Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

In vino veritas.

Há quem se preste investir tempo, dinheiro e argúcia e vá viajar sozinho. Há quem goste de viajar mas receie o imprevisto, (que segundo opiniões insuspeitas é justamente o que dá mais sabor à coisa). Há quem se fique por cá e sonhe em viajar no futuro, quando estiver mais livre de encargos e de dívidas. Oh doce ilusão, tu não me abandones nunca! E há quem viaje em grupo na companhia de quem não conhece, ou só conhece de outros giros similares. 
Naquela viagem o destino era a Noruega. A média de idade dos viajantes era de 65, 70 anos. No grupo iam somente três ou quatro pessoas trintonas. E a ideia era alcançar a luz e a diversão. Por sorte e naquelas paragens, a luz vem bem cedo. No tempo do Verão amanhece pelas três da manhã, pelo que não haveria assim lugar para muitas razões de queixa.
Ambrósia era uma mulher de sessenta e picos. Naquela viagem especifica ela deveria de estar a passar por um mau bocado. É que raramente ela falava com alguém. Ainda houve um ou outro mais simpático e preocupado, que tentou a abordagem. Tentou assim chegar à fala com a "tristonha mulher", mas ela... nada. Ambrósia não falava com ninguém mesmo. De manhã esboçava um disfarçado sorriso, punha-se à parte e fumava. Muito fumava a Ambrósia. E a viagem lá continuava. Com o decorrer da aventura, soube-se que Engrácia a companheira de quarto de Ambrósia, também não estava lá muito feliz. Eram ali companheiras de quarto por mero acaso. Nunca se haviam conhecido antes, mas concordaram em ficar as duas no mesmíssimo quarto a fim de pouparem alguns cobres. Engrácia andava também pela mesma idade da sua companheira de quarto. 
Quanto a Engrácia e por seu turno, ela até estava a gostar da viagem. O pior vinha mesmo era... à noite. Fiordes e paisagens de montanha era aquilo que ela mais gostava. Além do mais viajava na companhia de alguns dos seus bons amigos. Só que quis a desdita que aqueles amigos fossem todos casados e viajassem aos pares. Pelo que ela ficou sem uma companhia conhecida, para dividir o quarto. E diziam-lhe: "São só dez ou onze noites, e dormir passa depressa... E mal raiasse o dia, a convivência continuaria assim como a diversão..." Mas Engrácia não queria saber nada disso. Ela não estava a gostar mesmo nada... era das noites.
Não se conheceram previamente é certo. Mas ali também não nascera entre as duas, nenhum tipo de convivência, nem de qualquer tipo de amizade frutífera. E para piorar tudo, era a tristonha Ambrósia quem decidia tudo. Ela não falava muito é verdade, mas estipulara à partida a hora em que cada uma acordava para proceder à lida da higiene diária. Qual a cama, que ela queria ocupar etc.... Para além disso ela gostava de se passear toda nua pelo quarto fora. Bem!... mas ela teria assim tanto calor? Andaria com a menopausa? Diz-se que os afrontamentos daí decorrentes, são terríveis de aturar! Só visto!
Mas para quebrar todo aquele gelo, elas bem poderiam ter feito uma festa do pijama... Se bem que tal não seria nada fácil, pois Ambrósia claramente não cumpria com as principais regras do jogo.
Passados alguns dias, foi a vez daquele grupo ir ver uns Glaciares. Para esse efeito, tiveram que subir  a uma altíssima montanha. Logo aí a Ambrósia se revoltou muito. E revoltada ela comunicou a todos, o seu desejo de descer dali, o mais rapidamente possível. É que aquele Glaciar, não era nada parecido com um outro que lhe havia sido apresentado tempos atrás. Maldito Glaciar aquele que enervava ali tanto a Ambrósia! Que era justamente uma senhora, já com tantos problemas existenciais! Mais parecia que o danado do Glaciar, havia feito de propósito, o magano...
Contudo toda aquela sua má disposição crónica, terminou dois dias antes do fim daquela aventura. Exactamente no dia em que tão curioso grupo foi almoçar a um local de sonho, situado nas montanhas e designado por "Cabana do Pastor". E foi mesmo ali que ocorreria o milagre. A D. Ambrósia começou por beber... E depois... bebeu muito bem, do néctar sagrado de Baco. E foi justamente, aquele vinho que teve a virtude de mudar todo o panorama. É que a tão silenciosa senhora até ali, deixou de o ser, já que começou a falar por três ou quatro. Comunicou a todos sobre o seu grande prazer em estar ali, a realizar tão bela viagem, em tão distinta companhia. E depois... admiraria ainda, muito cheia de emoção e apreço, os belos cemitérios floridos da Escandinávia. Fora só agora (e com o vapor aveludado da bebida), que ela havia reparado em tal. E aquele grupo já havia observado uma boa meia centena deles.
Sugestão de leitura para esta semana: "Ciclo Port Wine" de Alves Redol.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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