Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Números [de] primos.


Umberto Eco tem uma teoria muito importante quando afirma que as bibliotecas por si só são locais de sedução. Pois, e isto numa leitura inteiramente minha  (para o mal ou para o bem), para mim quem lê livros é um ser necessariamente sexy. Mas as viagens meus amigos, as viagens também são por si só muito propícias à ocorrência desses devaneios. A pessoa vai mais tranquila, mais liberta de preconceitos e de outras castrações diversas e... pimba! O amor pode ali estar ao virar da esquina.
Sei de gente que se apaixonou em viagens, outros que se desapaixonaram por terem tido visões melhores (lol). Sei de outros que continuaram uma relação que se quis intensa mas em cenários diferentes. Mas nem sempre estas situações correm pelo... melhor. E também nem tudo é carnal e pecaminosos (lol 3x)
O casal Garcia estava junto já há quarenta e tal anos. Idalina Garcia era uma sessentona bem enxuta e interessante. De pele muito clara, bem maquilhada e de sorriso aberto, ela levava a vida como queria. Naquela manhã ela apresentou-se no aeroporto com o seu marido César. Este ficaria em terras lusas, mas a sua mulher ia viajar para um país, situado bem lá no Extremo do Oriente. O marido estava manifestamente preocupado com o facto da mulher ir viajar sozinha pela primeira vez. E ainda mais devido ao facto de ir sem ele, para um país tão distante.
Com o decorrer da conversa entre o casal, outras pessoas que também elas iam para o mesmo país longínquo, ao verem a aflição do senhor, logo trataram de o sossegar. Disseram-lhe que não se preocupasse,  pois iam todos juntos. Olhariam assim uns pelos outros, pelo que não era espectável que acontecessem surpresas desagradáveis que pudessem pôr em perigo, a segurança e o bem estar da simpática Idalina. César ficou visivelmente mais tranquilo e, uma vez que a mulher já se encontrava bem acompanhada, deu-lhe um beijinho na testa e foi-se embora  (presumivelmente para o ninho de amor do casal).
Idalina a mui sorridente senhora, ficou ali à conversa com as suas mais recentes amigas. Mas, passados poucos minutos, surge um simpático senhor já com os seus setenta anos. E ocorre ali um verdadeiro milagre. Idalina fica radiante. Olha uma e outra vez para o recém chegado, abre muito os braços e exclama de felicidade: "Então Custódio, também vem viajar connosco? Mas que grande alegria!!!" Ao que Custódio responde: "Pois vou Idalina, nem a propósito. Se tivéssemos combinado, as coisas não tinham dado tão certas." E, Idalina apresenta o simpático Custódio às outras pessoas como sendo... o seu primo.
A partir dali, os primos jamais se largaram e deixaram de falar. Falaram tanto tanto, que até incomodaram espíritos mais solitários e silenciosos. Estavam assim muitíssimo felizes.
Durante toda a viagem não acompanharam o resto da comitiva, alegando que queriam ver todas as cidades "a fundo". Verificara-se que eles... tinham outros motivos de interesse. Só acompanhavam o restante grupo, quando o grupo se mudava de uma cidade para a outra.
É imperioso para mim ressaltar aqui a importância máxima que tem a família nas nossas vidas. Veja-se a importância que teve para Idalina, o facto de ter encontrado um primo quando ela menos esperava. Devemos de estimar muito os nossos primos. A propósito disso, veja-se o grau de generosidade patente por parte dos homens quando afirmam: "Quanto mais prima, mais se lhe arrima". Mas o que quererá dizer "arrimar"? Terá alguma coisa a ver com versejar? Se calhar este ditado popular tem as suas reminiscências na Época Trovadoresca. Vai na volta era usada pelos trovadores que eram mais ligados... às suas  famílias. Mas aguardem só um momento, pois vamos todos ficar sem dúvidas. Eu vou ver o significado desta palavra no dicionário.
Ora cá está. Arrimar: pôr, dispor em rima (vêm! Eu tinha razão. Já são muitos anos a virar frangos. Mas continua); encostar, amparar (oh! Que lindo! Tanto carinho, tanto sentimento!); arrumar (também dá jeito); bater... (mas o que isto? Isso não, nunca! Nem com uma flor. Já viram o que era, levar com um girassol!). Bem avaliando a coisa e tirando definitivamente desta história, a palavra "bater" ao seu significado, a palavra "arrimar" até é uma palavra "quiduxa", não é?
Mas a nossa história de hoje ainda não acabou. Quem ia também naquela viagem era a D. Adosinda e a sua amiga, a D. Elia. Estas mulheres de setenta anos eram viúvas muito distintas e sentimentais. Dormiam castamente uma com a outra no mesmo quarto de hotel. Ora numa noite quis o destino, que estas senhoras ocupassem o quarto que estava de frente para o quarto que estava ocupado pela... Idalina. Tudo decorria dentro da mais perfeita normalidade. Mas eis se não quando e pela manhã, quando as viúvas já bem lavadinhas, bem vestidinhas e perfumadas abandonavam o quarto, são surpreendidas pela Idalina que saía do quarto dela acompanhada pelo... seu prestimoso primo. Estes dois vinham muito sorridentes e coradinhos. Só que ao dar de caras com as mui saudosas de outros tempos e de outras companhias, a Idalina diz assim e sem qualquer tipo de hesitação: "Muito obrigada primo Custódio, por me ter vindo ajudar... com a mala!" Bonito e muito enternecedor, não?
Acreditem pois, pessoas deprimidas e de pouca fé: Ainda existem no mundo homens muito solícitos e muito bem intencionados. Para memória futura de todos aqueles que participaram naquela excursão, fica a ocorrência natural daquele sentimento tão casto e tão puro. Sentimento este, que teve o seu desenvolvimento na coincidência que foi a viagem de dois primos (muito amigos e preocupados um com o outro), que não haviam combinado... nada.
Sugestão de leitura para esta semana: "O Amor é Um Lugar Comum" de Paulo Nogueira.
DIVIRTAMSEMAZÉ e não abandonem nunca a vossa família alargada. É que esta pode vir a dar-vos muito jeito.
BOAS LEITURAS também.


1 comentário:

MJB disse...

Estou a adorar! Quero mais!
Isto é o que eu chamo viajar: mais que ver apenas locais, é sentir, é observar, é aprender.
De Londres trouxe uma amiga e muitos momentos doces que guardo no meu album de sentires (como os que passei com o seu pai - pessoa deliciosa!). Tudo o resto se apaga quando nos recordamos dos abraços sinceros, das partilhas e das confidencias.
O meu mail é fabella.27@gmail.com e no Facebook tem o meu nome Maria João Bettencourt Oliveira. Bjs do tamanho do mundo (e para o pai também!)