Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 19 de janeiro de 2013

Oh minha mãe dos trabalhos, para quem trabalho eu!



Maria Gracinda veio da “província”, quando deu conta que as suas espectactivas não lhe cabiam… na sua aldeia. Veio para uma cidade situada muito junto à capital. Como sorte e destino coube-lhe a tarefa de vir servir. Mas servir o quê? Servir a quem? Os tempos eram outros. Servia-se quem tinha mais imóveis e recursos humanos. E menos quem amealhava o “vil metal”. Coube-lhe em sorte vir servir uma família proprietária de terras, mas não de uma educação particularmente esmerada. É que a educação à altura (e contra tudo aquilo que é difundido actualmente), não era assim tão efectiva. A família tinha de seu, viviam à larga, sem privações. A única filha casara e tivera seis filhos num imediato. E não! A moça não se sujeitara a nenhuma concepção artificial que faz com que a descendência prolifere somente em um acto. Não! O que a moça fez foi o que faz toda a gente quando é recém-casada. E é nova e não têm problemas físicos. E não tem à mão muitos anticoncepcionais, que eram à altura… figuras de estilo, além de muito pouco eficazes.
E os filhos “apresentaram-se” assim anualmente. E com eles, as fraldas e outros cuidados foram-se multiplicando. Para piorar tudo o resto, a moça proprietária e algo aristocrática, distraia-se com outras funções deixando ao cargo de Maria Gracinda o pesado dos trabalhos. E o trabalho foi tal, que a Maria Gracinda não aguentou, despedindo-se pouco tempo depois do sexto rebento ter completado seis meses.
Seguir-se-ia a casa de Agostinha e Leopoldino. Estes já haviam casado há muitos anos. Tinham também uma nobre descendência composta por meia dúzia: o primeiro Leopoldino, a Primeira Leopoldina. O segundo Agostinho, a segunda Agostinha. Os restantes… pois coube-lhes graças muito mais vulgares retiradas dos nomes de alguns dos participantes das Melodias de Sempre. E para que conste, o desconhecimento dos nomes não vai implicar qualquer dificuldade na percepção deste texto.
Maria Gracinda pôs assim mãos à obra. A família a servir era pois… igualmente numerosa. Só que detinha outro tipo de educação. A dona Agostinha, senhora de cepa e de predicados, aprendera muito quando rapariga. Sabia que os filhos são as ligações efectivas ao futuro e são-no por definição… para todo o sempre. Não bastava assim colocá-los no mundo e depois pô-los ao cuidado de outro alguém. Alguém que seria tendencialmente bem menos privilegiado social e economicamente. D. Agostinha tinha assim os seus empregados. Tinha a Maria Gracinda. Mas esta ajudá-la-ia na educação dos filhos. Só que não ficaria com toda a responsabilidade a cargo.
E os tempos iam-se passando. Para o léxico comum, vieram palavras como o gelado Super-Max, o Yé-Yé, Os Beatles e as Radionovelas. Maria Gracinda considerava-se uma empregada, mas também e de alguma forma, também um membro da família. Pertenceria era naturalmente a um ramo muito mais debilitado e pouco firme, mas que era tido em conta, no natural desenrolar da vida daquela família. E os anos foram-se passando.
Mas certo dia o pequeno Leopoldino, chegou esbaforido a casa. Quase sem folego, ele pediu à Gracinda que lhe fizesse um arroz doce. Ele não só pretendia lanchar, como convidara o seu grupo extenso de amigos para tal festividade. É evidente que Maria Gracinda lhe fez logo a vontade. E rapidamente, ela foi para a cozinha, onde abriu um a um... os ovos, pesou o açúcar, mediu a quantidade de leite necessária, cortou o limão, pôs tudo aquilo a cozer. E no fim… deixaria a guloseima a apurar.
Na grande sala de refeições da família, já estava todo um grupo de mais de dez rufias. Aguardavam especialmente encantados o festim que seria, lamberem-se literalmente com o doce de Gracinda. Entretanto havia sido servido, por uma outra empregada, um manjar abundante composto por sumo de frutas e pão com manteiga. Nada fora de nota até à altura.
Só que Leopoldino queria mais, queria muito mais. Queria divertir-se e divertir e impressionar os mariolas que ali estavam com ele. E sem que nada o fizesse esperar, convidou os maganos a irem com ele… à cozinha. Deram de caras com a Maria Gracinda muito ocupada, com a tarefa gulosa. Mas era necessário mais. Era necessário mais espectáculo. E num repente, Leopoldino, pegou em dois ovos, fez pontaria e acertou em cheio, bem na testa da Maria Gracinda. Ao que parece na altura, os benefícios do ovo, para o couro cabeludo ainda não estavam amplamente difundidos.
Mas Maria Gracinda ficou revoltada. Não o expressou abertamente mas ficou. E com a mão trémula, ela retirou da sua cabeça, os destroços de uma casca de ovo e de uma gema bem amarela. Depois pegou em si e saiu porta fora. Sim, ser empregada é servir, mas não deve ser nunca… gozada nem desrespeitada. Na cabeça de Gracinda, cozinhara-se a hipótese de ela nunca mais ali entrar. Iria depois para casa ter com o marido e com o filho. Não teria trabalho durante um tempo é certo. Mas não seria difícil encontrar um novo poiso. A sociedade local conhecia-lhe os predicados. Sabia da sua extremosa funcionalidade enquanto cozinheira e costureira. Conhecia-lhe o seu forte sentido de responsabilidade. Admirava-lhe a sua inquestionável integridade. Seria somente… por uma questão de tempo. E levou da casa senhorial alguns dos seus parcos tarecos.
E as horas passaram. E a D. Agostinha estranhou a ausência de Gracinda. Nunca a empregada havia estado tanto tempo sem dar notícias. E ainda… para piorar todo o cenário, nem sequer havia avisado. Teria então que ser ela a descobrir. Mas por mais que tentasse e inquirisse, ninguém lhe deu... uma resposta capaz.
Somente Ana, a pequena copeira, lhe falou por alto, de um desacato surgido à conta de um arroz-doce. E muito a medo… o nome do pequeno Leopoldino foi ali mencionado. Já era qualquer coisa. E sem perder tempo, D. Agostinha chamou o filho e apercebeu-se da real dimensão do problema. E devidamente informada, ela forçou o filho a ir a casa de Gracinda. E mais lhe disse. Que só o receberia novamente em casa, se ele trouxesse com ele, a agora ex-empregada. Leopoldino nem podia acreditar naquilo que lhe estava a acontecer. É que nada fizera prever que aquela sua brincadeira “tão inocente”, pudesse dar origem a tal funesta situação. Que até poderia provocar a sua expulsão daquele seu núcleo e até aqui muito privilegiado seio familiar. E agastadamente ele lá se dirigiu à casa da ofendida empregada.
Receando a sorte, e depois de muito tentar, usando como recurso toda uma argumentação sentida, ele lá conseguiu que a Gracinda o acompanhasse. Que já estava com o cabelo totalmente limpo e muitíssimo mais sedoso. E é já na casa paterna, que o rapaz foi forçado pela matriarca a colocar-se de joelhos à frente da Gracinda e a suplicar-lhe encarecidamente… o seu perdão. É que brincar é muito bom. Divertir-se é sempre um óptimo recurso a ter na vida. Que dizem ser até muito benéfico para a saúde. Mas nada justifica que para esse efeito se tenha que achincalhar outro alguém. Seja esse alguém, a empregada doméstica ou o Governador do Banco de Portugal. 
Sugestão de leitura para esta semana: "A Ponte dos Suspiros" de Fernando Campos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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