Seguiram-se outras paródias
naquela tão célebre excursão. Mas o mote parecia já estar lançado. Tudo
indicava que estava chegada a altura de se poder “avacalhar” um pouco todo
aquele ambiente a afastar-se velozmente do... sacrossanto. E mais: é que havia sido o próprio sacerdote a
começar.
Quem ia também naquele autocarro
era a Fernanda. Fernanda era uma mulher pouco dada a rezas, mas muito dada a
risos. Que tendo para cima de cinquenta anos, não teria muito mais do que vinte
de espírito. E se o padre havia cantado uma canção tão escatológica e de gosto (no
mínimo), muito duvidoso para quem ia… em peregrinação, ela para isso também poderia
dar a sua contribuição. E sem que ninguém a mandasse, ela diligentemente
decidiu dirigiu-se à parte dianteira daquele meio de transporte, pegar no microfone
e começar a cantar:
“Quando eu nasci a minha mãe não
tinha leite/ Fui criado com um bezerro enjeitado/…Mamei em vacas em tudo o que
tinha peito / Cresci assim desse jeito, fiquei mal-habituado…” E… Sim. Esta
canção, já era conhecida por grande parte do grupo excursionista. Em simultâneo
até se ouviram algumas vozes a cantarolar a canção da Nanda. Só que tal foi:
Sol de (muito) pouca dura. É que passados instantes, outras vozes mais
vigorosas se sobrepuseram a ela, lideradas pela forte voz canora e sacerdotal.
E puseram-se assim a cantar o: “Avé, Avé, Avé Maria…”
A Nanda teve assim a sua carreira
artística/humorística precocemente interrompida. Na sua cara morou por muitas horas
a marca da desilusão. E os outros (e sem que tal estivesse previsto), acabaram
todos a rezar o terço.
Esta história tem a grande virtude
de nos pôr a todos a pensar. Afinal qual é que é a diferença de uma canção para
a outra, hein? Quando o mote é efectivamente… a marotice? Ao Senhor Padre fora-lhe
permitido relembrar a história do pobre do Manel Ceboleiro. E à Nanda? Não
poderia ela também relembrar a história de alguém que quando nasceu foi salvo
da morte certa, devido à colaboração e à solidariedade de vacas, ovelhas e de
uma simpática cabritinha? Objectivamente, qual é que é a diferença, senhores? A
história do padre fala de amor, é verdade. Fala também do bom convívio que é
necessário existir entre a vizinhança (acredita-se que àquela festa nupcial tenha
ido… grande parte da população de Beirolas). Mas veja-se o seguinte: o Manel também
foi algo imprevidente. Devia de ter tido muito mais cuidado quando foi à mata,
ora essa!... Devia de ter sido mais crescidinho. Além do mais também foi muito
inconveniente na hora da refeição. Quando mostrou a todos, o húmus que dele saíra…
E a enervar tão impunemente a sua tão desgostosa noiva. E onde é que está referido
que o Manel, casou através de uma cerimónia religiosa? E onde é que é relatado na
história, um momento que fosse… dedicado à oração? Ah pois é! Disso ninguém
fala. Mas aquele injusto padre não quis saber disso para nada. E sem relacionar
bem as coisas, ele decidiu patrocinar cegamente, a divulgação daquele
acontecimento ocorrido em Beirolas há tantos anos atrás.
Mas, e quanto ao reconhecido
homem da cabra? Coitadinho! Esse não teve direito a tempo de antena. É muito revoltante!
Convenhamos: não têm que ser também glorificadas e divulgadas todas as boas
acções protagonizadas pelos animais? Que são seres tão nossos amigos? Que até quando
é preciso, dão a vida por nós? É que se não fossem as mamas cheias de leite dos
animais, o bebé (e agora o tão reconhecido homem) haveria morrido na certa. À sua
pobre matriarca/parturiente havia-lhe secado o leite. Se calhar devido a algum
desgosto. Ou a algum susto. Dizem que até é algo que acontece recorrentemente. E
a salvação daquela criança esteve toda onde? Na bondade das vacas e das cabras.
Mas porque é que o padre e as beatas foram tão contra esta tão doce narrativa? Gostará
o padre (e as suas fiéis seguidoras) de saber de crianças que morrem
desnutridas? Achará ele bem, não se falar nos actos heróicos dos animais. É
que… senhor padre, o senhor tem que ver: os animais também são produto da
criação divina.
Talvez a parte mais condenável da
história, seja o facto do reconhecido “homem da cabra” ter ficado viciado na
maminha. A mama aliás, só lhe consegue trazer, boas recordações, é o que é! Mas
meus amigos com franqueza: quem não tiver nenhum vício… pois que atire a
primeira pedra. E padres que fumam por exemplo, que é algo tão corriqueiro? E
até mesmo os Cardeais Patriarcas.? E esta situação deve de ser bem mais
condenável. Pois tendo o Cardeal Patriarca já a condição de pastor/chefia, terá
a obrigação de dar o exemplo aos rebanhos todos. E depois, direccionar o dinheiro
gasto no tabaco, para causas mais solidárias. Mas isso já não interessa falar.
Ah pois não!
Meus amigos, eu confesso: jamais
entenderei estas diferenciações de critérios. Seremos todos iguais aos olhos de
Deus? Bem numa primeira análise… até parece que sim! Porém aqui isso não me
parece nada real. Acho mesmo que uns se têm como muito mais iguais… do que
outros. O padre pôde cantar. Demorou para esse efeito… uma eternidade. Porém a
pobre da Fernanda foi silenciada sumária e implacavelmente, logo ali aos
primeiros acordes.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Leste do Paraíso” de John Steinbeck.
Uma notinha importante: A
postagem deste vídeo aqui, não pode ser entendida com um acto de brejeirice da
minha parte, não senhores! Trata-se de um efectivo acto de justiça. “O homem da
cabra”, não teve direito a qualquer tempo de antena naquela excursão. Mas vai
tê-lo aqui! Neste meu modestíssimo, porém muito querido blogue.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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