Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma linda história de Natal.


Carolina Maria tinha 86 anos e muita genica. Fazia questão de andar com sapatos de salto alto pelas ruas empedradas na nossa capital. De vez em quando dizia-se muito triste e inconsolável. Ela achava que padecia de uma gravíssima doença, que lhe provocava uma vontade incompreensível de cair para o chão (tinha muito de vezes a tempos, umas tonturas). Mas por mais do que uma vez "ofereceu porrada" àquele que, havia tido a ousadia de sugerir que as tonturas poderiam ser devidas ao... seu uso constante de saltos altos.
Uma vez e de rompante, a Carolina zangou-se com os seus quatro filhos. E para os castigar logo lhes disse que não contassem com a presença dela na ceia de Natal. E como estava provado que para eles, ela era um peso (conclusão germinada unicamente na sua cabecita de octogenária), ela iria passar toda a quadra natalícia, junto dos seus colegas de geração e de crescimento, melhor dizendo, iria passar o Natal a um Lar da Terceira Idade. O lar escolhido pela anciã voluntariosa, fora justamente o lar, onde se havia finado o seu Falecido. 
Depois de tomada esta decisão radical, Carolina falou dela a outros membros da família. Isaura que era a sua irmã caçula de 83 anos, ficou muito solidária com a decisão da irmã e... sem qualquer hesitação ela resolveu seguir os propósitos da mana para a passagem da quadra natalícia. (Já eram duas).
Porém Isaura era mãe de Catarina, filha que lhe era muito útil e dedicada. Catarina quando soube que a mamã queria ir passar o Natal ao Lar de Idosos e não teria a sua companhia na consoada, resolveu apelar ao seu apaixonado marido, dizendo-lhe inclusivamente que era sua intenção acompanhar também ela, a mamã e a titi. (E já eram três).
Alípio o garboso marido de Catarina era uma oficial da marinha. Era um homem abnegado e habituado a sacrifícios, quando necessário. Tinha só uma palavra. Mas estava absolutamente indisponível para abdicar da companhia no Natal, da sua queridíssima Catarina e dos seus dois filhos gémeos de 27 anos. Os filhos chamava-se Pedro e Paulo e ainda não haviam saído da casa paterna. Alípio pensou, pensou e chegou a uma decisão. Iria mover todos os seus esforços e influências, no sentido de conseguir três quartos no tal lar, na noite de Natal. O primeiro quarto seria ocupado pelas manas octogenárias. O segundo seria para ele e para a sua doce e extremosa esposa Catarina. O terceiro seria ocupado pelos seus dois filhos. Alípio já adivinhava a alegria que estes dois últimos sentiriam, mal soubessem da decisão paterna. Bem, mas sempre poderia por lá haver uma velhinha rica e ainda jeitosa. (Assim já eram seis!)
Já tudo orientado e conseguido, é comunicada à família o local onde o Natal seria passado, sempre em família, mas num Lar de Idosos. Mas Carolina Maria, a senhora que havia começado aquilo tudo descobre que afinal, não poderia dar um tão grande desgosto aos seus quatro filhos e, decide que afinal ela não irá para o tal  Lar de Idosos no dia 24 de Dezembro. (Agora são só cinco, pois quem começara tudo deu a nega!)
Alípio fica assim estarrecido com a última decisão da tia, que o ultrapassou por completo. Tal situação inusitada, põe à prova toda a sua boa vontade e o seu bom coração. Ele que amava desesperadamente a sua querida esposa e os seus dois dedicados e presentes filhos. Também "ia à bola" com a sogra, dando-lhe de vez em quando um beijinho na testa, e rezando com ela na Quaresma um terço ou outro. Mas, palavra de militar não volta atrás. E uma coisa é certa, era imperioso para aquela família passar o Natal em conjunto. Só que naquele ano seria passado numa Casa de Repouso.
Pelo Lar, foram advertidos de que não poderiam levar com eles quaisquer iguaria natalícia, pois tal poderia ser perigoso para a saúde dos residentes. Os cinco entraram na instituição por volta das 17:30 h. indo logo colocar as malinhas nos respectivos quartos. A ceia começou às 20:00 h. e foi composta por: uma sopa de legumes (sem sal), bacalhau com batatas e couve portuguesa (tudo sem sal e sem ovo por causa do colesterol) e como sobremesa uma maça assada, das reinetas adoçada com adoçante. Depois beberam todos um chá de carqueja. 
A troca de prendas começou às 21:30. Foi bonito de ver. Trocaram-se ali e em abundância: arrastadeiras, copos para colocar as próteses dentárias, meias para o frio, andarilhos e cornetas acústicas.  Mas a festa teve que terminar pelas 22:45 h. pois às 23:00 já tinham que estar todos recolhidos nos seus quartos.
A alvorada foi dada às 8:00 da manhã, com a acção de uma muito competente funcionária da casa, que agitava vigorosamente um guizo e de apito na boca. Todos, mas todos tinham assim que se levantar. O pequeno-almoço foi composto por: pão com manteiga (magra e sem sal) e café com leite (magro). Tiveram depois direito a uma pêra rocha e quem quis, pode comer um queque. Mas ainda havia de sobra, chá de carqueja.
Depois foi a vez de se fazerem uns exercícios físicos. Os ocupantes da casa estavam sentados e era-lhe pedido que elevassem os braços à altura dos ombros e mexessem depois todos os dedinhos. Avaliava-se assim o estado das articulações. Depois foi a vez do pescoço. Virar para a direita, depois para a esquerda, depois para a direita... Numa alusão perfeita à alternância politica, dos que nos têm (des)governado nos últimos anos.
Depois e pelas 11:00 foi a vez de assistirem a uma actuação brilhante, do grupo coral dos velhinhos do Lar Mais Próximo. Todos em trajos de gala tentando fazer soar vibrantes as suas já cansaditas vozes.
Pelas 13:00 h. vem o Almoço de Natal que foi composto por: Canja de Galinha (sem sal), um pratinho de Pescada Cozida com Grelos (mas sem sal) e como sobremesa um iogurte caseiro. 
Aquela solidária família saiu do Lar pelas 15:00. Teve assim a sua ordem de soltura. E os cinco foram passar o resto do Natal para casa.
Mas poderá muito bem acontecer que no futuro a Carolina Maria, a tal dos saltos altos, se zangue outra vez com os filhos e mostre interesse e ir passar o Natal... numa Penitenciaria. Nesse caso, juro-vos meus amigos, se por cá ainda andar, terei todo o gosto em lhes contar mais uma história de similar calibre.
Sugestão de leitura para hoje: "Um Conto de Natal" de Charles Dickens.
Divirtamsemazé e BOM NATAL. 


2 comentários:

365gulosos disse...

Deixe-me que lhe diga, as fotos são no mínimo muito originais! Parabéns pela escolha!
Se esta Srª fosse da minha família já a tinha enviado para outro País, (se bem que os outros não têm de levar com aquilo que não queremos).
Mas vale este Blog pela originalidade, nem nos livros de histórias acontece coisas tão excêntricas!

divirtamsemaze disse...

Tenho que discordar consigo "Gulosa". Há imensos livros com histórias fantásticas e muito mais interessantes que estas por mim aqui postadas. Mas acredite, eu divirto-me muito a escrevê-las, e fico muito contente em saber que também se diverte com elas. E... Divirtasemazé, por muitos e Bons Anos. Para si e para todos os "seus Gulosos"