Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Não se pode ir reto, quando a estrada é curva.(*)


Toda a gente tem o direito de frequentar a biblioteca pública! Toda a gente independentemente do seu credo, gosto politico, estado social, estado civil, capacidade económica, etnia ou preferência sexual. E acreditem, vem mesmo toda a gente à Biblioteca. É evidente que nenhum dos leitores, trás escrito na testa o conjunto de todas as suas características mas… acabamos por conhecer pessoas com muitas especificidades.
As regras a ter dentro da Biblioteca são algumas, naturalmente. Mas são necessárias, pacíficas e entendidas mais ou menos por toda a gente. Contudo existe sempre aquele que (e devido talvez à sua educação), torce um pouco o nariz às regras ali estabelecidas. E não estou a falar dos anarquistas, que tendo tão presente essa sua forma de estar na vida, não entra p’rá ali aos gritos e todos nus, tendo como única indumentária uma boina preta. Não! Falo de pessoas que tiveram uma educação muito própria. Que provêm de culturas com valores fortemente alicerçados e naturalmente diversos dos nossos. E que por exemplo, as faz pensar que se um determinado espaço é para crianças, as crianças poderão ali fazer tudo aquilo que fazem nas suas habitações e parques infantis. Mas eu vou explicar-me melhor.
Temos como utentes regulares dos nossos espaços, alguns membros da comunidade cigana. E vêm à biblioteca pelos mais variados motivos, tal como uma outra pessoa qualquer. Só que para alguns deles, dizer-lhes que aquele espaço tem algumas regras básicas, é-lhes de alguma maneira… quase incompreensível. É certo que cada caso é um caso. E existe o perigo efectivo de se ser injusto com as generalizações. Mas…
Paulo é cigano. Tem vinte e muito poucos anos. É casado com Maria que ainda nem deve de ter chegado aos dezoito. Do enlace nasceram-lhes dois filhos, lindos. O rapazito tem três anos e meio. E a menina tem quase dois anos. E à Biblioteca eles vão quase sempre… os quatro. Ora qual é que é o local mais ao gosto de Paulo na Biblioteca? Pois é sentado junto ao computador onde ele acede gratuitamente à Internet. E qual é que é o local mais ao gosto de Maria dentro da Biblioteca Pública? Pois, é estar juntinho ao seu Paulo quando o mesmo acede à Internet. E os filhos de ambos perguntam-me vossas excelências? Onde é que eles ficam? Pois… ficar eles não ficam, já que o que eles gostam mais é de correrem biblioteca fora e de gritarem em simultâneo. São só crianças é verdade. Tais quais qualquer outra criança. E os seus pais? Pois entendem que se estão dentro de uma biblioteca, que detém um espaço para crianças, estas podem ser livres de fazerem ali, aquilo que bem entenderem.
Certo dia, e no meio de uma admoestação, a técnica de biblioteca falou com Maria. Falou-lhe da necessidade de vigiar os seus filhos, mantê-los dentro do espaço reservado às crianças e mantendo também ali algum silêncio. Ao que ela respondeu: “Nã entendi. “Mas porqueiii? Sé pás criaãããnças!”
E a técnica lá continuou: “Pois é para crianças, está certo. Mas quando as crianças são muito pequenas, elas deverão de estar acompanhadas pelos seus progenitores ou por outros seus responsáveis. E a Maria: “Mas porqueiii? Se o espaço é pa criaãããnças, devem de ser voceses a tomar conta delãããs! Alim disso as criançããããss podim ai fazer todo o barulho!”
“Pois, mas as coisas... não são assim”. Responde a técnica. E a conversa por ali fica. Na certeza porém, de que passados escassos minutos, já a Maria está ao pé de Paulo, e os filhos a correrem desvairados pela biblioteca fora. E o “baile” prossegue.
Um destes dias, e numa conversa de ocasião, inquirida pela técnica, a Maria informa que ainda produz leite para amamentar as suas duas crianças. E como se essa informação não bastasse, abre a blusa, mostra o pequeno seio, pressiona-o ligeiramente e um jacto de líquido branco amarelado, quase que atinge o olho daquela tão prestável funcionária documentalista.
E depois tudo continua um bocado igual. As visitas são diárias e as conversas tidas são quase sempre as mesmas. E foi a partir de certa altura, que aquele casal exigiu falar com a responsável do espaço, com o intuito de explicar as suas muito repetidas... fundamentações.
E a responsável? Pois só faz a sua obrigação. Recebe-os tal qual recebe, todas as outras pessoas, ouve-os atentamente e depois lá lhes explica (tal qual, como todos os seus colaboradores já o haviam feito) que a Biblioteca terá que garantir algum silêncio, (não o silêncio sepulcral exigido nas Bibliotecas de outrora, longe disso), mas terá que haver um esforço por parte de TODOS para que algum sossego seja ali garantido. E que promova um bom ambiente, para que qualquer um possa ler, estudar, ir à Internet... E utilizar phones, quando o que se pretende... é ouvir música. É evidente que as crianças poderão também brincar, mas dentro do espaço dedicado para esse efeito. Na sala a elas destinada. E mais uma vez repete: “Mas quando as crianças são muito pequenas, elas deverão estar acompanhadas pelos pais. É que a biblioteca não presta serviço de baby sitting”.
“Mas porqueiii issooo? Se vocês estão aquieee?” Responde a Maria. E depois é a vez de Paulo dizer: “É que ê sempre queria que vissi, o comportamêntooo deliis lá im casãã! É bein piori do quei aquieee? Eles dêtam-se no chãããooo e comecem a gritaaarrr! Quer qué lhes bata? Quer quê lhes amarre?”
“Credo! Claro que não, pela vossa saúde!” Responde a tal responsável, “mas os senhores têm que ver uma coisa. Na vossa casa, vocês terão as vossas regras. Aí são vocês que as impõe ou não. Mas aqui, nós temos um conjunto de procedimentos que deveremos cumprir para o bem de toda a dinâmica de uma Biblioteca Pública” E mais disse, aquela tão competente responsável. “Além de que, se eles fazem assim tanto barulho lá em vossa casa, não deverá de haver lá ninguém que queira ler, estudar, escrever ou descansar, pois não? É que se houvesse, seriam mesmo vocês que exigiriam deles… alguma moderação.”
“Poiis nãooo há! Somos só agentiiiiiiiiii. Mas eles sãããã só criançãããns!”
“Sim, são crianças como todas as outras”, reponde a técnica. “Mas o que é que vos custa a vocês, estarem aqui a vigiar de perto os vossos filhos? Pelo menos um de vocês, enquanto o outro estiver ocupado, por estar muito concentrado a consultar a Internet?”
E não é que aquela argumentação pareceu resultar? Foi o que pareceu indicar a observação atenta da fácies, do até aqui tão pouco convencido casal. A responsável pela biblioteca ficou ciente que eles a haviam compreendido finalmente. E que em visitas futuras… eles iriam agir em conformidade. Uff!
E despedem-se todos devidamente pouco tempo depois. Só que antes de saírem para a rua, o Paulo virou-se para os filhos e disse-lhes: “Olheinn beinn filhoooos! Da próxima veizzzz que aqui viereim, voceses têêêm é que gritar... mais baixoooo!”
E ficou tudo por dizer quanto… às correrias!
Sugestão de leitura para esta semana: “Um Capricho da Natureza” de Nadine Gordmier. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!
 
(*) Ditado Popular Cigano.

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