Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 29 de março de 2014

Crescei e multiplicai-vos (à moda dos anos oitenta)



A Sra. D. Rita Maria da Purificação e Sousa, nem sempre foi assim considerada. Quando era meia leca de gente, todos (mas todos mesmo), a tratavam por Ritinha. E nessa altura também tinha um desejo muito grande: queria muito ser mana de alguém.
Cansada ela já estava com o facto de ser a única criança lá de casa. Era o motivo constante e ímpar das preocupações paternas. E depois, uma coisa era brincar com os poucos, mas bons brinquedos que tinha e imaginar um mundo perfeito. Absolutamente alternativo. Outra coisa bem diferente seria poder contar com a companhia de um outro ser humano. Sangue do seu sangue. Para poder executar em parceria toda uma série de reinações e brincadeiras.
Mas como é que se conseguiria arranjar uma mana? Questionava-se de forma bem assídua a Ritinha. Ela já ouvira falar de uma cegonha ou duas, que traziam os bebés de Paris. Só que ela não se lembrava de ter visto nenhuma. Pelo menos a executar tais funções. Recordava-se de ver uma num ninho, quando certo dia ela fora passear com os pais para a Lezíria. Mas a cegonha não levava bebé nenhum. Quando muito ela ela estaria a tratar dos seus próprios bebés.
E num dia, farta de tanto esperar, e no meio de uma conversa, pedindo previamente licença para falar, a Ritinha tomou-se de coragem e perguntou:
“Oh mãe, será que é assim muito custoso, vocês arranjarem-me uma mana? E como é que é?”
A mãe engasgou-se levemente com a garfada do arroz de pato. E depois olhou aflita para o marido que também ficou levemente desconfortável. E passados poucos segundos a mãe decidiu dizer:
“Olha filha, trata-se de uma operação muito complexa e exigente. A mãe poderá engravidar se me for colocada por cima das pernas, umas calças do senhor teu pai. E isto será melhor quando eu tiver deitada. Preferencialmente a dormir.” E depois ficaram os dois adultos para ali a cismar, ou fazerem-se a tal. Aparentemente o assunto parecia estar ali encerrado e a lição aprendida.
“Ora”, pensou Ritinha. “Se é assim, pois nada mais fácil de conseguir”. E se era assim mesmo, a coisa já não passaria daquela noite”.
Com o jantar comido e o banho tomado, todos os três se deveriam de dirigir para os respectivos leitos. Só que a Ritinha tinha uma tarefa muito importante para executar. Pelo que, deitada a mãe, foi-lhe colocado em cima, a totalidade das calças do marido. As de ir à missa, as da semana, as de ir à pesca… E não faltaram mesmo as do fato de treino, que o pai de Rita usava para andar na horta. Não havia que enganar.
E quando Ritinha contava já dez anos, conheceu finalmente a irmãzinha, que seria a alegria dos seus dias.
Sugestão de leitura para esta semana: “Tudo o que temos cá dentro” de Daniel Sampaio.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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