Toda a gente tem o direito de frequentar a biblioteca pública! Toda a gente independentemente do seu credo, gosto politico, estado social, estado civil, capacidade económica, etnia ou preferência sexual. E acreditem, vem mesmo toda a gente à Biblioteca. É evidente que nenhum dos leitores, trás escrito na testa o conjunto de todas as suas características mas… acabamos por conhecer pessoas com muitas especificidades.
As regras a ter dentro da
Biblioteca são algumas, naturalmente. Mas são necessárias, pacíficas e
entendidas mais ou menos por toda a gente. Contudo existe sempre aquele que (e
devido talvez à sua educação), torce um pouco o nariz às regras ali
estabelecidas. E não estou a falar dos anarquistas, que tendo tão presente essa
sua forma de estar na vida, não entra p’rá ali aos gritos e todos nus, tendo
como única indumentária uma boina preta. Não! Falo de pessoas que tiveram uma
educação muito própria. Que provêm de culturas com valores fortemente alicerçados
e naturalmente diversos dos nossos. E que por exemplo, as faz pensar que se um
determinado espaço é para crianças, as crianças poderão ali fazer tudo aquilo
que fazem nas suas habitações e parques infantis. Mas eu vou explicar-me
melhor.
Temos como utentes regulares dos
nossos espaços, alguns membros da comunidade cigana. E vêm à biblioteca pelos
mais variados motivos, tal como uma outra pessoa qualquer. Só que para alguns
deles, dizer-lhes que aquele espaço tem algumas regras básicas, é-lhes de alguma
maneira… quase incompreensível. É certo que cada caso é um caso. E existe o
perigo efectivo de se ser injusto com as generalizações. Mas…
Paulo é cigano. Tem vinte e muito
poucos anos. É casado com Maria que ainda nem deve de ter chegado aos dezoito.
Do enlace nasceram-lhes dois filhos, lindos. O rapazito tem três anos e meio. E
a menina tem quase dois anos. E à Biblioteca eles vão quase sempre… os quatro. Ora
qual é que é o local mais ao gosto de Paulo na Biblioteca? Pois é sentado junto
ao computador onde ele acede gratuitamente à Internet. E qual é que é o local
mais ao gosto de Maria dentro da Biblioteca Pública? Pois, é estar juntinho ao
seu Paulo quando o mesmo acede à Internet. E os filhos de ambos perguntam-me
vossas excelências? Onde é que eles ficam? Pois… ficar eles não ficam, já que o
que eles gostam mais é de correrem biblioteca fora e de gritarem em simultâneo.
São só crianças é verdade. Tais quais qualquer outra criança. E os seus pais?
Pois entendem que se estão dentro de uma biblioteca, que detém um espaço para
crianças, estas podem ser livres de fazerem ali, aquilo que bem entenderem.
Certo dia, e no meio de uma
admoestação, a técnica de biblioteca falou com Maria. Falou-lhe da necessidade
de vigiar os seus filhos, mantê-los dentro do espaço reservado às crianças e
mantendo também ali algum silêncio. Ao que ela respondeu: “Nã entendi. “Mas
porqueiii? Sé pás criaãããnças!”
E a técnica lá continuou: “Pois é
para crianças, está certo. Mas quando as crianças são muito pequenas, elas
deverão de estar acompanhadas pelos seus progenitores ou por outros seus
responsáveis. E a Maria: “Mas porqueiii? Se o espaço é pa criaãããnças, devem de
ser voceses a tomar conta delãããs! Alim disso as criançããããss podim ai fazer todo o barulho!”
“Pois, mas as coisas... não são assim”. Responde
a técnica. E a conversa por ali fica. Na certeza porém, de que passados escassos
minutos, já a Maria está ao pé de Paulo, e os filhos a correrem desvairados
pela biblioteca fora. E o “baile” prossegue.
Um destes dias, e numa conversa
de ocasião, inquirida pela técnica, a Maria informa que ainda produz leite para
amamentar as suas duas crianças. E como se essa informação não bastasse, abre a
blusa, mostra o pequeno seio, pressiona-o ligeiramente e um jacto de líquido
branco amarelado, quase que atinge o olho daquela tão prestável funcionária
documentalista.
E depois tudo continua um bocado
igual. As visitas são diárias e as conversas tidas são quase sempre as mesmas. E foi a
partir de certa altura, que aquele casal exigiu falar com a responsável do
espaço, com o intuito de explicar as suas muito repetidas... fundamentações.
E a responsável? Pois só faz a
sua obrigação. Recebe-os tal qual recebe, todas as outras pessoas, ouve-os atentamente
e depois lá lhes explica (tal qual, como todos os seus colaboradores já o haviam feito) que a
Biblioteca terá que garantir algum silêncio, (não o silêncio sepulcral exigido
nas Bibliotecas de outrora, longe disso), mas terá que haver um esforço por
parte de TODOS para que algum sossego seja ali garantido. E que promova um bom
ambiente, para que qualquer um possa ler, estudar, ir à Internet... E utilizar phones,
quando o que se pretende... é ouvir música. É evidente que as crianças poderão também brincar,
mas dentro do espaço dedicado para esse efeito. Na sala a elas destinada. E mais
uma vez repete: “Mas quando as crianças são muito pequenas, elas deverão estar
acompanhadas pelos pais. É que a biblioteca não presta serviço de baby sitting”.
“Mas porqueiii issooo? Se vocês
estão aquieee?” Responde a Maria. E depois é a vez de Paulo dizer: “É que ê sempre
queria que vissi, o comportamêntooo deliis lá im casãã! É bein piori do quei
aquieee? Eles dêtam-se no chãããooo e comecem a gritaaarrr! Quer qué lhes bata?
Quer quê lhes amarre?”
“Credo! Claro que não, pela vossa
saúde!” Responde a tal responsável, “mas os senhores têm que ver uma coisa. Na
vossa casa, vocês terão as vossas regras. Aí são vocês que as impõe ou não. Mas
aqui, nós temos um conjunto de procedimentos que deveremos cumprir para o bem
de toda a dinâmica de uma Biblioteca Pública” E mais disse, aquela tão competente
responsável. “Além de que, se eles fazem assim tanto barulho lá em vossa casa,
não deverá de haver lá ninguém que queira ler, estudar, escrever ou descansar,
pois não? É que se houvesse, seriam mesmo vocês que exigiriam deles… alguma
moderação.”
“Poiis nãooo há! Somos só
agentiiiiiiiiii. Mas eles sãããã só criançãããns!”
“Sim, são crianças como todas as
outras”, reponde a técnica. “Mas o que é que vos custa a vocês, estarem aqui a
vigiar de perto os vossos filhos? Pelo menos um de vocês, enquanto o outro estiver
ocupado, por estar muito concentrado a consultar a Internet?”
E não é que aquela argumentação pareceu resultar?
Foi o que pareceu indicar a observação atenta da fácies, do até aqui tão pouco
convencido casal. A responsável pela biblioteca ficou ciente que eles a haviam
compreendido finalmente. E que em visitas futuras… eles iriam agir em conformidade. Uff!
E despedem-se todos devidamente
pouco tempo depois. Só que antes de saírem para a rua, o Paulo virou-se para os
filhos e disse-lhes: “Olheinn beinn filhoooos! Da próxima veizzzz que aqui
viereim, voceses têêêm é que gritar... mais baixoooo!”
E ficou tudo por dizer quanto… às correrias!
E ficou tudo por dizer quanto… às correrias!
Sugestão de leitura para esta
semana: “Um Capricho da Natureza” de Nadine Gordmier.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
(*) Ditado Popular Cigano.

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