Para quem gosta de ler, é impensável imaginar alguém, que passe pela
vida sem jamais ter recorrido à companhia gostosa de um livro. Eu vivo e
trabalho no meio deles. E chegada a casa, lá estarão outros à minha espera.
Pois haverá felicidade maior? E no meio deles, sendo eu sua fiel guardiã já
assisti a muita coisa, mas hoje inicio-me a recordar um episódio bastante
comovente.
Foi numa visita guiada a este “meu” espaço, consagrado à presença
maioritária de livros. E nela, eu tive oportunidade de conhecer um grupo de crianças
muitíssimo irrequietas. As mesmas vinham mesmo muito agitadas. Tanto era
assim, que a todo o momento as pessoas adultas apelavam à paz e à tranquilidade.
“Que tivessem paciência e se portassem bem.” Repetiam tentando assim mudar-lhe radicalmente
o comportamento. E se no primeiro minuto a coisa lá acalmava, passado pouco
tempo a coisa regressava à confusão. Se não a pior. Pelo que os apelos à calma
lá continuavam ad eternum.
E seria já no meio de algum desespero, e assumindo claramente o seu evidente
mal-estar, que uma auxiliar de educação, falaria à “sua” prole nos seguintes
modos: “Vocês não sabem a sorte que têm! Poderem assim usufruir livre e
gratuitamente estes espaços. Tão bonitos e preciosos. É que quando eu tinha a
vossa idade eu gostava muito de ler, só que não tinha a oportunidade de o fazer
pois não tinha livros. E também não tinha a oportunidade de frequentar estes
espaços. Desconheço até se os mesmos… existiam. Lá na minha aldeia eu sei que
não.” E no fim, aquela senhora já cinquentona, estava a chorar. Eu e mais as
crianças, olhamos atónitos para ela. E o que é certo, é que o comportamento
dos meninos e em consequência, mudou radicalmente. Para melhor.
É certo que a leitura nos dias de hoje está democratizada. E hoje em
dia, só não lê quem não quer. As Bibliotecas Publica estão aí e recomendam-se.
Sempre muito desejosas de receber mais, sempre mais pessoas. Nós profissionais
da área, ficamos mesmo muito contentes de fazer cartões para novos leitores. E
eu, particularmente “faço sempre uma grande festa”, quando aumentam os níveis
de empréstimos de livros. É por esse motivo mesmo, que eu apelo e chego a sugerir
leituras, usando-me de toda a minha modéstia para constatar que tanto me falta
para ler. E depois disso, pelo-me por ouvir as opiniões dos outros leitores sobre aquilo que leram.
Mas nem é só nas Bibliotecas Públicas que se apela à leituras. Muito
mal estaríamos se assim fosse. E num dia eu soube de uma iniciativa muito
curiosa que se passava num Hostel situado lá para o Bairro Alto. E era neste estabelecimento
durante um certo dia, que se promovia e incentivava a troca de um livro… por um
copo de vinho. Nem mais. A ideia era basicamente a seguinte: o leitor levava um
livro e recebia em troca deste, um copinho da bebida de Baco. O que se
pretendia assim era alicerçar o prazer conseguido com a leitura de um livro,
com o prazer obtido através da degustação de um bom copo de vinho. E depois
ficavam por ali um conjunto de livros que poderiam ser lidos e trocados por outros
que tais.
E se ler é maravilhoso, degustar um belo copo de vinho também não lhe
fica atrás. E até é ponto assente que o vinho quando bebido com moderação até consegue
ter fins terapêuticos. O mal estará no seu uso exacerbado e em excesso. É
também certo e sabido, que quando um leitor qualquer bebe demais, é bem capaz
de começar a trocar as letras de lugar. E inadvertidamente fazer desta maneira… outras leituras. Mas a
ideia a meu ver, até seria muito boa. Assim promovia-se não só um espaço, mas
também se defendia e aconselhava a leitura. E estou convencida que também eu,
era bem capaz de ali ir beber um belo copo de vinho.
Mas um ano destes aconteceu uma coisa (num dos espaços que é da minha
responsabilidade), que a posteriori me fez rir a bandeiras despregadas. E fez sorrir somente, algumas
das pessoas que comigo trabalham. Que são bastante mais comedidas do que eu.
Tudo porque num dia particularmente invernoso, quando Ana a técnica muito
solicita e competente se preparava para encerrar o espaço. Quando ultimava assim os
preparativos para que no dia seguinte estivesse tudo na mais perfeita ordem. Justamente
quando da torre da igreja se ouvia o relógio, que dava solenemente as seis
badaladas, que assola à porta da Biblioteca, a cabecita de um ser muito idoso e andrajosamente
trajado. Do sexo masculino. E o mesmo disse-lhe:
“Oh menina. Eu acho que me enganei. Estou mesmo convencido de que
acabei de me enganar.”
A Ana olha atenciosamente para o senhor e pergunta-lhe calmamente o
que é que ele poderia desejar dali. Acto continuo, o senhor olha para ela, para
toda a sua solicitude e depois para o espaço. E continuou:
“Sim eu acho que me enganei mesmo. Vocês aqui não têm vinho, pois
não?”
A Ana primeiramente ficou algo perplexa, depois ficou com alguma
vontade de rir mas conteve-se. Naquele espaço, já lhe haviam feito imensas
perguntas. Sobre as mais variadas temáticas. Contudo nunca por nunca a haviam
confundido… com uma taberneira. E respondeu:
“Pois senhor: vinho exactamente… nós não temos. Temos é livros que
falam sobre vinho. Agora o próprio, não.”
O senhor, arrepiou caminho. Pediu humildemente desculpa pela intrusão
que não aconteceu. Afinal a Biblioteca Pública é para todos, independentemente
de credos, cultura, etnias ou posição social. E o homem seguiu necessariamente para outras andanças.
Ana ficou sem saber se a procura do vinho prosseguiu por outros locais. O mais
certo é que sim. Pois que não houvesse confusões. O que aquele homem queria mesmo era beber. E a leitura, não fora
em momento algum, congeminada. Pelo menos ali.
Sugestão de leitura para esta semana: “Vinho e Pão” de Ignazio
Silone.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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