Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Os clássicos (mal) revisitados.


De todas as possibilidades do mundo, existirão coisas que achamos que hão-de estar para sempre, na categoria de ‘não acontecimentos’. Isto porque a nossa imaginação sendo veloz e abrangente, tem capacidades ilimitadas. Contudo uma coisa é pensar, outra bem diferente é levar à prática. Podemos pensar nas coisas mais estapafúrdias do mundo, mas como temos essa noção, consciencializamo-nos de que tal permanecerá para todo o sempre no mundo das “ideias parvas”. Situações que achamos nós, jamais poderão ver a luz do Sol, ou perderem-se na negritude da noite.
Só que em outras tantas vezes, acontecem as coisas mais inusitadas do mundo. A vida consegue sempre surpreender-nos. Tal é francamente positivo, é que pouca gente deve de apreciar o marasmo. Porém a vida só deveria de surpreender-nos pelos melhores motivos. Não pelos piores. Repisamos muitas vezes no erro de acreditar que, como já andamos por aqui,  faz algum tempo, as coisas poderão ser um pouco mais previsíveis, contudo não é assim que a coisa funciona. E temos que, em muitas vezes, vir dar a mão à palmatória. Vem este meu pensamento a propósito de algo que eu soube há relativamente pouco tempo.
Regra geral acontece que, ao lermos um livro do nosso escritor de eleição, ou mesmo daquele outro escritor que acabámos de conhecer, gostamos (eu pelo menos gosto muito), de imaginar o que estaria na cabeça do autor, quando lhe deu para escrever sobre determinado acontecimento. O que é que pôde ter dado azo, a que o mesmo escrevesse sobre aquele pormenor específico. E depois, é com efectivo deleite, que muitas vezes, se consegue voar um pouco acima da nossa diminuta escala, e visualizar quase todos os contornos e cenários descritos na obra. Temos assim, capacidades intrinsecamente contidas na nossa pessoa, que nos permitem vivenciar uma "fantasia" na verdadeira acepção do termo. Voamos assim sem asas, a um mundo até aqui desconhecido, mas que se quis muito conhecer. O autor começou a história, mas a nossa imaginação fez o resto.
A obra literária está aí, para todos aqueles que a quiserem ler. No seu todo. Exactamente da forma como o seu autor a concebeu. E com o exercício da leitura, rumamos a um mundo que também será o nosso. Um mundo que se pretende que venha a fazer parte de nós. Só que os tempos estão a mudar, e como estão, Santo Deus!…
Vem a minha reflexão hoje a propósito de algo que já se faz na actualidade, especialmente no Reino Unido: Os editores ao verificarem que não estão a conseguir vender os livros como desejariam, tiveram uma ideia a meu ver absolutamente peregrina. A fim de que se chame à atenção para os livros, especialmente para os clássicos, a ideia é apimentar um pouco a versão do autor. Eu explico, para aquele que ainda não ouviu falar sobre este assunto. O livro existe e foi terminado há muito tempo pelo seu autor. Tornou-se inclusivamente um clássico. Contudo e uma vez que não está a ser muito vendido, os editores da actualidade vão-lhe incrementar partes picantes e explicitas sobre os momentos de luxuria praticados pelos personagens contidos na obra literária. Ou seja, o que antigamente ficava subentendido ou em entre-linhas, agora vai ser divulgado (e permitam-me, inventado), pelas cabeças iluminadas dos nossos contemporâneos. Digo inventado com toda a legitimidade. É que o autor não escreveu essas partes jocosas, pois não? Se alguém agora o vai fazer, e não é o autor, esse alguém vai inventar, não é?
Desculpem-me, mas a minha cabeça ficou em delírio com tal ideia. Quase que já subiu ao etéreo com tal ousadia. Procedi um bocado da mesma forma, como costumo fazer através da leitura dos “meus queridos amigos livros”. E pus-me a imaginar o que é que passará pelas cabeças dos atrevidos e picarescos adaptadores das partes libidinosas. Fiz então uma reflexão, onde  apenas pensei na literatura portuguesa. Que é excelente, como todos nós sabemos. E o meu exercício foi: o que é que esses “capitalistas adaptadores” poderiam pensar para os nossos clássicos? Para conseguirem vender mais os seus títulos? Sim o vil capital ao que parece, aqui e em toda a parte, fala mais alto e com uma voz muito grossa. Mas que esta moda nunca passe por cá, assim eu desejo…
Pensemos assim e primeiramente no livro: “Viagens na Minha Terra” do Almeida Garrett. Ali está, na versão criada pelo seu autor, a presença de uma jovem, a quem chamavam carinhosamente de Joaninha. Esta jovem que era muito casta e sonhadora e colocava-se bucolicamente à janela da casa onde vivia com a sua avó. Era inclusivamente chamada com ternura, pel’a Menina dos Rouxinóis. Ora na versão actualizada e acrescentada, e que poderia figurar em todos os tops (segundo o critério duvidoso e pouco fundamentado dos adaptadores non sense), a tal menina poderia muito bem deixar de ser, assim tão tranquila e moderada. A Joaninha poderia continuar a estar à janela, só que agora… a mandar piropos para os homens que passassem e que lhe chamassem mais à atenção. Os que lhe agradassem mais. E abrindo bem os seus pulmões de catraia, ela diria: “Anda cá! Ó bom!” “Se eu cair daqui da minha janela, já sei onde me agarrar.” Ou então as pérolas: “Oh gato, tu não largas pêlo, pois não?” e “Tu andas na tropa? É que já marchavas que era uma maravilha!” E como a ideia é apimentar, ela bem poderia masturbar-se de seguida, usando uns apetrechos que havia comprado na Feira do Parque das Nações. A tal onde o Goucha foi na companhia de umas velhinhas. Ah, mas essa feira não existia ainda no século XIX e tal…? Pois não. Mas a coerência não tem aqui lugar. Pois aqui o que importa… é vender livros…
Assim e à primeira vista, não conseguimos muito bem explicar, porque é que o Almeida Garrett não se lembrou destas lindas coisas. Se calhar foi porque ainda não podia contar com o Grande Dicionário Trolho-Português das edições: Martelo Pneumático (edição revista e actualizada), de onde estas preciosidades foram retiradas.
Passemos depois a outro clássico. Passemos por exemplo “As Pupilas do Senhor Reitor” de Júlio Dinis. Nessas novas versões, não me custa nada a imaginar que coloquem a Guida, que como sabemos era a pupila mais velha e a mais ajuizada, como a reencarnação da própria Messalina. Colocavam por exemplo essa “joia do Norte”, como aquela que “já tinha a escola toda”. Nesse contexto, punham-na (e nas suas horas vagas), a ler Marquês de Sade e a bordar um cinto de ligas para o Reitor, (que passará também a constar como alguém muito pouco recomendável). O Reitor usaria as ditas ligas bordadas, na missa de Domingo. E a sua batina poderia tapá-las, ou não.
Colocariam o reitor como alguém perverso e simultaneamente místico, seguidor da doutrina Místico-Encefálica. E depois dos afazeres profissionais, ele envolver-se-ia em esquemas de sexo em grupo… com os outros reitores seus colegas e mais algumas… manas. Mas todas estas enigmáticas cenas… seriam muito bem documentadas.
Quem se poderia safar um pouco melhor de tudo isto, seria a pupila mais nova, a Clara. Mas mesmo assim, os novos adaptadores poderiam continuar a inventar. E a falar através da inclusão de complexos comentários, sobre o tempo em que Clara ficava muito afogueada e a precisar de um “aperto gostoso e sentimental”, mal ela via passar… o João Semana.
E por fim tomemos como exemplo a grande obra de Eça de Queirós, “Os Maias”. Não custa nada a acreditar, que se esta moda viesse para Portugal, (e Deus queira que nunca venha!!!), poderia dar-se o seguinte: Sabemos porque lemos a obra, que a Maria Eduarda era uma rapariga muito bela. Porém algo inocente. Teve a desdita de se ter apaixonado pelo próprio irmão, apesar de ser desconhecedora daquele seu parentesco. Ora os adaptadores da “pimentinha lucrativa”, poderiam muito bem falar, num dos  primeiros encontros sexuais dos dois. E podem mesmo vir a dizer que o mesmo se havia dado dentro de uma caleche, quando os dois iam p’ra Feira da Malveira. Haviam ido lá, porque foram comprar uma cabrinha que iria viver regaladamente na Quinta do Avô. Ora,  iam ali os dois jovens e muito pacatamente a falar de figos, quando… a dada altura, lhes dá “a maluca”. E fazem naquele exíguo espaço a técnica perfeita do “Canguru Perneta” Isto e sem se esquecerem de nenhum detalhe (nem eles, nem o adaptador). É que o adaptador vai contar tudo, como se também lá tivesse estado. Podem mesmo falar, que um homem do campo, ainda conseguiu ver uma perna desnudada da “piquena”, a sair pela janela. Sim, porque aquela é que era a perna. E a que estava lá dentro, estava disfarçada de… perneta.
Mais tarde e já devidamente escolarizada nas técnicas da reprodução humana, Maria Eduarda teria uma surpresa. Como se sabe, Carlos Eduardo sabia que amava desesperadamente  a sua própria irmã, mas escondera-lhe de propósito esse facto. A pobre foi assim mantida na total ignorância. Ora num qualquer acrescento que desgraçadamente se fizesse, era possível pôr o moinante do Carlos no Natal, a dar uma prenda a Maria Eduarda. Não aquela que já estão a pensar. Essa, ele já lha havia dado na caleche e em muitos outros sítios. Perguntassem depois ao adaptador!
E na Consoada, chegou-se ao pé da sua muito amada e entregou-lhe um embrulho, feito em papel de seda e atado com um muito robusto laçarote. Maria Eduarda, que não era diferente das outras mulheres, rejubila alegremente, mal vê a oferenda. Pega nela com prudência, abanou-a pertinho do ouvido, verificando assim, que não se tratava de nenhuma bomba. Já sossegada, depois abriu-a com muita rapidez. E dá de caras com uma edição de luxo, profusamente ilustrada do… Kamasutra. E agora o que fazer, para apimentar e vender a obra, aos fregueses leitores que estão tão sedentos de malandrice?
Pois, ia-se descrever o facto dos dois, aproveitarem a deixa e irem exercitar-se naqueles ensinamentos… até à exaustão. Eles que até estavam sempre em forma, pois não perdiam por nada, nenhuma ida ao ginásio. Do Kamasutra e de uma assentada só, eles chegariam à septuagésima sétima posição (com tudo, mas mesmo tudo bem documentado, atenção). Fariam depois um pequeno intervalo para irem comer, Papas de Serrabulho e uma Gemada com Vinho do Porto.
Já nem vamos falar d’Os Lusíadas e do famoso canto IX. Se esta técnica chegasse a vir para cá (coisa que eu não quero acreditar), a rebaldaria que não seria, naquela Ilha dos Amores! Com descrições e descrições detalhadas da luxuria. Onde estaria tudo ao molho e fé em Deus. O próprio Vasco da Gama seria ali e também, protagonista de muita coisa. Ou por outro lado, poderiam colocá-lo como um adito do sexo tântrico.
E concluindo: o que eu aqui disse é ridículo e exagerado? Não há ninguém que esteja mais de acordo com isso, que eu. Apesar de ter sido eu a ter o atrevimento e ter dado uso a essa liberdade criativa, de gosto muito duvidoso. Mas não fui eu que comecei, pois não? No fundo só tentei pôr-me no papel de outros, que em outros países já estão a fazer estes acrescentos nos seus clássicos. Não sei, mas parece-me que se a ideia for começar a acrescentar coisas, a partir daí tudo será legítimo. E quando o processo é iniciado, quem é que de viva voz poderá por rédeas àquilo? Determinar até onde se pode ir? É que para todos os efeitos já se abriram precedentes. Acrescentos só poderiam ser feitos pelos seus autores, e estes já faleceram faz muito tempo. Esta ideia parece-me tão comezinha, como a ideia de vender livros a todo o custo, desrespeitando tudo o que está para trás. No fundo desrespeitando aquela obra, que já é um clássico, desde a sua matriz.
Mas eu nem deveria de estar para aqui a escrever sobre isto. E quem sou eu…? Ninguém! Como se dizia no Frei Luís de Sousa. Bem, esta obra também poderia sofrer de uns acrescentos. O Romeiro… o Telmo… a Ma… NÃO! Para longe vá o agouro!!! Isso seria um pesadelo. Até parece que eu já estou a incorporar… um acrescentador demente, mas já falecido. É que eu no fundo, ainda estou para aqui a dar ideias, não é? Sei que este blogue, nem é tão lido assim. Vale o que vale. Mas eu gosto muito dele. Terá muitas lacunas e continuará a tê-las por mais que eu me esforce e realize algumas melhorias.
Contudo imagine-se alguém imbuído da tarefa de acrescentar marotices ao que já foi escrito, vai para tanto tempo. Essa pessoa faz uma vasta pesquisa, e como que por um acaso, vem ter aqui a este meu muito modesto cantinho. Imagine-se. Inspirar alguém com as presepadas que p’rá aqui estão expostas. E a minha consciência depois disso? Como ficaria? Estas ideias são parvas eu concordo. Mas serão tão parvas como todas aquelas que se incluírem nos referidos acrescentos.
Toda a gente poderá e deverá escrever um livro. E aí os seus autores poderão colocar lá tudo aquilo que quiserem. Agora por favor, não se desvirtue aquilo que foi pensado e escrito faz tanto tempo. Por um escritor que usou para o efeito, a sua exímia arte, assim como fez uso dos seus próprios critérios. E que agora até já nem está cá para se defender.
E agora, dirijo-me aos senhores acrescentadores, onde quer que vocês estejam: Vocês querem maroteiras, não é? Um conselho, brinquem com as vossas próprias pilinhas, e deixem as pilinhas dos personagens dos clássicos em paz.  As personagens que vivem tão regaladamente nos livros, que são a sua casa. E alguns também vivem na nossa imaginação. Têm na nossa mente, como que uma segunda residência. É que as pilinhas deles, já trabalharam o que tinham que trabalhar. Agora até já nem devem de ter existência física. E não creio que alguma vez se tenha conseguido embalsamar alguma, para se poder mostrar na Grande Exposição Internacional de Barcelona, que se realizou no ano da graça de 1929.
DIVIRTAMSEMAZÉ. E respeitemos os clássicos. Eles merecem… Já por aqui andam há mais tempo que nós.
Sugestão de leitura para esta semana (ou releitura); “Os Maias” de Eça de Queirós. É magnifico, como a grande parte da sua obra.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Por uma questão de brilhos.


Surgiste na minha vida como um primeiro raio de sol surge após prolongada invernia. Procuraste-me e eu encontrei-te. Ou vice-versa. Eu já nem sei. Mas tenho a dizer-te que gostei logo muito daquilo que vi. Gostei particularmente do teu olhar, assim como do teu sorriso constante. E consequentemente do teu apurado e permanente sentido de humor. Oh rapaz, quanta energia tu tens! Quanta imaginação! Como é que tu consegues estar sempre (mas sempre mesmo), a dizer piadas? E o que eu me rio com elas, Santo Deus.
Sou por definição uma rapariga algo macambúzia. Há vida a mim? Pois... haver há, uma vez que ela vai-me correndo. Só que não me tem dado assim tantos motivos para gargalhar consecutivamente, tal como tu fazes o tempo todo. Sei, porque já me apercebi (e também porque já me têm dito), que é um desperdício de tempo, estar para aqui sempre tão triste. É que o estado da tristeza puxa mais tristeza ainda. E depois é como um circulo vicioso. É tal qual um tornado que destrói pela raiz, qualquer laivo de alegria. Mas tu na minha vida, fizeste a diferença. Só que se calhar, nem deste bem conta disso.
Tu foste como que uma réstia de esperança que eu já há muito tempo aguardava. Contigo eu parecia outra. Foi também contigo que eu ganhei uma nova disposição, novas cores assim como um indisfarçável novo brilho, no meu olhar francamente castanho. E a minha notória diferença, era-me comunicada permanentemente por todos aqueles que já me conheciam. Por todos aqueles que tinham alguma estima por mim. E como eu andava feliz. Vê tu, que até me deu para agradecer a todos os anjos e santos do céu, aquela tua vinda.
Achei (e romântica como sou), que o nosso encontro já estava marcado havia muito tempo. E tudo parecia indicar que as minhas preces, finalmente haviam sido atendidas. Eu, quase que acreditei que a hora da minha felicidade também havia chegado. Meu Deus, como eu gostava tanto de estar contigo!
Trabalhamos na mesma empresa. E no dia da tua chegada, a chefe havia-me responsabilizado da tua integração naquele espaço. Fui eu quem te ajudou efectivamente e quem te apresentou todo o nosso Departamento. Assim como te deu a conhecer todos os nossos colegas. Fui eu quem te falou pela (diria segunda vez), dos teus conteúdos funcionais naquela empresa. Mas apesar de tu aprenderes tudo e muito rápido, as tuas dúvidas ultrapassavam tudo aquilo que era espectável em idênticas circunstâncias. Tu só querias inteirar-te de todo aquele complexo processo. Mas de todo aquele complexo processo, mesmo! E como eu agradecia para mim mesma, todas aquelas tuas infinitas inquietações. Era a forma que eu tinha de passar mais tempo na tua companhia. Informando-te sempre de mais e mais pormenores. Mas o curioso é que ao invés de estares para ali preocupado e receoso de não teres aceitação, tu fazias precisamente o contrário: perguntavas sim, e muito. Mas fazia-lo sempre com muito boa disposição e aproveitando qualquer deixa para fazer uma nova piada. E como nós nos conseguíamos rir daquilo tudo! A meu ver, tu forneceste ao Departamento, uma renovada frescura.
E tudo seguia o rumo do que se esperava. E ai de ti, se fosses buscar esclarecimentos junto a um outro colega qualquer. Esse serviço cabia-me somente a mim. Fora a própria chefe quem me havia encarregado disso. Não havia lugar a qualquer dúvida. E tu lá vinhas. Vinhas sempre ter comigo. Vinhas sempre e na minha direcção. 
Devido a todas aquelas atenções e procedimentos, os nossos colegas começaram a fazer olhinhos e outras sinalécticas entre si, que eu bem via. Procuravam desta maneira, sinalizar uma cumplicidade emergente que começava a brotar entre nós. Mas de nada isso me importava. Nem a ti, quase que tenho a certeza. E quem dera que os colegas adivinhassem mesmo, um qualquer envolvimento, que eu tanto queria ter contigo!... 
Depois e fora do expediente e das responsabilidades laborais, começamos a sair um com o outro. Íamos muitas vezes jantar fora. Algumas vezes fomos ao teatro. E ao cinema. Creio que o cinema era aquilo que nós os dois mais gostávamos. Eu pelo menos (e falando só por mim), era onde me sentia, mesmo em pleno contigo. Era o êxtase. Estarmos ali os dois, lado a lado e naquele escurinho... Com a minha mão quase, quase a tocar na tua. No cinema, recordo deliciada a quantidade imensa das pipocas que partilhávamos. E o escarcéu que fazíamos a comê-las!... Uma vez, chegámos mesmo a usar a mesma palhinha, que servia um copo gigantesco de Coca-Cola gelada. E depois, como nos ríamos baixinho, das advertências e dos amuos que as velhotas faziam, tentando ver, mas em vão, o filme para que tinham comprado o bilhete. Mas sem qualquer sucesso. É que os queixumes delas, ainda nos faziam rir mais. Pelo que desesperadas elas, apontavam-nos depois o dedo, declarando-nos assim a sua desaprovação total, àquela nossa "actuação tão indecente".
Mas foi numa dessas nossas saídas, que tu vieste até mim com um novo brilho no olhar que eu não reconheci. Vinhas também muitíssimo mais risonho. Mas como é que isso era possível? Será que havias consumido algum par de cogumelos mágicos e não me havias dito nada? O que é que poderia estar por detrás de toda aquela tua rápida e muito suspeita alteração. É que ficaste ainda, e muito mais... "palhacito"? 
Eu contigo, havia começado a gostar de imaginar coisas boas. Diz quem entende muito destas temáticas, que grande parte do prazer da "festa", está exactamente na sua preparação. E ao ver-te assim, eu enchi-me também de uma incontida alegria. Por uns breves instantes, imaginei que tu finalmente tinhas tido a coragem de vir até mim, mas desta vez para ficares. Para ficares comigo. Eu vi-me em ti, como a um porto seguro, onde tu virias finalmente ancorar. E vi-te em mim, como um farol efectivo e muito luminoso à minha existência. Não só à minha existência presente como (e principalmente), à minha existência futura. Só que a vida já me havia ensinado, que estas formulações gratuitas e inconsequentes, são muitíssimo perigosas. 
Passado aquilo que me pareceu ser uma eternidade, tu abriste ainda mais o teu sedutor sorriso e falaste-me de uma Carla. E por um momento, todo o meu cérebro pareceu bloquear. Mas Carla? Nós os dois, só conhecíamos uma Carla. Que era a rapariga que vendia os bilhetes no cinema. Seria essa? "Sim", disseste-me tu. Era essa mesmo. E ficaste ainda mais corado e a transpirar. Pelo menos foi o que me pareceu. 
Havia já algum um tempo atrás, que nós os dois havíamos comentado, que a Carla, era muito diferente das outras pessoas, que como ela também vendiam os bilhetes para se assistir aos filmes. Ela era muito mais conversadora e muitíssimo mais divertida. Mantendo sempre esse tipo de actuação, ela nada se parecia importar, com o atraso evidente, que provocava no seu próprio trabalho. Garantia desta maneira, um aumento muito significativo da fila dos compradores de bilhetes. Mas também (e verdade seja dita), eu nunca vira ninguém a reclamar desse seu procedimento. É que ela falava sempre muito. Ria ainda muito mais. E com toda a gente, de forma indiscriminada.
E tu, lá continuaste o teu discurso, para mal dos meus pecados, Matavas assim, a linha ténue de esperança que há tão pouco tempo, havia nascido em mim. Soube assim, que tudo começou, num dia em que tu lá foste comprar os bilhetes com muita antecipação. Justamente naquele dia, em que receamos os dois, que se assim não procedêssemos, o mais certo seria não vermos o filme que tanto queríamos assistir. Nesse dia, assim me o contaste, ela sorriu só para ti. E piscou-te um olho gigante e de cor azul, repleto de brilho. Depois de um pequeno impasse, ela entregou-te os dois bilhetes, firmemente seguros numas mãos compridas e muito bem cuidadas. Mãos essas, que envergavam umas muito vistosas unhas de gel, de tonalidade azul clara. As "garras", tinham assim quase a mesma cor, dos seus expressivos e muito grandes olhos. Num bilhete (justamente naquele que tu guardaste para ti, claro está), tu verificaste que estava escrito um número de telefone. Era o número de telefone dela, soubeste tu quando mais tarde lhe ligaste. E ficara comprovado. Para mim fora exactamente o brilho dos seus olhos, o que mais te encadeara. Disso, eu tenho a certeza.
Pelo exposto e como compreendes, eu fiquei muito arrastada com tudo aquilo que estive para ali a ouvir. Era agora com ela que estava o teu pensamento. E o desespero que eu senti!... Agora o mais certo, era que as nossas muito divertidas saídas semanais, haveriam de passar à história. E tudo isso, parecia indiciar o teu olhar. Contudo e com alguma dignidade, eu lá consegui disfarçar o quanto pude, aquela minha muito repentina mal-disposição. Afinal e objectivamente, tu não havias tido culpa de nada. Só seguiste o teu coração e aqueles gigantes faróis de cor azulada. É que a Carla é reconhecida por todos os homens (e por algumas mulheres, estou em crer), como um "bom pedaço de mau caminho".
Olha, quanto a mim, eu estarei por perto. Tu sabes bem onde me encontrar. Aproveito para te desejar tudo de bom. Que a vida te sorria sempre. Pois tu bem mereces. E se a Carla for a pessoa que te vai fazer feliz, aposta nisso e com determinação, todas as "tuas fichas". Eu por mim, continuarei a estar aqui. No lugar do costume. E acredita meu muito risonho amigo, eu estarei  aqui a "torcer" por ti.
Mas ao mesmo tempo, também estou a usar uma pomadinha em gel, que é muito boa. E também estou, a tomar uns analgésicos, para ver se curo a desgraçada, desta dor-de-cotovelo. Demora um certo tempo, é verdade. Mas depois disso... virá a cura total. Disso, é fundamental que eu tenha também ... muita certeza.
Sugestão de leitura para esta semana: "Sábado à tarde e Domingo de manhã" de Alan Sillitoe.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Apenas uma efeméride.


E já um ano se passou? E quem diria que eu ainda me encontraria por cá?
Quando me iniciei neste mundo complexo da blogosfera, eu senti alguma apreensão. Dos blogues eu tinha a ideia, de que eram pertença de pessoas muitíssimo bem informadas. Pessoas que postavam várias vezes ao dia. Sempre com coisas muito interessantes e actuais a comunicar. Nos blogues, falavam não só de aspectos que se passavam no seu dia-a-dia (de tudo, mas mesmo tudo o que lhes ia acontecendo), como chegavam a sugerir a aquisição de objectos vários e de peças de vestuário, concertados com a moda que se vai praticando. Às vezes aconselham a leitura de livros (mas eu aqui, também tenho esse atrevimento). Há blogues que sugerem a realização de viagens, assim como postulam sobre a melhor maneira de se cozerem os espinafres. E foi muito esclarecedor para mim, saber através de um blogue, da melhor altura do ano para se "desgrelarem" as batatas. Outras vezes, falam do filme que se foi ver, aconselhando-o ou não. E explicam-nos detalhadamente, sobre a melhor e mais eficaz maneira de se seduzir um talhante. Que é uma sedução muito especifica. É por definição, muito diferente da forma aconselhada, de se seduzir correctamente um carteiro.
Naturalmente que eu não tenho nada contra esses blogues. Mais. Eu mesma sou sua leitora voraz, seguindo-os passo-a-passo. E confesso mesmo, muito eu tenho aprendido com eles. Só que, questões de moda não são definitivamente a "minha praia", pois muito pouco eu percebo do assunto. Além do mais, o meu dia-a-dia, sendo meu, será necessariamente desinteressante para ser aqui postado (e admirado por quem quer que seja). 
O que eu gosto mesmo de aqui relatar, são aqueles momentos que fizeram toda a diferença. Momentos que aparentemente sem importância nenhuma, tiveram a capacidade de nos mudar um pouco por dentro. E às vezes, de nos transformar verdadeiramente naquilo que somos. Sim, pois como já lá dizia o pensador: nós somos aquilo que somos, mais as nossas circunstâncias. 
Gosto de escrever sobre aqueles momentos que nos fizeram rir até perder o fôlego. Ou daqueles que nos irritaram até à medula, mas que passada a tempestade tropical, nós reparamos, que ainda por cá andamos e com alguma dignidade. Com mais alguma experiência acrescida. E que já nos conseguimos rir, de quase tudo por aquilo que passámos. Eu disse quase tudo . É que há excepções.
São esses pequenos momentos (a meu ver),  que por vezes têm a capacidade de decretar, se uma vida tem ou não valido a pena. Acredito plenamente, de que nada daquilo que nos acontece, é por acaso. E que à posteriori,  todo esse encadeado de acontecimentos terá um sentido qualquer. E estamos sempre a aprender, não só com o que nos vai acontecendo, como com aquilo que ouvimos contar.
Por isso tudo, muito eu gosto da "palheta"! Gosto tanto de conversar! Eu cultivo a conversa naturalmente. E mesmo com aqueles que eu não conheço. Gosto de observar a vida das pessoas que me rodeiam. É para mim um verdadeiro prazer, sentar-me numa esplanada e observar quem passa. Ver as pessoas por fora e imaginá-las por dentro. E assim, poder atribuir-lhes características e gostos que se calhar elas nem nunca tiveram, nem pensaram sequer um dia vir a ter. E gosto de viajar. Como eu gosto de viajar, Deus do Céu! Não fora a crise e a falta dos subsídios!? (Mas não falemos de coisas tristes. O que não é remediável, remediado está)... Gosto também muito de ler, aliás, como sabeis, a minha profissão é andar deliciosamente no meio dos livros, jornais e revistas. E também gosto muito de cinema!!! E adoro animais.
Mas para além disso tudo, claro está, tenho que falar aqui, do meu mais dilecto passatempo, ah pois tenho!!! Eu adoro rir! E acreditem, eu consigo rir por tudo e por nada, mesmo nas situações mais inusitadas que se possam imaginar. Dizem-me contudo que o tempo não está propicio a grandes risotas. É que existe a danada da crise e tal... A necessidade imperiosa de contenção de despesas. O roubo dos subsídios (vêem! Isto marcou-me mesmo muito. A raiva sentida até me pode provocar um esgotamento nervoso). Também temos o buraco do ozono, que não é nada pequeno. O tempo também já não é o que era antigamente, repetem até à exaustão aqueles que são mais entendidos nas apreciações atmosféricas. São aqueles que andam mais com o nariz no ar.
Mas eu estou muito consciente de todos estes lamentáveis aspectos. Não pensem que não! Só acho é que não adianta muito, andar p'ra aqui a carpir mágoas, do que aconteceu (e que por definição, é algo absolutamente irrecuperável), e conjecturar sobre tudo aquilo que irá acontecer no futuro. É que corremos o risco de  ficarmos iguais ao Medina Carreira. MEDO!!!
A fazer alguma coisa, façamo-la então. Mudemos o presente, mas sem os "dramalhões" indesejáveis
A minha experiência diz-me que a vida se torna muito mais aceitável se se adoptar uma postura mais positiva. E no processo porque não rir e rir até se ficar sem ar. Mas atenção, não façam como aquele outro que coitado, morreu com a gargalhada. O riso bem apontado é uma arma muito potente. Imaginem por exemplo estar defronte dum politico corrupto (vá lá. Façam um esforço, sei que é muito difícil de imaginar, pois estamos perante um espécimen em vias de extinção). Mas imaginem lá. Eu acredito que um riso continuo e na cara do sujeito, possa ser bem mais cáustico, certeiro e incomodativo, que dar-lhe um poderoso murro nos queixos (por mais que ele o merecesse).
Em suma: por poder dizer tudo isto (e por muito mais), eu tenho a testemunhar, que a minha experiência no mundo da blogosfera é  muito positiva. Procuro há exactamente um ano, trazer aqui (e semanalmente), um episódio que eu considere divertido. Mas tenho a mais profunda certeza, de que nem sempre o tenho conseguido. Para algumas pessoas, eu até nem deverei ter graça nenhuma!!! Mas convenhamos, é ponto assente, que por mais que se queira, não se consegue agradar a toda a gente. Nem Jesus Cristo conseguiu tal proeza, como repetia há uns anos valentes, uma extremosa tia que tive...
Mas eu confesso, é com alegria, que eu sinto a aproximação de mais um fim-de-semana. Não só porque vou parar um pouco, com as minhas rotinas laborais, como é chegada a altura de mais uma das minhas "postagens blogosféricas". Venho aqui um pouco, como alguém que regressa a casa. A uma casa de praia, por exemplo. Por aqui eu gosto muito de aportar. Sinto este espaço, como uma pequena assoalhada da minha existência. E reúno aqui um emaranhado (e alguém o caracterizou um dia, anárquico), ninho de recordações.
E para finalizar eu digo-vos: se por aqui também se sentirem bem? Pois isso muito me apraz. Façam o favor de entrar (e nem sequer precisam de pedir licença). Este espaço é vosso. E voltem as vezes que quiserem. Todas aquelas que vos apetecer. 
Quanto a mim, estarei por aqui, semana a semana. Pois acredito ter ainda muitas histórias para contar.
Mas hoje, como é uma edição comemorativa e especial, eu lanço-vos aqui um desafio totó: Tentem cantar as rimas que se seguem, ao som da seguinte música:


Parabéns a vocês,
Por me lerem os posts.
São pessoas de bem,
Pois não deram de frosques!

Tenham muita saúde,
E andem muito a pé.
Vivam com parcimónia,
Mas DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

E agora, para não vos cansar muito mais , pois a conversa de hoje já vai longa, aqui fica um pequeno excerto de um excelente filme (e como eu gosto do Woody Allen, mesmo em musicais). Este excerto é muito divertido, mas tem uma dupla função: para além de nos fazer rir, tem a capacidade de nos fazer reflectir. E são esses mesmo, os melhores momentos.



Sugestão de leitura p'ra semana (Ah pois! Como não poderia deixar de ser). "O Compromisso" de Elia Kasan.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
Para vossa informação: foi num blogue que eu descobri, que aquela situação das mulheres andarem com as calças tão apertadas, que à frente se consegue ver perfeitamente a definição das suas "xarifas", tem um nome: é o "Camel Toe", ou seja: "Pata de Camelo" Humm!!!
Estão a ver a utilidade existente na leitura dos blogues?...  :-)))


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O meu primeiro jet lag (conclusão).



Nessa noite tive um sono algo perturbado devido à insegurança sentida. Afinal eu tinha plena noção de que tinha a porta semi-fechada. Ou semi-aberta. Tudo depende do ponto de vista, e do lado aonde se está. Eu, acreditei que não iria ser importunada. E não o fui efectivamente. Mas tenho a dizer que aquela noite foi interminável. Parecia que nunca mais acabava.
Chegado o dia, eu penso em pedir o apoio paternal. Sendo o meu prestimoso papá, reformado há vários anos, achei que ele iria ajudar a sua dilecta e única filha (também não tem muito por onde escolher, que faça com que seja possível, entrar em conflito com essa sua preferência).
Telefono-lhe assim, e logo de manhãzinha. E, um pouco mais tranquila, eu narrei-lhe todo aquele meu triste fadário. Depois... eu esperei ansiosamente a sua resposta. Tudo indicava que eu não iria levar, com mais nenhuma nega. Para isso já havia bastado a do perverso bombeiro e a do senhor Eduardo (ainda no início da sua apresentação). Sim, e depois porque acreditamos que a família deve de estar presente, nos momentos mais difíceis. Negas em geral, nós recebemos de quem pouco nos considera. Pelo que esperançada eu... aguardei, aguardei... mas comecei a estranhar muito, a demora da resposta. Mas afinal, o que é que se estava a passar?
Finalmente do outro lado da linha (sim eu estava a telefonar de um telefone fixo, daqueles bem antigos) eu acusei uma reacção. E comecei a ouvir um suspeito pingarrear, como quem tem necessidade de limpar a garganta, para iniciar um longo, profundo e inquestionável discurso. E comecei por ouvir: "Pois filha... eu não posso. Não contes comigo!" 
Mas como era possível? É que, em todo este processo nem se escapava o meu próprio pai. Fiquei momentaneamente sem reacção, muito pálida e quase a cair para o chão. Depois... e com o sangue regressado ao rosto, eu fiquei algo apalermada. Seria possível? Mas continuei a ouvi-lo: "Pois... é que hoje eu tenho coisas combinadas. Tenho que ir rezar aos fiéis defuntos. Lamento muito, sim?"
"Boa", pensei eu. Bem está o mundo, onde um senhor digno de confiança, de comportamento irrepreensível e dedicado, (pelo menos até àquele data), dá preferência aos defuntos, em detrimento da sua adorável, e quase-sempre presente filha. Além disso, eu estou muito mais desprotegida que os desencarnados. Estou viva mas a tentar sobreviver (com alguma classe), neste Vale de Lágrimas. Mas confesso, perante tal argumentação e dado o seu teor, eu nem sequer me atrevi a tentar demovê-lo daquele seu compromisso. Porém também me parece, que se o tentasse, eu não iria ter qualquer sucesso. E pude chegar a  uma tristíssima conclusão: fora muito mais fácil convencer o senhor Eduardo. Alguém que eu não conhecia de lado nenhum.
Depois, eu fiquei p´rá ali a perguntar-me a mim mesma: "Mas será que os defuntos já não estão bem encaminhados?" "Terão eles também problemas com as suas fechaduras?" "Será que a reza, para a sua/deles intenção, não poderia esperar só mais um bocadinho?" Afinal e vendo bem as coisas, habitualmente, o dia até tem vinte e quatro horas. E aquele dia não me pareceu que fosse diferente dos outros. E numa hora somente (e combinando bem a coisa), a fechadura da minha porta seria arranjada. Depois, ele poderia rezar aos defuntos, nas vinte e três horas que sobrassem. Será que não chegava?
E depois, continuei a congeminar sobre o assunto: Será que existe alguma hora mais propícia à reza? Haverá alguma altura (do dia ou da noite), em que os defuntos estão mais livres de encargos e consequentemente mais capacitados para ouvir as súplicas e as mensagens daqueles que ainda por cá estão? Eu tenho todo o respeito por tais temáticas. É que mais tarde ou mais cedo, eu também para lá vou. Vamos todos. Nisso, lamento dizer, não há lugar a finais felizes. Mas convenhamos, o que me custou um bocado a aceitar, foi a necessidade de toda aquela urgência.
Bem, mas de facto eu não cheguei a conclusão nenhuma. Não obtive qualquer resposta, pois nada lhe questionei. Mas também, se eu lhe fizesse tais perguntas, o mais certo seria ele deserdar-me. Ou então, dar-lhe uma coisinha má. Se resistisse ao abalo, o mais previsível era ir pedir ao senhor prior, a minha expulsão da grande família católico/vaticanesca. Quem sabe se (e num esforço concertado), eles não me conseguissem desbaptizar, por exemplo?...
Fui assim para o meu emprego, um bocadinho menos confusa. O fuso horário de cá, começava-me a fazer todo o sentido.  Mas não pude evitar, ir para o trabalho com o coração apertadinho. Durante todo o dia, eu estive a pensar (e a antever), a possibilidade de ter a minha casa visitada por gente, que eu jamais desejara recepcionar. Mas, não. Nada de funesto aconteceu com a graça de Deus. É que nós conseguimos entender-nos muito bem e... sem intermediários.
Contudo não fora também a ajuda, de um justo, muito competente e bem intencionado chefe (que permitiu que eu naquele dia saísse umas horas mais cedo do emprego), e eu continuaria a ter problemas com o raio da fechadura e consequentemente com a segurança da minha casa e quejandos.  Mas... pensando bem, é sempre conveniente, falar bem do chefe. É que nunca se sabe, se o mesmo não vem aqui ler os meus posts, de tempos a tempos. E depois consiga identificar esta, que aqui se assina. E que aproveita a deixa e... se despede com amizade.
Sugestão de leitura para esta semana: "Os Pecados dos Nossos Pais" de Paul Bailey.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E... boas leituras.



Uma ressalva é devida: eu despeço-me de Vossas Excelências, meus queridos leitores, e só por esta semana. Não me despeço do meu trabalho, cruz, credo, canhoto (três vezes)!!!
Quanto aos jet lags, quem me dera ter mais, muitos mais. Era sinal que eu tinha condições para viajar mais do que aquilo que eu consigo. E dos países do oriente, não me escaparia nenhum.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! :-)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O meu primeiro jet lag (parte III).


Ao terminar a conversa com o perverso, e agora aparentemente apaziguado bombeiro, eu decidi seguir-lhe as recomendações. E foi com o telemóvel dos vizinhos, que eu liguei para o Sr. Eduardo, que era o tal sujeito que arranjava fechaduras. 
Depois de saudar efusiva (mas esperançosamente), o referido artífice, eu lá lhe faço todo o choradinho da minha desventura. E de voz quase em pranto, eu comunico-lhe toda a minha desgraça com os pormenores mais tocantes. Como era o facto lamentável de estar na rua, em pijama... enfim vocês já estão devidamente informados de toda a situação. O senhor Eduardo ouviu-me muito atentamente. E quase que consegui visualizar, que pela sua face generosa e terna (assim eu calculava), já lhe desciam duas lágrimas vibrantes e muito caudalosas. E também já devia de estar a fungar um bocadinho, tal já era a emoção por si vivenciada.
Mas por fim lá me respondeu: "Pois eu lamento muito, minha senhora. Estou com muita pena daquilo que lhe sucedeu. Só que eu não posso ir aí. É que eu já estou de pijama. Estava agora mesmo a fazer as minhas orações da noite, para depois poder ir para a cama. E depois, espero sonhar com os anjos." 
"Era só o que me faltava", pensei eu. Ali estava eu, a falar com um ser muito bem intencionado e bondoso. Muito respeitável e religioso, mas... sem qualquer vontade de ajudar quem dele tanto precisava. E a sua ajuda abnegada e efectiva à resolução do meu problema, bem poderia ser a prova que  demonstrava inequivocamente, todo o seu amor pelo próximo. A prova evidente de que ele sempre auxiliava quem dele mais necessitasse. Que tinha um bom coração, sempre a palpitar. Mas...
E eu que continuava com um problema. E, em desespero de causa, lá lhe disse: "Pois senhor Eduardo. Por aquilo que eu estou a ver, posso constatar que nós os dois, devemos de ter várias coisas em comum. Por exemplo, ressalta-me agora o facto de que neste momento preciso, nós estamos ambos de pijama, não é verdade? Só que o senhor está no calorzinho de seu lar e quase que no vale dos seus lençóis, enquanto que eu... estou na rua, a sofrer as agruras de uma invernia antecipada. Estou p'rá aqui cheia de frio. Quase que já sinto um cubo de gelo pendurado no nariz! Acredito plenamente, que os seus lençóis floridos, já estejam a chamar por si. Assim como o seu edredão de penas... Mas eu... estou aqui, sem poder entrar em casa, tão amargurada!... E com saudades do meu gato que sem envergar qualquer pijama, também ele já deve de estar esparramado na sua caminha. Se calhar (e a esta altura), ele até já foi comer um bocadinho da sua ração..."
Foi com estas tiradas calculadas e oportunas, que eu senti logo ali, que havia conseguido comover o senhor Eduardo até à medula. Pelo que ele me respondeu: "Pronto, está bem, eu vou aí ter consigo. Mas onde é que você mora, afinal?" Yupi!!! Eu conseguira! E efusivamente, eu dei um beijinho repenicado no Nokia da vizinhança.
Depois e sem perder tempo, eu resolvi descer os dois lanços de escada e ir para o pé da minha porta... E o meu vizinho velhinho acompanhou-me também (e em solidariedade), envergando com orgulho, um bonito robe bordeaux. E que bem que ficámos os dois ali ao relento!... E como eu ainda estava tão confundida com os fusos horários, Santo Deus! Passado muito pouco tempo, o meu vizinho teve a lembrança de me pedir a chave, pois também ele queria tentar abrir a porta. 
Num primeiro momento, eu fiquei muito tentada em lha recusar, mas que desculpa é que eu podia ali arranjar? Afinal o homem parecia que estava muito bem intencionado. Só me queria ajudar a ultrapassar com sucesso aquela minha desdita noctívaga. Bem, além do mais, o mais certo é que ele não iria conseguir abrir a porta. Ele que é tão velhinho, tão frágil e tão tremente... E, passo-lhe a chave para as mãos. Num ápice, eu verifico que o velhinho, tem dificuldade em acertar no buraco da fechadura, tenta uma vez, tenta duas, mas como é determinado (e teimosinho), lá vai tentando. Bate com a chave à direita da fechadura, depois à esquerda, depois deixa-a cair... Não restam dúvidas. E eu adivinho-lhe ali a sua inoperância total, em ultrapassar com êxito aquele seu objectivo. Mas como estávamos ali ao relento e sós, aquele sempre podia ser um momento de diversão. Quase um jogo. Ou uma prova desportiva. Algo que fizesse com que o tempo de espera pudesse passar mais depressa. E ao fim de onze tentativas, o vizinho conseguiu finalmente acertar no buraco. Sorriu-me triunfante e com a dentadura a brilhar. Depois, ele virou a chave levemente para a direita e... operou-se ali o milagre. É que a porta abriu-se às mãos do frágil velhote. E eu que havia tentado tanto...
E agora? Verifiquei rapidamente que tinha ali outro problema. Como é que eu agora ia explicar ao abridor, profissional de portas (o senhor Eduardo), toda aquela renovada situação? É que o referido profissional, naquela noite, já havia estado de pijama e a fazer as suas orações. E a prepara-se para ir para os Braços de Morfeu. Como é que ele iria reagir ao facto, de que a minha problemática e casmurra porta afinal, já estava aberta? É que fora justamente para a abrir... que havia saído de casa. O que é que ele iria dizer? O homem até podia pensar que eu lhe mentira. Que eu estava a ser perversa e com vontade de enervar quem estava e em paz, recolhido na sua casa. E com a família. Por fim o senhor Eduardo lá chegou, e eu consegui explicar-lhe com alguma reconhecida credibilidade, o que efectivamente havia acontecido. E o meu muito idoso vizinho, foi assim o herói da noite.
Mas a fechadura estava efectivamente avariada. Era necessário arranjá-la. Só que o arranjo só poderia ser executado no dia seguinte, já contando com a luz do dia, e com as lojas de ferragens abertas. Mas o dia seguinte, era também o meu primeiro dia de trabalho a seguir a umas merecidas férias. Pois, adivinharam, a aventura iria assim prosseguir.
Sugestão de leitura para esta semana: "Uma casa em Portugal" de Richard Hewitt.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E boas leituras.


 Esta história terá a sua conclusão para a semana.