A Sra. D. Rita Maria da Purificação e
Sousa, nem sempre foi assim considerada. Quando era meia leca de gente, todos (mas todos
mesmo), a tratavam por Ritinha. E nessa altura também tinha um desejo muito grande: queria muito ser mana
de alguém.
Cansada ela já estava com o facto de
ser a única criança lá de casa. Era o motivo constante e ímpar das preocupações
paternas. E depois, uma coisa era brincar com os poucos, mas bons brinquedos que tinha
e imaginar um mundo perfeito. Absolutamente alternativo. Outra coisa bem diferente
seria poder contar com a companhia de um outro ser humano. Sangue do seu sangue. Para poder executar em parceria toda uma série de reinações e brincadeiras.
Mas como é que se conseguiria
arranjar uma mana? Questionava-se de forma bem assídua a Ritinha. Ela já ouvira falar
de uma cegonha ou duas, que traziam os bebés de Paris. Só que ela não se lembrava de ter
visto nenhuma. Pelo menos a executar tais funções. Recordava-se de ver uma num ninho,
quando certo dia ela fora passear com os pais para a Lezíria. Mas a cegonha não levava
bebé nenhum. Quando muito ela ela estaria a tratar dos seus próprios bebés.
E num dia, farta de tanto esperar, e no meio de uma
conversa, pedindo previamente licença para falar, a Ritinha tomou-se de coragem e
perguntou:
“Oh mãe, será que é assim muito custoso,
vocês arranjarem-me uma mana? E como é que é?”
A mãe engasgou-se levemente com a
garfada do arroz de pato. E depois olhou aflita para o marido que também ficou
levemente desconfortável. E passados poucos segundos a mãe decidiu dizer:
“Olha filha, trata-se de uma
operação muito complexa e exigente. A mãe poderá engravidar se me for colocada por cima das pernas, umas calças do senhor teu pai. E isto será melhor quando eu tiver
deitada. Preferencialmente a dormir.” E depois ficaram os dois adultos para ali a
cismar, ou fazerem-se a tal. Aparentemente o assunto parecia estar ali encerrado e a lição
aprendida.
“Ora”, pensou Ritinha. “Se é assim, pois nada mais
fácil de conseguir”. E se era assim mesmo, a coisa já não passaria daquela noite”.
Com o jantar comido e o banho
tomado, todos os três se deveriam de dirigir para os respectivos leitos. Só que
a Ritinha tinha uma tarefa muito importante para executar. Pelo que, deitada a mãe, foi-lhe
colocado em cima, a totalidade das calças do marido. As de ir à missa, as da
semana, as de ir à pesca… E não faltaram mesmo as do fato de treino, que o pai
de Rita usava para andar na horta. Não havia que enganar.
E quando Ritinha contava já dez
anos, conheceu finalmente a irmãzinha, que seria a alegria dos seus dias.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Tudo o que temos cá dentro” de Daniel Sampaio.
Assumidamente
geek eu me reconheço. E croma sem qualquer problema acrescido em me assumir como tal. E no alto das minhas quatro décadas de vida, eu afirmo que esta
geração de agora, já nasceu com a escola toda. É que eu não sei mesmo onde é que aprenderam tanto. Possivelmente ainda
dentro da barriga das mãezinhas. A usarem-se lá de um iphone qualquer.
E ao que me parece, até já foi há
muito tempo, que se acabaram com as conversas deprimentes das cegonhas que traziam os bebézinhos
de Paris. Mas essa não fora definitivamente, a minha versão. Quando eu era nova, bem nova mesmo, aprendi por parte daqueles que
comigo privavam (e que também tinham a incumbência de me dar educação), que a perpectuação da espécie
era devida à acção conjunta realizada por um homem e uma mulher. E nunca, mas nunca mesmo, me transmitiam uma história
que envolvesse pássaros gigantes, que teriam como função única, transportar seres humanos ainda
imberbes, em carregos de fraldas presas com nós-cegos.
E então eu lembro-me
muito bem, de algumas conversas algo incomodas (que não me deixavam mesmo nada
à vontade), em que o meu querido progenitor me comunicava que eu havia nascido,
porque ele havia colocado uma sementinha na senhora minha mãe. E ficava dito. O magano, depois disso não entrava em
mais detalhes. Hoje até acho compreensível tal falta de informação, mas na altura... É que nós sempre tivemos vasos em casa. Via muita vez a minha mãe muito
embevecida a plantar a sua salsa. Ou seja, ela revolvia convenientemente a terra, e toca de espalhar para
ali uma réstia de sementes enegrecidas. Depois ajeitava muito bem tudo aquilo. Regava. E passado pouco tempo, começava
a vislumbrar-se umas penugens verdejantes. Agora em relação ao meu pai, eu nunca o
havia visto transplantar qualquer semente. E ele era pessoa que passava bem ao largo dos vasos das flores.
Nem sequer as regava, quanto mais... Só que ele havia-me garantido, que a minha mãe havia sido fecundada por ele. Ora mas como? Se ela não transportava no
corpo qualquer vaso? Pelo menos que se visse. Ainda menos um recipiente onde eu pudesse caber. Mas como
é que tal havia sido possível? Mas depois eu pensava e concluía. É que não havia maneira de eu ter mais nenhum
mano. Eles pelo menos nunca me falavam disso. Além do mais, eu também não mostrava qualquer vontade em dividir o meu espaço sagrado. Que era somente meu. Então eu achava que a explicação poderia ser essa mesma. Seria possível, (e uma vez que os paizinhos não pareciam mostrar ter mais
vontade em duplicar a descendência), que a minha mãe pudesse ter
decidido doar o seu vaso. Se calhar dera-o mesmo à vizinha do lado que tinha um filho
mais novo do que eu. A inocência presente nesses meus “verdes anos” iliba-me da
acção danosa e punível de achar, que o meu próprio pai pudesse andar a espalhar
a sua semente… pelas outras casas da vizinhança. Resta ainda dizer que estávamos nos anos
setenta. Altura em que os bebés ainda nasciam com os olhos fechados.
Mais tarde e
numa conversa entre "compinchas", teríamos na altura nove ou dez anos, uma amiga
particularmente “arrabiteza” transmitiu-me aquilo que ela já havia descoberto. O
enigma causador da continuidade da nossa presença neste mundo. E fez-nos ali logo, a
possível explicação (usando necessariamente alguns detalhes toscos), do que havia finalmente
compreendido. Eu desconfiei logo daquilo. É que eu já sabia que os animais funcionavam
um bocado como ela ali nos estava a dizer. Mas ora bolas! Eram animais, que não falavam nem pensavam. Nem tinham que se portar bem. Pelo menos que eu desse conta.
Agora os meus pais... Aqueles que me forçavam a ir com eles à missa. Ná... Eu fiquei muito desconfiava daquilo tudo. Por outro lado eu sabia que a Vanda adorava inventar
patranhas. E aquelas suas descrições torpes, à primeira vista, pareciam-me ser
TÃO RIDÍCULAS! Não podia de todo conceber que os meus sacrossantos pais, um dia
pudessem ter-se dedicado a semelhantes enclaves. Só que a Vanda jurava. E continuava a jurar: “Pois é assim
mesmo!” Dizia ela naquela sua imponência já distante, daquela original década de vida. E para obter o quorum necessário e justificar assim aqueles "seus sábios ensinamentos" passado
pouco tempo, ela trouxe-nos uma revista que tinha o mesmo nome da minha querida
amiga Gina. Eh lá!!! Aquela revista (dizia-nos Vanda), fora esquecida por um sujeito no
carro do pai. O pai dela era viajante e disponibilizava-se sempre a dar boleias. E era também um
pouco descuidado com o lugar onde deveria guardar aquela informação descritiva e impressa em revistas. Deixando pois tal manancial
informativo/descritivo assim... muito à mão de semear. E passados mais alguns meses... a Vanda teve um irmão.
Bem! Se calhar aquilo que ela nos transmitira... era verdade. Seria a revista um incentivo? Depois daquela suspeita, eu ficara algo perturbada. E tinha que rever tudo aquilo, que até aquela altura eu tinha dado como certo. Afinal o mundo podia reger-se por
outras forças gravitacionais, dispares daquelas que eu achava possíveis, para
não dizer únicas. E o meu mundo infantil, sofreu logo ali um vendaval. Não contente e a
querer saber mais, sobre aquele tão estranho fenómeno, ainda perguntei ao meu
pai, se ele não teria também lá por casa, uma ou outra Revista Gina. Eu juro!
É que eu sempre o vi, a arquivar tudo o que era jornais e revistas. E de certeza que aquela tão ímpar publicação, poderia bem ser motivo do seu particular interesse. O meu pai
ouviu aquilo com a serenidade possível. E depois, abriu-me uma cara muito façanhuda. Arregalou-me muito (e em simultâneo) os seus olhos de progenitor
dedicado. E contrariamente ao que era espectável, a coisa não me correu nada bem. Só faltou mesmo, ele pôr os seus dedos em cruz e declarar-me possuída
por uma força demoníaca qualquer. “Não!", respondeu-me ele: "Cá em casa não temos nada disso”. Continuou ele
de rajada. "Pois eu que lesse a Bíblia e o Missal", concluiria ele já lá mais para o fim. É que lá explicava tudo aquilo que
me poderia interessar. In extremis. E depois prometeu-me também ali mesmo, que iria ter uma
conversinha… com o pai da Vanda. A malta tinha mesmo um radar. Funcionava ainda era a turbinas.
Sugestão de
leitura para esta semana: "A Casa dos Amores Impossíveis” de Cristina
Lopez Barrio.
Artur
tem quarenta anos. Há cerca de três apareceu-lhe uma doença que começa com a
letra C, e que já há muito deveria ter sido erradicada do cimo da terra. E
Artur foi operado. Fez também os tratamentos a que teve direito. Muito
violentos por sinal. E tudo, ele suportou, com uma dose muito elevada de heroísmo. Como
tantos outros e outras aliás. E ficou também com o desejo, de nunca mais se ver
metido em outra que tal.
Mas
há cerca de um ano ele começou a ter uma dor profunda e continuada na perna
esquerda. E consequentemente ele também começou a caminhar com muita
dificuldade. Seria que o grande e funesto C havia voltado? Com ele, toda a
família, amigos e conhecidos desejaram firmemente que não. E até os que eram mais
crentes, lhe dedicaram umas orações especiais.
Com
o tempo e com os exames realizados, descobriu-se que a doença estava dominada.
Toda a gente respirou de alívio. Mas descobriu-se que a causa daquela dor
cerrada era devida aos tratamentos que o Artur realizara. Os mesmos foram de
tal forma agressivos, que lhe queimaram as vias de alimentação do osso, grosso
modo. O mesmo (e consequentemente), estava a ficar cada vez mais fraco, com a
possibilidade muito presente da ocorrência de uma fractura à primeira
oportunidade. Era pois necessário colocar uma prótese. E o mais rapidamente
possível.
A
referida intervenção foi então marcada. Com a antecedência considerada
necessária para similares casos. E na altura devida, o Artur foi à consulta com
mais meia dúzia de velhotas, que tal como ele também tinham os ossos a
necessitar de substituição. E no grupo, ali foi dito que a prótese de Artur
teria que ser da melhor qualidade possível. E diferente da das velhotas. Afinal
o Artur ainda é um homem muito novo. Prespectiva-se mesmo que o mesmo venha a
viver por mais algumas décadas. E venha a assistir à continuidade da sua
espécie, até a mesma se tornar adulta e voar pelas suas próprias asas.
Mas
um dia ou dois antes da marcação da cirurgia, o Artur foi avisado que a mesma
teria que se realizar uma semana depois, porque a prótese ainda não havia
chegado.
Artur
não desanimou com isso. Afinal o que é que era mais uma semana? Ele que já
havia passado por tanto… Nada de muito ruim poderia suceder-se com a espera de
mais sete dias. Ele se tivesse cuidados redobrados, era natural que a temida fractura
não sucedesse naquele espaço de tempo. E uma semana passa rapidamente.
Passada
que foi a tal semana, vem finalmente o telefonema a confirmar a operação. O
Artur teria era que se apresentar no hospital no dia à tardinha. Depois de
devidamente instalado, ele tomaria uma refeição. A partir dessa altura, ele não
poderia tomar mais nada.
E
depois de um sono, que se desejaria descansado (dentro das possibilidades), far-lhe-iam
os procedimentos habituais. Tomaria o banho, seria desinfectado, tomaria a tal pré-anestesia,
e dirigir-se-ia já sem ser pelos seus meios, à sala de operações.
E
foi assim que aconteceu, com muita simpatia e desvelo à mistura. Artur sentiu
antes de adormecer, que estava com sorte. Afinal a doença era traiçoeira, mas o
tratamento era possível. E a vida estava logo ali ao virar da esquina de mais um
incómodo suplementar.
Chegado
então à Sala de Operações (e para que a narração continue a ser possível),
vamos acompanhar a fala e também o pensamento de alguns dos profissionais que
por ali estavam.
Diz
o médico: “Cá estamos!” Ao que responde um enfermeiro: “É verdade, cá estamos.
Para mais uma rotina hospitalar”. E pensa o médico: “Bem, é verdade. Já se
trata de uma rotina. As pernas que eu já substituí, não têm conta… eu só queria
ter mil euros suplementares agora, por cada operação que já realizei.”
Pensa
o enfermeiro: “Mais outra anestesia. Mas este aqui ainda é novo! Este mal
desgraçado, está a acontecer a cada vez por mais gente. Já lhe dei os
procedimentos que o Dr. Girivaldo prescreveu. E a coisa só pode correr bem.”
E
todos se põem a postos. As tarefas habituais de iniciação ao processo são
realizadas. Os instrumentos necessários já formam um batalhão. E o médico
operador diz finalmente:
“Oh
Antunes, tu traz mazé aí a prótese, para a colocarmos a este cidadão.”
“A
prótese” Exclama Antunes, “Mas qual prótese? E onde é que ela está?”
E
põem-se todos ali a procurar. E de um lado, ela não estava. Do outro também não.
Abrem-se gavetas e até se espreita por debaixo do penico. E a prótese não
estava em lado nenhum? Será que a mesma se independentizara e saíra finalmente
da casa dos pais?
Enquanto
isso Artur dormia. Nem desconfiava do que lhe estava a suceder. E a operação
era assim protelada até aos limites do impossível.
Veio-se
a confirmar que a magana da prótese ainda estava na alfândega. Se calhar havia
tido problemas com o passaporte. Algum engano com a sua data de nascimento. Ou
então com a ocorrência de alguma duvida sobre algum dos seus apelidos. É que é muito
comum esquecerem-se algumas letras. E a palavra Carvalho, surge muitas vezes com
outra significação.
O
que é facto é que o Antunes, teve mesmo que sair dali. E pegar no carro e ir
buscar o osso metálico. Veio passadas algumas horas. A operação ainda foi realizada
naquele mesmo dia. Só que já na parte da tarde. Com o Artur a acordar a meio e
a duvidar da sua real condição. O enfermeiro? Esse olhou-lhe logo para a cara e
para os olhitos pestanejantes. E oportunamente o profissional concluiu: “Então já
está acordado? Olhe…” E mais palavras para quê?
Artur
na confusão mais que natural (atendendo às circunstâncias), achou que aquele
ser também poderia ser o São Pedro, que é à muito o guardião do céu. Não
segurava era em nenhuma chave, mas num serrote qualquer.
Numa
outra situação temos António. Também ele doente oncológico. Há já cerca de
cinco anos, fora-lhe diagnosticada a doença. Consequentemente ele fora operado ao cólon. E durante
cinco anos, ele não tivera mais manifestações da doença. Só que passados o tal tempo, o grande e terrível C. regressou. E António sabia, desta vez ele
teria mesmo que ser ostomizado. Não tinha outra hipótese. Ora bem, tudo menos morrer.
A vida é um bem tão raro e preciso, que tem que ser vivida até ao tutano. Mesmo
até à última gota. Infelizmente o caso de António não é raro. Há tanta gente
nas mesmas condições do que aquela, que ele iria viver dali para a frente… Agora
havia que agir novamente. E com alguma rapidez. E passado algum tempo, o António foi contactado pelo Hospital no sentido de
se lhe dar conhecimento sobre o dia da operação. Não fora a mesma médica
habitual que lhe fizera o telefonema, mas em princípio não havia nada a
estranhar. Afinal os médicos trabalham em equipa. E passam necessariamente entre
eles, a informação relativa à situação clínica dos vários doentes. E… no dia e
hora aprazados, António foi intervencionado. Sem demoras ou outras queixas.
A
operação correu bem. E quando o António até já estava no seu sétimo dia do pós-operatório,
e a reagir satisfatoriamente, ele recebe mais uma chamada telefónica. Desta vez era a sua médica habitual. E a
informar que o António… seria operado já na semana seguinte.
Digam
lá então que o Sistema Nacional de Saúde português não é eficaz? Vá tenham lá a
coragem de o afirmar? Onde uns não sabem onde param as próteses, enquanto que os
outros querem (porque querem) operar duas vezes a mesma pessoa. E só com uma
semana de intervalo, Santo Deus! O António ficou para ali a pensar. Mas ele fora operado
na vez de quem? E a quê? Mas pelo menos de uma coisa ele tinha a certeza. Já
verificara reconhecido, que não havia sido submetido, a nenhuma operação de mudança de
sexo. É que o seu Carlos Alberto Júnior ainda por ali estava. E estava a cumprir devidamente a sua
obrigação.
Sugestão
de leitura para esta semana: “Médicos
Fantoches” de Robin Cook.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: é evidente que
tudo isto é triste, como tão bem refere o célebre fado. E aconteceu efectivamente em
duas unidades hospitalares distintas, a funcionar neste país sobejamente
já intervencionado. E estar para aqui a apelar ao divertimento, após uma conversa
deste teor, é capaz de ser um acto a roçar a esquizofrenia. Só que infelizmente, o
mal já foi feito e sentido. Resta é desejar aos implicados rápidas e efectivas melhoras. E
que depois de tudo isto bem digerido e ultrapassado eles se…
Quando eu era mais nova, passava muito tempo da
minha existência, no meio rural. Mais lá para o centro. Dizem até que é lá que
se encontra o coração do país. Assim como uma forte presença de vestígios templários. A
praia foi algo a que nunca me habituei. E cara pálida que sou, tal aparente
incompatibilidade, até é capaz de me ter dado um certo jeito. E no campo, era mesmo um
descanso.
Era naquele ambiente que eu tinha
a possibilidade de participar em algumas das actividades que ali se vivenciavam.
E era mesmo só ali. Quase sempre eu participava na condição de “artista convidada”. Hoje ainda sei muito bem como
se plantam os legumes. Sei muito bem o que é mondar. E também sei colher, tarefa aliás
que sempre foi da minha particular preferência. E se a coisa ainda der mais para o torto,
sou pessoa para ter uma horta e cuidar de um burro e de uma cabra, (animais que
são da minha total predilecção), como aliás são outros tantos. E em presença desta
verdadeira declaração de honra, sempre dispensei Framville’splayer's e outras virtualidades. No
campo é bem melhor. É ao vivo e a cores. E as saudades que eu tenho desses tempos…
E de todas as actividades que eu
ali vivenciara, houve uma que sempre despertou mais a minha atenção, por se
tratar de algo com especiais particularidades. E sendo eu na altura uma rapariga
romântica (era nova e crente), era muito
tocante o momento em que levávamos os animais a namorar com os seus noivos e
noivas. Previa-se, está claro que eles se reproduzissem, a fim de darem lucros
suplementares aos seus donos.Longe
estavam ainda os tempos dos créditos facilitados. Falava-se mais no Verão
Quente que na crise generalizada. O Durão Barroso ainda era capaz de andar a mudar as cadeiras de sítio. Naquela altura, grande parte dos meus amigos rurais,
dispunham somente de duas ou três cabras. De um porco p’rá matança (e essa para mim era uma
verdadeira tragédia). Uma ou duas ovelhas… E de machos não havia sinais? Pois não havia sinal. Era só mesmo o porco, mas esse infelizmente iria para a banca, um objecto feito em madeira com quatro pés. Não era o local preferido dos tecnocratas, e de outros tantos seres igualmente bem intencionados.
Os meus amigos (com os respectivos animais), tinham
que procurar em outras casas (algumas bem longínquas), os animais masculinos e viris.
E era quase sempre a mesma família, quem detinha os machos. Eu nunca compreendi muito
bem tais critérios. E questionava-os sobre o facto de que seria procedente, criar também um bode, um carneiro... e evitar assim calcorrear por vezes longas distâncias, com um animal
visivelmente apaixonado, mas também claramente transtornado com a viagem e com
o escasso trânsito que existia na altura. Afinal havia já à época tanta erva. Que custava ter mais
duas ou três cabeças de gado? Além do mais, ficaria tudo em casa. E a dita reprodução, até poderia
ser facilitada. Essa é uma questão que os farmevilles workers devem de saber responder de
cor.
Ora atendendo às circunstâncias
acima explanadas, era mais do que certo de quando as tais bichas acordavam para o
amor (que regra geral coincidia com uma Lua qualquer), era assim necessário
levá-las à casa de seus noivos. E como já referi, tal acção poderia
implicar alguns quilómetros trilhados. Eu ia a título gracioso. Nunca me
deixaram conduzir qualquer animal. Ia era no segmento, pois não deixava de
apreciar alguma movimentação das massas presentes. E o movimento (claro está) era feito a “pedantes”. E participavam unicamente mulheres. E não sei (nem nunca soube), porque raio é que os homens não
poderiam participar em tais actividades. Daria ideias? Por exemplo no caminho, entre
árvores e silvados, e tal… As velhas diziam-me na altura, que não nutririam
qualquer consideração por homens que se disponibilizassem a efectuar tais
acções. Quem o fizesse, (e fosse homem) sentiria assim e para sempre, uma
espada a baloiçar perigosamente por cima da sua cabeça. Quem sabe se para sempre
não fosse dado como um ser potencialmente invertido? Longe ainda estávamos dos possíveis (e já bastante difundidos)
casamentos gay.
E recordo com alguma nostalgia, o
facto de ir sempre na companhia de mais duas ou três crianças (meninas, claro está), na companhia de uma senhora (a tal
que conduzia o animal). E aquilo era uma festa, senhores!
E nas caminhadas, nós encontrávamos
necessariamente muitas pessoas (os campos não estavam desertificados como na
actualidade). De uma vez, uma Ti Maria qualquer estranhou toda aquela nossa
persistência. É que íamos todos os dias, já há tanto tempo… E não havia maneira de…
Pelo que a velhota resoluta, tomou logo ali a iniciativa. E abeirando-se da cabrinha, levantou-lhe
o rabinho, olhou atentamente e disse: “Pois… a vossa cabrinha está atrasada… ainda não está de
maré!” Bem, atrasada ela não estava. Nós passávamos quase sempre à mesma hora. E naquela altura, não
tínhamos assim uma agenda muito preenchida. E como é que a velha sabia se
estava de maré ou não? A praia localizava-se a algumas dezenas de quilómetros.
E o que era estar de maré? Como é que ela chegou tão facilmente à conclusão,
usando uma simples e rápida observação visual? Estaria lá alguma coisa expressa?
Avaliaria a cor? O teor da humidade? Ou então a disposição anímica da cabra?
Mas achei mal. Calculo que a Ti Maria se oporia se a observassem assim a ela,
ou não? Os animais devem de ter garantida, alguma da sua privacidade. E aquele assunto
era algo que deveria de pertencer somente ao conhecimento da própria. Quando
muito também ao conhecimento de seu noivo. Para quê tanta exposição?
E chegados finalmente à casa
desejada, o animal entrava para um curral. E era lá deixado com o seu noivo
eventual, a fim de que se conhecessem melhor. E cá de fora, quer os convidados que os
donos da casa, envolviam-se em longas conversas que versavam sobre os mais
variados temas… Tínhamos ali oportunidade de conhecer aspectos vivenciados por
outras pessoas… especialmente… das pessoas que estavam ausentes. Tal era uma
tendência clara. E ali se estava. À espera. Recordo o dia em que uma senhora resolveu intervir. Farta que estava das
constantes viagens e do pouco caso da sua bicha para o assunto, ela decidiu também entrar para o
curral. E ali ficaram os três. Aparentemente, ela forçou o bode a tomar a iniciativa. Motivou-o assim, a tomar a posição necessária à
execução do acto. Só que na cabra claro. Eu calculo... Mas fiquei estarrecida. Então a mulher
não teve assim qualquer problema de interferir na intimidade das criaturas?
Mais tarde, muito mais tarde mesmo, eu ouvi falar da Menage a Trois. Mas naquele ambiente tal facto, fora absolutamente invulgar.
E num dia a propósito dessas mesmas deambulações, um
primita minha emitiu um parecer que ficou para sempre no álbum de recordações
familiares. A pequena era muito nova. Contava somente três ou quatro anos. E era
também incapaz de pronunciar a letra “C”. E quando à mesma ela se queria referir,
ela pronunciava a letra “T”. Ora nesse dia, uma vizinha já velhota, questionou a
tal pequena, sobre o facto da mesma já estar levantada tão cedo. Tão fresca e fofa... E então perguntou-lhe:
“Mas o que é que tu andas a fazer, minha filha? Tão cedo e já a pé? E já chegada de um lado qualquer?” A pequena nem pensou. E de
rajada, ela respondeu: "Pois eu já fui com a porta ao porto. E já venho a tomer
tastanhas!”
Sugestão de leitura para esta
semana: “Casa de Campo” de José Danoso.