Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Diferentes paradigmas - conclusão.



Seguiram-se outras paródias naquela tão célebre excursão. Mas o mote parecia já estar lançado. Tudo indicava que estava chegada a altura de se poder “avacalhar” um pouco todo aquele ambiente a afastar-se velozmente do... sacrossanto. E mais: é que havia sido o próprio sacerdote a começar.
Quem ia também naquele autocarro era a Fernanda. Fernanda era uma mulher pouco dada a rezas, mas muito dada a risos. Que tendo para cima de cinquenta anos, não teria muito mais do que vinte de espírito. E se o padre havia cantado uma canção tão escatológica e de gosto (no mínimo), muito duvidoso para quem ia… em peregrinação, ela para isso também poderia dar a sua contribuição. E sem que ninguém a mandasse, ela diligentemente decidiu dirigiu-se à parte dianteira daquele meio de transporte, pegar no microfone e começar a cantar:
“Quando eu nasci a minha mãe não tinha leite/ Fui criado com um bezerro enjeitado/…Mamei em vacas em tudo o que tinha peito / Cresci assim desse jeito, fiquei mal-habituado…” E… Sim. Esta canção, já era conhecida por grande parte do grupo excursionista. Em simultâneo até se ouviram algumas vozes a cantarolar a canção da Nanda. Só que tal foi: Sol de (muito) pouca dura. É que passados instantes, outras vozes mais vigorosas se sobrepuseram a ela, lideradas pela forte voz canora e sacerdotal. E puseram-se assim a cantar o: “Avé, Avé, Avé Maria…”
A Nanda teve assim a sua carreira artística/humorística precocemente interrompida. Na sua cara morou por muitas horas a marca da desilusão. E os outros (e sem que tal estivesse previsto), acabaram todos a rezar o terço.
Esta história tem a grande virtude de nos pôr a todos a pensar. Afinal qual é que é a diferença de uma canção para a outra, hein? Quando o mote é efectivamente… a marotice? Ao Senhor Padre fora-lhe permitido relembrar a história do pobre do Manel Ceboleiro. E à Nanda? Não poderia ela também relembrar a história de alguém que quando nasceu foi salvo da morte certa, devido à colaboração e à solidariedade de vacas, ovelhas e de uma simpática cabritinha? Objectivamente, qual é que é a diferença, senhores? A história do padre fala de amor, é verdade. Fala também do bom convívio que é necessário existir entre a vizinhança (acredita-se que àquela festa nupcial tenha ido… grande parte da população de Beirolas). Mas veja-se o seguinte: o Manel também foi algo imprevidente. Devia de ter tido muito mais cuidado quando foi à mata, ora essa!... Devia de ter sido mais crescidinho. Além do mais também foi muito inconveniente na hora da refeição. Quando mostrou a todos, o húmus que dele saíra… E a enervar tão impunemente a sua tão desgostosa noiva. E onde é que está referido que o Manel, casou através de uma cerimónia religiosa? E onde é que é relatado na história, um momento que fosse… dedicado à oração? Ah pois é! Disso ninguém fala. Mas aquele injusto padre não quis saber disso para nada. E sem relacionar bem as coisas, ele decidiu patrocinar cegamente, a divulgação daquele acontecimento ocorrido em Beirolas há tantos anos atrás.
Mas, e quanto ao reconhecido homem da cabra? Coitadinho! Esse não teve direito a tempo de antena. É muito revoltante! Convenhamos: não têm que ser também glorificadas e divulgadas todas as boas acções protagonizadas pelos animais? Que são seres tão nossos amigos? Que até quando é preciso, dão a vida por nós? É que se não fossem as mamas cheias de leite dos animais, o bebé (e agora o tão reconhecido homem) haveria morrido na certa. À sua pobre matriarca/parturiente havia-lhe secado o leite. Se calhar devido a algum desgosto. Ou a algum susto. Dizem que até é algo que acontece recorrentemente. E a salvação daquela criança esteve toda onde? Na bondade das vacas e das cabras. Mas porque é que o padre e as beatas foram tão contra esta tão doce narrativa? Gostará o padre (e as suas fiéis seguidoras) de saber de crianças que morrem desnutridas? Achará ele bem, não se falar nos actos heróicos dos animais. É que… senhor padre, o senhor tem que ver: os animais também são produto da criação divina.
Talvez a parte mais condenável da história, seja o facto do reconhecido “homem da cabra” ter ficado viciado na maminha. A mama aliás, só lhe consegue trazer, boas recordações, é o que é! Mas meus amigos com franqueza: quem não tiver nenhum vício… pois que atire a primeira pedra. E padres que fumam por exemplo, que é algo tão corriqueiro? E até mesmo os Cardeais Patriarcas.? E esta situação deve de ser bem mais condenável. Pois tendo o Cardeal Patriarca já a condição de pastor/chefia, terá a obrigação de dar o exemplo aos rebanhos todos. E depois, direccionar o dinheiro gasto no tabaco, para causas mais solidárias. Mas isso já não interessa falar. Ah pois não!
Meus amigos, eu confesso: jamais entenderei estas diferenciações de critérios. Seremos todos iguais aos olhos de Deus? Bem numa primeira análise… até parece que sim! Porém aqui isso não me parece nada real. Acho mesmo que uns se têm como muito mais iguais… do que outros. O padre pôde cantar. Demorou para esse efeito… uma eternidade. Porém a pobre da Fernanda foi silenciada sumária e implacavelmente, logo ali aos primeiros acordes.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Leste do Paraíso” de John Steinbeck.
 

Uma notinha importante: A postagem deste vídeo aqui, não pode ser entendida com um acto de brejeirice da minha parte, não senhores! Trata-se de um efectivo acto de justiça. “O homem da cabra”, não teve direito a qualquer tempo de antena naquela excursão. Mas vai tê-lo aqui! Neste meu modestíssimo, porém muito querido blogue.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Diferentes paradigmas - parte 1.




O destino daquela viagem era o Santuário Mariano de Lourdes. E no autocarro seguiam dois párocos e todas as suas ovelhas. Ia lá também uma ou outra tresmalhada, das que já se vão desacreditando dos milagres prometidos. A ideia inicial era a devoção, mas a diversão também não foi descartada em tempo algum.
O dia era sempre iniciado com uma pequena oração e depois seguiam-se as “hostilidades”. Vinha a rambóia. O sacerdote mais velho e claramente o líder daquele passeio, tinha uma potente voz de barítono de que muito se orgulhava. E não perdia nunca uma oportunidade para a demonstrar. É claro que naquele dia, também não foi excepção. Houve a oração, seguida de um pequeno canto religioso… E das conversas com Deus, eles ficaram assim falados. Depois de algum paleio da praxe, a seguir foram todos almoçar (já em Espanha). Comeram uma estranha sopa composta somente por um caldo acastanhado e mais uns feijões gigantes.
Depois de tal comezaina, regressaram todos ao autocarro. É que a viagem ainda nem sequer ia a meio. Depois seguir-se-ia uma grande soneca, com as beatas, todas a implorar silêncio, para que o senhor padre conseguisse dormitar. Coisa que é conseguida, com muita facilidade, segundo informação fidedigna daquela massa associativa. O padre então (e passado algum tempo) acordou muito bem dispostinho. Espreguiçou-se com prazer e sem pedir licença a ninguém começou logo a cantar. E… para quem acabava de acordar de uma soneca divina e celestial, o que se passaria a seguir seria no mínimo… enigmático. O senhor padre pingarreou um pouco, limpando as suas potentes cordas vocais, abriu ao máximo as suas goelas sacerdotais e desatou a cantar uma muito curiosa canção:
O herói ali celebrizado através da cantoria fora um tal de Manel das Cebolas (pressupunha-se assim que fosse um agricultor especializado). O mesmo Manel era morador da povoação de Beirolas. Mas no meio da azáfama rotineira, enquanto preparava o terreno para mais uma plantação, o Manel teve oportunidade de conhecer o amor. E porquê esperar, não é? É que rapidamente… ele ficou noivo. Como Manel amava muito a sua amada e por ela era… amplamente correspondido, sem demora eles marcaram a data do casamento. Só que em relação à data… o padre não especificou nada. Convém ainda informar, que o Manel Cebolinha era pessoa de poucas leituras. Tinha uma educação bastante rudimentar. Vivia ainda num pequeno casebre, desprovido de casa de banho e também de outros luxos... Coitado! Além do mais, tinha pouca variedade de vestuário. Tinha só dois fatinhos: um para andar na horta e outro melhorzinho, próprio para (e ao Domingo) ir ver a Deus Nosso Senhor. Ora para o casamento foi necessário comprar toda a roupa que usaria na cerimónia. Estrearia assim tudo de novo para fazer boa figura. Como aliás manda a tradição. E do rol do vestuário nem faltaram umas ceroulas, que era uma indumentária desconhecida até aquela data pelo “nosso” tão prestimoso camponês.


Chegado o dia aprazado, o casamento ocorreu. Foi tudo a consenso. Com muita emoção, suspiros e até algumas lágrimas.
Depois da cerimónia oficial, seguir-se-ia a refeição. Contaram com alguma abundância de géneros, contrariando o que diariamente era costumeiro. Todos os convidados estavam contentes, as crianças brincavam muito, estranhando bastante aqueles seus trajos melhorados. A noiva estava também muito emocionada, com o vestido muito apertado e os pés a doerem de tão inchados que estavam. O bom do Manel também exalava somente muita alegria e bem-estar. De vez em quando, os noivos beijavam-se, a pedido dos convidados, que ansiavam muito pela harmonia e o sentimento… do amor.E que achavam que tinham muita piada, quando batiam alarvemente, com os talheres nos pratos da refeição.
Só que a meio da refeição, o Manel foi acometido de uma forte dor de barriga que o fez sair porta fora, com muita rapidez, rumo à mata mais próxima, onde se iria aliviar. Foi dito e feito. Mas para grande perplexidade do agricultor, e quando este já se abotoava e aperaltava para ir outra vez para o pé da noiva, estranhou muito não ver espalmado no chão o motivo daquela sua tão grande agitação. “Mas o que é que acontecera?” Pensava assim o Ceboleiro muito preocupado. É que ele tinha a certeza da conclusão de todo o processo. Só que a festa não poderia esperar mais por ele. Era imperioso o seu regresso. A noiva naturalmente, até já estaria preocupada e com muitas saudades. Aos dois (e em simultâneo) já lhes queimavam nos lábios, muitos beijos para a partilha e demonstração.
Já chegado à boda, o Manel não resistiu e contou baixinho à sua noiva, aquela sua tão grande inquietação. Afinal para onde é que havia ido o seu dejecto? A noiva, coitadita, ainda o tranquilizou. Tentou serená-lo, dizendo-lhe que assuntos de m€rd@ não eram necessariamente os mais adequados para serem falados em tão importante e alegre festa. Ainda mais com todos os convidados sentados à mesa a degustarem de tão opíparas iguarias como as que ali haviam sido servidas.
Ao Manel não lhe restou mais do que ficar algo resignado. Mas não totalmente convencido. E no fim lá se acabou por sentar, mais uma vez ao pé da noiva. Só que no processo, ele notou que entre o seu traseiro e o banco corrido, estava algo mais que não havia sentido até ali. E não era só a roupa nova. Era mais o género de uma pequena almofada, que se escangalhava toda com a pressão.
“Aaahhh!”, concluiria finalmente o Manel. É que aquele seu tão grande enigma estava finalmente descoberto. E pondo uma mão entre as ceroulas e o seu próprio corpo, agarrou numa parte do excremento, e mostrou-o à noiva, assim como aos seus queridos convidados. Concluiria assim, que na mata, ele havia-se esquecido de baixar as ceroulas. Algo que pode acontecer a qualquer pessoa, não é? O pobre do Manel estava assim (e finalmente), pacificado com a vida. É que convenhamos, o Manel não era pessoa para mentir. E não admitia em momento algum, que duvidassem dele um bocadinho que fosse. Assim como das suas (sempre) boas intenções.
Todo este relambório foi cantado com primor e estridência pelo referido sacerdote. É claro que a coisa levou o seu tempo. É que se trata de uma história muito completa. E muito rica em detalhes. As beatas generosamente riam muito com a estrutura da canção. E elas que até já haviam ouvido toda aquela aventura para cima de cem vezes. Mas como era o senhor padre a cantar… Que tinha sempre tanta graça… E que era tão oportuno nos sermões… Que às vezes até lhes fazia umas pequenas caricias nas faces… Ou que por vezes lhes dava uma palmadinha certeira nas suas nádegas, já se si um bocadinho flácidas… enfim!…
O padre, contente mas algo estafado, deu por finda a cantoria. Pelo menos até aquela hora, pois ainda haveria muito para pregar.
Mas esta história terá que continuar para a semana.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Crime do Padre Mouret” de Emílio Zola.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ai o amor!...



É impressão minha, ou a crise já chegou a esta coisa de... se comemorar o amor? É que eu hoje só vi: trezentos e quarenta e três homens com ramos de flores, cinco rapazes com uma gerebera, um idoso de setenta e tal anos a carregar um enorme vaso com uma avenca. E a subir uma enorme escadaria com muita dificuldade... Lá em cima, estaria a aguardá-lo-ia a sua amada com muita ansiedade. Estaria à porta, pois à janela e de tranças pendidas ela não estava. Eu pelo menos não a vi!
E um homem que me ia "batendo" porque eu o atingi com uma simples gota de água na cabeça, quando eu regava o meu extenso roseiral composto por dezoito pés de roseiras? Fora esta última (onde eu seria mesmo agredida, não estivesse eu de varandim), mas é impressão minha ou antigamente havia muito maior número de demonstrações de afecto?
Além do mais e lá na biblioteca, só cento e cinquenta e duas mulheres e dois homens é que me perguntaram, porque é que eu ainda não havia comprado As Cinquenta Sombras de Gray. Que como muito bem sabeis é esse grande clássico da literatura porno/sopeira.
Meus amigos, desejo-vos um excelente Dia dos Namorados. Com muito amor a pingar para os lados. E se porventura se encontrarem sós, por estratégia ou fatalmente, hoje façam o seguinte: Vistam o vosso melhor traje e comam o vosso prato favorito à luz de uma elegante vela. Não se esqueçam ainda do bom do copo de vinho tinto de excelente qualidade. Mas antes do repasto, mirem-se a um espelho, sorriam e digam: "Amo-te muito! És efectivamente a pessoa mais importante da minha vida!" Porque isso é mesmo verdade!... Depois mandem um beijinho para vocês próprios. Isso é só o começo, meus queridos amigos. E  não se esqueçam nunca... DIVIRTAMSEMAZÉ! Porque é muito bom estar vivo!
Procedendo assim (e cultivando a vosso amor próprio), quem sabe se para o ano, não têm ao vosso lado alguém que vos ame verdadeiramente (para além de vocês próprios, claro) e que vos acenda a vela? Vai uma aposta? Pois eu aposto que sim... Mas hoje o importante é mesmo... o dia de hoje. E por isso, se para além das festividades, vos apetecer muito ler As Sombras de Gray, pois não se inibam...e façam-no. Deus perdoa. É que de vez em quando é-nos permitido realizar uma loucura qualquer. Depois isso passa...


Nota: Em relação ao "Valentino" do vídeo: mas que moçoilo tão bem "amanhado"!

E depois de apreciarem o moço (e se para aí estiverem virados), fiquem com a Diva. Absolutamente maravilhosa e... inesquecível.


DIVIRTAMSEMAZÉ!


domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Fazenda.


A intenção era visitar o belo e muito enigmático Perú. Ainda no avião, tiveram a oportunidade de vislumbrar, a extensão imensa de dezenas de bairros da lata. E logo ali, (e para quem sofre do mal da ansiedade), a viagem mais parecera ser um logro. Mas não foi nada disso. Definitivamente!
Depois de uma visita apurada a Lima, que é a cidade capital, que devido a uma circunstância climatérica muito particular, não pode contar nunca com um Sol espelhado. Essa cidade está sempre coberta de nuvens. E depois de se observar um mar Pacífico e de se ter corroborado com as boas intenções do mesmo, seguiram-se as visitas a outras paragens mais distantes.
Numa das noites visitaria-se uma... "Hacienda". Ao viajantes fora-lhes prometido a observação de danças e cantos locais, com muita cor e algum glamour... Assim como (e também), a verificação de habilidades incríveis, protagonizadas por alguns lindos equídeos que por ali habitavam e ali tinham a sua formação. A coisa prometia! Mas antes da percepção daquela realidade, havia que se ir até lá, não é? Como comunicador daquela realidade, coubera-lhes em sorte um simpático e risonho guia chamado de... Pablo. Seguiram-se assim num autocarro, gozando da mais profunda tranquilidade. E tudo prometia ser assim, não fosse dar-se o facto de (e já bem na entrada na tal Quinta), eles terem observado a placa e lido o seu conteúdo. Tratava-se pois... da: "Hacienda Mamacona"!
E o riso que foi a partir dali, senhores! A partir daquele momento a gargalhada foi uma constante. Houve quem quisesse logo ali, tirar uma fotografia ao "monumento". Era necessário, para memória futura. E para depois poder mostrar tal realidade... a toda a gente. O mui colaborante motorista, ao aperceber-se da ocorrência de tão grande interesse, decidiu também ajudar, andando com a viatura que dirigia... ora um pouco mais para a frente... ora um pouco mais para trás... É que era mesmo urgente e imperioso tirar uma foto. Mais. Era fundamental tirar a foto de toda uma vida. Pois nada fazia crer, que a grande maioria daqueles viajantes (que na sua grande maioria, já era septuagenária), ali pudesse voltar muito mais vezes.
Mas no meio daquilo, quem não estava mesmo nada a ver o motivo de tanta folia, era o simpático guia Pablo. Ele sorria-se também era um facto, mas fazia-o mais... por solidariedade. Ou então já estava contagiado. É que está provado que o riso verdadeiro é muito contagioso. "Mas", mais parecia perguntar-se o peruano. "Porque raio é que esta gente toda, está para aqui a rir-se desta maneira?" E o "despropósito" lá continuava.
A profissional jovem, que representava o grupo excursionista e que servia de ligação entre os mesmos e as realidades locais, ria também. E também ria muito a desditosa. Mas depois (e entre um e outro solavanco da gargalhada), sentia-se na obrigação e aproveitava para informar o peruano, que se mantinha somente sorridente, o porquê de tal funesta ocorrência. "É que em português", dizia ela: "a segunda parte da segunda palavra do nome da fazenda, quer dizer uma coisa..." E lá tentava ela dizer o melhor que podia (sem se comprometer muito), que tal palavra representava em português, uma parte importante da anatomia feminina. Mas o peruano apesar de se rir, lá continuava... na mesma. E a profissional que até era de Terras de Vera Cruz, lá se esforçava um pouco mais. E com alguma vergonha, ela lá ia tentando esclarecer um pouquinho mais o... desentendido Pablo. Só que o resultado era sempre o mesmo. O Pablo sorria, mas nada entendia, sobre o porquê de todo aquele delírio quase, quase... colectivo.
Por fim e já em claro desespero de causa, a brasileira lá lhe comunicou que, a tal palavra significava a mesma coisa que a palavra... bucet-. 
"Aáááhhh!!!" foi a reacção do peruano. Agora sim, ele entendia finalmente o porquê daquilo tudo. E agora foi também ele, que se pôs para ali a rir... às gargalhadas. E toda aquela festa... lá continuou.
Só que, passados alguns largos minutos de riso, já com alguns deles, a agarrarem fortemente o peito, enquanto que outros prometiam fazer o seu xixizinho nas cuecas... que se ouviu uma muito tremente voz. Era agora a vez da D. Maria, que era uma distinta viúva,  já de setenta e nove anos, questionar:
-"Mas por favor, esclareçam-me no seguinte: O que é que significa, a palavra... bucet-?
Sugestão de leitura para esta semana: "Boa Noite às Coisas cá de Baixo" de António Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


domingo, 3 de fevereiro de 2013

In vino veritas.

Há quem se preste investir tempo, dinheiro e argúcia e vá viajar sozinho. Há quem goste de viajar mas receie o imprevisto, (que segundo opiniões insuspeitas é justamente o que dá mais sabor à coisa). Há quem se fique por cá e sonhe em viajar no futuro, quando estiver mais livre de encargos e de dívidas. Oh doce ilusão, tu não me abandones nunca! E há quem viaje em grupo na companhia de quem não conhece, ou só conhece de outros giros similares. 
Naquela viagem o destino era a Noruega. A média de idade dos viajantes era de 65, 70 anos. No grupo iam somente três ou quatro pessoas trintonas. E a ideia era alcançar a luz e a diversão. Por sorte e naquelas paragens, a luz vem bem cedo. No tempo do Verão amanhece pelas três da manhã, pelo que não haveria assim lugar para muitas razões de queixa.
Ambrósia era uma mulher de sessenta e picos. Naquela viagem especifica ela deveria de estar a passar por um mau bocado. É que raramente ela falava com alguém. Ainda houve um ou outro mais simpático e preocupado, que tentou a abordagem. Tentou assim chegar à fala com a "tristonha mulher", mas ela... nada. Ambrósia não falava com ninguém mesmo. De manhã esboçava um disfarçado sorriso, punha-se à parte e fumava. Muito fumava a Ambrósia. E a viagem lá continuava. Com o decorrer da aventura, soube-se que Engrácia a companheira de quarto de Ambrósia, também não estava lá muito feliz. Eram ali companheiras de quarto por mero acaso. Nunca se haviam conhecido antes, mas concordaram em ficar as duas no mesmíssimo quarto a fim de pouparem alguns cobres. Engrácia andava também pela mesma idade da sua companheira de quarto. 
Quanto a Engrácia e por seu turno, ela até estava a gostar da viagem. O pior vinha mesmo era... à noite. Fiordes e paisagens de montanha era aquilo que ela mais gostava. Além do mais viajava na companhia de alguns dos seus bons amigos. Só que quis a desdita que aqueles amigos fossem todos casados e viajassem aos pares. Pelo que ela ficou sem uma companhia conhecida, para dividir o quarto. E diziam-lhe: "São só dez ou onze noites, e dormir passa depressa... E mal raiasse o dia, a convivência continuaria assim como a diversão..." Mas Engrácia não queria saber nada disso. Ela não estava a gostar mesmo nada... era das noites.
Não se conheceram previamente é certo. Mas ali também não nascera entre as duas, nenhum tipo de convivência, nem de qualquer tipo de amizade frutífera. E para piorar tudo, era a tristonha Ambrósia quem decidia tudo. Ela não falava muito é verdade, mas estipulara à partida a hora em que cada uma acordava para proceder à lida da higiene diária. Qual a cama, que ela queria ocupar etc.... Para além disso ela gostava de se passear toda nua pelo quarto fora. Bem!... mas ela teria assim tanto calor? Andaria com a menopausa? Diz-se que os afrontamentos daí decorrentes, são terríveis de aturar! Só visto!
Mas para quebrar todo aquele gelo, elas bem poderiam ter feito uma festa do pijama... Se bem que tal não seria nada fácil, pois Ambrósia claramente não cumpria com as principais regras do jogo.
Passados alguns dias, foi a vez daquele grupo ir ver uns Glaciares. Para esse efeito, tiveram que subir  a uma altíssima montanha. Logo aí a Ambrósia se revoltou muito. E revoltada ela comunicou a todos, o seu desejo de descer dali, o mais rapidamente possível. É que aquele Glaciar, não era nada parecido com um outro que lhe havia sido apresentado tempos atrás. Maldito Glaciar aquele que enervava ali tanto a Ambrósia! Que era justamente uma senhora, já com tantos problemas existenciais! Mais parecia que o danado do Glaciar, havia feito de propósito, o magano...
Contudo toda aquela sua má disposição crónica, terminou dois dias antes do fim daquela aventura. Exactamente no dia em que tão curioso grupo foi almoçar a um local de sonho, situado nas montanhas e designado por "Cabana do Pastor". E foi mesmo ali que ocorreria o milagre. A D. Ambrósia começou por beber... E depois... bebeu muito bem, do néctar sagrado de Baco. E foi justamente, aquele vinho que teve a virtude de mudar todo o panorama. É que a tão silenciosa senhora até ali, deixou de o ser, já que começou a falar por três ou quatro. Comunicou a todos sobre o seu grande prazer em estar ali, a realizar tão bela viagem, em tão distinta companhia. E depois... admiraria ainda, muito cheia de emoção e apreço, os belos cemitérios floridos da Escandinávia. Fora só agora (e com o vapor aveludado da bebida), que ela havia reparado em tal. E aquele grupo já havia observado uma boa meia centena deles.
Sugestão de leitura para esta semana: "Ciclo Port Wine" de Alves Redol.
DIVIRTAMSEMAZÉ!