Existiram pessoas que morrendo
definitivamente para a vida, (porque perderam num dia do passado todas as suas
funções vitais), permanecem vivas nas mentes de quem com elas conviveu. Esse é
o caso de Lúcio, o professor.
Lúcio nascera no ano de 1905,
quando a Alvorada da Republica ainda tinha que esperar mais cinco anos. Aos
sete ou oito, ele foi para a escola. Ele e muito poucos mais, porque os tempos
eram difíceis por cá. Mas quando é que não o foram, senhores?
Na escola ele aprendeu, tudo
aquilo que o professor lhe ensinou. E com muita voracidade, durante os quatro
anos de instrução a que teve direito. Na escola aprendera as formulas que o
fizeram gostar muito de ler. E para todo o sempre. Casou já tarde e teve
somente um filho. Filho que ele viu partir para o infinito, quando aquele
contava somente, dezasseis ou dezassete anos de vida. E Lúcio perdeu ali todo o
seu chão, naquele espaço rural. Com vidas tão duras e sofridas.
Contudo e apesar de
manifestamente a existência lhe ter sido bem madrasta, Lúcio não pereceu para a
vida. E já durante a velhice, (que foi a altura em que eu o conheci), ele lia
com muito empenho, tudo aquilo que lhe aparecesse às mãos. Os seus vizinhos,
sabedores daquele seu gosto, juntavam todos os jornais que conseguissem reunir.
Pelo que Lúcio não se privava de ler as notícias já passadas, mas não
passadistas, porque estas coisas, regra geral estão sempre muito ligadas.
Aos livros do filho morto, (os da
instrução primária, pois também não havia sido possível pagar mais instrução),
ele guardava-os religiosamente na melhor gaveta da sala. Mas não os abandonara
ou esquecera ali. Não!
E por vezes nós petizes, lá
pedíamos ao Lúcio, que nos deixasse ir ver os tais livros. Ele, com um sorriso
nos lábios, lá acedia. Então, juntos, nós relíamos pela enésima vez aquelas
velhas lições, já com a tinta meio a sumir-se. Se calhar já com saudades dos
jovens olhos que as leram com entusiasmo. E pela primeira vez.
E entre dentes, o Lúcio suspirava:
“Ai o meu filhinho!” Pelo que a disfarçar, ele lá limpava mais uma lágrima.
Recordo com saudades as
verdadeiras lições dadas por aquele tão importante doutor. A recitação das destrava-línguas,
que ele tão facilmente aprendera aquando andara por outras terras, na execução
das tarefas agrícolas cíclicas e que por definição exigiam muita força de
trabalho. Irei colocar algumas delas, neste blogue.
É com saudade que recordo as
inúmeras contas que ele fazia, em papéis rasgados, dos sacos que continham os
adubos para a sementeira. Ou então, dos sacos das farinhas, para a alimentação
dos animais. Contas que eram sempre feitas com minúsculos lápis de carvão. Depois,
esses pequenos papéis ficavam espalhados um pouco por todo o lado. Papéis que
continham contas e mais contas. Muitas contas. Mas as contas eram sempre contas…
de dividir…
Havia ainda espaço para as artes plásticas, e nessas alturas o Lúcio dedicava-se ao desenho. E o que é que ele
desenhava para nós? Burros. Ele desenhava somente burros. E quando nós lhe
sugeríamos que já estava na altura de ele evoluir, e passar para os desenhos de
cavalos, por exemplo, ele ria-se muito e apenas dizia: “Aí estes garotos…”
Desculpava-nos sempre o atrevimento. E das suas mãos já sofridas pela gota, lá
ia saindo… mais um burrinho.
Também havia espaço para as artes
cénicas. Para a teatralização. Quando o Lúcio dizia dirigindo-se a todas as
mulheres, fossem elas casadas, fossem elas solteiras, o seguinte: “Já não gosto
de ti. Tenho uma rapariguinha mais bonita do que tu!”
Longe de ser pedófilo, cruzes,
senhores! O que ele era, era um ser interventivo. Que procurava desta maneira,
minar todo o ambiente com o estigma perfurador do ciúme. Eu, criança crédula e
inocente, quando ouvi aquilo pelas primeiras vezes, achava que ele havia feito
novos conhecimentos. Naturalmente muito mais gratificantes. Mas com o repetir
da mesma fórmula, acabei por achar que se tratava somente… de charme. E que era
um charme… único. Pois era sempre acompanhado por uma sonora gargalhada.
E foi com o Lúcio (e entre
tantas), que eu aprendi a seguinte narrativa:
Número um estava a
dormir,
O número dois também,
O número três foi a
Belém,
O número quatro não
quis cá vir,
E o cinco largou-se a
rir,
O seis deu a
alvorada,
O sete tinha uma
espada,
O oito foi ao
Castelo,
O nove foi dizer ao
Melo,
Que o dez deu uma facada.
A mim, e desde sempre, todo este
encadeado de palavras me fascinava. E as histórias que eu não inventava, quando
levava em linha de conta, todas as acções efectuadas por aqueles números? E
quem era o Melo? Quem é que levou uma facada?
Há coisas que vivemos, que de tão
marcantes, acabam por ficar incrustadas no nosso plasma sanguíneo. E como fomos
e somos influenciados pelas mais díspares experiências? Ainda hoje e nos dias
mais tristonhos e aborrecidos, eu vou resgatar às minhas memórias de menina em
moça, alguns destes momentos passados. Vividos quase sempre, nas melhores
companhias.
Ser assim foi talvez para Lúcio,
a única forma de manter a mente sã e funcional. Já muito velhinho, ele acabaria
por ter graves dificuldades de locomoção. Contudo jamais lhe ouvi um queixume,
uma palavra amarga, uma ofensa dirigida a alguém. Diziam que era malcriado
quando bebia… Talvez fosse, não sei. Mas para mim, ele foi sempre o mais
refinado…cavalheiro.
A sua esposa é que era muito
brava, credo! Saíra uma espécie a meu ver, muito pouco compatível com o Lúcio.
Ela quase que tinha uma língua bífida. E por exemplo: quando ela se zangava com
marido, (o que era algo bastante recorrente), punha-se a gritar: “Sai da minha
frente, cum camano. É que tu já deves
trinta anos à terra!”
Mas o que era aquilo, Deus do
Céu? É que eu, e por mais que me esforçasse, jamais compreendi a equação que
formulava tão estranha e inoportuna declaração de dívida. Pois à terra, (eu
presumo), ninguém deve nada. A hora do ajuste de contas, (e ao que parece), já
foi pensada para todos. E a hora daqueles dois, já chegou faz tanto tempo!
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Céu que nos Protege” de Paul Bowles.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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