos dos dois, se tenham cruzado, entendido e gostado do que viram. Acredito que os seus corações bateram a compasso apesar de estarem fisicamente afastados. O senhor terá uns cinquenta e tal anos. Teresa ainda hoje tem muito prazer em mostrar essa fotografia. O senhor era algo rechonchudo. Envergava unicamente umas cuecas. Tinha um bigode bem farfalhudo. De resto estava completamente depilado. (Bem quanto a isso Teresa não pode ter a certeza, pois o senhor sempre levava umas cuecas, não é?)
O seu corpo parecia o de um grande golfinho. Tinha uma barriguinha que atestava a sua feliz situação emocional. A sua pele estava vermelha devido à muita exposição solar. Conforme vislumbrou Teresa, o homem (e para a ver melhor), colocou a mão à altura da testa, tipo pala. Teresa teve oportunidade de ver que o homem tinha uns belíssimos olhos castanhos enfiados numas muito garbosas e também muito farfalhudas sobrancelhas. Ainda hoje quando Teresa olha para a fotografia, recorda aquele belo momento por ela vivido. Um momento mágico, irrepetível e perfeito. Um momento em que duas pessoas se olharam pela primeira vez e em que se amaram muito. Mas momentaneamente. Afinal e prefaseando Vinícios de Moraes: "Que o amor seja infinito enquanto dure!" E aquele durou breves instantes. O senhor rechonchudo ainda mostrou interesse em saltar para o barco onde ia Teresa, mas não o fez, pois teve medo de cair para o rio.
Teresa não tem culpa, mas é uma sedutora. É-lhe inato. Como método de engate ela "prega" na sua cara um sorriso enigmático. Depois começa a olhar pelo canto do olho. A seguir pestaneja de sete em sete segundos. Este é um método de sedução usado e concertado com o método que havia sido usado pela Mata-Hari. Mas Teresa é muito mais eficiente que a espia do passado. Teresa não necessita de fazer danças eróticas nem Streaptease. Os homens só com o método acima descrito, caiem-lhe aos pés. Tipo tordos.
Noutra vez e numa viagem a uma ilha do Caribe, Teresa catrapiscou um cozinheiro. Este profissional era uma réplica perfeita do Artur Albarran, no tempo do anúncio à pasta dentifríca. O cozinheiro, já seduzido pela Teresa tenta agarrá-la ali mesmo. Contudo Teresa barrica-se e escuda-se no corpo de um seu amigo militar, que na altura a acompanhava. O cozinheiro teve assim e ali um grande desgosto. Em desespero, o homem queimou as pestanas no fogão e foi para o luar cantar ao Comandante Che Guevara.
Mas a sedução no barco do Nilo não foi só conseguida com o exemplar gorducho que seguia numa outra embarcação. Teresa conseguiu também seduzir um barman egípcio. O rapaz tinha os seus trinta e picos. Tinha um número tatuado na mão que é muito visível na fotografia. Usado o método anteriormente aqui descrito, o barman começa a olhar "bovinamente" para Teresa. A Teresa ao deparar com o sucesso conseguido, riu, riu e riu. Como quem se está a dar conta de que... começa a estar interessada... por outrém. A minha amiga Teresa, pediu-me assim para lhe tirar uma fotografia a ela e ao tal rapaz. Ficaram assim lado a lado, a minha amiga "Mata-Hari"e o recém seduzido egípcio. E depois os olhares trocados prosseguem. É o elevamento total, é a magia. O ruborizar da face... (Bem no caso dele isso não era fácil de verificar, pois ele era muito escuro). Teresa não sabe mais o que havia de fazer. Mas a história não acaba aqui!
Após o jantar temático, em que andavam todos vestidos com trajes típicos e à roda, dançando com uma garrafa, Teresa começou com arrepios e suores frios. Tinha também o coração a mil. No fim decidiu ir para o quarto descansar. Ela partilhava na altura o quarto comigo. Eu acompanhei-a por solidariedade. Já deitadinha na cama, e com os pés em cima de três almofadas, ouviu, ou melhor, ouvimos o telefone a tocar. Teresa atendeu. Era o seu apaixonado egípcio que exigia encontrar-se com ela na cobertura da embarcação, para se conhecerem melhor. Teresa teve novo embate. Estava muito emocionada mas temerosa. Sem saber mais o que fazer, Teresa desliga o telefone abruptamente. Mas o telefone insistiu em tocar mais vezes. O egípcio não era de desistir. Teresa começou a fazer-se de dama, apanhada desprevenida e pediu-me que eu atendesse o telefone. Eu que não tinha nada a ver com aquela história, acedi ao seu pedido com alguma relutância, não é? Mas como sou amiga dela...
É claro que do outro lado da linha continuava o... egípcio, como não podia deixar de ser. No início, o rapaz pensou que estava a falar com Teresa e não foi de modas, insistiu no tal encontro em cima do barco... dentro de um bote de borracha que por lá estava. Eu ainda lhe disse que eu não era a Teresa. Não era portanto a sua apaixonada da noite. Mas o egípcio não quis saber disso para nada. O que ele queria era encontrar-se... com Teresa. Eu e em simultâneo, fui traduzindo para a Teresa os desejos eróticos do rapaz: Os dois, em cima do tal bote de borracha... A beberem champanhe sem alcóol (devido à proibição religiosa), e depois passearem-se todos nus junto à piscina. Envolverem-se em amassos e beijinhos dentro de água. Tirarem as medidas um ao outro... Enfim a imaginação foi o limite. Teresa ouviu tudo aquilo e abanou vigorosamente os braços e a cabeça dizendo que não. Não estava interessada naquele encontro. Não estava assim interessada naquele tão generoso convite. E eu, não sabia mais o que responder ao homem. A Teresa também não. Não queria sequer atender o telefone. No fim e em desespero de causa eu lembrei-me de uma dramática e incontestada argumentação e disse ao determinado homem: "But she is married!" Mas nem assim resultou, já que o cavalheiro me respondeu imediatamente que: "I don´t see what is the problem!" 
Em jeito de conclusão só me resta aqui dizer: Mas qual "Primavera Árabe" qual carapuça. Aquele rapaz, e já há alguns anos atrás, já se encontrava... No pico do Verão.
Sugestão de leitura para hoje: "Vai aonde te leva o coração" (Nem que seja para cima de um barco), de Susanna Tamaro.
Divirtamsemazé e votos de um Muito Bom Ano de 2012. Vamos contrariar tudo aquilo que nos é tão dramaticamente prognosticado para o ano que há-de vir.


sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma linda história de Natal.


Carolina Maria tinha 86 anos e muita genica. Fazia questão de andar com sapatos de salto alto pelas ruas empedradas na nossa capital. De vez em quando dizia-se muito triste e inconsolável. Ela achava que padecia de uma gravíssima doença, que lhe provocava uma vontade incompreensível de cair para o chão (tinha muito de vezes a tempos, umas tonturas). Mas por mais do que uma vez "ofereceu porrada" àquele que, havia tido a ousadia de sugerir que as tonturas poderiam ser devidas ao... seu uso constante de saltos altos.
Uma vez e de rompante, a Carolina zangou-se com os seus quatro filhos. E para os castigar logo lhes disse que não contassem com a presença dela na ceia de Natal. E como estava provado que para eles, ela era um peso (conclusão germinada unicamente na sua cabecita de octogenária), ela iria passar toda a quadra natalícia, junto dos seus colegas de geração e de crescimento, melhor dizendo, iria passar o Natal a um Lar da Terceira Idade. O lar escolhido pela anciã voluntariosa, fora justamente o lar, onde se havia finado o seu Falecido. 
Depois de tomada esta decisão radical, Carolina falou dela a outros membros da família. Isaura que era a sua irmã caçula de 83 anos, ficou muito solidária com a decisão da irmã e... sem qualquer hesitação ela resolveu seguir os propósitos da mana para a passagem da quadra natalícia. (Já eram duas).
Porém Isaura era mãe de Catarina, filha que lhe era muito útil e dedicada. Catarina quando soube que a mamã queria ir passar o Natal ao Lar de Idosos e não teria a sua companhia na consoada, resolveu apelar ao seu apaixonado marido, dizendo-lhe inclusivamente que era sua intenção acompanhar também ela, a mamã e a titi. (E já eram três).
Alípio o garboso marido de Catarina era uma oficial da marinha. Era um homem abnegado e habituado a sacrifícios, quando necessário. Tinha só uma palavra. Mas estava absolutamente indisponível para abdicar da companhia no Natal, da sua queridíssima Catarina e dos seus dois filhos gémeos de 27 anos. Os filhos chamava-se Pedro e Paulo e ainda não haviam saído da casa paterna. Alípio pensou, pensou e chegou a uma decisão. Iria mover todos os seus esforços e influências, no sentido de conseguir três quartos no tal lar, na noite de Natal. O primeiro quarto seria ocupado pelas manas octogenárias. O segundo seria para ele e para a sua doce e extremosa esposa Catarina. O terceiro seria ocupado pelos seus dois filhos. Alípio já adivinhava a alegria que estes dois últimos sentiriam, mal soubessem da decisão paterna. Bem, mas sempre poderia por lá haver uma velhinha rica e ainda jeitosa. (Assim já eram seis!)
Já tudo orientado e conseguido, é comunicada à família o local onde o Natal seria passado, sempre em família, mas num Lar de Idosos. Mas Carolina Maria, a senhora que havia começado aquilo tudo descobre que afinal, não poderia dar um tão grande desgosto aos seus quatro filhos e, decide que afinal ela não irá para o tal  Lar de Idosos no dia 24 de Dezembro. (Agora são só cinco, pois quem começara tudo deu a nega!)
Alípio fica assim estarrecido com a última decisão da tia, que o ultrapassou por completo. Tal situação inusitada, põe à prova toda a sua boa vontade e o seu bom coração. Ele que amava desesperadamente a sua querida esposa e os seus dois dedicados e presentes filhos. Também "ia à bola" com a sogra, dando-lhe de vez em quando um beijinho na testa, e rezando com ela na Quaresma um terço ou outro. Mas, palavra de militar não volta atrás. E uma coisa é certa, era imperioso para aquela família passar o Natal em conjunto. Só que naquele ano seria passado numa Casa de Repouso.
Pelo Lar, foram advertidos de que não poderiam levar com eles quaisquer iguaria natalícia, pois tal poderia ser perigoso para a saúde dos residentes. Os cinco entraram na instituição por volta das 17:30 h. indo logo colocar as malinhas nos respectivos quartos. A ceia começou às 20:00 h. e foi composta por: uma sopa de legumes (sem sal), bacalhau com batatas e couve portuguesa (tudo sem sal e sem ovo por causa do colesterol) e como sobremesa uma maça assada, das reinetas adoçada com adoçante. Depois beberam todos um chá de carqueja. 
A troca de prendas começou às 21:30. Foi bonito de ver. Trocaram-se ali e em abundância: arrastadeiras, copos para colocar as próteses dentárias, meias para o frio, andarilhos e cornetas acústicas.  Mas a festa teve que terminar pelas 22:45 h. pois às 23:00 já tinham que estar todos recolhidos nos seus quartos.
A alvorada foi dada às 8:00 da manhã, com a acção de uma muito competente funcionária da casa, que agitava vigorosamente um guizo e de apito na boca. Todos, mas todos tinham assim que se levantar. O pequeno-almoço foi composto por: pão com manteiga (magra e sem sal) e café com leite (magro). Tiveram depois direito a uma pêra rocha e quem quis, pode comer um queque. Mas ainda havia de sobra, chá de carqueja.
Depois foi a vez de se fazerem uns exercícios físicos. Os ocupantes da casa estavam sentados e era-lhe pedido que elevassem os braços à altura dos ombros e mexessem depois todos os dedinhos. Avaliava-se assim o estado das articulações. Depois foi a vez do pescoço. Virar para a direita, depois para a esquerda, depois para a direita... Numa alusão perfeita à alternância politica, dos que nos têm (des)governado nos últimos anos.
Depois e pelas 11:00 foi a vez de assistirem a uma actuação brilhante, do grupo coral dos velhinhos do Lar Mais Próximo. Todos em trajos de gala tentando fazer soar vibrantes as suas já cansaditas vozes.
Pelas 13:00 h. vem o Almoço de Natal que foi composto por: Canja de Galinha (sem sal), um pratinho de Pescada Cozida com Grelos (mas sem sal) e como sobremesa um iogurte caseiro. 
Aquela solidária família saiu do Lar pelas 15:00. Teve assim a sua ordem de soltura. E os cinco foram passar o resto do Natal para casa.
Mas poderá muito bem acontecer que no futuro a Carolina Maria, a tal dos saltos altos, se zangue outra vez com os filhos e mostre interesse e ir passar o Natal... numa Penitenciaria. Nesse caso, juro-vos meus amigos, se por cá ainda andar, terei todo o gosto em lhes contar mais uma história de similar calibre.
Sugestão de leitura para hoje: "Um Conto de Natal" de Charles Dickens.
Divirtamsemazé e BOM NATAL. 


sábado, 17 de dezembro de 2011

Números [de] primos.


Umberto Eco tem uma teoria muito importante quando afirma que as bibliotecas por si só são locais de sedução. Pois, e isto numa leitura inteiramente minha  (para o mal ou para o bem), para mim quem lê livros é um ser necessariamente sexy. Mas as viagens meus amigos, as viagens também são por si só muito propícias à ocorrência desses devaneios. A pessoa vai mais tranquila, mais liberta de preconceitos e de outras castrações diversas e... pimba! O amor pode ali estar ao virar da esquina.
Sei de gente que se apaixonou em viagens, outros que se desapaixonaram por terem tido visões melhores (lol). Sei de outros que continuaram uma relação que se quis intensa mas em cenários diferentes. Mas nem sempre estas situações correm pelo... melhor. E também nem tudo é carnal e pecaminosos (lol 3x)
O casal Garcia estava junto já há quarenta e tal anos. Idalina Garcia era uma sessentona bem enxuta e interessante. De pele muito clara, bem maquilhada e de sorriso aberto, ela levava a vida como queria. Naquela manhã ela apresentou-se no aeroporto com o seu marido César. Este ficaria em terras lusas, mas a sua mulher ia viajar para um país, situado bem lá no Extremo do Oriente. O marido estava manifestamente preocupado com o facto da mulher ir viajar sozinha pela primeira vez. E ainda mais devido ao facto de ir sem ele, para um país tão distante.
Com o decorrer da conversa entre o casal, outras pessoas que também elas iam para o mesmo país longínquo, ao verem a aflição do senhor, logo trataram de o sossegar. Disseram-lhe que não se preocupasse,  pois iam todos juntos. Olhariam assim uns pelos outros, pelo que não era espectável que acontecessem surpresas desagradáveis que pudessem pôr em perigo, a segurança e o bem estar da simpática Idalina. César ficou visivelmente mais tranquilo e, uma vez que a mulher já se encontrava bem acompanhada, deu-lhe um beijinho na testa e foi-se embora  (presumivelmente para o ninho de amor do casal).
Idalina a mui sorridente senhora, ficou ali à conversa com as suas mais recentes amigas. Mas, passados poucos minutos, surge um simpático senhor já com os seus setenta anos. E ocorre ali um verdadeiro milagre. Idalina fica radiante. Olha uma e outra vez para o recém chegado, abre muito os braços e exclama de felicidade: "Então Custódio, também vem viajar connosco? Mas que grande alegria!!!" Ao que Custódio responde: "Pois vou Idalina, nem a propósito. Se tivéssemos combinado, as coisas não tinham dado tão certas." E, Idalina apresenta o simpático Custódio às outras pessoas como sendo... o seu primo.
A partir dali, os primos jamais se largaram e deixaram de falar. Falaram tanto tanto, que até incomodaram espíritos mais solitários e silenciosos. Estavam assim muitíssimo felizes.
Durante toda a viagem não acompanharam o resto da comitiva, alegando que queriam ver todas as cidades "a fundo". Verificara-se que eles... tinham outros motivos de interesse. Só acompanhavam o restante grupo, quando o grupo se mudava de uma cidade para a outra.
É imperioso para mim ressaltar aqui a importância máxima que tem a família nas nossas vidas. Veja-se a importância que teve para Idalina, o facto de ter encontrado um primo quando ela menos esperava. Devemos de estimar muito os nossos primos. A propósito disso, veja-se o grau de generosidade patente por parte dos homens quando afirmam: "Quanto mais prima, mais se lhe arrima". Mas o que quererá dizer "arrimar"? Terá alguma coisa a ver com versejar? Se calhar este ditado popular tem as suas reminiscências na Época Trovadoresca. Vai na volta era usada pelos trovadores que eram mais ligados... às suas  famílias. Mas aguardem só um momento, pois vamos todos ficar sem dúvidas. Eu vou ver o significado desta palavra no dicionário.
Ora cá está. Arrimar: pôr, dispor em rima (vêm! Eu tinha razão. Já são muitos anos a virar frangos. Mas continua); encostar, amparar (oh! Que lindo! Tanto carinho, tanto sentimento!); arrumar (também dá jeito); bater... (mas o que isto? Isso não, nunca! Nem com uma flor. Já viram o que era, levar com um girassol!). Bem avaliando a coisa e tirando definitivamente desta história, a palavra "bater" ao seu significado, a palavra "arrimar" até é uma palavra "quiduxa", não é?
Mas a nossa história de hoje ainda não acabou. Quem ia também naquela viagem era a D. Adosinda e a sua amiga, a D. Elia. Estas mulheres de setenta anos eram viúvas muito distintas e sentimentais. Dormiam castamente uma com a outra no mesmo quarto de hotel. Ora numa noite quis o destino, que estas senhoras ocupassem o quarto que estava de frente para o quarto que estava ocupado pela... Idalina. Tudo decorria dentro da mais perfeita normalidade. Mas eis se não quando e pela manhã, quando as viúvas já bem lavadinhas, bem vestidinhas e perfumadas abandonavam o quarto, são surpreendidas pela Idalina que saía do quarto dela acompanhada pelo... seu prestimoso primo. Estes dois vinham muito sorridentes e coradinhos. Só que ao dar de caras com as mui saudosas de outros tempos e de outras companhias, a Idalina diz assim e sem qualquer tipo de hesitação: "Muito obrigada primo Custódio, por me ter vindo ajudar... com a mala!" Bonito e muito enternecedor, não?
Acreditem pois, pessoas deprimidas e de pouca fé: Ainda existem no mundo homens muito solícitos e muito bem intencionados. Para memória futura de todos aqueles que participaram naquela excursão, fica a ocorrência natural daquele sentimento tão casto e tão puro. Sentimento este, que teve o seu desenvolvimento na coincidência que foi a viagem de dois primos (muito amigos e preocupados um com o outro), que não haviam combinado... nada.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Amor é Um Lugar Comum" de Paulo Nogueira.
DIVIRTAMSEMAZÉ e não abandonem nunca a vossa família alargada. É que esta pode vir a dar-vos muito jeito.
BOAS LEITURAS também.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Incidentes de percurso.


Parte integrante e de muita importância em todo o processo das viagens é a alimentação. E quem é que nunca ouviu comentários tipo: "Não há comida como a portuguesa!", "Em Portugal é que se come muito bem..." etc, etc.
Depois de alguns dias fora, o pessoal começa todo a desabafar, falando da "bela sopa", "do belo cafezito lusitano". A esse propósito sabemos  da opinião dos estrangeiros quanto ao nosso café. Referem-se a ele como sendo pó de café em profusão,  misturado com muito pouca água. Mas nós gostamos tanto dele assim, isso é algo absolutamente inquestionável.
De uma vez e de viagem ao Brasil, ouvi da boca de alguns portugueses, que como eu estavam lá pela primeira vez coisas como: "Então esta é que é a terra da café? Como é que nos servem uma mistela tão "mixuruca"?" Usaram esta expressão natural do Brasil para transmitirem  ares de grandes entendidos, não é?
Mas, falemos hoje um pouco dos cuidados a ter com a alimentação, quando andamos em viagem. A primeira questão que germina nas nossas mentes de pessoas cuidadosas é: "Será que as saladinhas são bem lavadinhas?", "E o gelo que refresca tanto a nossa bebidinha, será que não foi conseguido através da água do charco?", "Será que os cadáveres dos bichinhos, enterrados nesse gelo não ofereceram o seu corpinho à ciência?" Eu juro que de uma vez vi uma senhora a obrigar um cozinheiro, que cozinhava ao ar livre num jardim a deitar uma quantidade imprecisa de ovos fora. O homem tentava fazer... uma omeleta. Ora a mulher cismou que um ovo, que ele tinha colocado na frigideira, estava estragado e, o que é que se havia de fazer? A mulher foi tão determinada na sua argumentação, que o profissional atirou com a omeleta para o lixo. Ora tanto a mim como ao cozinheiro nos parecera que aquele ovo estava absolutamente igual... a todos os outros, mas...
Pois é, amigos,  todos nós temos medo, muito medo de uma coisa! Que a nossa acção fique  limitada com a ocorrência de distúrbios gástrico-intestinais.
Quando fui ao Egipto, acontecia que as baixas provocadas por tão funesto mal iam sendo graduais e progressivas. Por exemplo, ontem o senhor X. ficara indisposto no hotel. Hoje era a vez da sua mulher e da sua filha. Amanhã, adivinhava-se que seria a vez da sogra, da tia solteirona e do canário. O senhor X. entretanto havia regressado à lide, mas vinha muito amarelinho e só comia as pontas de um panado de galinha. E depois sempre e com uma voz muito sumida, lá explicava a todos, que a mulher e a filha tinham ido só de noite, umas duzentas vezes à sanita (ele só conseguira contar as primeiras setenta). Eu ouvia solidária temendo muito o dia de amanhã. É que eu também poderia ter que contribuir para as estatísticas, não é? Mas acreditem, até agora tal situação em viagens, nunca me aconteceu. (Um momento pois estou a bater três vezes no meu telefone de madeira!!!) Já estou isolada.
Há uns anos, um moço de quem eu gostava muito, justificou-se numa manhã, o facto de não ter podido sair comigo à noite. Não pudera sair pois  havia sido acometido de... distúrbios gástrico-intestinais. O meu sentimento de raiva e perante aquela confissão, deu lugar ao facto de ter achado a cena... absolutamente encantadora. Imaginá-lo toda a noite, a correr de calças na mão, sentar-se na sanita e ter o seu ténue e passageiro momento de alívio. Depois e muito a medo, reerguer-se daquele "trono" e de nádegas bem apertadinhas, dirigir-se à sala e sentar-se novamente no sofá. Não descalçaria os chinelos, porque a "contracção seguinte" poderia vir a qualquer momento. Bem, todos nós sabemos que o nosso sentido crítico e a nossa capacidade de discernimento fica dramaticamente abalada quando nos apaixonamos, não é?
Ora uma aflição algo similar a esta, teve contudo contornos bem distintos numa viagem que eu há anos fiz à Polónia. A tal viagem com os padres. As pessoas que me acompanhavam tinham todas já uma certa idade e tiveram o azar de ficar, quase na sua totalidade e ao mesmo tempo, com os problemas acima transcritos. Os que iam escapando, estavam muito preocupados com a continuidade daquela situação. Ora tudo aquilo fora vivido com muito drama e com muito horror por alguns, mas com um sentido de oportunidade desta vossa amiga que se assina e de mais uma outra jovem que na altura me acompanhava. É que nós ali apostávamos uma com a outra, dinheiro e outros favores. Eu explico: Aquela cena faz-me lembrar muito a minha querida avó Maria. Essa rija mulher que já faleceu há alguns anos era camponesa. E entre muitos, tinha um hábito diário de que não abria mão: Por volta das 17 horas, ela abria as suas queridas galinhas da capoeira. Ora eu deliciava-me a ver aquilo. Eram as galináceas  todas a sair ao mesmo tempo. Umas passavam por cima das outras. Depois divergiam nos seus percursos já que ia cada uma para seu lado, cacarejar à vontade e esgaravatar a terra procurando as minhocas mais suculentas.
Agora estava na Polónia e com pessoas, é certo. Contudo, mal se parava numa estação de serviço qualquer, todos aqueles que estavam acometidos por aquela desgraça (e eram muitos), queriam sair do autocarro ao mesmo tempo. Acho contudo que ninguém passou por cima de ninguém. Mas ao contrário das galinhas da minha avó, aquelas pessoas convergiam todas para um único destino: os sanitários. Ora o que é que eu e a minha amiga fazíamos ao olhar toda aquela cena? Pois apostávamos em quem conseguia lá chegar primeiro. Se era a D. Aida, ou se era o Sr. Joaquim? Ás vezes era muito fácil ganhar a aposta, pois quem saía do autocarro primeiro conseguia ter um grande avanço sobre os demais.
Este assunto e não sei porquê, leva-me a pensar num título e a sugerir a sua leitura. Então como sugestão de leitura para esta semana, proponho o livro "Apuros de um Pessimista em Fuga" de Mário de Carvalho.
Divirtamsemazé e BOAS LEITURAS, misturadas com muita alegria. Sei que esta receita não é fácil de conseguir nos dias de hoje mas pelo menos... tentem, não é?


Estamos sempre a aprender. Afinal o nosso mal (e a nossa necessidade), já vem de longe.
DIVIRTAMSEMAZÉ, mas reflictam por favor neste belo poema. E como ele é magnificamente interpretado. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Objecto de recordação.


Quando os viciados em viagens como eu, se iniciam nessas aventuras, acham que todos os materiais são susceptíveis de vir a fazer falta. Eu explico. Queremos trazer connosco tudo, mas tudo aquilo que possa ser capaz de nos trazer boas recordações. Era como se trouxéssemos connosco um pedaço do país visitado. Depois e com o passar do tempo, verificávamos que esses objectos ficam lá por casa a ganhar pó. Com a continuidade da sua visualização quase que já não lhe reconhemos o mérito que inicialmente lhe havíamos projectado. A propósito desse assunto, tenho uma colega de trabalho que me diz que nas viagens, ela quase que já não compra nada, pois está farta de ver as suas gavetas cheias de tralha. Eu cada vez tendo a concordar mais com ela, mas claro está, "não há regra sem excepção".
Hoje o meu pensamento vai para aqueles "bens", que são gratuitos, ou seja, foram-nos graciosamente oferecidos pela "mãe natureza". Ou então aqueles partículas de objectos, surripiados às construções humanas. Mas acontecem situações absolutamente condenáveis.
Lembro-me de, há uns anos andar no jardim da casa do Chopin, em Varsóvia, placidamente a ... apanhar bolotas. Não queridos amigos, não se tratava do meu almocinho, se bem que com a crise... até pode vir a ser a base da minha alimentação. O que eu mais temo depois é ficar com uma aparência porcina. Mas... a Miss Piggy era muito sensual e determinada. 
Ainda hoje um  familiar meu, guarda religiosamente essas bolotas, que já estão um bocado para o ressequido.
Lembro-me ainda com saudade de umas pedrinhas que apanhei em Roma, nos acessos para as Catacumbas. Essas pedrinhas ainda hoje vivem em agradável convívio com as bolotas. Existe também por lá uma pedrinha trazida de uma praia do Pacífico. 
Mas não sou só eu que tenho estas lindas ideias, claro está! Um dia um colaborador meu, jovem adulto e surfista, pediu-me que eu lhe trouxesse uma pedrinha de Machu Picchu. Já no recinto arqueológico e preparando-me para o resgate, falo com um senhor que estava a meu lado sobre a necessidade de levar a pedra. O homem abre-me muito os olhos e avisa-me que, eu não poderia retirar nenhuma pedra daquelas construções. Mas é claro que não! Pensei eu. Então aquelas pedras pesam toneladas! Bem, avaliando bem a coisa, eu também não tinha ali nenhuma grua à mão. Hoje sei que o surfista quando vai surfar, leva sempre aquela pedrinha que eu lhe trouxe. Leva-a enfiada dentro daquele fato de borracha.
Na mesma ordem de acções condenáveis, consegui umas folhinhas de oliveira, placidamente apanhadas no Monte das Oliveiras em Jerusalém. E aí eu confesso, estranhei muito aquilo. É que eu pensava que à frente de cada uma das oliveiras estava um jovem judeu, munido de uma metralhadora e disposto a abater o primeiro surripiador. Mas não. Há que ter cuidado é certo, mas consegue-se... (sempre existem aqueles raminhos na base das árvores). Depois e já em Portugal, vi o brilho presente nos olhos daqueles a quem eu ofertei as folhas. Muito religiosos na sua grande maioria. Hoje acredito que as folhinhas, permaneçam muito sossegadas em finas caixinhas, junto a imagens de santos e demais objectos de culto. E junto a elas devem-se rezar muitas orações para os mais variados motivos. Agora o motivo principal deve de ser o fim da crise.
Sei também de um senhor que trouxe do Japão uma mala cheia de garrafas vazias, pois o seu genro fazia colecção.
Mas houve algo que me marcou pela negativa, numa tentativa de resgate de "objecto de recordação". Há uns anos valentes fui à Polónia na companhia de 35 padres. Aquilo era uma espécie de Peregrinação. Havia um que se auto-intitulava de Monsenhor Qualquer Coisa. Era quem visivelmente mandava nos outros 34. Eu mesma assisti impávida ao facto de que, quando os outros padres queriam dançar, tinham que ir pedir autorização a esse tal de Monsenhor. Ora da viagem fazia parte uma visita ao Campo de Concentração de Auschwitz. A experiência vivida com a visita ao referido Campo foi marcante para todos, obviamente. A visualização de todos aqueles edifícios tão numerosos e sempre iguais. O local parece ainda hoje, ressoar todas as angústias de um passado absolutamente lamentável. Ora fora justamente ao pé da cela, onde havia estado aprisionado um padre chamado Maximiliano Maria Kolbe (hoje considerado santo), que o tal Monsenhor pediu uma navalha à assistência para (e pasme-se!), retirar para ele uma lasquinha da porta! Espantosa a lata do religioso homem!!!  Eu, não me contive e desatei a ralhar com ele. Afinal ele não era o meu chefe. E disse-lhe: "Com a distinta lata que lhe é tão natural, se eu fosse a si, levava logo a porta toda!" O homem ficou a olhar para mim, como se eu fosse a gémea da Maria Madalena antes de ser santa e quando ainda tinha aquela profissão. Mas reflectiu, reflectiu  e felizmente achou que o melhor era ficar "mais ou menos bem na fotografia". Desistiu assim do seu intento. 
Diga-se que nenhum dos outros padres, lhe passou para a mão nenhuma navalha. Ali acharia estranho, ministros de Deus, andarem armados de objectos cortantes e perfuradores (Bem desses últimos, deve de ter, cada um o seu!). Contudo eu confesso: se alguém tivesse tido a ousadia de lhe fornecer tal navalha, eu própria lha retirava da mão e era bem capaz de lhe cortar os "penduricalhos". Obviamente que não ficaria com os ditos, para recordação. Sem apelo nem agravo atiraria os mesmos ou para o caixote do lixo, ou para o forno crematório.  Acredito que tratando-se de um Padre Católico, esses "penduricalhos" não lhe deveriam de  fazer muita falta. Ou estarei enganada?
Sugestão de leitura de hoje: "A Relíquia" de Eça de Queirós.
Divirtamsemazé... E não levem nada que não seja vosso. 


Nota: Os meus favoritos, são os padres de Fevereiro e de Agosto (se bem que o de Maio também não está mesmo nada mal!). E que pena tenho eu destas "verdadeiras preciosidades" não terem ido à mesma excursão que eu fui? É que se fossem eu garanto que: quem traria as "relíquias" era eu. Bem, pelo menos tentava, não é?
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!