Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo. (*)



Os livros, ai os livros! Esses nossos tão grandes amigos! Seres com vida própria, que nunca nos traem, nem nunca nos viram as costas. Nós é que, por preguicite aguda, por inércia ou mesmo por mau gosto, é que por vezes lhes viramos as costas a eles.
E depois existe o dia 23 de Abril, que é o dia consagrado aos livros e às leituras. Dia para referenciar todos os benefícios tidos e conseguidos com as leituras efectuadas e a efectuar. É o dia em que os bibliotecários se devem sentir muito felizes. E contam encontrar à beira deles, seres igualmente felizes. Que lêem muito e que querem ler… sempre mais.
Nesse dia, e em muitas das bibliotecas públicas, oferece-se uma rosa vermelha a quem lá for requisitar leituras. Costume copiado desde a altura em que (e na Catalunha), se iniciou o belo costume de: o cavalheiro ofertar um livro à dama, e a dama em troca, ofertar uma rosa carmim ao cavalheiro. É por essas e por outras que a mulher é muitas vezes mais dotada intelectualmente… do que o seu parceiro de aventuras. Desculpem-me lá a franqueza.
Só que os tempos actuais são de extrema miséria. E os costumes? Esses tendencialmente vão ficando esquecidos, juntamente com as boas intenções. E cada vez se comemora menos o que deve de facto de ser comemorado, pois o vil metal, que dá tanto jeito, vai escasseando cada vez mais.
Neste ano, e lá no meu sítio, ainda se vai comemorar tão importante efeméride. Felizmente. Mas, e para o ano que vem…? Pois logo se verá.
Vem todo este entroncado de ideias torpes e inconsequentes a propósito de um sonho que eu tive por estes dias. E passo a citá-lo:
Passa-se na Biblioteca onde eu felizmente laboro. Mas o ano era já o de 2014. O meu extremoso chefe (e numa reunião) explanava a todos, a sua enorme preocupação. O ano de 2014 era pois um ano de crise severa (mas não o será mesmo? Poder-se-á tratar de matéria para uma publicação de Ficção Científica? Não sei, pois não consigo fazer futurologia. Mas suspeito que o Gaspar vai conseguir... lixar o resto).
E o chefe lá continuava. Estava arrasado pois (e dizia ele) nesse ano não haveria dinheiro para as convencionadas efemérides alusivas ao tema. Então ele aproveitava e decretava ali, que nenhum escritor seria convidado. E também não se ofertariam rosas a ninguém… Mas, (e seguindo sempre o raciocínio da chefia), o dia teria que ser comemorado de qualquer maneira. E como chefe que é chefe tem sempre mais informação que nós, ele já havia decidido, como se procederia à supra citada comemoração.
Ora, ali ele decretou, sem dar vazão a qualquer opinião contraditória, que a sua colaboradora Elia. que é uma solteirona, ainda bastante atraente, teria que se casar com Dario que é um colaborador divorciado, e de muito bom carácter. Ali estava dada a ordem. E nada de discussões. Mas parecia à partida, que não havia qualquer ligação entre os dois. Nem vias disso. Além do mais, o que é que um enlace matrimonial poderia beneficiar a causa dos livros e da leitura?
Mas o chefe lá continuava. Disse, que de nada se preocupava, com a eventual revolta da sua colaboradora Elia, que ao ouvir tal veredicto, não conteve as lágrimas nem a sua grande angústia. A mesma dilacerada técnica, lá dizia baixinho, que nada daquilo fora previsto, quando ela havia assinado o seu contrato laboral. Mas o chefe estava irredutível. Não queria saber disso para nada. Ele já havia decidido, e nada o demoveria dessa sua tão importante decisão. Pelo que ele lá prosseguia: Pois o casamento e o que daí decorresse, não era da sua particular preocupação. E se eles não quisessem consumar o enlace? Pois era só problema deles. O que se iria aproveitar, era a cerimónia matrimonial, para se poder falar de livros. O enlace decorreria no espaço compreendido da Biblioteca Pública, mais concretamente na sua Sala Polivalente. E conforme aquilo que se espera em idênticas circunstâncias, o noivo Dario, esperaria pacientemente a sua noiva, no altar improvisado. E tanto o padre, como o chefe (a quem caberia realizar as leituras da Biblia), aproveitariam todo o momento, para falarem de livros. E mais nos falou (naquele meu sonho), aquele tão decidido chefe. Pois decretara que a Paula que é uma outra funcionária, mas que nem sequer está agregada ao Serviço das Bibliotecas, teria a incumbência de procurar a Quinta mais adequada, onde posteriormente se serviriam os morfes.
E quanto à minha pessoa e mais a Cátia (que é outra jovem colaboradora)? Pois ficaríamos com o encargo de escolher o vestido da noiva. Ora quanto à Cátia eu não posso dizer nada. Mas em relação à minha pessoa, tenho a dizer que eu nunca me vi em tão “importantes assados”. Mas a coisa teria mesmo que ser feita. Doesse a quem doesse. E seria tudo em prole da causa do livro e da motivação da leitura. À partida, nada a obstar como é evidente. A não ser o inusitado de toda aquela tão estranha situação.
Tenho a dizer, que durante o meu sonho, muito eu me ri, à procura do vestido mais perfeito para a Elia, que entretanto chorava copiosamente, lamentando toda aquela sua triste sina. Sacrificava-se assim toda a sua situação de ser livre e dona das suas decisões, em prole da sua profissão. Com todos os seus colegas a dizer-lhe que o sacrifício teria que ser efectivado. Que fazia sentido. Pois vale muito mais, ter trabalho que liberdade. (?). Meus amigos, eu acredito que a Troika e o governo português, ainda vão ter que gastar muito dinheiro, na comparticipação de tratamentos psiquiátricos a realizar em todos nós, seus fiéis espoliados. E o primeiro sintoma de que algo poderá estar mal, será mesmo… o de começar a ter sonhos esquisitos.
O sonho termina com a intervenção inteligente de Lúcia que sendo uma colaboradora já cinquentona e muito prevenida, lá acabaria por dizer ao chefe, sem qualquer temor: “Olha, tu dizes não ter dinheiro para gastar, com aquilo que é habitual acontecer nesta particular efeméride. Mas já pensaste bem? É que vais gastar muito mais, ao promoveres o casamento que aqui decidiste tão unilateralmente. E já viste o estado de revolta, de angústia e de real sofrimento da funcionária que tu queres à força, que fique noiva?"
Foi com este alerta, que eu acordei.
Tenho a dizer, que este meu sonho (e já acordada) me provocou imensas gargalhadas. Ainda mais quando telefonei para a Biblioteca e quem atende é o “noivo”, que a meu pedido, lá me passou a chamada para a sua “noiva”. Sem sequer desconfiar minimamente dessa sua “nova” condição.
Foi só um sonho, nada mais do que isso. Mas teve a particularidade de, (para além de muito me divertir), me chamar à atenção para a preocupação que devemos ter com os anos vindouros. Particularmente com o ano que há-de vir, que é unanimemente considerado, como o pior de todos os anos.
O livro deve de ser motivo de celebração contínua. Não o deverá ser somente, no dia 23 de Abril. Data em que reza a tradição, nasceu e morreu o grande escritor e pensador inglês, Shakespeare. Viva o livro! Viva a leitura! E sempre! Ainda mais quando se sabe, que existem por aí alguns, que ocupando os lugares de decisão, sonham com o dia em que o livro possa vir a ser erradicado da face da terra. Ou então ser uma peça de interesse, só para alguns (muito poucos), que serão amplamente referenciados e localizados.
É que muito mal está uma sociedade, que renega e se esquece das suas leituras. Ou mesmo que desconhece o prazer imenso que é, sentar-se e deleitar-se na companhia de um livro. É que procedendo desta maneira, ou seja, ler aquilo que nos der “na real gana”, para além de nos apurar (e continuadamente) o sentido critico e interventivo, nos ajuda e permite reconhecer a profunda incapacidade por parte daqueles que nos (des)governam. Isso é mais do que evidente.
Mas mais importante do que tudo isso, ler faz com que a pessoa, jamais se sinta sozinha.
Sugestão de leitura para esta semana: “As Velas Ardem até ao Fim” de Sandor Marai.
DIVIRTAMSEMAZÉ!



(*)Nota: Frase de Paulo Francis (1930-1997) Escritor, Jornalista e Critico de Arte Brasileiro.

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