Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 13 de abril de 2013

Lúcio, o professor.


Existiram pessoas que morrendo definitivamente para a vida, (porque perderam num dia do passado todas as suas funções vitais), permanecem vivas nas mentes de quem com elas conviveu. Esse é o caso de Lúcio, o professor.
Lúcio nascera no ano de 1905, quando a Alvorada da Republica ainda tinha que esperar mais cinco anos. Aos sete ou oito, ele foi para a escola. Ele e muito poucos mais, porque os tempos eram difíceis por cá. Mas quando é que não o foram, senhores?
Na escola ele aprendeu, tudo aquilo que o professor lhe ensinou. E com muita voracidade, durante os quatro anos de instrução a que teve direito. Na escola aprendera as formulas que o fizeram gostar muito de ler. E para todo o sempre. Casou já tarde e teve somente um filho. Filho que ele viu partir para o infinito, quando aquele contava somente, dezasseis ou dezassete anos de vida. E Lúcio perdeu ali todo o seu chão, naquele espaço rural. Com vidas tão duras e sofridas.
Contudo e apesar de manifestamente a existência lhe ter sido bem madrasta, Lúcio não pereceu para a vida. E já durante a velhice, (que foi a altura em que eu o conheci), ele lia com muito empenho, tudo aquilo que lhe aparecesse às mãos. Os seus vizinhos, sabedores daquele seu gosto, juntavam todos os jornais que conseguissem reunir. Pelo que Lúcio não se privava de ler as notícias já passadas, mas não passadistas, porque estas coisas, regra geral estão sempre muito ligadas.
Aos livros do filho morto, (os da instrução primária, pois também não havia sido possível pagar mais instrução), ele guardava-os religiosamente na melhor gaveta da sala. Mas não os abandonara ou esquecera ali. Não!
E por vezes nós petizes, lá pedíamos ao Lúcio, que nos deixasse ir ver os tais livros. Ele, com um sorriso nos lábios, lá acedia. Então, juntos, nós relíamos pela enésima vez aquelas velhas lições, já com a tinta meio a sumir-se. Se calhar já com saudades dos jovens olhos que as leram com entusiasmo. E pela primeira vez.
E entre dentes, o Lúcio suspirava: “Ai o meu filhinho!” Pelo que a disfarçar, ele lá limpava mais uma lágrima.
Recordo com saudades as verdadeiras lições dadas por aquele tão importante doutor. A recitação das destrava-línguas, que ele tão facilmente aprendera aquando andara por outras terras, na execução das tarefas agrícolas cíclicas e que por definição exigiam muita força de trabalho. Irei colocar algumas delas, neste blogue.
É com saudade que recordo as inúmeras contas que ele fazia, em papéis rasgados, dos sacos que continham os adubos para a sementeira. Ou então, dos sacos das farinhas, para a alimentação dos animais. Contas que eram sempre feitas com minúsculos lápis de carvão. Depois, esses pequenos papéis ficavam espalhados um pouco por todo o lado. Papéis que continham contas e mais contas. Muitas contas. Mas as contas eram sempre contas… de dividir…
Havia ainda espaço para as artes plásticas, e nessas alturas o Lúcio dedicava-se ao desenho. E o que é que ele desenhava para nós? Burros. Ele desenhava somente burros. E quando nós lhe sugeríamos que já estava na altura de ele evoluir, e passar para os desenhos de cavalos, por exemplo, ele ria-se muito e apenas dizia: “Aí estes garotos…” Desculpava-nos sempre o atrevimento. E das suas mãos já sofridas pela gota, lá ia saindo… mais um burrinho.
Também havia espaço para as artes cénicas. Para a teatralização. Quando o Lúcio dizia dirigindo-se a todas as mulheres, fossem elas casadas, fossem elas solteiras, o seguinte: “Já não gosto de ti. Tenho uma rapariguinha mais bonita do que tu!”
Longe de ser pedófilo, cruzes, senhores! O que ele era, era um ser interventivo. Que procurava desta maneira, minar todo o ambiente com o estigma perfurador do ciúme. Eu, criança crédula e inocente, quando ouvi aquilo pelas primeiras vezes, achava que ele havia feito novos conhecimentos. Naturalmente muito mais gratificantes. Mas com o repetir da mesma fórmula, acabei por achar que se tratava somente… de charme. E que era um charme… único. Pois era sempre acompanhado por uma sonora gargalhada.
E foi com o Lúcio (e entre tantas), que eu aprendi a seguinte narrativa:

Número um estava a dormir,
O número dois também,
O número três foi a Belém,
O número quatro não quis cá vir,
E o cinco largou-se a rir,
O seis deu a alvorada,
O sete tinha uma espada,
O oito foi ao Castelo,
O nove foi dizer ao Melo,
Que o dez deu uma facada.

A mim, e desde sempre, todo este encadeado de palavras me fascinava. E as histórias que eu não inventava, quando levava em linha de conta, todas as acções efectuadas por aqueles números? E quem era o Melo? Quem é que levou uma facada?
Há coisas que vivemos, que de tão marcantes, acabam por ficar incrustadas no nosso plasma sanguíneo. E como fomos e somos influenciados pelas mais díspares experiências? Ainda hoje e nos dias mais tristonhos e aborrecidos, eu vou resgatar às minhas memórias de menina em moça, alguns destes momentos passados. Vividos quase sempre, nas melhores companhias.
Ser assim foi talvez para Lúcio, a única forma de manter a mente sã e funcional. Já muito velhinho, ele acabaria por ter graves dificuldades de locomoção. Contudo jamais lhe ouvi um queixume, uma palavra amarga, uma ofensa dirigida a alguém. Diziam que era malcriado quando bebia… Talvez fosse, não sei. Mas para mim, ele foi sempre o mais refinado…cavalheiro.
A sua esposa é que era muito brava, credo! Saíra uma espécie a meu ver, muito pouco compatível com o Lúcio. Ela quase que tinha uma língua bífida. E por exemplo: quando ela se zangava com marido, (o que era algo bastante recorrente), punha-se a gritar: “Sai da minha frente, cum camano. É que tu já deves trinta anos à terra!”
Mas o que era aquilo, Deus do Céu? É que eu, e por mais que me esforçasse, jamais compreendi a equação que formulava tão estranha e inoportuna declaração de dívida. Pois à terra, (eu presumo), ninguém deve nada. A hora do ajuste de contas, (e ao que parece), já foi pensada para todos. E a hora daqueles dois, já chegou faz tanto tempo!
Sugestão de leitura para esta semana: “O Céu que nos Protege” de Paul Bowles.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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