Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Mas que rica vida!




Era com alguma inveja, e também com algum assombro, que eu via perfilados no cais de Lisboa, aquela meia dúzia de paquetes gigantes, que pareciam oferecer uma existência para cima de estimulante a todos aqueles que neles viajavam. Era também com alguma curiosidade que eu via os tais passageiros na capital lusitana, a misturarem-se galhofeiramente com os locais. Ou então, a maravilharem-se continuamente com as pequenas lojecas de bairro, e a confraternizarem sem prosápias com os alfarrabistas. E a mim eles perguntaram, quando eventualmente me encontraram, sobre a localização exacta da bela Estação do Rossio.
Longe também já estão os meus tempos de menina e moça, em que me entretinha, nas longas e benfazejas tardes de estio, a assistir à série “O Barco do Amor”. E sabia de cor o nome da sua tripulação principal. Conhecia-lhes os gostos e demais tiques. E torcia para que todos os romances que por ali nascessem dessem certo. Regra geral, eram protagonizados por velhotes/as mais ou menos excêntricos/as e solitários/as. Ou então por gente um pouco mais nova mas com vivências geralmente a tocar fortemente na tónica da infelicidade.
Eis senão quando, se me apresentou também a mim, a possibilidade de também eu fazer um Cruzeiro. E seria justamente para terras algo longínquas e muito prometedoras. Não que eu me apresentasse propriamente numa das duas situações acima referenciadas. Acontece que eu achei que o programa apresentado valeria muito a pena. E não me decepcionei.
As ilhas visitadas revelar-se-iam muito belas, dotadas de atractivos muito próprios. E em Porto Rico, cantarolei até à exaustão a outrora famosa cançoneta do grupo belga. Sim desses mesmos que nos desejavam sempre ir na companhia de Deus Nosso Senhor. E que bonita ilha eu ali vi. E isto sem tomar qualquer rum.
Depois, jamais esquecerei Saint Croix, outra bela ilha. Com a sua guia que deve de ter saído de um regime militarista e muito aprofundado. Pois toda ela era gestos e vontades. E ai daquele que não a contentasse com uma obediência cega às suas ordens. A todos ela chamava, gritava e gesticulava. Permanentemente. Lembro divertida, a visita que ela nos fez a um Forte. Que servira igualmente de Presidio. E naqueles tempos, comunicara-nos ela, sujeito que para ali fosse, na sua grande maioria escravo, era alvo a abater. Sem qualquer apelo. E então que bem nos soube entrar para um local tão exíguo, onde em épocas transactas, também couberam mais de cinquenta cidadãos, desprovido de água? E o calor que ali se fazia, Santo Deus! Nós ali eramos bem menos (de cada vez, é claro) e sentimos ali e na pele toda a agrura do local. Aposto que ninguém, mas ninguém mesmo, quisesse um dia lá ficar.
Depois levou-nos quase por arrasto à Casa do Governador. E de nada valeram os protestos vagos e dolentes de um guarda que ali estava de serviço. Tratava-se de um dia de Domingo, pelo que aquele espaço não deveria ser aberto a qualquer visitante. E no entanto… passado algum minutos lá estávamos nós a gozar de uma temperatura condicionada de 17, 18 graus, bem diferentes da temperatura elevada que no exterior se fazia. Mas, e do governador? Pois nem um rasto. Mas também ninguém lhe sentiu assim muito a falta.
Saint Martin, lado francês e Saint Marteen lado holandês, constituiu também uma agradável surpresa. A divisória daqueles dois estados, era pontuada por umas simples demarcações, que cada um passa livremente e quando bem lhe aprouver. E que simpático foi ver as diferenças existentes entre aqueles dois lugares de diferentes inspirações? Eu gostei mais da parte francesa, mas isto são gostos… e os gostos não se discutem.
Antígua seguir-se-ia, e serviria de palco à minha estreia em passeio de helicóptero. E naquele passeio opcional, foram somente nove temerosas senhoras. A mim coube-me viajar na companhia de duas, já conhecidas de outras aventuras. Que ao se aperceberem do marco histórico que consistia para mim aquela iniciática viagem, me puseram à vontade. Não que eu tivesse a revelar especial pavor. Acredito mesmo que pouca será a coisa que me atemorize assim muito, contudo a atitude das senhoras foi muito cooperante e simpática. E fica aqui também registado o meu singelo agradecimento.
E de lá de cima, vimos um vulcão calmo, apesar de resfolgar cá para fora, algum fumo e um cheiro profundo a enxofre. E no sopé do vulcão, permanecem espectros daquilo que um dia foram casas habitadas. Totalmente desprovidas de telhados e de vida. A visão não é necessariamente tranquilizadora, muito antes pelo contrário. E vai-nos relembrando que apesar de humanos, e por vezes detentores de imensos egos, pouco ou nada podemos fazer perante a força e as vontades da nossa Mãe Natureza.
E como eu andei de passeio pelas alturas, não tive oportunidade de fazer a visita ao local em solo que o resto da comitiva beneficiou. E alguns dos que não voaram, falaram-me de uma personagem cubana que ali conheceram, que lhes explicou muitas coisas e que acabaria por compor imensamente o ramalhete. Mas como eu não a conheci não poderei dela falar.
Só sei que à tarde deu-se em mim uma verdadeira epifania. Sim senhores, eu vi a Luz! E nem sequer tive que ir ao Antigo Cinema Império. Diga-se em abono da verdade, que eu era a pessoa que mais detestava a praia. Perguntava-me a todo o momento, mas “porque- raio” é que as pessoas sazonalmente se deslocalizavam para o litoral a fim de se banharem nas águas salgadas, frias e tão intranquilas? Mas o que é que elas para ali iam fazer? Levar com a força bruta das ondas no corpo? E depois apanharem toneladas de areia, que tem a desdita de se enfiar um pouco por todo o lado. Nas poucas alturas em que assim me vi, assumi na totalidade a personalidade… de um croquete. E depois, eu acreditava mesmo, que já em alturas do Natal, a pessoa banhista ainda poderia construir um castelo de areia lá na sua sala.
E depois de banhos tormentosos, a pessoa estava para ali ao sol, e a “empastelar”. E a adquirir aquele tonzinho tão peculiar do vermelho da lagosta. Quando o dia acabava, o cidadão podia chegar a casa, quase, quase incandescente. E podia substituir desta maneira, e com muita facilmente, um portentoso candeeiro. E passados alguns anos nestas práticas, queixavam-se de sinais que apareciam, e rugas impossíveis de disfarçar. Provinham-se depois, bidões inteiros de botox.
Ora pelo exposto, é bom de ver que para mim a praia que me havia sido dada a conhecer, praticamente só tinha defeitos. Pois era! Contudo… Senhores! As Caraíbas são “outra loiça”. Definitivamente. Areia existe de facto. Ela é em magotes e bem fininha. Mas ali, e desculpem-me qualquer coisinha, só os tontinhos é que devem de gostar de para ali estar em cima da mesma. É que a água é óptima! Quente como se quer. Sem ondas. Que maravilha! O grau de salinidade é bastante elevado, o que se configura numa imensa mais-valia, para quem como eu tem um medo indisfarçado do mar. Dizem-me que poderão ainda ser, restícios de uma hora de nascimento de aflição. Pois se calhar...
Pois ali amiguinhos, eu flutuava, eu pairava e ouvia o mar. E diga-se em abono da verdade, que no meu caso o mar até foi bastante generoso. E os cardumes de peixinhos que nos passavam logo ali bem rentinho às nossas pernas? Tão encantadores! Tão ordeiros e sobretudo… tão discretos! Tenho a dizer que tal passeio teve a virtude de me transformar, no que às praias diz respeito. Na água eu andei, flutuei e fiquei com os meus dedinhos, todos encarquilhados. E esse passeio fez de mim a mais fiel adoradora das águas quentes e serenas das Caraíbas.
A partir daquele momento inicial, eu não faltei nunca à chamada para uns táxis locais. Que quase em aflição nos prometiam levar para as praias que eram “as melhores de todas”. E como nós pressionávamos os condutores? Primeiro, na tentativa, por vezes inglória, de regatear os melhores preços. E às vezes ainda conseguimos levar “a água ao nosso moinho”. Depois porque o taxista tinha mesmo… era que andar. E que não se perdesse em vãs conjecturas. É que a praia estava lá e à nossa espera. Ele assim o havia prometido. É que depois o barco partiria às seis. Tendo nós todos a obrigação de entrar no mesmo até às cinco e meia. Pelo exposto não havia mesmo tempo a perder. Refiro ainda, e a propósito, que muitas foram as gargalhadas que por ali se deram.
Santa Lúcia, Ilha bonita. Barbados a mais bonita de todas, para mim. Adorei igualmente as suas praias. E tenho a dizer que os nove dias de “excursão” se passaram efectivamente num ápice.
Ressalvo duas situações que considero singulares e particularmente tocantes: O jantar seria quase sempre realizado, no restaurante à la carte. Estava-se ali num maior convívio, e da forma mais descontraída. E era ali que pacificamente se esperavam as iguarias prometidas. Desde o início, nós ocupávamos os mesmos lugares à mesa. Ora na mesa que me coube em sorte, servia-nos um moço com os seus trinta anos (não mais), com um sorriso permanente na cara. Quem também por lá circulava muito, era um homem já cinquentão, de ascendência lusitana. Seus pais haviam emigrado em tempos para a Africa do Sul. E o mesmo fazia questão de nos vir cumprimentar amiúde, apercebendo-se também dos nossos gostos e demais opiniões. E como aquele senhor era também ele… tão opinioso! Quase no fim da semana, o tal moço de trinta anos e sorridente, faz-nos olhar finalmente para a sua placa de identificação. E Luís Fernandes era o que lá constava. Eu fiquei na dúvida se ele era de Goa, de Damão ou de Diu. O que eu sei é que o mesmo, aposto que sem saber uma única palavra do lusitano dialogar, ostentava com orgulho, aquela sua característica. Aquele seu legado. Necessariamente devido a uma qualquer ligação a um passado comum, que seguiria depois para outras localizações geográficas. E a par daquela natural constatação o mesmo sorria. Não parava de sorrir.
E ficaria ainda para a história o encontro daquelas duas primas direitas. Também elas de origens comuns. Contudo a vida havia-as separado. Os trilhos nem sempre confluem e as realidades tornam-se distanciadas entre si. E seria já na chamada existência de ouro, que aquelas duas se encontrariam, lá num Cruzeiro às Caraíbas. Tenho a dizer, que assim à primeira vista, tal situação é muito chique. Ora, não ver um familiar, para cima de um “ror” de anos e encontrá-la num Cruzeiro? Não foi numa Estação de Metro. Nem num Hipermercado ou Estação de Serviço. Foi nas Caraíbas… E em Cruzeiro.
Num segundo momento, poder-se-á pensar que a vida tem mesmo destas coisas. Reserva-nos sempre muitas surpresas. E é absolutamente imprevisível. E quando nós menos esperamos poderá mesmo colocar-nos novamente perante familiares desaparecidos, amigos perdidos, desavindos amores… Acho que é esta circunstância de se saber de que nada se controla, que ajuda a conferir à vida uma paleta fabulosa de cores, que a tornam irresistível e objectivamente tão preciosa.
Resta-me dizer que para mim, viajar é muito mais que contar milhas. É muito mais que tirar fotografias. Viajar é conhecer mas também é confraternizar, é sentir, é interagir, é comunicar distintas opiniões, é aperceber-se de distintas vivências. Mesmo com aquele que revelando um conhecimento muito vasto e muito solido, insiste em falar sobre a inutilidade das Bibliotecas Públicas. E que depois, prazerosamente, se pôs a comparar-me com a Ana Bacalhau dos Deolinda. E para quando o meu grupo musical, perguntava-me ele? E seria mais de que género? Ah senhor! Soubesse eu cantar como ela! Tivesse eu a sua postura e dinamismo em palco! É certo e sabido que viriam mais uns cobres para a minha conta bancária. E eu poderia viajar um pouco mais. Caríssimo H. foi um gosto conhecê-lo. E também foi muito tocante para mim aperceber-me que ao contrário daquilo que dizia, a sua ligação às Bibliotecas que são de todos nós, é muito forte e antiga. E não podia ser de outra maneira, avaliando o seu extenso saber, assim como pelo seu refinadíssimo sentido de humor. Do mais refinado que eu tenho conhecido. Ah… e viva o Sporting! Sempre! Definitivamente!
Sugestão de leitura para esta semana: “A Ilha dos Demónios (Margarida la Rocque)” de Dinah Silveira de Queiróz.
DIVIRTAMSEMAZÉ!