Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 27 de abril de 2013

"Meu" Brasil, brasileiro.



“E as viagens senhor! Porque me dais tanta dor! E me fazes sofrer assim!”
Desabafo dirigido a Vítor Gaspar. Esse grande mago da alta finança. Aquele que tem o condão de conseguir adivinhar, mas… sempre ao lado.
Eu gosto de viajar. Ponto. Eu gosto muito de viajar. Ponto. Eu gosto muito de viagens que incluam o avião. Ponto. Eu gosto de viagens que incluam países localizados noutros continentes. Ponto. Eu tinha direito subsídios (de férias e de Natal) que já não tenho! Ponto. E tenho comigo, somente duodécimos e promessas. Ponto. Que são dividendos, que as companhias aéreas, e as de viagens se recusam a receber. Ponto final.
Mas tenho cabeça, inteligência e memória. Ainda tenho. E com a graça do Senhor, (do Divino, e não do lamentável mago ministerial) E como não posso zarpar fronteiras fora, viajo através do meu pensamento e das boas recordações que felizmente eu guardo. Estás a ver Gaspar? Se bem que eu tenho a certeza que te estás a marimbar para as minhas angústias assim como para as angústias da grande maioria dos meus conterrâneos. E muitos dos lusitanos, que infelizmente estão a viver muitíssimas privações. E de forma muito mais angustiada do que eu. Lamentavelmente.
Quando eu fui ao Brasil, há já alguns anos, eu fui uma pessoa muito feliz. O Brasil (e até ao momento) é só o país que eu mais gostei de visitar de todos os que conheci; cerca de trinta e cinco. E para mim, só existe a excepção, deste rectângulo à beira mar plantado. Que é um belíssimo país, mas que está muito mal governado.
É já forçado referenciar que o Brasil é quase um continente, cheio de biodiversidade, com gente amigável e muito simpática. Existe lá o crime e a violência, é verdade. Mas também existe por cá. E infelizmente cada vez em maior número. E não existem mesmo, desacatos em toda a parte? É que é muito injusto avaliar-se todo um país, só porque alguns elementos se portam… menos bem.
E Deus meu: haverá maravilha que se compare às Cascatas de Iguaçu? Único local de nota e passível de ser palco para uma fantástica Lua-de-Mel. É só a minha opinião, claro está. E vale o que vale. E como eu gostava de ver de novo, os inigualáveis e atrevidos quatis. Que são uns animaizinhos que estão mesmo, mesmo convencidos… que são pessoas. E o que a minha mãe se teve que debater com um deles, que queria à força ficar-lhe com a sua malinha de mão? Se calhar, combinava mesmo com o seu modelito.
Esse local tem só as mais belas e fantásticas borboletas que eu já vi até aos dias de hoje. De todas as cores, tamanhos e feitios. Muito mais bonitas que as da Costa Rica. Que são gigantóides e azuis. E todas muito parecidas… umas com as outras. Nas Cascatas também ocorrem magníficos e incontáveis arco-íris. E é da praxe não é? Existe humidade em perfusão. O Sol a bater. E temos ali garantido, um belíssimo espectáculo natural. Absolutamente inesquecível!
Das gentes brasileiras, lembro algumas com saudade. E que belas conversas, eu por lá entabulei. Recordo-me particularmente de um simpático porteiro, que laborava num hotel em Curitiba. Esse profissional “perdia-se” literalmente a falar connosco. Informou-nos que ele tinha familiares oriundos do país lusitano. E não queria que nos viéssemos embora. Convidava-nos reiteradamente a permanecer por lá… mais tempo. E por mais que lhe disséssemos que tínhamos data fixada para o regresso, ele achava que podíamos sempre fazer um esforço suplementar e ficar por lá… só mais uns dias. Quem me dera!
Recordo que o grupo com que viajei, foi para terras de Vera Cruz, com roupas apropriadas para no máximo, meia estação. Ora ao irem para paragens localizadas a sul do Brasil e no mês de Agosto, verificaram que o calor não era por lá muito abundante. Muito antes pelo contrário. Pois. E a roupa tornou-se manifestamente insuficiente para o frio que por ali se fazia sentir. Só que aquele porteiro, contudo estava prevenido. E no meio de uma conversa em que nos aconselhava a ir visitar e consumir, num determinado restaurante que era propriedade de um descendente de portugueses, e ao ver-nos a massajar os braços, para nos aquecermos um pouco mais, ele disse-nos:
“Sabem, antigamente, eu também passava aqui muito frio. Mas agora não.” E subindo as suas calças até aos joelhos, ele deixou-nos observar as suas complexas ceroulas, que incluíam até uns atilhos. Era desta maneira que ele se conseguia ali manter bem quentinho. E muito conversador.
Recordo que na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, um vendedor/fazedor de peças com pedras semipreciosas, se abeirou de nós e nos mostrou o seu trabalho. Estávamos já alojados no hotel. E eram peças magníficas. E fê-lo de forma tão amigável, que a conversa decorreu prazerosa e demorada. De entre tantos assuntos, recordo que ele falou do quanto apreciava a gastronomia portuguesa. Apreciando particularmente o facto de cozinharmos com vinho. O que ajuda a tornar a comida portuguesa, particularmente deliciosa. E isso é a mais pura verdade, não é? A conversa foi de tal forma proveitosa, que fizemos com que o senhor vendesse parte substancial do seu trabalho a outras pessoas, que por ali também permaneciam. No fim, e como fizemos boa e justa publicidade à sua habilidade (e o ajudámos nas vendas), ele presenteou-nos com algumas das suas maravilhosas peças. E não eram das peças mais pequenas, não senhor! É que pudemos escolher de entre todas, aquelas de que mais gostávamos. Recordo esse serão, com muita alegria e alguma nostalgia.
Relembro ainda, que ao andarmos pelas ruas, termos sido abordados pelas mais variadas pessoas. Tínhamos sido advertidos, para que não déssemos grandes confianças, pois corríamos o permanente risco de sermos assaltados. Eu, inicialmente fiz integralmente o que me havia sido recomendado. Mas o meu pai, não! E lá conversava ele com toda a gente, perguntava direcções, a localização de monumentos… e depois, o papi fazia conversa de tudo…
E, eu (e muito receosa), lá o acompanhava. Sei que não tivemos qualquer problema. Conhecemos muita gente que nos dizia ter ainda familiares, nas mais variadas zonas de Portugal. E ainda bem que o meu pai não é pessoa lá muito crédula, nem particularmente temerosa. Da experiência, gostei de ouvir e ressalvo, a resposta de uma brasileira de cepa, a uma Portuguesa convencida. Que se estava ali a armar em importante. Estávamos nuns sanitários públicos, ao final de um dia. As condições de higiene eram as possíveis, atendendo à circunstância do mesmo espaço estar a ser usado por muita gente e ao mesmo tempo. E a portuguesa queixava-se “de toda a porcaria que ali existia, credo!”. Então a referida brasileira, ao ouvir tal impropério clamou: “Mas o que é isso, de virem para aqui falar mal do meu país? Há porcaria, há? E lá em Portugal, não é a mesma coisa? É que eu já tive oportunidade de visitar o vosso país, e tenho a dizer que também vi lá muito lixo. Igual ou superior ao que aqui está presente, nesta toilete”. E foi a resposta mais adequada e merecida, para aquela triste e inconveniente lusitana, armada aos cucos.
E o Rio de Janeiro? Meu Deus, mas que bela cidade! À frente dela, eu só coloco a minha Lisboa. Que foi a cidade que me viu nascer. E é também uma cidade muito bonita. Mas o Rio de Janeiro, senhores! É efectivamente uma das mais maravilhosas cidades do mundo… E a extensão e a beleza que se enxerga, ao caminhar por toda aquela Avenida Atlântica! E o percurso que se têm que fazer, para chegar ao Corcovado, Meu Deus! Todo aquele verde, e a biodiversidade! E a vista maravilhosa que se tem lá de cima! Adorei também ir ao Pão de Açúcar. Deus do Céu! Mas quando é que eu poderei lá voltar, oh Gaspar! Pensando bem, o governo quer que emigremos. Que são oportunidades. Bem!...
Há noite, e já quase na altura da partida, tivemos oportunidade de degustar um magnífico jantar no hotel. Hotel que ficava localizado mesmo à beira do mar. Atrás de nós, estava localizada a Favela da Rocinha. O jantar fora regado a champanhe, que pudemos repetir até ter vontade. E os empregados do Hotel sempre tão simpáticos. E ali tão disponíveis, para conversar connosco! Todos, mesmo todos, diziam viver na Favela supracitada. E lá nos iam informando dos passos que tinham que dar, para chegar a casa. Uns conseguiam ter transporte até bem perto da sua habitação. Outros tinham que subir ainda mais alguns metros. Mas havia lá um, que depois de abandonar o transporte que tinha que apanhar, ainda tinha que subir, mais de trezentos degraus. Trezentos degraus!
Mas eu estou convencida, que depois de todo aquele grande esforço, e após um esforçado dia de trabalho, ele tenha acesso privativo, a uma maravilhosa, porém única paisagem.
Sugestão de leitura para esta semana: “Viva o Povo Brasileiro” de João Ubaldo Ribeiro.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo. (*)



Os livros, ai os livros! Esses nossos tão grandes amigos! Seres com vida própria, que nunca nos traem, nem nunca nos viram as costas. Nós é que, por preguicite aguda, por inércia ou mesmo por mau gosto, é que por vezes lhes viramos as costas a eles.
E depois existe o dia 23 de Abril, que é o dia consagrado aos livros e às leituras. Dia para referenciar todos os benefícios tidos e conseguidos com as leituras efectuadas e a efectuar. É o dia em que os bibliotecários se devem sentir muito felizes. E contam encontrar à beira deles, seres igualmente felizes. Que lêem muito e que querem ler… sempre mais.
Nesse dia, e em muitas das bibliotecas públicas, oferece-se uma rosa vermelha a quem lá for requisitar leituras. Costume copiado desde a altura em que (e na Catalunha), se iniciou o belo costume de: o cavalheiro ofertar um livro à dama, e a dama em troca, ofertar uma rosa carmim ao cavalheiro. É por essas e por outras que a mulher é muitas vezes mais dotada intelectualmente… do que o seu parceiro de aventuras. Desculpem-me lá a franqueza.
Só que os tempos actuais são de extrema miséria. E os costumes? Esses tendencialmente vão ficando esquecidos, juntamente com as boas intenções. E cada vez se comemora menos o que deve de facto de ser comemorado, pois o vil metal, que dá tanto jeito, vai escasseando cada vez mais.
Neste ano, e lá no meu sítio, ainda se vai comemorar tão importante efeméride. Felizmente. Mas, e para o ano que vem…? Pois logo se verá.
Vem todo este entroncado de ideias torpes e inconsequentes a propósito de um sonho que eu tive por estes dias. E passo a citá-lo:
Passa-se na Biblioteca onde eu felizmente laboro. Mas o ano era já o de 2014. O meu extremoso chefe (e numa reunião) explanava a todos, a sua enorme preocupação. O ano de 2014 era pois um ano de crise severa (mas não o será mesmo? Poder-se-á tratar de matéria para uma publicação de Ficção Científica? Não sei, pois não consigo fazer futurologia. Mas suspeito que o Gaspar vai conseguir... lixar o resto).
E o chefe lá continuava. Estava arrasado pois (e dizia ele) nesse ano não haveria dinheiro para as convencionadas efemérides alusivas ao tema. Então ele aproveitava e decretava ali, que nenhum escritor seria convidado. E também não se ofertariam rosas a ninguém… Mas, (e seguindo sempre o raciocínio da chefia), o dia teria que ser comemorado de qualquer maneira. E como chefe que é chefe tem sempre mais informação que nós, ele já havia decidido, como se procederia à supra citada comemoração.
Ora, ali ele decretou, sem dar vazão a qualquer opinião contraditória, que a sua colaboradora Elia. que é uma solteirona, ainda bastante atraente, teria que se casar com Dario que é um colaborador divorciado, e de muito bom carácter. Ali estava dada a ordem. E nada de discussões. Mas parecia à partida, que não havia qualquer ligação entre os dois. Nem vias disso. Além do mais, o que é que um enlace matrimonial poderia beneficiar a causa dos livros e da leitura?
Mas o chefe lá continuava. Disse, que de nada se preocupava, com a eventual revolta da sua colaboradora Elia, que ao ouvir tal veredicto, não conteve as lágrimas nem a sua grande angústia. A mesma dilacerada técnica, lá dizia baixinho, que nada daquilo fora previsto, quando ela havia assinado o seu contrato laboral. Mas o chefe estava irredutível. Não queria saber disso para nada. Ele já havia decidido, e nada o demoveria dessa sua tão importante decisão. Pelo que ele lá prosseguia: Pois o casamento e o que daí decorresse, não era da sua particular preocupação. E se eles não quisessem consumar o enlace? Pois era só problema deles. O que se iria aproveitar, era a cerimónia matrimonial, para se poder falar de livros. O enlace decorreria no espaço compreendido da Biblioteca Pública, mais concretamente na sua Sala Polivalente. E conforme aquilo que se espera em idênticas circunstâncias, o noivo Dario, esperaria pacientemente a sua noiva, no altar improvisado. E tanto o padre, como o chefe (a quem caberia realizar as leituras da Biblia), aproveitariam todo o momento, para falarem de livros. E mais nos falou (naquele meu sonho), aquele tão decidido chefe. Pois decretara que a Paula que é uma outra funcionária, mas que nem sequer está agregada ao Serviço das Bibliotecas, teria a incumbência de procurar a Quinta mais adequada, onde posteriormente se serviriam os morfes.
E quanto à minha pessoa e mais a Cátia (que é outra jovem colaboradora)? Pois ficaríamos com o encargo de escolher o vestido da noiva. Ora quanto à Cátia eu não posso dizer nada. Mas em relação à minha pessoa, tenho a dizer que eu nunca me vi em tão “importantes assados”. Mas a coisa teria mesmo que ser feita. Doesse a quem doesse. E seria tudo em prole da causa do livro e da motivação da leitura. À partida, nada a obstar como é evidente. A não ser o inusitado de toda aquela tão estranha situação.
Tenho a dizer, que durante o meu sonho, muito eu me ri, à procura do vestido mais perfeito para a Elia, que entretanto chorava copiosamente, lamentando toda aquela sua triste sina. Sacrificava-se assim toda a sua situação de ser livre e dona das suas decisões, em prole da sua profissão. Com todos os seus colegas a dizer-lhe que o sacrifício teria que ser efectivado. Que fazia sentido. Pois vale muito mais, ter trabalho que liberdade. (?). Meus amigos, eu acredito que a Troika e o governo português, ainda vão ter que gastar muito dinheiro, na comparticipação de tratamentos psiquiátricos a realizar em todos nós, seus fiéis espoliados. E o primeiro sintoma de que algo poderá estar mal, será mesmo… o de começar a ter sonhos esquisitos.
O sonho termina com a intervenção inteligente de Lúcia que sendo uma colaboradora já cinquentona e muito prevenida, lá acabaria por dizer ao chefe, sem qualquer temor: “Olha, tu dizes não ter dinheiro para gastar, com aquilo que é habitual acontecer nesta particular efeméride. Mas já pensaste bem? É que vais gastar muito mais, ao promoveres o casamento que aqui decidiste tão unilateralmente. E já viste o estado de revolta, de angústia e de real sofrimento da funcionária que tu queres à força, que fique noiva?"
Foi com este alerta, que eu acordei.
Tenho a dizer, que este meu sonho (e já acordada) me provocou imensas gargalhadas. Ainda mais quando telefonei para a Biblioteca e quem atende é o “noivo”, que a meu pedido, lá me passou a chamada para a sua “noiva”. Sem sequer desconfiar minimamente dessa sua “nova” condição.
Foi só um sonho, nada mais do que isso. Mas teve a particularidade de, (para além de muito me divertir), me chamar à atenção para a preocupação que devemos ter com os anos vindouros. Particularmente com o ano que há-de vir, que é unanimemente considerado, como o pior de todos os anos.
O livro deve de ser motivo de celebração contínua. Não o deverá ser somente, no dia 23 de Abril. Data em que reza a tradição, nasceu e morreu o grande escritor e pensador inglês, Shakespeare. Viva o livro! Viva a leitura! E sempre! Ainda mais quando se sabe, que existem por aí alguns, que ocupando os lugares de decisão, sonham com o dia em que o livro possa vir a ser erradicado da face da terra. Ou então ser uma peça de interesse, só para alguns (muito poucos), que serão amplamente referenciados e localizados.
É que muito mal está uma sociedade, que renega e se esquece das suas leituras. Ou mesmo que desconhece o prazer imenso que é, sentar-se e deleitar-se na companhia de um livro. É que procedendo desta maneira, ou seja, ler aquilo que nos der “na real gana”, para além de nos apurar (e continuadamente) o sentido critico e interventivo, nos ajuda e permite reconhecer a profunda incapacidade por parte daqueles que nos (des)governam. Isso é mais do que evidente.
Mas mais importante do que tudo isso, ler faz com que a pessoa, jamais se sinta sozinha.
Sugestão de leitura para esta semana: “As Velas Ardem até ao Fim” de Sandor Marai.
DIVIRTAMSEMAZÉ!



(*)Nota: Frase de Paulo Francis (1930-1997) Escritor, Jornalista e Critico de Arte Brasileiro.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A pena e a tinta, são as melhores testemunhas.



E quem é que não conhece aquelas pessoas que andam na rua, (e também batem às portas), sempre muito bem vestidinhos, mas de forma sóbria, com uma pastinha na mão e alguns panfletos na outra? E dirigem-se a nós sorridentes, dizendo que andam a pregar a palavra do Senhor? Mas quem é que lhes encomendou a evangelização?
A tudo eles sorriem, mesmo à nossa má vontade em recebe-las e estar para ali a ouvi-las. Falam sobre o Fim-do-Mundo que está iminente. Sobre os escolhidos que são muito poucos. Se eu fosse a elas, começava a duvidar. Não estarão as vagas já totalmente preenchidas?
Depois mostram-nos a revista da sua adoração, que é a Sentinela. Onde e, em perfusão aparecem gravuras, onde os tais dos escolhidos aparecem também (e sempre a rir), em pleno convívio com os animais mais ferozes. E meus amigos, eu juro. Certa vez em vi lá uma imagem em de um senhor, que era a cara do Pinto da Costa. Ou então era o diabo por ele. Só que o diabo não deve de ter lugar… na revista Sentinela. Ora o tal do senhor que era a cara chapada do Pinto da Costa, aparecia sorridente e com uma grande águia no ombro. E estavam ali os dois, em perfeito e encorajador convívio. Será isto um sinal? Estará o Apocalipse a acontecer? Não… Eu acredito que ainda teremos que andar por cá mais algum tempo…
Nunca lá vi, foi o Jesus com as suas madeixas multicoloridas e a falar calmamente: “Eles sempre estiverem preparados. Pertanto já ser campiães!…” Pois não.
Num Domingo já longínquo o Sr. Amadeu estava a dormir no bom descanso. Naquele dia, já havia trabalhado toda a santa noite e depois tinha ido à sua santa missinha, como era aliás o seu hábito. Mas bateram-lhe à porta. Estremunhado o Sr. Amadeu lá vestiu o seu robe e foi ver quem era. Julgava ser algum vizinho, ou mesmo alguém da família. Ou então aquela vizinha jeitosa, que está sempre a deixar cair a sua roupa interior do estendal. Pois não era nenhum deles. Eram só duas senhoras, que vinham pregar. E o senhor Amadeu, que é um homem calmo, cordato e até um bom cristão, ao vê-las, ficou de todas as cores. E pôs-se a gritar: “Oh minhas senhoras pela vossa saúdinha, vocês tenham paciência. E decorem bem esta morada, por favor. É que se me vêm chatear mais alguma vez, eu corro-vos da minha porta, com um balde cheio de água. E nem prometo que a água seja limpa!”
Desconhece-se à partida, qual é que foi a reacção das crentes. Mas é de crer, que (e sempre a sorrir), elas tenham descido as escadas com muita rapidez.
Uma vez calhou-me a mim. Ia eu muito descansada, a pensar na vida, quando sou abordada pelas seguidistas declaradas da fé divina e exclusivista. Uma dupla abeira-se de mim e começa a predica. E eu sempre a dizer que não estava nada interessada em converter-me naquele momento. Mas que se eu tivesse qualquer dúvida, com certeza que as procuraria. E isto ao invés de as dissuadir, encheu-as foi de coragem para continuar. Pelo que era mais isto, e era mais aquilo…
Então eu já um bocadinho saturada com a insistência, lembrei-me de algo que eu já ouvira e respondi: “Tenham paciência minhas senhoras! Mas é que eu nem sequer vi o acidente!”
Bem… inicialmente, elas não pareceram compreender aquela minha provocação. Mas depois, reflectiram melhor e apreciaram o real sentido da coisa. E foi aí que eu as vi a sofrer, uma verdadeira metamorfose. Primeiro, elas abriram muito os seus olhos, sem rímel ou outras pinturas. Depois ficaram com as suas bochechas da cor das amoras. E só no fim, bem lá no fim, é elas cruzaram os dedos e se puseram a gritar:
“Vai de retro oh Satanás. Oh Filha de Belzebu! Espírito do mal! Sobrinha-neta do Dante! Comadre do Anticristo! Mefistofélica no activo!” E olhem só… elas foram por ali fora...
Deixei de as ouvir, quando elas me acusaram de ser a causa maior, de todos os males do mundo…É que eu só queria mesmo, que elas se calassem. Imaginem lá se mais alguém soubesse?…
Só que essa não foi a última abordagem à minha pessoa, por parte das ditosas e mui insistentes senhoras, longe disso. Quando me vêm, e como eu não tenho nem um par de corninhos na testa, nem o tridente (pois deixo-os muitas vezes em casa, nos dias de maior calor), elas não me reconhecem. E tentam mais uma vez, levar-me para os caminhos do bem. Que por inerência são somente os trilhos calcorreados por elas.
Mas eu agora, e mais velha que sou, tento moderar um pouco a minha retórica. E de uma forma bem mais ligeira, tento livrar-me daquela sua constante perseguição. É que eu receio, que alguma dessas “bem-intencionadas senhoras” possa vir a sofrer de uma síncope nervosa, com o meu dialogar. E sem querer, poder mesmo subir ao etéreo lugar, antes do previsto. E depois? Qual é que seria a minha responsabilidade no processo? Como é que eu ficaria? É que positivamente, eu até desconheço, como é que estará a lotação da casa. 
Sugestão de leitura para esta semana: “As Pessoas que nos Batem à Porta” de Patricia Highsmith.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 13 de abril de 2013

Lúcio, o professor.


Existiram pessoas que morrendo definitivamente para a vida, (porque perderam num dia do passado todas as suas funções vitais), permanecem vivas nas mentes de quem com elas conviveu. Esse é o caso de Lúcio, o professor.
Lúcio nascera no ano de 1905, quando a Alvorada da Republica ainda tinha que esperar mais cinco anos. Aos sete ou oito, ele foi para a escola. Ele e muito poucos mais, porque os tempos eram difíceis por cá. Mas quando é que não o foram, senhores?
Na escola ele aprendeu, tudo aquilo que o professor lhe ensinou. E com muita voracidade, durante os quatro anos de instrução a que teve direito. Na escola aprendera as formulas que o fizeram gostar muito de ler. E para todo o sempre. Casou já tarde e teve somente um filho. Filho que ele viu partir para o infinito, quando aquele contava somente, dezasseis ou dezassete anos de vida. E Lúcio perdeu ali todo o seu chão, naquele espaço rural. Com vidas tão duras e sofridas.
Contudo e apesar de manifestamente a existência lhe ter sido bem madrasta, Lúcio não pereceu para a vida. E já durante a velhice, (que foi a altura em que eu o conheci), ele lia com muito empenho, tudo aquilo que lhe aparecesse às mãos. Os seus vizinhos, sabedores daquele seu gosto, juntavam todos os jornais que conseguissem reunir. Pelo que Lúcio não se privava de ler as notícias já passadas, mas não passadistas, porque estas coisas, regra geral estão sempre muito ligadas.
Aos livros do filho morto, (os da instrução primária, pois também não havia sido possível pagar mais instrução), ele guardava-os religiosamente na melhor gaveta da sala. Mas não os abandonara ou esquecera ali. Não!
E por vezes nós petizes, lá pedíamos ao Lúcio, que nos deixasse ir ver os tais livros. Ele, com um sorriso nos lábios, lá acedia. Então, juntos, nós relíamos pela enésima vez aquelas velhas lições, já com a tinta meio a sumir-se. Se calhar já com saudades dos jovens olhos que as leram com entusiasmo. E pela primeira vez.
E entre dentes, o Lúcio suspirava: “Ai o meu filhinho!” Pelo que a disfarçar, ele lá limpava mais uma lágrima.
Recordo com saudades as verdadeiras lições dadas por aquele tão importante doutor. A recitação das destrava-línguas, que ele tão facilmente aprendera aquando andara por outras terras, na execução das tarefas agrícolas cíclicas e que por definição exigiam muita força de trabalho. Irei colocar algumas delas, neste blogue.
É com saudade que recordo as inúmeras contas que ele fazia, em papéis rasgados, dos sacos que continham os adubos para a sementeira. Ou então, dos sacos das farinhas, para a alimentação dos animais. Contas que eram sempre feitas com minúsculos lápis de carvão. Depois, esses pequenos papéis ficavam espalhados um pouco por todo o lado. Papéis que continham contas e mais contas. Muitas contas. Mas as contas eram sempre contas… de dividir…
Havia ainda espaço para as artes plásticas, e nessas alturas o Lúcio dedicava-se ao desenho. E o que é que ele desenhava para nós? Burros. Ele desenhava somente burros. E quando nós lhe sugeríamos que já estava na altura de ele evoluir, e passar para os desenhos de cavalos, por exemplo, ele ria-se muito e apenas dizia: “Aí estes garotos…” Desculpava-nos sempre o atrevimento. E das suas mãos já sofridas pela gota, lá ia saindo… mais um burrinho.
Também havia espaço para as artes cénicas. Para a teatralização. Quando o Lúcio dizia dirigindo-se a todas as mulheres, fossem elas casadas, fossem elas solteiras, o seguinte: “Já não gosto de ti. Tenho uma rapariguinha mais bonita do que tu!”
Longe de ser pedófilo, cruzes, senhores! O que ele era, era um ser interventivo. Que procurava desta maneira, minar todo o ambiente com o estigma perfurador do ciúme. Eu, criança crédula e inocente, quando ouvi aquilo pelas primeiras vezes, achava que ele havia feito novos conhecimentos. Naturalmente muito mais gratificantes. Mas com o repetir da mesma fórmula, acabei por achar que se tratava somente… de charme. E que era um charme… único. Pois era sempre acompanhado por uma sonora gargalhada.
E foi com o Lúcio (e entre tantas), que eu aprendi a seguinte narrativa:

Número um estava a dormir,
O número dois também,
O número três foi a Belém,
O número quatro não quis cá vir,
E o cinco largou-se a rir,
O seis deu a alvorada,
O sete tinha uma espada,
O oito foi ao Castelo,
O nove foi dizer ao Melo,
Que o dez deu uma facada.

A mim, e desde sempre, todo este encadeado de palavras me fascinava. E as histórias que eu não inventava, quando levava em linha de conta, todas as acções efectuadas por aqueles números? E quem era o Melo? Quem é que levou uma facada?
Há coisas que vivemos, que de tão marcantes, acabam por ficar incrustadas no nosso plasma sanguíneo. E como fomos e somos influenciados pelas mais díspares experiências? Ainda hoje e nos dias mais tristonhos e aborrecidos, eu vou resgatar às minhas memórias de menina em moça, alguns destes momentos passados. Vividos quase sempre, nas melhores companhias.
Ser assim foi talvez para Lúcio, a única forma de manter a mente sã e funcional. Já muito velhinho, ele acabaria por ter graves dificuldades de locomoção. Contudo jamais lhe ouvi um queixume, uma palavra amarga, uma ofensa dirigida a alguém. Diziam que era malcriado quando bebia… Talvez fosse, não sei. Mas para mim, ele foi sempre o mais refinado…cavalheiro.
A sua esposa é que era muito brava, credo! Saíra uma espécie a meu ver, muito pouco compatível com o Lúcio. Ela quase que tinha uma língua bífida. E por exemplo: quando ela se zangava com marido, (o que era algo bastante recorrente), punha-se a gritar: “Sai da minha frente, cum camano. É que tu já deves trinta anos à terra!”
Mas o que era aquilo, Deus do Céu? É que eu, e por mais que me esforçasse, jamais compreendi a equação que formulava tão estranha e inoportuna declaração de dívida. Pois à terra, (eu presumo), ninguém deve nada. A hora do ajuste de contas, (e ao que parece), já foi pensada para todos. E a hora daqueles dois, já chegou faz tanto tempo!
Sugestão de leitura para esta semana: “O Céu que nos Protege” de Paul Bowles.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Quem serve para beijos, serve para abraços...



Maria do Rosário tem cinquenta e tal anos e muitas histórias para contar. Algo que geralmente acontece a quem tem já… cinquenta e tal anos.
E teve uma vida igual a tantas outras. Estudou até ao 7º ano do liceu, numa escolaridade antiga e que deixou memória. Casou relativamente cedo, muito mais cedo do que actualmente se costuma fazer. Melhor. Fez algo, que é muito pouco repetido nos dias da actualidade.
Teve os seus filhos e é muito bem capaz, de um dia vir a ter netos. E do homem com quem casou? Pois ele seguiu a sua vidinha a partir do momento em que acharam que a sua vida conjunta, já não fazia sentido.
Só que Rosário disse sim às tecnologias de ponta, que sem serem novas juraram juntar a ela, personalidades de características muito diversas da sua. E descobriu também (e adorou)… o sexo virtual.
Maria do Rosário é de estatura baixa, com cerca de metro e meio. Tem também uns vinte quilitos acima do que deveria. Acima do peso que os médicos e seus possíveis amados aconselham. Contudo ela continua a ser, uma presença assídua na loja das sandes de courato e da cerveja à pressão. E os bolos e os salgadinhos? Esses também lhe acenavam com muita regularidade. E ela sem qualquer culpa, beija-os a todos com muita sofreguidão. Por uma vez ou outra, lá pensa na dieta. Mas o regime começará sempre e somente, no dia de amanhã.
É que depois, ela pode sempre contar... com o sexo virtual. Que é por definição mais confiável e seguro. Pelo menos é o que ela pensa. Procura no ecrã do seu personal computer outras pessoas, que tal como ela, também se resguardam. Contudo também gemem com voracidade, através de outros tantos écrans de computador.
E qual é a melhor altura dos contactos a efectuar? Pois é quando se presta a ingerir uma sopa, umas sandes de carne fria. E mais uns refrigerantes. Justamente quando ingere o almoço e ainda faltam uns quarenta e cinco minutos para o início da sua rotina laboral. É isso mesmo! Ela entra para essas conversações nos computadores localizados no seu local de trabalho. Vai é comendo em simultâneo, física e virtualmente.
Um dia destes, uma sua colega quase desmaiou quando viu a Rosário numa foto em poses muito provocantes. Quem observasse bem, via aquilo que muito provavelmente… jamais quisera ver. A Rosário estava completamente nua. E em cima de um atapetado muito felpudo e cor-de-rosa.
E para dar mais efeito à conversação picante, ela vai utilizando frases tipo: “Eu fazia-te isto. Eu fazia-te aquilo”. Numa clara atitude de grande voluntarismo. E quando do lado de lá se apresentam mancebos que juram ter vinte e seis centímetros de membro, quando aquele ainda está a descansar, ela insinua-se dizendo: “Pois com esta conversa toda, eu já para aqui estou toda a tremer de emoção. E com a passarinha aos saltos”. É de crer que (e em consequência) o membro em descanso, o tal gigante, se levante e num repente… faça uma vénia.
E a Rosário lá continua naquilo. Acha que o pode fazer no seu local de trabalho. É que para todos os efeitos, ela está na sua hora de descanso. Como o tal membro. Alimenta a convicção de que ninguém se apercebe daquela sua tão funesta libertação. Acredita que nenhum informático vá ver o histórico das sessões, de todos os colaboradores daquela empresa. A Maria do Rosário deixou-se assim iludir, por todo um sistema que lhe parece inoperante, por irresponsabilizar os seus funcionários. Oh doce ilusão!
Mas a melhor delas todas foi feita um dia, quando a Rosário já se encontrava na sua residência. E encontrava-se já muitíssimo entusiasmada. Pelo que resolveu mandar uma mensagem a um seu querido amiguinho de deleite. Só que o seu dedinho de panda foi traiçoeiro. E erradamente, ele foi digitar o número… do seu chefe directo. Na mensagem, lia-se o seguinte: “Estou nua. Não tenho cuecas. E estou p’ra aqui languidamente, deitada na minha cama king size e redonda. O que é que isso te faz sentir?”
Bem. O seu chefe estava justamente numa reunião com o seu superior hierárquico. Pelo que o maioral supremo também ele leu, aquela tão inoportuna inquirição de desejos. E foi ali mesmo, que ele prometeu vir a tomar medidas. Ai Jasus!!!
Não há ninguém mais defensor da diversão do que esta vossa amiga. A “diversão” é para mim uma autêntica premissa de vida. Contudo eu questiono. Valerá a pena, e por tão pouco, colocar assim a cabeça no cepo?
Sugestão de leitura para esta semana: “Nem Tudo Começa Com Um Beijo” de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira.
DIVIRTAMSEMAZÉ!