Maria Gracinda veio da “província”,
quando deu conta que as suas espectactivas não lhe cabiam… na sua aldeia. Veio
para uma cidade situada muito junto à capital. Como sorte e destino coube-lhe a
tarefa de vir servir. Mas servir o quê? Servir a quem? Os tempos eram outros.
Servia-se quem tinha mais imóveis e recursos humanos. E menos quem amealhava o “vil
metal”. Coube-lhe em sorte vir servir uma família proprietária de terras, mas
não de uma educação particularmente esmerada. É que a educação à altura (e contra
tudo aquilo que é difundido actualmente), não era assim tão efectiva. A família
tinha de seu, viviam à larga, sem privações. A única filha casara e tivera seis
filhos num imediato. E não! A moça não se sujeitara a nenhuma concepção
artificial que faz com que a descendência prolifere somente em um acto. Não! O
que a moça fez foi o que faz toda a gente quando é recém-casada. E é nova e não
têm problemas físicos. E não tem à mão muitos anticoncepcionais, que eram à
altura… figuras de estilo, além de muito pouco eficazes.
E os filhos “apresentaram-se”
assim anualmente. E com eles, as fraldas e outros cuidados foram-se
multiplicando. Para piorar tudo o resto, a moça proprietária e algo
aristocrática, distraia-se com outras funções deixando ao cargo de Maria
Gracinda o pesado dos trabalhos. E o trabalho foi tal, que a Maria Gracinda não
aguentou, despedindo-se pouco tempo depois do sexto rebento ter completado seis
meses.
Seguir-se-ia a casa de Agostinha
e Leopoldino. Estes já haviam casado há muitos anos. Tinham também uma nobre
descendência composta por meia dúzia: o primeiro Leopoldino, a Primeira
Leopoldina. O segundo Agostinho, a segunda Agostinha. Os restantes… pois
coube-lhes graças muito mais vulgares retiradas dos nomes de alguns dos
participantes das Melodias de Sempre. E para que conste, o desconhecimento dos nomes
não vai implicar qualquer dificuldade na percepção deste texto.
Maria Gracinda pôs assim mãos à
obra. A família a servir era pois… igualmente numerosa. Só que detinha outro tipo
de educação. A dona Agostinha, senhora de cepa e de predicados, aprendera muito
quando rapariga. Sabia que os filhos são as ligações efectivas ao futuro e são-no
por definição… para todo o sempre. Não bastava assim colocá-los no mundo e
depois pô-los ao cuidado de outro alguém. Alguém que seria tendencialmente bem menos
privilegiado social e economicamente. D. Agostinha tinha assim os seus
empregados. Tinha a Maria Gracinda. Mas esta ajudá-la-ia na educação dos filhos.
Só que não ficaria com toda a responsabilidade a cargo.
E os tempos iam-se passando. Para
o léxico comum, vieram palavras como o gelado Super-Max, o Yé-Yé, Os Beatles e as
Radionovelas. Maria Gracinda considerava-se uma empregada, mas também e de
alguma forma, também um membro da família. Pertenceria era naturalmente a um ramo muito
mais debilitado e pouco firme, mas que era tido em conta, no natural desenrolar
da vida daquela família. E os anos foram-se passando.
Mas certo dia o pequeno Leopoldino,
chegou esbaforido a casa. Quase sem folego, ele pediu à Gracinda que lhe fizesse um
arroz doce. Ele não só pretendia lanchar, como convidara o seu grupo extenso de
amigos para tal festividade. É evidente que Maria Gracinda lhe fez logo a vontade. E
rapidamente, ela foi para a cozinha, onde abriu um a um... os ovos, pesou o açúcar, mediu
a quantidade de leite necessária, cortou o limão, pôs tudo aquilo a cozer. E no
fim… deixaria a guloseima a apurar.
Na grande sala de refeições da
família, já estava todo um grupo de mais de dez rufias. Aguardavam especialmente
encantados o festim que seria, lamberem-se literalmente com o doce de Gracinda. Entretanto
havia sido servido, por uma outra empregada, um manjar abundante composto por sumo
de frutas e pão com manteiga. Nada fora de nota até à altura.
Só que Leopoldino queria mais, queria
muito mais. Queria divertir-se e divertir e impressionar os mariolas que ali
estavam com ele. E sem que nada o fizesse esperar, convidou os maganos a irem com
ele… à cozinha. Deram de caras com a Maria Gracinda muito ocupada, com a
tarefa gulosa. Mas era necessário mais. Era necessário mais espectáculo. E num
repente, Leopoldino, pegou em dois ovos, fez pontaria e acertou em cheio, bem na testa da
Maria Gracinda. Ao que parece na altura, os benefícios do ovo, para o couro
cabeludo ainda não estavam amplamente difundidos.
Mas Maria Gracinda ficou
revoltada. Não o expressou abertamente mas ficou. E com a mão trémula, ela retirou
da sua cabeça, os destroços de uma casca de ovo e de uma gema bem amarela.
Depois pegou em si e saiu porta fora. Sim, ser empregada é servir, mas não deve
ser nunca… gozada nem desrespeitada. Na cabeça de Gracinda, cozinhara-se a
hipótese de ela nunca mais ali entrar. Iria depois para casa ter com o marido e
com o filho. Não teria trabalho durante um tempo é certo. Mas não seria difícil
encontrar um novo poiso. A sociedade local conhecia-lhe os predicados. Sabia da
sua extremosa funcionalidade enquanto cozinheira e costureira. Conhecia-lhe o seu
forte sentido de responsabilidade. Admirava-lhe a sua inquestionável integridade.
Seria somente… por uma questão de tempo. E levou da casa senhorial alguns dos
seus parcos tarecos.
E as horas passaram. E a D. Agostinha
estranhou a ausência de Gracinda. Nunca a empregada havia estado tanto tempo sem
dar notícias. E ainda… para piorar todo o cenário, nem sequer havia avisado. Teria então
que ser ela a descobrir. Mas por mais que tentasse e inquirisse, ninguém lhe deu... uma
resposta capaz.
Somente Ana, a pequena copeira, lhe
falou por alto, de um desacato surgido à conta de um arroz-doce. E muito a
medo… o nome do pequeno Leopoldino foi ali mencionado. Já era qualquer coisa. E sem
perder tempo, D. Agostinha chamou o filho e apercebeu-se da real dimensão do
problema. E devidamente informada, ela forçou o filho a ir a casa de Gracinda. E mais lhe disse.
Que só o receberia novamente em casa, se ele trouxesse com ele, a agora ex-empregada.
Leopoldino nem podia acreditar naquilo que lhe estava a acontecer. É que nada
fizera prever que aquela sua brincadeira “tão inocente”, pudesse dar origem a
tal funesta situação. Que até poderia provocar a sua expulsão daquele seu
núcleo e até aqui muito privilegiado seio familiar. E agastadamente ele lá se
dirigiu à casa da ofendida empregada.
Receando a sorte, e depois de
muito tentar, usando como recurso toda uma argumentação sentida, ele lá
conseguiu que a Gracinda o acompanhasse. Que já estava com o cabelo totalmente limpo e
muitíssimo mais sedoso. E é já na casa paterna, que o rapaz foi forçado pela matriarca
a colocar-se de joelhos à frente da Gracinda e a suplicar-lhe encarecidamente…
o seu perdão. É que brincar é muito bom. Divertir-se é sempre um óptimo recurso
a ter na vida. Que dizem ser até muito benéfico para a saúde. Mas nada justifica que para
esse efeito se tenha que achincalhar outro alguém. Seja esse alguém, a empregada
doméstica ou o Governador do Banco de Portugal.
Sugestão de leitura para esta
semana: "A Ponte dos Suspiros" de Fernando Campos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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