Os livros, ai os livros! Esses nossos tão grandes amigos! Seres com vida própria, que nunca nos traem, nem
nunca nos viram as costas. Nós é que, por preguicite aguda, por inércia
ou mesmo por mau gosto, é que por vezes lhes viramos as costas a eles.
E depois existe o dia 23 de
Abril, que é o dia consagrado aos livros e às leituras. Dia para referenciar
todos os benefícios tidos e conseguidos com as leituras efectuadas e a
efectuar. É o dia em que os bibliotecários se devem sentir muito felizes. E contam
encontrar à beira deles, seres igualmente felizes. Que lêem muito e que querem ler…
sempre mais.
Nesse dia, e em muitas das
bibliotecas públicas, oferece-se uma rosa vermelha a quem lá for requisitar
leituras. Costume copiado desde a altura em que (e na Catalunha), se iniciou o
belo costume de: o cavalheiro ofertar um livro à dama, e a dama em troca,
ofertar uma rosa carmim ao cavalheiro. É por essas e por outras que a mulher é
muitas vezes mais dotada intelectualmente… do que o seu parceiro de aventuras.
Desculpem-me lá a franqueza.
Só que os tempos actuais são de
extrema miséria. E os costumes? Esses tendencialmente vão ficando esquecidos,
juntamente com as boas intenções. E cada vez se comemora menos o que deve de
facto de ser comemorado, pois o vil metal, que dá tanto jeito, vai escasseando
cada vez mais.
Neste ano, e lá no meu sítio,
ainda se vai comemorar tão importante efeméride. Felizmente. Mas, e para o ano
que vem…? Pois logo se verá.
Vem todo este entroncado de
ideias torpes e inconsequentes a propósito de um sonho que eu tive por estes
dias. E passo a citá-lo:
Passa-se na Biblioteca onde eu
felizmente laboro. Mas o ano era já o de 2014. O meu extremoso chefe (e numa
reunião) explanava a todos, a sua enorme preocupação. O ano de 2014 era pois um
ano de crise severa (mas não o será mesmo? Poder-se-á tratar de matéria para
uma publicação de Ficção Científica? Não sei, pois não consigo fazer
futurologia. Mas suspeito que o Gaspar vai conseguir... lixar o resto).
E o chefe lá continuava. Estava
arrasado pois (e dizia ele) nesse ano não haveria dinheiro para as
convencionadas efemérides alusivas ao tema. Então ele aproveitava e decretava ali, que nenhum
escritor seria convidado. E também não se ofertariam rosas a ninguém… Mas, (e
seguindo sempre o raciocínio da chefia), o dia teria que ser comemorado de
qualquer maneira. E como chefe que é chefe tem sempre mais informação que nós,
ele já havia decidido, como se procederia à supra citada comemoração.
Ora, ali ele decretou, sem dar
vazão a qualquer opinião contraditória, que a sua colaboradora Elia. que é uma
solteirona, ainda bastante atraente, teria que se casar com Dario que é um
colaborador divorciado, e de muito bom carácter. Ali estava dada a ordem. E nada de discussões. Mas parecia à partida, que não havia qualquer ligação entre os dois. Nem vias
disso. Além do mais, o que é que um enlace matrimonial poderia beneficiar a causa
dos livros e da leitura?
Mas o chefe lá continuava. Disse,
que de nada se preocupava, com a eventual revolta da sua colaboradora Elia, que ao
ouvir tal veredicto, não conteve as lágrimas nem a sua grande angústia. A mesma
dilacerada técnica, lá dizia baixinho, que nada daquilo fora previsto, quando
ela havia assinado o seu contrato laboral. Mas o chefe estava irredutível. Não
queria saber disso para nada. Ele já havia decidido, e nada o demoveria dessa
sua tão importante decisão. Pelo que ele lá prosseguia: Pois o casamento e o
que daí decorresse, não era da sua particular preocupação. E se eles não quisessem consumar
o enlace? Pois era só problema deles. O que se iria aproveitar, era a cerimónia
matrimonial, para se poder falar de livros. O enlace decorreria no espaço
compreendido da Biblioteca Pública, mais concretamente na sua Sala Polivalente.
E conforme aquilo que se espera em idênticas circunstâncias, o noivo Dario, esperaria
pacientemente a sua noiva, no altar improvisado. E tanto o padre, como o chefe (a quem caberia realizar as leituras da Biblia), aproveitariam todo o momento, para falarem de
livros. E mais nos falou (naquele meu sonho), aquele tão decidido chefe. Pois
decretara que a Paula que é uma outra funcionária, mas que nem sequer está agregada ao
Serviço das Bibliotecas, teria a incumbência de procurar a Quinta mais
adequada, onde posteriormente se serviriam os morfes.
E quanto à minha pessoa e mais a Cátia (que é outra jovem colaboradora)? Pois ficaríamos com o encargo de escolher
o vestido da noiva. Ora quanto à Cátia eu não posso dizer nada. Mas em relação à
minha pessoa, tenho a dizer que eu nunca me vi em tão “importantes assados”.
Mas a coisa teria mesmo que ser feita. Doesse a quem doesse. E seria tudo em
prole da causa do livro e da motivação da leitura. À partida, nada a obstar
como é evidente. A não ser o inusitado de toda aquela tão estranha situação.
Tenho a dizer, que durante o meu
sonho, muito eu me ri, à procura do vestido mais perfeito para a Elia, que
entretanto chorava copiosamente, lamentando toda aquela sua triste sina.
Sacrificava-se assim toda a sua situação de ser livre e dona das suas decisões,
em prole da sua profissão. Com todos os seus colegas a dizer-lhe que o
sacrifício teria que ser efectivado. Que fazia sentido. Pois vale muito mais,
ter trabalho que liberdade. (?). Meus amigos, eu acredito que a Troika e o
governo português, ainda vão ter que gastar muito dinheiro, na comparticipação
de tratamentos psiquiátricos a realizar em todos nós, seus fiéis espoliados. E o
primeiro sintoma de que algo poderá estar mal, será mesmo… o de começar a ter sonhos esquisitos.
O sonho termina com a intervenção
inteligente de Lúcia que sendo uma colaboradora já cinquentona e muito prevenida,
lá acabaria por dizer ao chefe, sem qualquer temor: “Olha, tu dizes não ter dinheiro para
gastar, com aquilo que é habitual acontecer nesta particular efeméride. Mas já
pensaste bem? É que vais gastar muito mais, ao promoveres o casamento que aqui
decidiste tão unilateralmente. E já viste o estado de revolta, de angústia e de real sofrimento
da funcionária que tu queres à força, que fique noiva?"
Foi com este alerta, que eu
acordei.
Tenho a dizer, que este meu sonho
(e já acordada) me provocou imensas gargalhadas. Ainda mais quando telefonei
para a Biblioteca e quem atende é o “noivo”, que a meu pedido, lá me passou a
chamada para a sua “noiva”. Sem sequer desconfiar minimamente dessa sua “nova” condição.
Foi só um sonho, nada mais do que
isso. Mas teve a particularidade de, (para além de muito me divertir), me
chamar à atenção para a preocupação que devemos ter com os anos vindouros.
Particularmente com o ano que há-de vir, que é unanimemente considerado, como o
pior de todos os anos.
O livro deve de ser motivo de
celebração contínua. Não o deverá ser somente, no dia 23 de Abril. Data em que
reza a tradição, nasceu e morreu o grande escritor e pensador inglês,
Shakespeare. Viva o livro! Viva a leitura! E sempre! Ainda mais quando se sabe, que
existem por aí alguns, que ocupando os lugares de decisão, sonham com o dia em
que o livro possa vir a ser erradicado da face da terra. Ou então ser uma peça de interesse,
só para alguns (muito poucos), que serão amplamente referenciados e
localizados.
É que muito mal está uma
sociedade, que renega e se esquece das suas leituras. Ou mesmo que desconhece o prazer imenso
que é, sentar-se e deleitar-se na companhia de um livro. É que procedendo desta
maneira, ou seja, ler aquilo que nos der “na real gana”, para além de nos apurar (e
continuadamente) o sentido critico e interventivo, nos ajuda e permite
reconhecer a profunda incapacidade por parte daqueles que nos (des)governam.
Isso é mais do que evidente.
Mas mais importante do que tudo isso, ler faz com que a pessoa, jamais se sinta sozinha.
Sugestão de leitura para esta
semana: “As Velas Ardem até ao Fim” de Sandor Marai.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
(*)Nota: Frase de Paulo Francis (1930-1997) Escritor, Jornalista e Critico de Arte Brasileiro.

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