Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Direccionar para o "pecado".


Maria Vitalina foi visitar a Escandinávia. Maria Inês também. Maria Vitalina tinha oitenta anos. A Maria Inês ainda não tinha chegado aos... quarenta. Naquele grupo composto por mais gente viajadeira, iam muito mais Marias Vitalinas, do que Marias Ineses. E tudo se processava de acordo com o esperado.
Só que Maria Vitalina tinha energia para dar e vender. Era muito mais dinâmica... que as outras todas. Certa vez e na Suécia, por altura de um baile, foi a Maria Vitalina a única a ser convidada por um natural de lá, para com ele bailar. E Maria Vitalina bailou com tal convicção, que acabou por descoser toda a camisa daquele cavalheiro dançante e corajoso. E como como foi bom de ver, as caras invejosas de todas as outras viajantes! Ali a olharem para a pista, ou então a terem que ir dançar umas com as outras!...
Mas Maria Vitalina, não se fica só pela dança. Ela inventa histórias, começa a cantar, dança sozinha no autocarro, conta piadas ligeiras e algumas até já com muitas barbas... Mas está sempre, sempre bem disposta.
Ora quando aquele simpático e unico grupo chegou a Oslo, foi visitar o Vigelandparken. E este parque não é mais do que um imenso jardim de belíssimas flores, com roseiras e rosas em profusão. E estátuas, muitas estátuas de gente nua, representantes de todas as faixas etárias. No fundo o que aquilo pretende documentar devidamente, é todo o percurso da vida humana, desde a sua génese, até ao seu culminar. Representando assim acções vivenciadas, em todos os estádios da existência humana. E a autoria de tão importantes trabalhos é de Gustav Vigeland.
E naturalmente que tudo aquilo ali, resulta muito bem. A água é também ali, um elemento muito presente. É que sem água, a vida não é possível, não é?
E o grupo lá ia indo. Coeso e interessado. Sempre a ouvir as explicações de uma guia cota, determinada e exaustiva. E Maria Vitalina? Também tinha que ali ir, não é? Só que... todas aquelas explicações já não lhe estavam assim a interessar muito. Ela via? É claro que via, ela estava ali. E era bem capaz, de tirar as suas próprias conclusões. Afinal e vendo bem as coisas, nunca aquela conhecedora guia, esteve alguma vez na cabeça do escultor, para ter assim tanta certeza de que a explicação para a tudo aquilo, fosse exactamente como ela estava para ali a explanar. Pois... o que Maria Vitalina queria era mesmo... curtir, brincar e tirar fotografias. Muitas fotografias.
Maria Inês por seu turno também já estava algo aborrecida. Às vezes é muito bom descobrir as coisas por nós próprios. Ao estar para ali a ouvir a guia, estava também a perder a oportunidade de ver o cenário, usando-se dos seus próprios critérios e  chegando às suas próprias conclusões. Pelo que, resolveu aliar-se a "endiabrada" Maria Vitalina.
A explicação lá continuou, mas sem que ninguém reparasse, as duas saíram ligeiras do grupo e desataram logo a divertir-se. E como? Pois foram tirar retratos. 
A Maria Inês é algo alérgica aos mesmos. Ou melhor, de constar nos mesmos. Não gosta muito de perpectar a sua imagem em cenários do passado. A vida é água corrente, que nunca pára, então para quê deixar tantas ancoras? Mas a Maria Vitalina não pensa nada assim. Afinal o que ela quer mesmo... é brilhar. No fundo e quem sabe se ela não estaria destinada à profissão de modelo? Ou então de artista de Revista? 
E lá foram aquelas duas, a correr jardim fora em busca de aventuras e de diversão. Tiram uma foto aqui. Outra foto ali. E lá no meio, estava uma estátua. que representava um homem na posição de agachado. E o que é que estava dependurado, e mais ou menos ao nível daquelas duas mulheres? Bem, estão lá uns enormes órgãos genitais, absolutamente desproporcionados. Tal visão deixou as duas, absolutamente boqueabertas. Vitalina olhou p'ra aquilo. Maria Inês também. Aqueles orgãos genitais eram... claramente exagerados. É que as duas já tinham visto coisa parecida em outras circunstâncias. Mas como aqueles ali?... NÃO! E Maria Inês resolve declarar: "Isto tem que constar para memória futura!"
E... resolveram ali aquelas duas perpectuar o momento. Mas para que a coisa ficasse mesmo bem retratada, não era possível constarem na foto ao mesmo tempo. Pelo que resolveram ali, que quem pousaria, seria justamente... a Maria Vitalina. E Maria Inês colocou-se a jeito para retratar. Vitalina foi colocar-se ao lado da estátua. Só que era necessário mais! Era necessário, muito mais! E Inês sugere que a anciã deveria de colocar a sua mão já engelhadita, por debaixo da monumental genitália da estatuária. Assim como se a sopesasse. Coisa que Vitalina aceitou no imediato. Como é evidente.
Por fim, o restante grupo, já muito mais documentado devido a todas aquelas explicações, vem para o pé das  duas rebeldes. A Vitalina em jeito de graça, lá lhes disse sobre as fotografias que acabara de tirar. Falou-lhes especialmente sobre aquela última. E as pessoas olham todas (e pesarosas) para ela. Criticam-lhe depois  a sua atitude dizendo-lhe: "Mas Vitalina, sinceramente! A senhora consegue estar cada vez pior!"
Quanto a Maria Inês? Bem, esta quando ouviu aquilo, ficou com medo. Ficou com muito medo, mesmo! E desatou a correr, saindo dali para fora. É que aquela ideia original e "transviante" havia sido dela. E ela  não queria também ser, "diagnosticada" por todas aquelas pessoas. Está provado que ninguém consegue compreender, quem já nasceu picado, pela "mosca" da Diversão Permanente.
Sugestão de Leitura para esta semana: "Os Europeus" de Henry James.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 19 de janeiro de 2013

Oh minha mãe dos trabalhos, para quem trabalho eu!



Maria Gracinda veio da “província”, quando deu conta que as suas espectactivas não lhe cabiam… na sua aldeia. Veio para uma cidade situada muito junto à capital. Como sorte e destino coube-lhe a tarefa de vir servir. Mas servir o quê? Servir a quem? Os tempos eram outros. Servia-se quem tinha mais imóveis e recursos humanos. E menos quem amealhava o “vil metal”. Coube-lhe em sorte vir servir uma família proprietária de terras, mas não de uma educação particularmente esmerada. É que a educação à altura (e contra tudo aquilo que é difundido actualmente), não era assim tão efectiva. A família tinha de seu, viviam à larga, sem privações. A única filha casara e tivera seis filhos num imediato. E não! A moça não se sujeitara a nenhuma concepção artificial que faz com que a descendência prolifere somente em um acto. Não! O que a moça fez foi o que faz toda a gente quando é recém-casada. E é nova e não têm problemas físicos. E não tem à mão muitos anticoncepcionais, que eram à altura… figuras de estilo, além de muito pouco eficazes.
E os filhos “apresentaram-se” assim anualmente. E com eles, as fraldas e outros cuidados foram-se multiplicando. Para piorar tudo o resto, a moça proprietária e algo aristocrática, distraia-se com outras funções deixando ao cargo de Maria Gracinda o pesado dos trabalhos. E o trabalho foi tal, que a Maria Gracinda não aguentou, despedindo-se pouco tempo depois do sexto rebento ter completado seis meses.
Seguir-se-ia a casa de Agostinha e Leopoldino. Estes já haviam casado há muitos anos. Tinham também uma nobre descendência composta por meia dúzia: o primeiro Leopoldino, a Primeira Leopoldina. O segundo Agostinho, a segunda Agostinha. Os restantes… pois coube-lhes graças muito mais vulgares retiradas dos nomes de alguns dos participantes das Melodias de Sempre. E para que conste, o desconhecimento dos nomes não vai implicar qualquer dificuldade na percepção deste texto.
Maria Gracinda pôs assim mãos à obra. A família a servir era pois… igualmente numerosa. Só que detinha outro tipo de educação. A dona Agostinha, senhora de cepa e de predicados, aprendera muito quando rapariga. Sabia que os filhos são as ligações efectivas ao futuro e são-no por definição… para todo o sempre. Não bastava assim colocá-los no mundo e depois pô-los ao cuidado de outro alguém. Alguém que seria tendencialmente bem menos privilegiado social e economicamente. D. Agostinha tinha assim os seus empregados. Tinha a Maria Gracinda. Mas esta ajudá-la-ia na educação dos filhos. Só que não ficaria com toda a responsabilidade a cargo.
E os tempos iam-se passando. Para o léxico comum, vieram palavras como o gelado Super-Max, o Yé-Yé, Os Beatles e as Radionovelas. Maria Gracinda considerava-se uma empregada, mas também e de alguma forma, também um membro da família. Pertenceria era naturalmente a um ramo muito mais debilitado e pouco firme, mas que era tido em conta, no natural desenrolar da vida daquela família. E os anos foram-se passando.
Mas certo dia o pequeno Leopoldino, chegou esbaforido a casa. Quase sem folego, ele pediu à Gracinda que lhe fizesse um arroz doce. Ele não só pretendia lanchar, como convidara o seu grupo extenso de amigos para tal festividade. É evidente que Maria Gracinda lhe fez logo a vontade. E rapidamente, ela foi para a cozinha, onde abriu um a um... os ovos, pesou o açúcar, mediu a quantidade de leite necessária, cortou o limão, pôs tudo aquilo a cozer. E no fim… deixaria a guloseima a apurar.
Na grande sala de refeições da família, já estava todo um grupo de mais de dez rufias. Aguardavam especialmente encantados o festim que seria, lamberem-se literalmente com o doce de Gracinda. Entretanto havia sido servido, por uma outra empregada, um manjar abundante composto por sumo de frutas e pão com manteiga. Nada fora de nota até à altura.
Só que Leopoldino queria mais, queria muito mais. Queria divertir-se e divertir e impressionar os mariolas que ali estavam com ele. E sem que nada o fizesse esperar, convidou os maganos a irem com ele… à cozinha. Deram de caras com a Maria Gracinda muito ocupada, com a tarefa gulosa. Mas era necessário mais. Era necessário mais espectáculo. E num repente, Leopoldino, pegou em dois ovos, fez pontaria e acertou em cheio, bem na testa da Maria Gracinda. Ao que parece na altura, os benefícios do ovo, para o couro cabeludo ainda não estavam amplamente difundidos.
Mas Maria Gracinda ficou revoltada. Não o expressou abertamente mas ficou. E com a mão trémula, ela retirou da sua cabeça, os destroços de uma casca de ovo e de uma gema bem amarela. Depois pegou em si e saiu porta fora. Sim, ser empregada é servir, mas não deve ser nunca… gozada nem desrespeitada. Na cabeça de Gracinda, cozinhara-se a hipótese de ela nunca mais ali entrar. Iria depois para casa ter com o marido e com o filho. Não teria trabalho durante um tempo é certo. Mas não seria difícil encontrar um novo poiso. A sociedade local conhecia-lhe os predicados. Sabia da sua extremosa funcionalidade enquanto cozinheira e costureira. Conhecia-lhe o seu forte sentido de responsabilidade. Admirava-lhe a sua inquestionável integridade. Seria somente… por uma questão de tempo. E levou da casa senhorial alguns dos seus parcos tarecos.
E as horas passaram. E a D. Agostinha estranhou a ausência de Gracinda. Nunca a empregada havia estado tanto tempo sem dar notícias. E ainda… para piorar todo o cenário, nem sequer havia avisado. Teria então que ser ela a descobrir. Mas por mais que tentasse e inquirisse, ninguém lhe deu... uma resposta capaz.
Somente Ana, a pequena copeira, lhe falou por alto, de um desacato surgido à conta de um arroz-doce. E muito a medo… o nome do pequeno Leopoldino foi ali mencionado. Já era qualquer coisa. E sem perder tempo, D. Agostinha chamou o filho e apercebeu-se da real dimensão do problema. E devidamente informada, ela forçou o filho a ir a casa de Gracinda. E mais lhe disse. Que só o receberia novamente em casa, se ele trouxesse com ele, a agora ex-empregada. Leopoldino nem podia acreditar naquilo que lhe estava a acontecer. É que nada fizera prever que aquela sua brincadeira “tão inocente”, pudesse dar origem a tal funesta situação. Que até poderia provocar a sua expulsão daquele seu núcleo e até aqui muito privilegiado seio familiar. E agastadamente ele lá se dirigiu à casa da ofendida empregada.
Receando a sorte, e depois de muito tentar, usando como recurso toda uma argumentação sentida, ele lá conseguiu que a Gracinda o acompanhasse. Que já estava com o cabelo totalmente limpo e muitíssimo mais sedoso. E é já na casa paterna, que o rapaz foi forçado pela matriarca a colocar-se de joelhos à frente da Gracinda e a suplicar-lhe encarecidamente… o seu perdão. É que brincar é muito bom. Divertir-se é sempre um óptimo recurso a ter na vida. Que dizem ser até muito benéfico para a saúde. Mas nada justifica que para esse efeito se tenha que achincalhar outro alguém. Seja esse alguém, a empregada doméstica ou o Governador do Banco de Portugal. 
Sugestão de leitura para esta semana: "A Ponte dos Suspiros" de Fernando Campos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Não se pode ir reto, quando a estrada é curva.(*)


Toda a gente tem o direito de frequentar a biblioteca pública! Toda a gente independentemente do seu credo, gosto politico, estado social, estado civil, capacidade económica, etnia ou preferência sexual. E acreditem, vem mesmo toda a gente à Biblioteca. É evidente que nenhum dos leitores, trás escrito na testa o conjunto de todas as suas características mas… acabamos por conhecer pessoas com muitas especificidades.
As regras a ter dentro da Biblioteca são algumas, naturalmente. Mas são necessárias, pacíficas e entendidas mais ou menos por toda a gente. Contudo existe sempre aquele que (e devido talvez à sua educação), torce um pouco o nariz às regras ali estabelecidas. E não estou a falar dos anarquistas, que tendo tão presente essa sua forma de estar na vida, não entra p’rá ali aos gritos e todos nus, tendo como única indumentária uma boina preta. Não! Falo de pessoas que tiveram uma educação muito própria. Que provêm de culturas com valores fortemente alicerçados e naturalmente diversos dos nossos. E que por exemplo, as faz pensar que se um determinado espaço é para crianças, as crianças poderão ali fazer tudo aquilo que fazem nas suas habitações e parques infantis. Mas eu vou explicar-me melhor.
Temos como utentes regulares dos nossos espaços, alguns membros da comunidade cigana. E vêm à biblioteca pelos mais variados motivos, tal como uma outra pessoa qualquer. Só que para alguns deles, dizer-lhes que aquele espaço tem algumas regras básicas, é-lhes de alguma maneira… quase incompreensível. É certo que cada caso é um caso. E existe o perigo efectivo de se ser injusto com as generalizações. Mas…
Paulo é cigano. Tem vinte e muito poucos anos. É casado com Maria que ainda nem deve de ter chegado aos dezoito. Do enlace nasceram-lhes dois filhos, lindos. O rapazito tem três anos e meio. E a menina tem quase dois anos. E à Biblioteca eles vão quase sempre… os quatro. Ora qual é que é o local mais ao gosto de Paulo na Biblioteca? Pois é sentado junto ao computador onde ele acede gratuitamente à Internet. E qual é que é o local mais ao gosto de Maria dentro da Biblioteca Pública? Pois, é estar juntinho ao seu Paulo quando o mesmo acede à Internet. E os filhos de ambos perguntam-me vossas excelências? Onde é que eles ficam? Pois… ficar eles não ficam, já que o que eles gostam mais é de correrem biblioteca fora e de gritarem em simultâneo. São só crianças é verdade. Tais quais qualquer outra criança. E os seus pais? Pois entendem que se estão dentro de uma biblioteca, que detém um espaço para crianças, estas podem ser livres de fazerem ali, aquilo que bem entenderem.
Certo dia, e no meio de uma admoestação, a técnica de biblioteca falou com Maria. Falou-lhe da necessidade de vigiar os seus filhos, mantê-los dentro do espaço reservado às crianças e mantendo também ali algum silêncio. Ao que ela respondeu: “Nã entendi. “Mas porqueiii? Sé pás criaãããnças!”
E a técnica lá continuou: “Pois é para crianças, está certo. Mas quando as crianças são muito pequenas, elas deverão de estar acompanhadas pelos seus progenitores ou por outros seus responsáveis. E a Maria: “Mas porqueiii? Se o espaço é pa criaãããnças, devem de ser voceses a tomar conta delãããs! Alim disso as criançããããss podim ai fazer todo o barulho!”
“Pois, mas as coisas... não são assim”. Responde a técnica. E a conversa por ali fica. Na certeza porém, de que passados escassos minutos, já a Maria está ao pé de Paulo, e os filhos a correrem desvairados pela biblioteca fora. E o “baile” prossegue.
Um destes dias, e numa conversa de ocasião, inquirida pela técnica, a Maria informa que ainda produz leite para amamentar as suas duas crianças. E como se essa informação não bastasse, abre a blusa, mostra o pequeno seio, pressiona-o ligeiramente e um jacto de líquido branco amarelado, quase que atinge o olho daquela tão prestável funcionária documentalista.
E depois tudo continua um bocado igual. As visitas são diárias e as conversas tidas são quase sempre as mesmas. E foi a partir de certa altura, que aquele casal exigiu falar com a responsável do espaço, com o intuito de explicar as suas muito repetidas... fundamentações.
E a responsável? Pois só faz a sua obrigação. Recebe-os tal qual recebe, todas as outras pessoas, ouve-os atentamente e depois lá lhes explica (tal qual, como todos os seus colaboradores já o haviam feito) que a Biblioteca terá que garantir algum silêncio, (não o silêncio sepulcral exigido nas Bibliotecas de outrora, longe disso), mas terá que haver um esforço por parte de TODOS para que algum sossego seja ali garantido. E que promova um bom ambiente, para que qualquer um possa ler, estudar, ir à Internet... E utilizar phones, quando o que se pretende... é ouvir música. É evidente que as crianças poderão também brincar, mas dentro do espaço dedicado para esse efeito. Na sala a elas destinada. E mais uma vez repete: “Mas quando as crianças são muito pequenas, elas deverão estar acompanhadas pelos pais. É que a biblioteca não presta serviço de baby sitting”.
“Mas porqueiii issooo? Se vocês estão aquieee?” Responde a Maria. E depois é a vez de Paulo dizer: “É que ê sempre queria que vissi, o comportamêntooo deliis lá im casãã! É bein piori do quei aquieee? Eles dêtam-se no chãããooo e comecem a gritaaarrr! Quer qué lhes bata? Quer quê lhes amarre?”
“Credo! Claro que não, pela vossa saúde!” Responde a tal responsável, “mas os senhores têm que ver uma coisa. Na vossa casa, vocês terão as vossas regras. Aí são vocês que as impõe ou não. Mas aqui, nós temos um conjunto de procedimentos que deveremos cumprir para o bem de toda a dinâmica de uma Biblioteca Pública” E mais disse, aquela tão competente responsável. “Além de que, se eles fazem assim tanto barulho lá em vossa casa, não deverá de haver lá ninguém que queira ler, estudar, escrever ou descansar, pois não? É que se houvesse, seriam mesmo vocês que exigiriam deles… alguma moderação.”
“Poiis nãooo há! Somos só agentiiiiiiiiii. Mas eles sãããã só criançãããns!”
“Sim, são crianças como todas as outras”, reponde a técnica. “Mas o que é que vos custa a vocês, estarem aqui a vigiar de perto os vossos filhos? Pelo menos um de vocês, enquanto o outro estiver ocupado, por estar muito concentrado a consultar a Internet?”
E não é que aquela argumentação pareceu resultar? Foi o que pareceu indicar a observação atenta da fácies, do até aqui tão pouco convencido casal. A responsável pela biblioteca ficou ciente que eles a haviam compreendido finalmente. E que em visitas futuras… eles iriam agir em conformidade. Uff!
E despedem-se todos devidamente pouco tempo depois. Só que antes de saírem para a rua, o Paulo virou-se para os filhos e disse-lhes: “Olheinn beinn filhoooos! Da próxima veizzzz que aqui viereim, voceses têêêm é que gritar... mais baixoooo!”
E ficou tudo por dizer quanto… às correrias!
Sugestão de leitura para esta semana: “Um Capricho da Natureza” de Nadine Gordmier. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!
 
(*) Ditado Popular Cigano.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O carrapato.


Antes de começar este texto tenho que pedir a possibilidade de um momento para defender a minha honra: é que eu gosto de bichos, apoio-os e até os estimo. Mas não creio ter nenhum carrapato. Pelo menos é o que eu acho. Este texto é totalmente dedicado àqueles senhores, muito distintos, casados e com filhos, mas… carrapatos.
Eu explico melhor: esta espécie regra geral tem mais de cinquenta anos.
Tem ainda muito pouco tempo de evolução, mas de certeza absoluta que não surgiu como geração espontânea. Aparentemente esses tipos são seres absolutamente normais e acima de qualquer suspeita. Contudo acontece (e sabe-se lá bem porquê), que eles gostam de ter… uma vida dupla. Aparentemente eles conseguem controlar mais do que uma situação em simultâneo (o que parece que é algo muito improvável de ser conseguido pelos membros do sexo masculino, pelo menos é o que dizem), mas os mesmos seres (e vistos mais de perto) aparentam ser… muito esquizofrénicos. Mas tomem bem nota, é claro que eu não estou a generalizar. A grande maioria dos homens que eu conheço não é… carrapato. Mas conheço de perto alguns desses seres. Sim senhores…
Esses homens "carrapateiros", também à noite e no recato dos seus lares, procuram nas redes sociais… another’s ladies. E lá vão eles todos contentes… para a fantasia. Num outro lado da casa… estará a legitima. Às vezes estas, até têm rolos na cabeça e aventais colocados. Outras contudo são muito mais modernaças. Já que também têm os seus computadores e vão também elas procurar nas redes aquilo, que não encontram no lar. E os homens, Deus Meu… com os teclados nas unhas… e falando para o lado de lá, muito apaixonados eles dizem estar. Falam muito em “flores”, em “fofas” e em “queridas senhoras”. Outros carrapatos são bem mais práticos e decididos, já que prometem chegar a vias de facto, utilizando técnicas que serão só do seu conhecimento. E conseguem desafiar... a própria Lei da Gravidade. E dizem mesmo chegar dos zero aos cem… em somente 3 segundos. Estes carrapatos, apresentam-se sempre como seres muito másculos! E são também... muito desafiantes e compulsivos. Mas eu creio que quase posso apostar na repetição ad eternum da seguinte cena:
O homem dedilha no teclado, com os dedos (mas somente com os dedos indicadores) até à exaustão. Do outro lado, ele acredita piamente estar uma "matulona" que o fará muito feliz, só de imaginar as próximas cenas. Crê mesmo que a "matulona" será mesmo muito ingénua. Andará na vida, a dar os primeiros passo, é o que ele pensa. A “matulona”, como também não deverá ter muito mais que fazer, presta-se a dar alguma conversa ao cavalheiro. O mesmo que devido à emoção, e em simultâneo, sente uma comichão na nádega esquerda e põe-se de lado para se coçar. Depois usa a unhaca crescida do dedo mindinho para limpar “as paredes” do orifício auricular. Em seguida, ele limpa o "destroço" na calcinha. E lá continua com as promessas de uma vida de aventura e cheia de glória. Só que de repente e da cozinha, lá grita a sua Amélia:
“Oh home! Tu sai mazé do raio do computador! Vai mazé levar o lixo! E depois lava mazé esta loiça! E depois disso verifica mazé o grau de limpeza do c- do cão!”
Reposta pronta do home:
“Já vou, já vou, meu bem. Estava só aqui a ler o último Salmo da página do Padre Zézinho. É só um momento. Eu já te vou fazer todas as vontades. E mais, eu não vou ver só o c- ao cão. Mal chegue da rua, vou inspeccionar também o grau de limpeza... do c- dos gatos”. E lá vai continuando a teclar p’rá outra ,mas agora em modo de despedida…
“Amore do meu corasão. Agora tenho que ir. Vou para o ginaçio. Vou exercitarme para te faser felis mê dose de coco, minha fofa. Nem sabes o que te fasia se estiveçes aqui na minha beira!” E sai velozmente da sessão assumindo rapidamente a sua outra personalidade. Perspectivar-se que ele continuará a levar a vida nos mesmos moldes. Como se estivesse tudo na maior das calmas.
Se na rede social, ocorreu a troca de números de telefone, de certeza que os sms se vão sucedendo. Depois serão trocados, mais um ou outro email. A conversa versará sempre a mesma temática, o amor livre. Ninguém é de ninguém, etc. etc. Eles que até compartilham a vida com um outro alguém, a quem deveriam amar em condições. Estão para ali agrilhoados a uma situação que no fim até desejaram e continuam a desejar. Mas têm aquele escape. É que há que manter as aparências. A sua condição civil foi devidamente formalizada perante toda a sociedade. Estes são efectivamente os sinais dos tempos. Mas como eu já tenho alguma idade e até já vi um porco a andar de bicicleta…
Um dia destes, eu conheci pessoalmente um desses carrapatos. Já teria os seus quarenta e sete anos. Deu-se a conhecer à minha pessoa, convencido que estava, que eu nem tinha blogue, nem vontade de comunicar com todo aquele que me queira ler. Disse-me ter esposa e mais dois filhos. Tanto ele como a mulher têm os seus empregos, e os filhos que ainda são menores dedicam-se a tempo inteiro ao estudo. E mais me disse aquele enigmático senhor. Antigamente lá em casa eles viam televisão. Agora o televisor é objecto do passado, que quase nunca é ligado. E como é que ele se diverte? Pois fica para ali nas redes sociais até às desoras. E a sua mulher? Pois a mulher joga on line, num outro canto da casa. E os filhos? Bem esses jogam nos quartos, mas cada um deles em seu computador. E aqui eu pergunto: Que diferença efectiva existe entre cada uma daquelas pessoa e aquela pessoa que vive sozinha na sua habitação? Bem, pelo menos aqueles comem juntos à mesa. Mas será mesmo isso que acontece? Não levará cada um deles o fast food para o seu canto do lar?
Tenho conhecimento de pessoas que sem compromisso fixo, se compromissaram até à medula óssea com esses seres bem falantes, mas mal intencionados carrapatos. Sei que as mesmas sonham com uma realidade que eu duvido em absoluto que alguma vez seja efectiva. Pois quem “gala” uma para além daquela que já lá tem em casa, “gala” uma centena ou mesmo um milhar. O importante é ter lábia e algum tempo disponível. Conheço pois alguns desses casos. E torço para que nenhuma dessas minhas amigas, não sucumba um dia destes, com uma qualquer “febre da carraça”.
Sugestão de leitura para esta semana: “Psicopata Americano” de Bret Easton Ellis.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Mas não andem para aí a cilindrar pessoas. Para mim não há bem mais precioso que o divertimento. Mas há limites… não há?