Verinha é uma criança intrépida. Sempre
o foi. E que ninguém lhe fale em bonecas e em laços. Muito menos em casinhas ou
carrinhos de bebé. Todas essas matérias, a Verinha detesta. Literalmente. Nem sequer
suporta livros e filmes com Histórias de Encantar. Quem a conhece, sabe que
para ela, será sempre uma blasfémia ouvir e reproduzir histórias como a da Bela Adormecida. Ou então a da Cinderela. E se a sua dedicada mãe lhe transmitiu um
dia, que seria conveniente que na época do Carnaval, ela fosse vestida de princesa, a Verinha
refilou. Ná! O que ela queria mesmo, era poder ir vestida de Homem Aranha. Ou
então de Angry Bird (como aquele que é azul e que no seu expoente máximo se consegue
subdividir por três). Só que a mãe? Népias. Não condescendeu nem por nada. É que
há um limite para tudo, dizia. E então escolheu para a filha a fantasia de Branca de
Neve. Assim e a seco. Contra os factos, a Verinha ficou sem argumentos. E isto
apesar de jamais ter sentido em si, o peso da mão da mãe. Também era só o que lhe faltava!
E se então era de Branca de Neve que a mãe queria, pois que assim fosse. Só que no tal
processo negocial, a Verinha apresentou-lhe três condições. A saber: Primeira, que
não levava nada na cabeça, nem coroa nem laços. Segunda, iria sempre (mas sempre), com as
calças de fato-de-treino por baixo. E por último, que iria de ténis, mazé!
E depois, quem quis divertir-se um pouco, era ir ver a Verinha, de vestido cor-de-rosa, com um ar absolutamente furibundo. Com as
mãos por debaixo dos braços e sentadinha de perna aberta. E sem a companhia de um
qualquer anão. Constituindo-se assim numa Branca de Neve muito p’ro
alternativo.
A par de toda esta forte personalidade, a Verinha jamais desejou ser
filha única. Isso sempre esteve fora dos seus planos de vida. E por isso, fora desde muito cedo, que ela replicava
aos seus pais pela existência de mais um mano. Só que o preferia varão. Essa
era aliás uma condição, muito mais vantajosa para si. Não só porque lhe faria
companhia, como poderia até ser o seu fiel seguidor. Previsivelmente, ele compreenderia
muito melhor, as suas preferências mais ligadas às áreas da reinação. E que
belos desenvolvimentos se conseguiriam, com a acção concertada daquela dupla
tão desejada! A Verinha, que sempre soube como é que as crianças eram
conseguidas. Para ela nunca houve cá histórias de cegonhas, nem de sementes por
regar. Nem outro qualquer devaneio fantasioso. Ela sabe (e sempre soube) como é que
o tal acto se pratica.
A mãe ouvia-a naquela sua replicação e lá foi
concordando com o projecto filial. E se inicialmente, ela até não mostrasse ter
grande vontade de voltar a ser mãe, passou a achar que até poderia mudar de
ideias e satisfazer assim a vontade da Vera. Só tinha era que continuar a ir era
aos treinos. E a acertar na baliza por mais uma vez.
Mas sempre lá ia avisando a filha. O
mano até se poderia arranjar. Só que poderia ser… era uma mana. É que, nem a mãe
(nem ninguém) poderia garantir que se conseguisse assim um rapaz. Logo à primeira.
A Verinha ouvia tudo aquilo muito atentamente. E depois condescendia. Era certo
e sabido que ela gostava muito mais que fosse um mano. Mas se fosse uma menina
como ela… enfim… também poderia estar bem. Elas as duas lá se haveriam de
entender. Verinha sabia que tinha o poder supremo da persuasão. E quem sabe se a sua
mana, não viria também a gostar das mesmas coisas que ela? Só tinham mesmo era que
combinar tudo muito bem. Mas o tempo lá ia passando. Veloz e irreversivelmente.
E foi num dia em que Verinha estava mesmo a
ver, que o seu desejo nunca mais se realizava, e que o seu mano não havia meio
de aparecer, que ela destemidamente (e quando contava somente quatro anos de
idade), se chegou ao pé do pai e lhe disparou:
“Ouve lá. Mas de que é que tu estás à
espera? Quando é que tu fazes, o meu mano na mãe?”
E passados os meses da praxe, apareceu-lhe
uma Soraia.
Sugestão de leitura para esta semana: “Fogo na Noite Escura” de Fernando Namora.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
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