O local era espantoso. Situado exactamente no centro da freguesia, era
frequentado por uma parte muito considerável da sua população. E no estabelecimento
guardavam-se e emprestavam-se livros. Muitos livros mesmo. A sua coordenadora,
tinha a sorte de poder disponibilizar a todos, livros, das mais variadas temáticas. E disponibilizá-los mesmo... a
toda a gente, independentemente do seu estrato social, religião, situação
económica, etnia etc, etc. Também e afortunadamente, o espaço era muito frequentado por
quem ali gostasse de ler e de computar. E a utilização daquele espaço tinha vindo
a crescer progressivamente.
E disponibilizava ainda, um vasto leque de actividades ligadas à
animação. Preferencialmente para os mais pequenos. Além do mais, dispunha
ainda de um excelente espaço, muitíssimo agradável para as crianças, onde não
faltavam também computadores, jogos, CD Rom’s, CD Áudio. E livros, muitos livros. E para completar e dar ainda mais charme, também lá não faltavam, vários e muito atractivos brinquedos.
Ora como toda a gente infelizmente sabe, a partir de 2008 a palavra de
ordem foi: poupar. Poupar em tudo. Usando medidas de austeridade que desafiaram
até os menos ousados. E foi a partir de certa altura, que uma das expressões mais
apreciadas e aconselhadas no meio era: “fazer actividades a custo zero”, usando-se para
isso e necessariamente a chamada “prata da casa”. E sejamos francos, querendo muito, e tendo
também alguma imaginação e background. até
se é capaz de fazerem coisas com bastante qualidade. Pelo menos se atendermos
às circunstâncias. É o que eu acho. A imaginação não pode conhecer é limites.
Mas naquele espaço, existiam ainda uns bonecos, que ainda deveriam ter
servido, aos paizinhos dos pequenos utilizadores daquela altura. Deveriam de
datar do início da existência da própria Biblioteca. Teriam então sensivelmente…
vinte anos. E fora exactamente devido à idade, assim como ao seu elevado uso, que os mesmos já não conseguiam
chamar muito à atenção. Adivinhava-se por isso, que quando os mesmos eram novos, deviam
de ter vindo todos muito vestidinhos e bonitos. E muitíssimo bem cheirosos.
Só que o tempo passou, irreversivelmente. E as roupinhas, essas foram
desaparecendo. Lavadinhos eram eles, todos os anos, mas… Pelo que a dada altura era ver montes
de bonecos, uns em pano, outros com as entranhas de borracha por cima uns dos
outros. Todos a monte e a nu. E com uma tal desolação para a vista, fora uma
senhora idosa, que tinha a incumbência de limpar aquele espaço, quem lhes ia
fazendo umas cuecas. Evitando desta forma que os bonecos estivessem
para ali a mostrar “as suas vergonhas”. Ela que fazia a tal lingerie, somente no seu tempo livre.
Necessariamente em sua casa. Fora desta maneira, que os tais bonecos ficariam
muito parecidos com as pessoas, mas em épocas estivais. Quer fosse Inverno, quer fosse Verão. Mas
o tempo passou e a bondosa senhora também ela se reformou. E até as cuecas que ela
tão laboriosamente havia feito, foram progressivamente… desaparecendo.
Mas por obra do acaso, fez-se uma descoberta interessante. Descobriu-se assim que uma colaboradora daquele
espaço era suficientemente prendada. E a dada altura, mostrou saber e teve interesse em vestir
todos aqueles bonecos. A curiosidade estava no facto daquela colaboradora ser
uma mulher muito moderna. Muito pró alternativo. Assim e desta maneira, ela não
teve qualquer pejo em pegar em meia dúzia de lãs de cores diferentes e ainda de
três ou quatro agulhas, e desatar a fazer calças, vestidos, boinas e coletes. E
que belos modelitos saíram assim das suas mãos! Em tamanhos reduzidos, claro
está, para aquele efeito. Então era vê-la de sorriso no rosto e na hora do
serviço, (e enquanto não havia gente para atender), ali ao público e a fazer
tricot. E como aquilo chamou à atenção, senhores! E que “belos” e depreciativos
pensamentos não devem ter sido produzidos em doutas e muito bem informadas cabeças,
para classificar a bibliotecária responsável por todo aquele espaço?
Mas foi assim, e quase que por magia, que aqueles tristes bonecos de
outrora, ganharam uma nova existência. E também um interesse redobrado e uma
singular preferência, por parte de toda uma série de olhos infantis.
O pior de tudo, foi quando o filho da “tricotadeira” a viu. Era já ele um universitário. E muito bem-sucedido aluno. Foi quando ele ficou muito triste,
ao dar de caras com a sua mãe, naquela figura. Não porque ele achasse que aquela
acção lhe ficasse propriamente mal. Ali, ele nunca a vira naqueles
preparos. Mas farto estaria ele de a ver assim lá por casa. O que ele não
apreciou mesmo nada, (e fez questão absoluta em o verbalizar) foi assistir ao facto, da
mãe estar ali a fazer um vestidinho debruado, a um boneco com quem ele havia
brincado tanto no passado. É que aquele boneco, senhores… era um MENINO e não uma menina. E chamava-o... de Zé Gabriel. Pois…
Ora como ninguém deve ser preconceituoso, eu tenho
a firme convicção de que aquele espaço, ficou muitíssimo mais atractivo. E a
partir daquela altura, passou a contar com a representação de um muito atraente travesti.
Ali mesmo, naquela utilíssima… Biblioteca Pública.
Sugestão de leitura para esta semana: “Orlando” de Virginia Woolf
DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários:
Enviar um comentário