Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 26 de abril de 2014

Representações...



O local era espantoso. Situado exactamente no centro da freguesia, era frequentado por uma parte muito considerável da sua população. E no estabelecimento guardavam-se e emprestavam-se livros. Muitos livros mesmo. A sua coordenadora, tinha a sorte de poder disponibilizar a todos,  livros, das mais variadas temáticas. E disponibilizá-los mesmo... a toda a gente, independentemente do seu estrato social, religião, situação económica, etnia etc, etc. Também e afortunadamente, o espaço era muito frequentado por quem ali gostasse de ler e de computar. E a utilização daquele espaço tinha vindo a crescer progressivamente.
E disponibilizava ainda, um vasto leque de actividades ligadas à animação. Preferencialmente para os mais pequenos. Além do mais, dispunha ainda de um excelente espaço, muitíssimo agradável para as crianças, onde não faltavam também computadores, jogos, CD Rom’s, CD Áudio. E livros, muitos livros. E para completar e dar ainda mais charme, também lá não faltavam, vários e muito atractivos brinquedos.
Ora como toda a gente infelizmente sabe, a partir de 2008 a palavra de ordem foi: poupar. Poupar em tudo. Usando medidas de austeridade que desafiaram até os menos ousados. E foi a partir de certa altura, que uma das expressões mais apreciadas e aconselhadas no meio era: “fazer actividades a custo zero”, usando-se para isso e necessariamente a chamada “prata da casa”. E sejamos francos, querendo muito, e tendo também alguma imaginação e background. até se é capaz de fazerem coisas com bastante qualidade. Pelo menos se atendermos às circunstâncias. É o que eu acho. A imaginação não pode conhecer é limites.
Mas naquele espaço, existiam ainda uns bonecos, que ainda deveriam ter servido, aos paizinhos dos pequenos utilizadores daquela altura. Deveriam de datar do início da existência da própria Biblioteca. Teriam então sensivelmente… vinte anos. E fora exactamente devido à idade, assim como ao seu elevado uso, que os mesmos já não conseguiam chamar muito à atenção. Adivinhava-se por isso, que quando os mesmos eram novos, deviam de ter vindo todos muito vestidinhos e bonitos. E muitíssimo bem cheirosos.
Só que o tempo passou, irreversivelmente. E as roupinhas, essas foram desaparecendo. Lavadinhos eram eles, todos os anos, mas… Pelo que a dada altura era ver montes de bonecos, uns em pano, outros com as entranhas de borracha por cima uns dos outros. Todos a monte e a nu. E com uma tal desolação para a vista, fora uma senhora idosa, que tinha a incumbência de limpar aquele espaço, quem lhes ia fazendo umas cuecas. Evitando desta forma que os bonecos estivessem para ali a mostrar “as suas vergonhas”. Ela que fazia a tal lingerie, somente no seu tempo livre. Necessariamente em sua casa. Fora desta maneira, que os tais bonecos ficariam muito parecidos com as pessoas, mas em épocas estivais. Quer fosse Inverno, quer fosse Verão. Mas o tempo passou e a bondosa senhora também ela se reformou. E até as cuecas que ela tão laboriosamente havia feito, foram progressivamente… desaparecendo.
Mas por obra do acaso, fez-se uma descoberta interessante. Descobriu-se assim que uma colaboradora daquele espaço era suficientemente prendada. E a dada altura, mostrou saber e teve interesse em vestir todos aqueles bonecos. A curiosidade estava no facto daquela colaboradora ser uma mulher muito moderna. Muito pró alternativo. Assim e desta maneira, ela não teve qualquer pejo em pegar em meia dúzia de lãs de cores diferentes e ainda de três ou quatro agulhas, e desatar a fazer calças, vestidos, boinas e coletes. E que belos modelitos saíram assim das suas mãos! Em tamanhos reduzidos, claro está, para aquele efeito. Então era vê-la de sorriso no rosto e na hora do serviço, (e enquanto não havia gente para atender), ali ao público e a fazer tricot. E como aquilo chamou à atenção, senhores! E que “belos” e depreciativos pensamentos não devem ter sido produzidos em doutas e muito bem informadas cabeças, para classificar a bibliotecária responsável por todo aquele espaço?
Mas foi assim, e quase que por magia, que aqueles tristes bonecos de outrora, ganharam uma nova existência. E também um interesse redobrado e uma singular preferência, por parte de toda uma série de olhos infantis.
O pior de tudo, foi quando o filho da “tricotadeira” a viu. Era já ele um universitário. E muito bem-sucedido aluno. Foi quando ele ficou muito triste, ao dar de caras com a sua mãe, naquela figura. Não porque ele achasse que aquela acção lhe ficasse propriamente mal. Ali, ele nunca a vira naqueles preparos. Mas farto estaria ele de a ver assim lá por casa. O que ele não apreciou mesmo nada, (e fez questão absoluta em o verbalizar) foi assistir ao facto, da mãe estar ali a fazer um vestidinho debruado, a um boneco com quem ele havia brincado tanto no passado. É que aquele boneco, senhores… era um MENINO e não uma menina. E chamava-o... de Zé Gabriel. Pois…
Ora como ninguém deve ser preconceituoso, eu tenho a firme convicção de que aquele espaço, ficou muitíssimo mais atractivo. E a partir daquela altura, passou a contar com a representação de um muito atraente travesti. Ali mesmo, naquela utilíssima… Biblioteca Pública.
Sugestão de leitura para esta semana: “Orlando” de Virginia Woolf
DIVIRTAMSEMAZÉ!





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