E quem é que não conhece aquelas
pessoas que andam na rua, (e também batem às portas), sempre muito bem
vestidinhos, mas de forma sóbria, com uma pastinha na mão e alguns panfletos na
outra? E dirigem-se a nós sorridentes, dizendo que andam a pregar a palavra do
Senhor? Mas quem é que lhes encomendou a evangelização?
A tudo eles sorriem, mesmo à
nossa má vontade em recebe-las e estar para ali a ouvi-las. Falam sobre o
Fim-do-Mundo que está iminente. Sobre os escolhidos que são muito poucos. Se
eu fosse a elas, começava a duvidar. Não estarão as vagas já totalmente
preenchidas?
Depois mostram-nos a revista da
sua adoração, que é a Sentinela. Onde e, em perfusão aparecem gravuras, onde os
tais dos escolhidos aparecem também (e sempre a rir), em pleno convívio com os
animais mais ferozes. E meus amigos, eu juro. Certa vez em vi lá uma imagem em de um senhor, que era a cara do Pinto da Costa. Ou então era o diabo por ele. Só
que o diabo não deve de ter lugar… na revista Sentinela. Ora o tal do senhor
que era a cara chapada do Pinto da Costa, aparecia sorridente e com uma grande
águia no ombro. E estavam ali os dois, em perfeito e encorajador convívio. Será
isto um sinal? Estará o Apocalipse a acontecer? Não… Eu acredito que ainda
teremos que andar por cá mais algum tempo…
Nunca lá vi, foi o Jesus com as
suas madeixas multicoloridas e a falar calmamente: “Eles sempre estiverem preparados. Pertanto já ser campiães!…” Pois não.
Num Domingo já longínquo o Sr.
Amadeu estava a dormir no bom descanso. Naquele dia, já havia trabalhado toda a
santa noite e depois tinha ido à sua santa missinha, como era aliás o seu
hábito. Mas bateram-lhe à porta. Estremunhado o Sr. Amadeu lá vestiu o seu robe
e foi ver quem era. Julgava ser algum vizinho, ou mesmo alguém da família. Ou então
aquela vizinha jeitosa, que está sempre a deixar cair a sua roupa interior do estendal. Pois não era nenhum deles. Eram só duas senhoras, que vinham pregar. E o
senhor Amadeu, que é um homem calmo, cordato e até um bom cristão, ao vê-las,
ficou de todas as cores. E pôs-se a gritar: “Oh minhas senhoras pela vossa
saúdinha, vocês tenham paciência. E decorem bem esta morada, por favor. É que se
me vêm chatear mais alguma vez, eu corro-vos da minha porta, com um balde cheio
de água. E nem prometo que a água seja limpa!”
Desconhece-se à partida, qual é
que foi a reacção das crentes. Mas é de crer, que (e sempre a sorrir), elas
tenham descido as escadas com muita rapidez.
Uma vez calhou-me a mim. Ia eu
muito descansada, a pensar na vida, quando sou abordada pelas seguidistas
declaradas da fé divina e exclusivista. Uma dupla abeira-se de mim e começa a predica. E eu sempre a dizer que não estava nada interessada em converter-me naquele momento. Mas que se eu
tivesse qualquer dúvida, com certeza que as procuraria. E isto ao invés de as
dissuadir, encheu-as foi de coragem para continuar. Pelo que era mais isto, e
era mais aquilo…
Então eu já um bocadinho saturada
com a insistência, lembrei-me de algo que eu já ouvira e respondi: “Tenham
paciência minhas senhoras! Mas é que eu nem sequer vi o acidente!”
Bem… inicialmente, elas não
pareceram compreender aquela minha provocação. Mas depois, reflectiram melhor e
apreciaram o real sentido da coisa. E foi aí que eu as vi a sofrer, uma
verdadeira metamorfose. Primeiro, elas abriram muito os seus olhos, sem rímel ou outras pinturas. Depois ficaram com as suas bochechas da cor das amoras. E
só no fim, bem lá no fim, é elas cruzaram os dedos e se puseram a gritar:
“Vai de retro oh Satanás. Oh Filha
de Belzebu! Espírito do mal! Sobrinha-neta do Dante! Comadre do Anticristo!
Mefistofélica no activo!” E olhem só… elas foram por ali fora...
Deixei de as ouvir, quando elas
me acusaram de ser a causa maior, de todos os males do mundo…É que eu só queria
mesmo, que elas se calassem. Imaginem lá se mais alguém soubesse?…
Só que essa não foi a última
abordagem à minha pessoa, por parte das ditosas e mui insistentes senhoras,
longe disso. Quando me vêm, e como eu não tenho nem um par de corninhos na
testa, nem o tridente (pois deixo-os muitas vezes em casa, nos dias de maior
calor), elas não me reconhecem. E tentam mais uma vez, levar-me para os
caminhos do bem. Que por inerência são somente os trilhos calcorreados por
elas.
Mas eu agora, e mais velha que
sou, tento moderar um pouco a minha retórica. E de uma forma bem mais ligeira,
tento livrar-me daquela sua constante perseguição. É que eu receio, que alguma
dessas “bem-intencionadas senhoras” possa vir a sofrer de uma síncope nervosa,
com o meu dialogar. E sem querer, poder mesmo subir ao etéreo lugar, antes do
previsto. E depois? Qual é que seria a minha responsabilidade no processo? Como
é que eu ficaria? É que positivamente, eu até desconheço, como é que estará a
lotação da casa.
Sugestão de leitura para esta
semana: “As Pessoas que nos Batem à
Porta” de Patricia Highsmith.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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