Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Diferentes paradigmas - parte 1.




O destino daquela viagem era o Santuário Mariano de Lourdes. E no autocarro seguiam dois párocos e todas as suas ovelhas. Ia lá também uma ou outra tresmalhada, das que já se vão desacreditando dos milagres prometidos. A ideia inicial era a devoção, mas a diversão também não foi descartada em tempo algum.
O dia era sempre iniciado com uma pequena oração e depois seguiam-se as “hostilidades”. Vinha a rambóia. O sacerdote mais velho e claramente o líder daquele passeio, tinha uma potente voz de barítono de que muito se orgulhava. E não perdia nunca uma oportunidade para a demonstrar. É claro que naquele dia, também não foi excepção. Houve a oração, seguida de um pequeno canto religioso… E das conversas com Deus, eles ficaram assim falados. Depois de algum paleio da praxe, a seguir foram todos almoçar (já em Espanha). Comeram uma estranha sopa composta somente por um caldo acastanhado e mais uns feijões gigantes.
Depois de tal comezaina, regressaram todos ao autocarro. É que a viagem ainda nem sequer ia a meio. Depois seguir-se-ia uma grande soneca, com as beatas, todas a implorar silêncio, para que o senhor padre conseguisse dormitar. Coisa que é conseguida, com muita facilidade, segundo informação fidedigna daquela massa associativa. O padre então (e passado algum tempo) acordou muito bem dispostinho. Espreguiçou-se com prazer e sem pedir licença a ninguém começou logo a cantar. E… para quem acabava de acordar de uma soneca divina e celestial, o que se passaria a seguir seria no mínimo… enigmático. O senhor padre pingarreou um pouco, limpando as suas potentes cordas vocais, abriu ao máximo as suas goelas sacerdotais e desatou a cantar uma muito curiosa canção:
O herói ali celebrizado através da cantoria fora um tal de Manel das Cebolas (pressupunha-se assim que fosse um agricultor especializado). O mesmo Manel era morador da povoação de Beirolas. Mas no meio da azáfama rotineira, enquanto preparava o terreno para mais uma plantação, o Manel teve oportunidade de conhecer o amor. E porquê esperar, não é? É que rapidamente… ele ficou noivo. Como Manel amava muito a sua amada e por ela era… amplamente correspondido, sem demora eles marcaram a data do casamento. Só que em relação à data… o padre não especificou nada. Convém ainda informar, que o Manel Cebolinha era pessoa de poucas leituras. Tinha uma educação bastante rudimentar. Vivia ainda num pequeno casebre, desprovido de casa de banho e também de outros luxos... Coitado! Além do mais, tinha pouca variedade de vestuário. Tinha só dois fatinhos: um para andar na horta e outro melhorzinho, próprio para (e ao Domingo) ir ver a Deus Nosso Senhor. Ora para o casamento foi necessário comprar toda a roupa que usaria na cerimónia. Estrearia assim tudo de novo para fazer boa figura. Como aliás manda a tradição. E do rol do vestuário nem faltaram umas ceroulas, que era uma indumentária desconhecida até aquela data pelo “nosso” tão prestimoso camponês.


Chegado o dia aprazado, o casamento ocorreu. Foi tudo a consenso. Com muita emoção, suspiros e até algumas lágrimas.
Depois da cerimónia oficial, seguir-se-ia a refeição. Contaram com alguma abundância de géneros, contrariando o que diariamente era costumeiro. Todos os convidados estavam contentes, as crianças brincavam muito, estranhando bastante aqueles seus trajos melhorados. A noiva estava também muito emocionada, com o vestido muito apertado e os pés a doerem de tão inchados que estavam. O bom do Manel também exalava somente muita alegria e bem-estar. De vez em quando, os noivos beijavam-se, a pedido dos convidados, que ansiavam muito pela harmonia e o sentimento… do amor.E que achavam que tinham muita piada, quando batiam alarvemente, com os talheres nos pratos da refeição.
Só que a meio da refeição, o Manel foi acometido de uma forte dor de barriga que o fez sair porta fora, com muita rapidez, rumo à mata mais próxima, onde se iria aliviar. Foi dito e feito. Mas para grande perplexidade do agricultor, e quando este já se abotoava e aperaltava para ir outra vez para o pé da noiva, estranhou muito não ver espalmado no chão o motivo daquela sua tão grande agitação. “Mas o que é que acontecera?” Pensava assim o Ceboleiro muito preocupado. É que ele tinha a certeza da conclusão de todo o processo. Só que a festa não poderia esperar mais por ele. Era imperioso o seu regresso. A noiva naturalmente, até já estaria preocupada e com muitas saudades. Aos dois (e em simultâneo) já lhes queimavam nos lábios, muitos beijos para a partilha e demonstração.
Já chegado à boda, o Manel não resistiu e contou baixinho à sua noiva, aquela sua tão grande inquietação. Afinal para onde é que havia ido o seu dejecto? A noiva, coitadita, ainda o tranquilizou. Tentou serená-lo, dizendo-lhe que assuntos de m€rd@ não eram necessariamente os mais adequados para serem falados em tão importante e alegre festa. Ainda mais com todos os convidados sentados à mesa a degustarem de tão opíparas iguarias como as que ali haviam sido servidas.
Ao Manel não lhe restou mais do que ficar algo resignado. Mas não totalmente convencido. E no fim lá se acabou por sentar, mais uma vez ao pé da noiva. Só que no processo, ele notou que entre o seu traseiro e o banco corrido, estava algo mais que não havia sentido até ali. E não era só a roupa nova. Era mais o género de uma pequena almofada, que se escangalhava toda com a pressão.
“Aaahhh!”, concluiria finalmente o Manel. É que aquele seu tão grande enigma estava finalmente descoberto. E pondo uma mão entre as ceroulas e o seu próprio corpo, agarrou numa parte do excremento, e mostrou-o à noiva, assim como aos seus queridos convidados. Concluiria assim, que na mata, ele havia-se esquecido de baixar as ceroulas. Algo que pode acontecer a qualquer pessoa, não é? O pobre do Manel estava assim (e finalmente), pacificado com a vida. É que convenhamos, o Manel não era pessoa para mentir. E não admitia em momento algum, que duvidassem dele um bocadinho que fosse. Assim como das suas (sempre) boas intenções.
Todo este relambório foi cantado com primor e estridência pelo referido sacerdote. É claro que a coisa levou o seu tempo. É que se trata de uma história muito completa. E muito rica em detalhes. As beatas generosamente riam muito com a estrutura da canção. E elas que até já haviam ouvido toda aquela aventura para cima de cem vezes. Mas como era o senhor padre a cantar… Que tinha sempre tanta graça… E que era tão oportuno nos sermões… Que às vezes até lhes fazia umas pequenas caricias nas faces… Ou que por vezes lhes dava uma palmadinha certeira nas suas nádegas, já se si um bocadinho flácidas… enfim!…
O padre, contente mas algo estafado, deu por finda a cantoria. Pelo menos até aquela hora, pois ainda haveria muito para pregar.
Mas esta história terá que continuar para a semana.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Crime do Padre Mouret” de Emílio Zola.


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